quarta-feira, dezembro 30, 2015

Breve retrospectiva 2015 através de charges

2015 foi um ano intenso sob vários aspectos. Crise política, desastre ambiental, operação "Lava Jato", manifestações, greves de professores... . 

Alguns destes acontecimentos foram retratados por diversos artistas através de charges e cartoons. Como eu rabisco alguma coisa de vez em quando, resolvi publicar uma breve (e incompleta) retrospectiva deste ano através dos meus desenhos. É bom lembrar que a charge, conforme a definição encontrada na Wikipedia, é "uma crítica político-social onde o artista expressa graficamente sua visão sobre determinadas situações cotidianas através do humor e da sátira".  

Uma das expressões que mais ouvimos ao longo deste ano foi "corte" por parte do governo federal. Pena que não foram cortes de cabelo:


A sonda espacial New Horizons chegou até Plutão, em uma viagem que durou 7 longos anos.  Não há evidências de vida no planeta, mas fico imaginando o que os plutonianos pensariam (se eles existissem) sobre o comportamento dos seres humanos. 


Eles certamente teriam sábios conselhos para a humanidade: 



E por falar em aconselhamento, a escritora Ruth Rocha não é fã do Harry Potter e não seria problema nenhum se ela parasse por aí mesmo




A operação lava jato colocou políticos e empresários em maus lençóis - um esquema de corrupção de fazer inveja a "bandidos profissionais". 


Por falar nisso, um nome começa a se destacar neste cenário: Eduardo Cunha. E um belo dia o japonês da Polícia Federal chegou até ele



Falando em dinheiro - ou a falta dele - tivemos mais uma edição da Black Fraude, digo, Black Friday no Brasil. 

Com tantas notícias sobre corrupção, crise econômica e coisa e tal, uma coisa permanece igual: a péssima remuneração dos professores. Mais um ano em que a Lei do Piso do Magistério continua sendo descumprida por diversos estados e municípios. 



Duas tragédias aconteceram no segundo semestre: os atentados em Paris  e o desastre em Mariana, MG. E nas redes sociais, principalmente no Facebook, a insana "disputa" pelo "monopólio do sofrimento". 


E já ouviram falar na expressão "a raposa tomando conta do galinheiro"? Pois é:

                                   

No futebol brasileiro, tivemos a despedida do goleiro Rogério Ceni:

                         

O título do Palmeiras na Copa do Brasil - com a colaboração do Nilson, "atacante" do Santos que perdeu UM GOL incrível

                              
E o rebaixamento do Vasco:

                                             


E falando em rebaixamento, uma palavrinha que não ouvíamos desde a década de 90 voltou à cena: impeachment. Graças a ele, Eduardo Cunha, que soltou a bomba pra ver o estrago. 


                                    
E a crise política escancarou de vez com a cartinha do vice-presidente, Michel Temer, para a presidente Dilma Rousseff: 

                                          

O cenário político "pegando fogo" e em São Paulo o governador Geraldo Alckmin resolve colocar mais lenha na fogueira com uma tal de "reorganização escolar" que na verdade é o fechamento de escolas em SP - a motivação, claro, é a redução de "despesas". Os alunos ocuparam diversas escolas e as costumeiras cenas de repressão policial não poderiam faltar - infelizmente. 



E no campo pessoal, eu estava lutando contra os prazos e a Lei de Murphy para concluir a monografia. Mas a Lady Murphy é terrível! 



Apesar de todos os contratempos, consegui terminar! 



Se está ruim pra mim, imagine para a Justiça Eleitoral, que cogita o retorno das cédulas de papel nas eleições de 2016.



2015 não poderia terminar sem uma tragédia colossal, épica e todos os superlativos possíveis que vocês puderem imaginar: o bloqueio, por 48 horas, do aplicativo WhatsApp! Pânico, desespero, revoluções no Facebook e twitter! 



E você achou que mandar cartas, como o Michel Temer, era "ultrapassado".


Por fim, chegou o natal! Aquela época de confraternização na qual todo mundo é amigo...

... e aquele sentimento de felicidade está no ar - só que não:


E com essa crise a galera está topando qualquer coisa para levantar uns trocados!


Mas se você resistiu às visitas dos três espíritos de natal...


.... e contabilizou o que ganhou neste período, 


... pode dizer que 2015 foi um ano intenso - e imenso, que parece não ter fim: até o Lemmy, do Motorhead, morreu. Keith Richards, Ozzy Osbourne e Iggy Pop, contrariando todas as expectativas, continuam a enterrar os camaradas do rock. 



Estas charges são publicadas, em maioria, no meu Instagram: @jaimegbr. 

Desejo a todos os amigos e visitantes um ano de 2016 com muitas mudanças para melhor. Que façamos o desarme de comportamentos e atitudes agressivas para realmente desfrutarmos da paz - a paz que tanto desejamos ao vestir branco e repetimos constantemente durante as confraternizações da virada de ano. E sempre com o bom humor que encontrarmos em charges e cartoons. 


quinta-feira, outubro 01, 2015

Pressas e urgências nossas de cada dia.


“A velocidade é a forma de êxtase que a revolução técnica deu de presente ao homem.”
Milan Kundera


Parei o carro no semáforo e desviei o olhar da luz vermelha para a luz prateada e cheia no céu, um lindo espetáculo que era oferecido naquele princípio de noite. “Que perigo, desatento no sinal, é de gente assim distraída que os bandidos gostam”, disseram-me. O meu olhar para a luz prateada é interrompido para as luzes do carro logo atrás do meu, piscando furiosamente e também ouço uma estridente buzina: a luz verde do semáforo acabara de surgir há alguns milésimos de segundos e com ela a largada para a grande corrida em busca de sabe-se lá o que.

Em um daqueles dias parecidos ao verão onde tudo fica mais bonito e repleto de cores vivas, dirigia o meu carro pela faixa direita da orla marítima para apreciar com mais calma os matizes de azul entre o céu e o mar. “Se quer ficar olhando a praia, estacione o carro, mas não atrapalhe o trânsito!”, disseram-me. De fato, um ônibus parecia pronto a passar por cima de mim; outro carro fez aquela ultrapassagem raivosa onde o motorista demonstra ser um ás-no volante.

Estou fazendo uma pós-graduação (daquelas que valem cada centavo e tempo investidos) e ainda faltam alguns poucos meses para a conclusão do curso. “E depois, o que você vai fazer?”, já me perguntaram. Eu devolvo um “Como assim?” e elas insistem: “Sim, e depois? Mestrado, doutorado, pós-doutorado?”. As pessoas sempre estão com pressa do futuro. Um casal de namorados ouve diversas vezes a pergunta “E aí, quando é casamento?” e depois do casamento a pergunta é "E aí, quando vão ter neném?”. E depois? Não duvido que muita gente tenha vontade de perguntar “E aí, quando vai ser o divórcio?”.

É o culto à velocidade, a cultura fast. Fast food. Fast car. Fast love. Fast fuck. Fast diet ("Perca 10 quilos em 1 semana!"). Fast carreira. Fast infância (“nossa, ela já é uma mocinha! E o namoradinho?”). Tudo tem que ser muito rápido, imediato, instantâneo e, com a mesma velocidade, ser igualmente descartável: a ordem é não perder tempo! “Tempo é dinheiro”, há séculos a frase atribuída a Benjamin Franklin é repetida e tornou-se um mantra quando se fala em eficiência. Dormir? “Aprenda inglês enquanto dorme!”, prometiam alguns métodos.  

Rápido! Corra! Depressa! É para ontem! Adianta o processo! Fique ligado! Assumimos tantas responsabilidades, prazos e  nunca estamos satisfeitos com o que temos e com o que vivemos, então corremos para... esquecer.

Nossa época é obcecada com o desejo de esquecer, e é para satisfazer esse desejo que se entrega ao demônio da velocidade; ela apressa o passo para nos mostrar que não quer mais ser lembrada, que está cansada de si mesma, enojada de si mesma; que quer apagar a minúscula e trêmula chama da memória.” (Kundera) 

Os prazos, o tempo que passa e passa rápido com novas demandas chegando a cada minuto... a cada segundo! É preciso tempo para dar conta de tudo o que chega e até do que vai. O tempo dedicado ao ócio e ao lazer é considerado excêntrico e até mesmo “suicídio profissional”. Slow movement? Um pecado! "Nadismo" em algum momento do dia? Uma loucura, coisa de "vagabundo". Nem mesmo o "dolce far niente" escapa em meio a tantas pressas e urgências. Ajustamos até processos naturais da vida ao relógio, ao implacável relógio que implacavelmente traz a lembrança da lista crescente de afazeres e até comportamentos – afinal, tem “hora” pra tudo. Hoje temos “gestores de tempo” que ensinam as melhores formas para administramos e aproveitarmos o tempo.

"Aproveitar o tempo!...
Ah, deixem-me não aproveitar nada!
Nem tempo, nem ser, nem memórias de tempo ou de ser!
Deixem-me ser uma folha de árvore, titilada por brisas,
A poeira de uma estrada, involuntária e sozinha,
O regato casual das chuvas que vão acabando,
O vinco deixado na estrada pelas rodas enquanto não vêm outras”
                                                                     (Álvaro de Campos) 

Lá pelo século IV Santo Agostinho questionava: “Que vem a ser, então, o tempo?”. Eis uma boa pergunta sobre a qual filósofos e cientistas ainda debatem. Como não sou filósofo, cientista e nem físico, prefiro desacelerar e cantar aquela boa e velha música dos Byrds:

To everything (turn, turn, turn)
There is a season (turn, turn, turn)
And a time to every purpose, under heaven
A time to be born, a time to die
A time to plant, a time to reap
A time to kill, a time to heal
A time to laugh, a time to weep

Referências: 
KUNDERA, Milan. A lentidão. Companhia das Letras, 2011.
CAMPOS, Álvaro de Campos. Poemas de Álvaro de Campos - heterônimo de Fernando Pessoa. Nova Fronteira, 2012. 

sexta-feira, agosto 07, 2015

A curiosidade não matou o gato.

É sempre um belo espetáculo observar a lua em sua plenitude durante uma noite com poucas nuvens. Retorno à infância, um menino curioso repleto de perguntas sobre a lua, as estrelas, o espaço.

As perguntas, claro, mudaram um pouco ao longo dos anos: quando garoto, eu queria saber se alguém vivia na lua, se era feita de queijo e se São Jorge morava mesmo lá; adolescente, as dúvidas com base em teorias da conspiração sobre a suposta farsa do homem ter chegado à lua povoavam minha mente; atualmente, gostaria de saber se algum dia voltaremos ao satélite - e se construiremos bases lunares.

Ainda sobre o espaço, o módulo espacial New Horizons, após uma viagem de 9 anos e meio percorrendo o equivalente a 5 bilhões de quilômetros, passou pelos lados de Plutão e enviou fotos e dados sobre o planeta-anão -  que os astrônomos descobriram ser maior (não muita coisa) do que se imaginava. Não é incrível que imagens tão distantes cheguem até nós, terráqueos sedentos por novidades, com tamanha nitidez? E a New Horizons continuará viajando pelo espaço misterioso.    

Atentemos para esta palavrinha: misterioso. O mistério sempre fascinou a humanidade, curiosa do jeito que é e sempre em busca de respostas para tudo. A curiosidade movimenta o mundo e as perguntas são fundamentais para que possamos partir para a pesquisa e, consequentemente, a descoberta.

Lembrem-se das perguntas de crianças.  “Por que o céu é azul?”, “Por que a água é molhada?” e a clássica “Como eu nasci?”, além de outras 300 perguntas diárias – sim, as crianças são capazes de fazer 300 perguntas por dia! Há quem reclame que tantas perguntas são cansativas, mas expressam apenas a curiosidade em aprender coisas que a elas (e a muitos adultos) ainda são misteriosas.

Durante muitos séculos a curiosidade foi vista com maus olhos. Theodore Zeldin, em seu livro “Uma história íntima da humanidade”, lembra que “a mitologia está cheia de castigos divinos impostos aos que desejaram saber além da conta”. Claro que há curiosidades onde pouco ou nada se aproveitam e certamente contribuíram para o estigma negativo:

- E estamos aqui com a ex-Fazenda Big Shower Brazil Fulana Sicraninha. Sicraninha, você e o jogador Fabiano Monarca estão namorando?
- Somos apenas bons amigos, hihihi. 
- Mas vocês foram flagrados aos beijos no show do Juan Castanha. 
- Ah, ele é um querido! 
- O Fabiano Monarca?
- Não, o Juan Castanha. 
- Vocês estão namorando?
- Ai, quanta pergunta...! Chega, né? hihihi. 
- Temos que satisfazer a curiosidade do público!


É o tipo de curiosidade que não difere das atitudes bisbilhoteiras e intrometidas que vemos por aí em diversos ambientes e cada vez mais crescentes: “Em tempos recentes é na América que a demanda por contatos pessoais com artistas populares se mostrou mais forte, que a curiosidade sobre suas vidas íntimas se mostrou mais ávida”, afirmou Aldous Huxley, que escreveu isso na década de 30 do século passado e certamente ficaria impressionado com o admirável mundo novo da indústria da fofoca e seus paparazzi.

“Nada mais difícil do que ser curioso sobre um objeto ou uma pessoa sem a obstrução de ideias preconcebidas”, novamente citando Zeldin. Faz todo o sentido: o autor afirma que ideologias se tornam dogmas e com isso a natural curiosidade do ser humano pode ser tolhida. Mas é na liberdade curiosa (aquela que causa “coceirinhas nas ideias”, como se referiu Rubem Alves) e nas perguntas podemos encontrar o desejo e a liberdade para sair da zona de conforto e buscar as respostas e o conhecimento.

Foi assim que chegamos à Lua, hoje sabemos um pouco mais sobre Plutão e chegaremos a Marte no futuro. Ou podemos descobrir coisas mais simples e intrigantes do nosso dia a dia como o porquê da espuma dos sabonetes e detergentes coloridos ser sempre branca. Vai dizer que não ficou curioso? 


Referências
Uma história íntima da humanidade – Theodore Zeldin
Música na noite e outros ensaios – Aldous Huxley  

sexta-feira, maio 01, 2015

Bruxos, vampiros e literatura


A escritora Ruth Rocha fez parte da infância de muita gente com sua vasta obra e textos reproduzidos em livros didáticos. Foi vencedora de quatro edições do Prêmio Jabuti, publicou 130 livros e sua obra mais conhecida, “Marcelo, Marmelo e Martelo” já vendeu mais de um milhão de cópias. Tem autoridade para falar sobre literatura, sobretudo infantil.

No entanto a escritora, que completa 50 anos de carreira em 2015, declarou que os chamados best-sellers de fantasia ( com vampiros, bruxas e dentre eles o famoso Harry Potter) “não é literatura, isto é uma bobagem. É moda, vai passar”. Tal declaração despertou a fúria dos fãs do bruxinho criado pela britânica J. K. Rowling.

Deixemos por um instante esta “polêmica” de lado e vejamos o que diz a pesquisa da Federação do Comércio do Rio de Janeiro sobre hábitos culturais, divulgada recentemente ( Abril, 2015). A pesquisa indica que 70% dos brasileiros não leram um livro sequer em 2014 – 7 em cada 10 brasileiros. E o uso da internet via smartphones ajudou a reduzir o interesse pela leitura entre os mais jovens, segundo a pesquisa.

Sabemos que o desinteresse pela leitura no Brasil é histórico e as causas são diversas – desde a falta de hábito passando pela formação de novos leitores. Voltemos à declaração de Ruth Rocha: será que rotular a literatura vai ajudar na formação destes novos leitores?

É bom deixar claro que a entrevista da escritora é muito interessante. Como discordar, por exemplo, que “literatura é uma expressão do autor, da sua alma, das suas crenças, e cria uma coisa nova”? Aqui entendemos o que Ruth Rocha quis dizer com o artificialismo da chamada “literatura industrial”, termo utilizado pelo francês Daniel Pennac em seu ótimo “Como um romance”- que apresenta os 10 direitos imprescritíveis do leitor e dentre os quais encontramos “O direito de ler qualquer coisa”.

Neste panorama do “qualquer coisa”, Pennac cita estas obras que “não valorizam a criação, mas a reprodução de ‘formas’ preestabelecidas (...) resumindo, uma literatura do ‘pronto para o consumo’”.  Sem entrar no mérito da obra, tomemos como exemplo o sucesso de “50 tons de cinza”: uma enxurrada de lançamentos classificados como literatura erótica tomou conta das livrarias, invariavelmente imitando o estilo (e em alguns casos até mesmo o título) do livro de E.L. James.  É sobre isso que Pennac e Rocha estão falando.

Contudo, milhares de pessoas leem e apreciam estas obras. Como dizer a elas que a sua leitura agradável não passa de uma bobagem? Nem todas as pessoas foram estimuladas ou tiveram a chance para ler autores clássicos da literatura brasileira e mundial e no caso do Brasil é preciso considerar um país onde o índice de analfabetos ainda é elevado e com um modelo de escolarização conteudista e repetitivo que tolhe a curiosidade, a criatividadee a autonomia – o que remete às palavras de Rubem Alves nos alertando que “a leitura nunca pode ser um exercício de automatismo”. Reduzir a literatura a um cânone obrigatório ou preferência pessoal não ajuda no estímulo à leitura – pelo contrário, pode até desestimular. Lembre-se, por exemplo, das perseguições às Histórias em Quadrinhos mesmo na escola: o gênero não apenas era desprezado como também visto como “má influência” para as crianças e jovens. ( hoje, felizmente, as HQs foram reabilitadas e são utilizadas nas escolas

Não precisamos de mais rótulos na literatura. Deixemos que as pessoas tenham suas preferências literárias e assim permaneçam estimuladas para a leitura: com o passar do tempo elas poderão procurar outros estilos, conhecer novos autores e fazer grandes descobertas. “Passa-se de Sabrina e Julia (histórias de belos doutores e de louváveis enfermeiras) a Boris Pasternak e a seu Doutor Jivago – um belo doutor, ele também, e Lara, uma enfermeira ó quão louvável!”, escreve Pennac. Não há nada que se condenar, nada de bobagem: há estilos e gêneros literários para todos os gostos e preferências. Boa leitura!  

quinta-feira, março 12, 2015

A sociedade do "cagando e andando"?


Tão aguardada quanto a lista dos aprovados no vestibular e a lista de Papai Noel, a relação dos políticos envolvidos na operação “Lava Jato” foi divulgada. A reação mais comum entre os acusados foi jurar inocência e surpresa perante a opinião pública, porém ninguém chamou mais a atenção do que o atual vice-governador da Bahia, o senhor João Leão, do Partido Progressista:

Botar meu nome numa zorra dessas? Não entendo. O que pode ser feito é esperar ser citado e me defender. Estou cagando e andando, no bom português, na cabeça desses cornos todos.”

Percebe-se que o vice-governador baiano, dono de refinado vocabulário, sabe escolher bem as palavras gentis para sua defesa. Na verdade ele expressa o que a maioria da classe política brasileira faz cotidianamente: está “cagando e andando” para mim, para você e para qualquer coisa que não seja de interesse pessoal ou dos comparsas partidários. O escritor Lima Barreto, autor do ótimo “Os Bruzundangas”, apresenta uma sátira política e social publicado em 1923 e que continua muito atual:

O cargo dá-lhe certos incômodos, mas muitas vantagens: não paga selo nas cartas, não paga bonde, trem, nem teatros, onde continua a quase não ir. O que o aborrece, sobretudo, são as audiências públicas – uma importunação para esse parente de São Luiz. Mais o amolam do que lhe dão fadiga. Ao sair de uma delas, diz à mulher: 
- Que povo aborrecido!
- Mas que tem você com o povo?” 

Voltando ao gentleman João Leão: em 2010 foi eleito deputado federal com mais de 200 mil votos. E os políticos citados na operação Lava-Jato, deputados e senadores, não chegaram ao Congresso sem passar pelas eleições – e alguns deles são velhos conhecidos e frequentadores assíduos das páginas de escândalos políticos, como o senhor Renan Calheiros. E com isso a pergunta é inevitável: será que não estamos “cagando e andando” também não apenas em relação à política, mas em algumas ações cotidianas que deveriam ser mais cidadãs? 

Lembro uma situação emblemática: com o carro parado no semáforo vermelho, vi o sujeito no veículo ao lado do meu jogar uma latinha de cerveja na rua. Com um tom mais agradável que eu pude encontrar, chamei a atenção do rapaz sobre descartar o lixo daquela maneira; com uma cara de poucos amigos, o sujeito olhou para mim e soltou a pérola: “Fique na sua!”. Duplamente equivocado, pensei: sabe-se lá quantas cervejas aquele rapaz consumiu e ainda assim estava dirigindo colocando em risco não apenas a própria vida como também a de outros motoristas e pedestres; e aquela latinha vai juntar-se a tantas outras jogadas na rua e entupirá bueiros – na primeira chuva mais forte veremos as consequências do “fique na sua”, um equivalente, neste caso, ao “estou cagando e andando” para a cidade, para a cidadania, para o meio ambiente, para outras pessoas.

Os exemplos são inúmeros, basta observarmos com atenção diversas situações onde o “cagando e andando” parece prevalecer na sociedade – desde jovens rapagões e moças malhados em academia estacionando seus veículos nas vagas destinadas para deficientes e idosos até juízes que deveriam zelar pelo cumprimento das leis e que fazem uso da “carteirada” e utilizam bens apreendidos pela Justiça de forma pessoal. 

O grande problema, nas palavras do professor Mário Sérgio Cortella, é que “estamos nos acostumando – com rapidez e sem resistência ativa – com alguns desvios que parecem fatais e inexoravelmente presentes, como se fizessem ‘parte da vida’: violência, desemprego, fome, corrupção e outros.”. Ficamos indignados – e com razão - pelas grandes corrupções em que políticos e empresários estão envolvidos, porém muitos de nós estamos “cagando e andando” para as chamadas “pequenas corrupções” cotidianas e considerando as mesmas como “normais”. 

São as contradições que infelizmente não tornam muitos de nós tão diferentes dos políticos que foram eleitos e que estão literalmente “cagando e andando” para a sociedade. 

quinta-feira, fevereiro 05, 2015

Crise hídrica e nossos padrões de consumo


“Crise hídrica” é o assunto do momento e não seria diferente: o que acontece em São Paulo é uma amostra do que já está acontecendo em muitos lugares do mundo – e para ficar em um exemplo próximo, lembre-se do sertão nordestino.

O caso de São Paulo chama a atenção por dois fatores: 1) por ser o estado mais rico do país – concentra 32% do PIB nacional – a falta de água vai afetar a economia do Brasil, desde setores da indústria até à produção de alimentos; 2) o descaso para com os recursos hídricos (e isso inclui a falta de investimentos e interesse por parte de governos) onde rios e mananciais são transformados em verdadeiros esgotos. O Rio Pinheiros e a represa Billings são dois exemplos evidentes de tamanha irresponsabilidade em relação à água.

Questões climáticas e falta de investimentos à parte, crise representa ameaça, mas também desafio e oportunidade para rever alguns padrões de consumo. Evidente que todos somos consumidores e isso é fundamental para nossa sobrevivência, porém é preciso lembrar que praticamente tudo o que consumimos precisa de água. Aquele hambúrguer que você come na lanchonete precisa de aproximadamente 2400 litros de água para ser produzido; 1 kg de carne bovina requer 15 mil litros de água – pense no boi a partir do pasto que precisa ser irrigado, o volume que o animal consome e o tratamento para limpeza da carne e conservação nos frigoríficos.  E sabe aquela calça jeans que você usa no dia a dia? Ela precisou de 11 mil litros de água para ser produzida. Quer matar a sede com uma cervejinha? Um copo precisa de 75 litros de água. Confira AQUI o quanto de água é preciso para a produção de alimentos e demais bens de uso diário.

A agricultura é responsável por 72% do uso de água no Brasil e boa parte desta água é usada de maneira pouco eficiente. Vimos o quanto deste recurso é necessário para a produção e, ainda assim, o país joga no lixo cerca de 26 milhões de toneladas de alimentos por ano. Seja na agricultura, na indústria ou em nossas casas, desperdiçamos água de todos os modos possíveis e daí a necessidade de revermos padrões de consumo para evitarmos que água boa e potável siga pelo ralo e também é uma boa oportunidade para questionarmos o consumismo, como aquelas compras que fazemos por impulso e sem necessidade e que são esquecidas na geladeira ou no armário -  no caso de alimentos que rapidamente se estragam e vão direto para a lata do lixo. Consumismo, de acordo com Bauman, é um produto social. Será que precisamos mesmo de tantas coisas? Em quarenta anos provavelmente teremos uma população próxima dos 10 bilhões de pessoas na Terra - e com os atuais modelos de consumo, precisaríamos de uma outra Terra para dar conta. 

E a crise traz à tona a necessidade de consciência e atitude sobre o que estamos fazendo com os recursos naturais (finitos) deste simpático planetinha azul. A experiência desastrosa como a que aconteceu no Mar de Aral deveria servir como alerta. Essa consciência vai além de fechar a torneira enquanto se escova os dentes: abrange esferas política (que não se restringe a partidos políticos), ecológica, educacional e cidadã. O que vem acontecendo é o reflexo de nossa (falta de) coletividade. 

quinta-feira, janeiro 08, 2015

Livros de 2014: retrospectiva.


Como já se tornou tradição aqui no blog, a minha listinha dos livros mais legais do ano que passou não poderia faltar. Desta vez farei um pouco diferente: a resenha será brevíssima, com poucas linhas para apresentação geral do livro e complementarei com algum trecho da obra.

Alguns livros relacionados são difíceis de serem encontrados – como Henry Miller e Stephen Nachmanovitch – e os interessados na leitura terão melhores chances procurando em sebos pela internet ou da cidade.

Vamos à lista:

- Pesadelo Refrigerado, de Henry Miller. O autor de “Trópico de Câncer” e da trilogia “Crucificação encarnada” apresenta nesta obra relatos de viagem pelos cafundós dos Estados Unidos e reflexões sobre a sociedade americana, valores de vida, artes, carros e mecânicos. 
“O homem gordo, pretensioso, de cara amarrada, de quarenta e cinco anos, que ficou assexuado, é o maior monumento da futilidade que a América criou. Ele é um ninfomaníaco que não realiza nada. É uma alucinação do homem paleolítico. É um feixe estatístico de gordura e nervos abalados para o corretor de seguros transformar em uma tese assustadora”. 

 - Deuses sem homens, de Hari Kunzru. O cenário é o deserto da Califórnia, onde encontrarmos um casal em busca do filho autista de 4 anos desaparecido, um rock star entediado, uma seita alienígena, um engenheiro de aviação da 2ª Guerra mundial... e tudo isso se passa em capítulos com histórias divididas em estrutura não-linear – saltamos de 1958, 1970 para 2008 sem perder o fio da meada.
“Na cidade todos reclamavam. Nas rochas, as moças se empoleiravam a 10 metros do chão, os seios nus balançando para frente e para trás enquanto elas batiam com os martelos em alguma porca ou parafuso. ‘Nosso trabalho’, confidenciou Montanha um dia, ‘é reconectar a Terra à corrente de impressões espirituais’. ‘Por que?’ ‘Porque estamos cercados de energia negativa, e ela está começando a alterar o eixo da Terra’.” 

- O complexo de Portnoy, de Phillip Roth. Sem papas na língua e principalmente sem nenhum pudor, “O complexo de Portnoy” nos apresenta Alexander Portnoy, um judeu americano que descreve sua relação com a mãe, neuroses e sobretudo seus impulsos e vícios sexuais de forma muito aberta a um psicanalista. Divertido, insano, provocador. 
“Pare de ficar ruborizado, pare de se envergonhar, você não é mais um filhinho da mamãe levado da breca! No que diz respeito a seus apetites, um homem de mais de trinta anos só presta contas a si próprio! Essa é que é a grande vantagem de ser adulto! Você quer pegar? Então pegue! Seja um pouco transviado, pelo amor de Deus! PARE DE SE PRIVAR DO QUE VOCÊ DESEJA! PARE DE NEGAR A VERDADE!”  

- Dez mulheres, de Marcela Serrano. De leitura fluida e em tom confessional, o livro da escritora chilena Marcela Serrano apresenta histórias de noves mulheres de idades e personalidades diferentes relatando experiências de vida em temas ligados ao amor, luto, separações, política, solidão, identidade. 
Muito humilhada, resolvi parar de beber. Essa época foi um pesadelo. Eu enganava a mim mesma. Jurava intenções que não cumpria. Escondia garrafas. Tudo o que os filmes dizem sobre alcoólatras é verdade. O problema era como enfrentar minha maternidade estando sóbria. Ou melhor, como aceitar que tinha sido estuprada por três soldados em guerra no meu país de origem. E que o resultado desse ato era um filho.” 

- A irmandade da uva, de John Fante. Sou suspeito para falar sobre Fante, pois sou fã do estilo rápido e objetivo do autor que, segundo Bukowski, “não tem medo da emoção”. Este livro não ombreia com os fantásticos “Pergunte ao Pó” e “Sonhos de Bunker Hill”, mas é John Fante puro, trazendo a história de Henry Molise voltando à cidade natal para uma convivência difícil com o pai Nick – alcoólatra, jogador compulsivo, temperamental. 
Tal pai, tal filho. Ah, Dostoiévski! Fiodor poderia ter surgido entre a neblina e colocado a mão em meu ombro e aquilo nada significaria. Como era possível um homem viver sem seu pai? Como poderia acordar pela manhã e dizer a si mesmo: meu pai se foi para sempre?” 


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Este lado do paraíso, de Scott Fitzgerald. É sempre um prazer ler Fitzgerald! Embora este primeiro romance do autor (com toques autobiográficos) não se compare ao magistral “O grande Gatsby” ou “Os belos e malditos”, já encontramos elementos típicos da literatura de Fitzgerald: personagens nascidos em berço de ouro e sempre em busca do prestígio social. 
As pessoas, atualmente, se empenham tanto em acreditar em líderes, mas assim que dispomos de um reformador popular, um político, um soldado, escritor ou filósofo – um Roosevelt, um Tolstói, um Wood, um Shaw, um Nietszche -, a contracorrente da crítica procura destruí-lo. Meu Deus, nos dias de hoje nenhum homem pode manter-se numa situação de destaque. É o caminho mais seguro para a obscuridade. As pessoas enjoam de ouvir o mesmo nome repetidas vezes.” 

- Diários de Adão e Eva, de Mark Twain. Samuel Langhorne Clemens, mais conhecido como Mark Twain, é um dos escritores presentes em minha formação literária. O título diz tudo: a vida de Adão e Eva em forma de diário escrito pelos próprios – e bem ao estilo do sr. Clemens: satírico, bem humorado e muito criativo. 
“Passei a semana na cola dele, para nos conhecermos melhor. Eu é que tinha que ficar puxando conversa porque ele era tímido, mas não me importei. (...) Ele fala bem pouco. Talvez seja porque não é muito inteligente e, como é muito sensível em relação a isso, tenta disfarçar.” 

- A elegância do ouriço, de Muriel Barbery. Em um prédio de bairro elegante e chique de Paris, encontramos uma zeladora filosófica, uma adolescente reflexiva e uma gama de personagens peculiares. O romance, bem escrito, é recheado de filosofia, literatura e bom humor. 
“Quando me angustio, vou para o refúgio. Nenhuma necessidade de viajar; ir juntar-me às esferas de minha memória literária é suficiente. Pois existe distração mais nobre, existe mais distraída companhia, existe mais delicioso transe do que a literatura?” 

- O país dos cegos e outras histórias, de H.G. Wells. Herbert George Wells dispensa maiores apresentações: se você já leu ou assistiu filmes como “A máquina do tempo”, “o homem invisível” e “A guerra dos mundos”, já foi apresentado ao mundo fantástico de Wells. Este volume compreende 18 contos do imaginativo autor britânico.
Durante catorze gerações aquelas pessoas tinham vivido na cegueira, isoladas do resto do mundo que era capaz de ver; os nomes de todas as coisas relativas à visão tinham se esmaecido e mudado.” 

- Ser criativo – o poder da improvisação na vida e na arte, de Stephen Nachmanovitch.
Trata-se de uma leitura acadêmica, mas o livro é delicioso: Nachmanovitch entrelaça elementos da música, arte, psicologia, filosofia oriental e literatura para trazer ótimas reflexões sobre o processo criativo e como ele brota em cada um de nós. O que temos que expressar já existe em nós, é nós, de forma que trabalhar a criatividade não é uma questão de fazer surgir o material, mas de desbloquear os obstáculos que impedem seu fluxo natural.”

- Amar ou depender, de Walter Riso. À primeira vista parece um livro de autoajuda; no entanto vai além disso: é sobre inteligência emocional, relações humanas e equilíbrio. Confira a resenha que escrevi AQUI
O amor é que o somos. Se você for irresponsável, sua relação amorosa será irresponsável. Se for desonesto, se unirá à outra pessoa com mentiras. Se for inseguro, seu vínculo afetivo terá ansiedade. Mas se você for livre e mentalmente saudável, sua vida afetiva será plena, saudável e transcendente.”

-Elvis economiza gasolina em cinco marchas, de Ana Cecília Romeu. Primeiro livro da escritora gaúcha, Ana Cecília nos brinda com a leveza de crônicas primorosas sobre diversos temas do cotidiano. Confira a resenha que escrevi AQUI.
Se estamos vivos é para vivermos, reserva em excesso pode não ser recomendando, e nossos dias, ainda que protagonizados por única personagem, exigem mais atores para o roteiro. O ser humano não sobrevive de monólogo, e nunca, jamais, um vinho é bom com a garrafa fechada. Não interessa a safra ou procedência: vinho é para ser bebido.” 

- Demian, de Hermann Hesse.
Há livros que a cada releitura sempre descobrimos algo novo, diferente. E “Demian” é um livro que merece a(s) releitura(s) porque parece dialogar com nosso “eu” em busca do autoconhecimento através da história de Emil Sinclair e Max Demian.
Que consigamos, tu, eu e alguns outros, renovar ou não o mundo é coisa que em breve se verá. Mas, dentro de nós mesmos, temos que renová-lo a cada dia.”


E você? Quais foram as suas leituras preferidas de 2014?   

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