terça-feira, setembro 07, 2010

A verdadeira história da Independência do Brasil-sil-sil

Não sou nenhum Pedro Américo, mas eis meu quadro da Independência do Brasil! Clique na imagem para melhor visualização

A história oficial você já conhece: Pedrinho de Alcântara Antônio João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e Bourbon, o príncipe regente do Brasil, encontra com uma tropa portuguesa que papai D. João havia mandado atrás do filhinho bagunceiro. E ali, às margens do Rio Ipiranga, em um arroubo quixotesco, Pedrinho de Alcântara desembainhou sua espada, ergueu-a e gritou para os portugueses: “Independência ou Morte!” Tudo isso aconteceu em 7 de Setembro de 1822 e assim Pedrinho virou D. Pedro I, o imperador do Brasil.

Essa é a história que você encontra em qualquer livro didático. E tal versão da independência do Brasil vem sempre acompanhada desta linda tela do pintor Pedro Américo:
É uma obra magnífica, sem dúvida. Pena que não corresponde ao que realmente aconteceu. O quadro foi concluído em 1888 – iniciado em 1885 - , muito tempo depois do famoso “ouviram dos Piranga”. Então o que está ali retratado é fruto de (algumas) pesquisas e (muita) imaginação do talentoso pintor.

Mas será que foi só imaginação mesmo? Reparem que no quadro, no lado esquerdo inferior da tela, existe um sujeito guiando um carro de boi que olha para a cena com muita curiosidade. Nunca se perguntaram quem seria este sujeito?

Pois eu descobri: trata-se de Joaquim Preto de Jesus*, escravo de um fazendeiro cujo nome perdeu-se na história. Preto de Jesus foi a inspiração para que Pedro Américo pintasse seu quadro com tanta riqueza de detalhes. Os dois se encontraram em São Paulo, na região do Ipiranga, exatamente na casinha retratada ao lado direito da obra, onde conversaram sobre os fatos daquele 7 de Setembro:

- O senhor poderia me dizer que idade contava na época em que D.Pedro I proclamou nossa independência?
- Sim, sinhô: eu tinha 16 ano.
- E hoje?
- Hoje tenho 79 ano, mas alembro de tudo, tudinho, eu tava lá, vi tudinho com esses zoio que a terra há di comê e me alembro sim sinhô!
- Então conte-me tudo o que viu, preciso saber mais sobre aquele dia para pintar um quadro.
- Sim sinhô. Eu voltava de Santos porque ali era a trilha pra nóis que ia buscar mercadoria que desembarcavam no porto, num é? Era um caminho ruim, num sabe, então nóis usava mula, era mais melhó. Na verdade até o povo do príncipe usava mula!
- D. Pedro I utilizava mulas como montaria?
- Ah, sim sinhô, era melhó, num sabe?
- Não vai ficar bem no quadro um imperador utilizando mulas. Pintarei belos cavalos. Mas continue, senhor.
- Sim, eu vinha puxando os boi com as mercadoria e encomenda tudo pra meu sinhozinho quando vi aquele punhadinho de mula no meio da estrada.
- Mas como? Não era uma grande comitiva acompanhando o imperador?
- Sei dizer que se tinha uns 14, era muito.
- E não estavam próximos ao riacho?
- Não muito, faltava bem ainda umas duas légua. Vi o príncipe e ele tava muito irritado, indo pros mato o tempo todo.
- Irritado com o que?
- Hihihi...o sinhô me disculpe falá essas coisa, mas parece que ele teve uma briga lá com dona Marquesa, num sabe?
- Como assim? O imperador foi a Santos para tratar de assuntos políticos!
- Hihihi...é como dizem, num é? Mas me disseram que ele chegou lá na casa de sinhá Marquesa e comeu uma gororoba que ela mesma tinha feito e que num caiu bem. Ele disse que ela num sabia conzinhá e dona Marquesa expulsou o príncipe de casa. Parece que foi briga feia porque Dão Pedro tava com um galo no meio da testa, disseram que a Marquesa tacou uma panela nele! Aí nos caminho de volta o príncipe sentia dor de barriga e tava parano toda hora pra se aliviá!
- Hum, mas dizem que ele se encontrou com tropas portuguesas...
- Olha, sinhô, eu só posso falá do que vi. Na verdade era três mensageiro procurano pelo príncipe, diziam que tinha um recado do rei.
- E que recado era esse?
- Ah, isso eu num sei dizê. Só sei que o Dão Pedro leu a carta, botô a mão na barriga e disse “Senhores, me perdoem, mas vou resolver um assunto atrás daquela moita, trata-se de uma emergência de vida ou morte!”
- Como? Não teve grito, princípio de luta? Foi assim mesmo?
- Foi, foi sim sinhô. Os único grito que eu ouvia era do príncipe se aliviano atrás das moita. Mas ele era muito educado, tirou o chapéu pra recebê os mensageiro e tudo, Dão Pedro era muito humilde, era sim, era, me alembro de tudo.
- Muito agradecido, senhor Preto de Jesus! Teu depoimento vai ajudar-me a pintar o quadro sobre a independência do Brasil! O que posso fazer por você?
- Si o sinhô pudesse, eu queria que o sinhô pintasse meu retrato, é, eu gostaria sim, nunca tive dinheiro pra mandá pintá um, é.
- Farei melhor, meu amigo: irei retratá-lo no próprio quadro da independência! Entrarás para a história do Brasil! Tu e esta casinha! Sim, é uma boa ideia, essa casinha vai compor bem o cenário para o quadro, ora, se vai!

*nota: “Joaquim Preto de Jesus”, obviamente, é uma personagem de ficção, da mesma forma que o diálogo com o pintor Pedro Américo, embora com base em fatos históricos. Se está fazendo pesquisa escolar, leia AQUI e AQUI.

Leia meus brados retumbantes no twitter www.twitter.com/jaimeguimaraess

22 comentários:

  1. Nunca antes na história desse país a verdadeira história da Independência foi tão bem contada! Texto que diverte, informa e faz refletir. A manipulação da informação é coisa velha no Brasil, tudo é 'pintado' de maneira a esconder e distorcer os fatos. Desde Cabral, ao que parece!

    Grooeland sempre ótimo, sempre mandando bem nas charges!

    Forte abraço!

    PS: uhauhauhauha legau seu blog, passa no meu!

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  2. Ahahaha!!! Imaginação fértil hein Jaime? A sua e do criativo pintor...Rsrsrs...
    Mas eu já havia ouvido uma versão parecida com essa, que da mesma forma tira toda a "pomposa" visão da Independência conhecida por nós. Engraçado que em todas as versões D. Pedro está com a famigerada dor de barriga retratada por você aqui também... Quem conta um conto aumenta um ponto, mas em todos há sempre um fundo de verdade...
    E viva a dor de barriga! Digo a Independência do Brasil!
    Beijinhos!

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  3. Para não ter mais q ir à moita, usemos o "trono". Se as "cagadas" políticas fossem assumidas desde o princípio, talvez as coisas fossem diferentes, talvez fossemos realmente independentes.

    E um dia eu descobri q o rio de margens plácidas era um riozinho qualquer, q sua realidade passava bem longe da minha imaginação infantil. Foi uma decepção. Não quis mais cantar o hino nacional na escola e levei uma advertência por isso.
    Obs.: No fundo do quadro tem um outro sujeito, q observa como quem pensa "onde fui amarrar minha égua?".

    bjohnny!

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  4. A história oficial é a de quem tem as rédeas do poder. Como disseram o Pablo Milanez mais o Chico Buarque,
    " a história é um carro alegre,
    cheia de um povo contene,
    que atropela indiferente
    todo aquele que a negue."

    E ainda o Pedrito pegou uma grana preta emprestada com os ingleses para indenizar Portugal por essa "independência" aumentado a dívida externa que o pai dele começou quando fez a abertura dos portos.

    Brasil, sil, sil.! Abração, meu amigo .
    (o livro já chegou aí?)

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  5. O "Piranga" é o bairro que eu moro. Você sabe, né?
    O rio fica bem lá pra baixo, perto da Avenida do Estado e sobe, quando chove muuuuuito.
    Uma inundação de independência...
    :P

    Tem aquela do Marc Bloc: "o historiador é filho do seu tempo".
    Adoro!

    Beijos, meu anjo e saudade muita.

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  6. Rsss, adorei, você como sempre me faz rir!!

    Eu tinha visto uma vez no Fantástico que eles realmente usavam mulas e umas roupinhas beeeem xumbreguinhas!

    Jaime, muito obrigada pela sua atenção, você sempre comenta em todos os meus posts, não sabe como fico feliz!

    Boa semana pra você!

    Beijão!!

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  7. Rapaz... e hoje não passou aquele filme do Tarcísio Meira em lugar algum!

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  8. Jaimão, meu velho;

    Desconfiado aqui que o senhor cursou a faculdade errada. Em vez de Letras, devia ter se dedicado à História Pátria. Concordo com o cara aí de riba: jamais ouvi alguém narrar os acontecimentos do sete de setembro com tanto humor! E quer saber? Esse texto aí tá ótimo pra se usar em sala de aula... hehehe!

    Filme com o Tarcisão? Nossa, isso era no meu tempo de moleque... Bora combinar: até que o cara dava um D. Pedro maneiro, né, não?

    Abração, meu rei... e Viva o Brasil!

    =)

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  9. A história do Brasil sempre foi cheia de mentiras e cheia de coisas lindas porém, irreais. Isto não mudou até hoje.

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  10. Cara,
    faz todo sentido e a casinha ta ali pra quem quiser ver hahhaha e o pior para mim foi saber que D.Pedro recorreu logo àquele papel rosa que faz um peeling agressivo na região glútea retirando as células mortas, as vivas, as que ainda não nasceram...hhahah show, parabéns
    p.s. eu adoro história do Brasil rsss
    beijos

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  11. Muito bom, Jaime. Acho que estudantes interessados em pesquisar sobre o assunto nem precisam ir às fontes que você indica no rodapé do post. Se lerem a sua versão e depois recontarem tudo com suas próprias palavras já terão, no mínimo, uma boa e irreverente redação sobre a Independência do Brasil.

    Dei "menos sorte" que a sua leitora Lidiane, que mora no bairro onde D. Pedro proclamou sua incontinência intestinal. Reza a lenda que a cidade em que nasci - Leopoldina-MG - foi assim batizada por uma mijadinha da primeira imperatriz do Brasil. O que a Princesa Leopoldina estava fazendo por aquelas bandas eu não sei, nem quero saber. Fico com a versão do crioulo doido do samba do grande Sergio Porto: ela foi a Minas, a mando de Chica da Silva, para se casar com Tiradentes, que depois se elegeria segundo imperador do Brasil e proclamaria a Escravidão...

    Faz sentido, né? Se seu marido, Pedro, fora pular a cerca em São Paulo e cagar no mato, nada mais justo que ela perambulasse por Minas a dar umas mijadinhas e a catar os restos mortais esquartejados do alferes para transformá-los não só em marido como em seu próprio sétimo filho!

    Abraço

    O.S.: Ler o seu post e desfiar essas abobrinhas me despertou a vontade de postar sobre isso. Será que ainda valeria como homenagem à Semana da Pátria? Nunca sei se a Semana começa sete dias antes do dia 7, ou se a Pátria é que termina sete dias depois...

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  12. hehe, divertido. o namorado da minha tia me contou algo parecido quando eu era criança. ele vivia de gozação com Dom Pedro e seu amigo Chalaça, sacaneava também Dom João VI.

    minha contribuição é esta:


    SONETO NACIONAL

    Nasceu lá no Ipiranga a pátria amada
    de um povo bonachão e sempre plácido,
    mas de brio resistente ao próprio ácido
    gástrico a digerir a feijoada!

    Fulguras, ó Brasil da caçoada,
    qual um tendão-de-Aquiles cá da América;
    porque, se primas na tragédia homérica,
    tua comédia é a mais esculhambada!

    Mas, se ergues da Justiça a clava forte,
    verás que um filho teu, se foge à luta,
    o faz somente em nome da labuta;

    e, ao fugir do batente até a morte,
    canta mais alto seu canto guerreiro
    na cadência a sambar, bem brasileiro...

    Marcos Satoru Kawanami


    .

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  13. Jaime,
    Adorei a versão da Independência. O Joaquim Preto de Jesus foi o cara srsrs.
    Quando era criança ouvia que Pedrinho deu o grito, porque tinha um soldado que estava do seu lado com um punhal em suas costelas. Ai o soldado apertou o punhal e ele deu o famoso grito. E como dizem os antigos contadores de estórias: - Palavra de rei não volta atrás srsrsr.

    Parabéns.
    Bjs

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  14. Tinha q ser vc Jaime!!! Rsss
    ADoREI ...

    Bjs

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  15. I always motivated by you, your views and attitude, again, thanks for this nice post.

    - Norman

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  16. Mais falam que ele estava fazendo o numero 2 As fezes ! Isso voi oque minha professora me falo

    ResponderExcluir
  17. Jaime.
    Parabéns pelo texto sobre Independência do Brasil.
    Este ano eu não consegui mostrar para meus alunos,mas ano que vem com certeza mostrarei e vou pedir que eles analisem seu texto,valendo nota hehehehehe,tenho certeza que vão adorar.Tbém gostaria de pedir permissão para colocar no meu blog com os devidos creditos á claro.
    Abraços

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  18. HAHAHA a história que eu ouvi era de que ele tinha comido uma fatada pra depois ir à casa da amante (D. Pedro era um cara muito pegador e talz). Aí vem a mula, e não um cavalo, a velha diarreia, e o grito, cujo final foi cortado: "Independência ou morte às minhas tripas". Seja como for, a independência não foi um ato heroico, como nos enfiam na cabeça quando somos crianças, e sim, fruto de uma diarreia. Ou vai ou racha! E pronto. Adorei sua forma de recontar a história!

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