sexta-feira, junho 08, 2018

Cadê o "clima de Copa do Mundo"?



Escrevo estas mal digitadas no dia 07 de Junho de 2018. Daqui a exatamente 10 dias a seleção brasileira fará a sua estreia na Copa do Mundo da Rússia diante da Suíça, às 15 horas. Eu tive que pesquisar no Google para saber disso, pois o “clima de Copa” não me afetou, ao menos por enquanto.

O que é bem estranho, pois em Copas anteriores eu sabia com bastante antecedência os jogos e horários da seleção brasileira, consultava tabela, fazia projeções, buscava informações sobre outras seleções - uma ótima oportunidade para relembrar das aulas de Geografia, aliás. Em outros tempos e outra cidade eu entrava com tudo no clima de Copa: desenhava e pintava nas ruas, muros, onde houvesse espaço. As ruas eram enfeitadas com bandeirolas e bandeiras do Brasil, conversávamos e especulávamos sobre os 22 convocados, as ausências notáveis, os candidatos a craques, nos divertíamos com a pronúncia de nomes estranhos de jogadores da seleção da Croácia ou da Bulgária.

Hoje o meu sentimento pela Copa do Mundo e Seleção Brasileira é da mais completa indiferença. Serei apenas eu? Apenas ontem eu vi um muro pintadinho com bandeiras do Brasil e uma tentativa de caricatura do Neymar. No fim de semana vi outro muro sendo pintado com o que parecia ser a tabela da primeira fase dos jogos da seleção brasileira. E só. Ao menos pelos locais por onde costumo passar, não vi mais nada – estavam montando algumas bandeirinhas em uma escola, mas para as festas juninas. Aparentemente o “clima de Copa” não afetou a muita gente também.

Desânimo com o futebol

Talvez seja a crise econômica e o altíssimo índice de desempregados, alguns comentam; outros relacionam a camisa da CBF (Confederação Brasileira de Futebol, envolvida em escândalos de corrupção) a um símbolo controverso e contraditório envolvendo manifestantes “anticorrupção” (assim diziam) em mais um capítulo de nossa polarização político-partidária; a humilhação diante da seleção alemã ( 7 x 1) na Copa realizada em nosso território também é citado; e há quem diga que a seleção brasileira há muito tempo perdeu a identidade com o povo brasileiro. Pode até ser: dei uma olhada na lista de convocados e há jogadores que são conhecidos só mesmo por quem acompanha fielmente o futebol, seus campeonatos diversos e suas transferências: Ederson, Fagner, Filipe Luís, Marquinhos, Fernandinho, Fred (não é aquele atacante?), William, Firmino, Douglas Costa, Taison... praticamente um time de desconhecidos que jogam no exterior.

Os demais jogadores parecem ser intocáveis, estrelas hollywoodianas cercados por seguranças e milionários – e não há problema nenhum com a fama e com o dinheiro que ganham com suas habilidades, mas sim a falta de espontaneidade, de autenticidade: todos os seus gestos, passos e falas são rigorosamente controlados por assessores de imprensa e marketing. “Nós, jogadores, somos frangos de granja: movimentos controlados, regras rígidas, comportamentos fixos que devem sempre ser repetidos”, afirmou o ex-jogador inglês Paul Gascoigne, citado pelo escritor uruguaio Eduardo Galeano no ótimo “Futebol ao sol e à sombra”. É de Galeano e está no mesmo livro uma frase que soa até como ofensa diante de um esporte cada vez mais burocrata e mecanizado: "o futebol continua querendo ser a arte do imprevisto". 

Lembrei de uma pesquisa do instituto Datafolha realizada no início de 2018 e divulgada em Maio: o desinteresse do brasileiro pelo futebol aumentou nos últimos 08 anos: 41% dos entrevistados declararam não ter interesse pelo esporte mais popular do país. Eu não fui entrevistado pelo instituto, porém me encaixo neste percentual. Não sei se as pessoas sentem o mesmo que eu, pois acompanho futebol muito esporadicamente e ainda assim apenas jogos do meu time (Santos) quando é possível e tenho alguma disposição, mas está tudo muito chato: estádios agora se chamam “arenas” com nomes de cervejarias, seguradoras e sei lá mais o que; torcedores comemoram renda e público como se fossem títulos; a corrupção e política de clubes são temas recorrentes e ocupam o espaço dos “gols da rodada”; certas discussões sobre futebol parecem exigir conhecimentos sobre Direito, Contabilidade, Gestão de Recursos, etc.; programas futebolísticos na TV e internet (com honrosas exceções) se transformaram em “humorísticos” de gosto bastante duvidoso e investem na “zoeira” e “provocação”;  diversos comentaristas e jornalistas esportivos se tornaram celebridades tão afetadas quanto o astro de rock mais temperamental.

E o principal: os melhores jogadores mal ficam nos times brasileiros e se mandam para o exterior. Vejam o caso deste menino do Santos, o atacante Rodrygo, de apenas 17 anos e considerado uma grande promessa do futebol: Real Madrid e Barcelona já disputam o jogador e ambos possuem dinheiro de sobra para efetuarem o pagamento de 50 milhões de euros (algo em torno de R$ 230 milhões) pelo jovem talento da Vila Belmiro. Provavelmente iniciará o ano de 2019 jogando no exterior e nem vai dar tempo para o jogador conquistar algum título pelo seu clube de formação e consolidar a imagem de ídolo e referência para a torcida. Com jovens craques e promessas como Rodrygo e Vinicius Junior (Flamengo) indo embora, o nível técnico dos campeonatos regionais e sobretudo do campeonato nacional é sofrível. Difícil acompanhar os jogos. Não à toa a garotada prefere acompanhar, torcer e consumir produtos de um Real Madrid, por exemplo.

Pode ser mesmo a idade associada a um certo saudosismo do tempo em que o futebol era mais importante dentro das quatro linhas do gramado e nossas discussões eram sobre o frango do goleiro ou o golaço do craque do time. Gera até um conforto saber que não estou sozinho neste sentimento de indiferença pela Copa do Mundo. Quem sabe a estreia da seleção brasileira seja convincente e desperte o “clima de Copa” que por enquanto parece adormecido na maior parte da população deste que um dia foi chamado de "país do futebol". 

quarta-feira, abril 18, 2018

Dessacralizar a literatura.



“Zeus é o Mr. Catra do além!”. A expressão divertida foi dita por uma de minhas alunas após um bate papo sobre Thor, personagem de HQ que ganhou as telas de cinema. Outros alunos também participaram deste bate papo informal e falaram sobre Hércules, Afrodite, Poseidon e outros deuses e semideuses. A pergunta que fiz a eles pode parecer meio ridícula, mas segui em frente: “onde vocês aprenderam todas essas coisas sobre mitologia grega?”.  Por que a pergunta pode parecer ridícula? Porque estou em uma escola, então seria óbvia a resposta, não é? Que nada: “A gente leu nos livros do Percy Jackson!”.

Confessei minha ignorância em admitir que não conhecia Percy Jackson, mas logo fiquei sabendo que trata-se de personagem criado pelo norte-americano Rick Riordan que já vendeu mais de 50 milhões de cópias de seus livros com a série “Percy Jackson e os Olimpianos”. Riordan traz a mitologia grega para o século XXI quando o jovem Jackson descobre que é filho de Poseidon e passa por diversas aventuras envolvendo todo o panteão dos deuses, semideuses e heróis mitológicos. Não é difícil entender este fenômeno literário entre a turminha: é o tipo de livro que eu adoraria ter lido na adolescência. E hoje, também.  

Livros como os da série Percy Jackson, Harry Potter, Divergente e autores como John Green, Kiera Cass e Jojo Moyes são aguardados e lidos com entusiasmo pelo público jovem, que formam grupos de debates sobre as obras, produzem vídeos no Youtube, postagens em redes sociais, etc. Não é maravilhoso ver jovens entusiasmados com livros e falando sobre suas impressões de leitura? Tudo isso é muito salutar para o incentivo à leitura. Infelizmente, nem todos pensam assim.

Clássicos e modismos

Não são poucos os literatos e acadêmicos que classificam estas leituras como “superficiais” ou simples modismos literários e mercadológicos que logo serão esquecidos.  Imediatamente são feitas comparações com os clássicos da literatura universal, mas precisamos mesmo deste tipo de comparação? Autores como Shakespeare, Tolstoi, Dostoiévski, Poe, Kafka e tantos outros têm o seu lugar garantido no sacrossanto cânone literário e continuarão sendo referência para muita gente. Se um jovem leitor chegar até eles, que bom; e se nunca alcançá-los ou não gostar da leitura de alguns destes clássicos, não vejo problema nenhum: os escritores contemporâneos também têm seu valor literário e há muita gente talentosa por aí. 

Quanto aos modismos literários e questões ligadas ao mercado, eles sempre existiram. Os romances e novelas de cavalaria eram extremamente populares na Europa da Idade Média, principalmente na Espanha, Inglaterra, Portugal, Itália e França. Podemos dizer que entre os séculos XV e XVII, graças à invenção da prensa de Gutenberg, os romances de cavalaria eram “moda”, sobretudo em histórias envolvendo o Rei Arthur e o Santo Graal. Um grande clássico surgiu neste período: O engenhoso fidalgo Dom Quixote, de Cervantes. Lembro de uma entrevista de Umberto Eco falando que “os gêneros literários e pictóricos são criados por imitação e influência. (...) Se descubro que escrevendo um romance de amor posso ganhar dinheiro, não vou me privar de tentar por minha vez”. O escritor francês Daniel Pennac chama isso de literatura industrial, ou seja, uma literatura que explora o filão do momento. O sucesso de um livro como “Cinquenta tons de cinza” despejou no mercado uma enxurrada de livros com a mesma temática. As editoras precisam sobreviver. Em consequência encontramos também várias matérias nas mídias trazendo referências sobre literatura erótica: lá estavam os clássicos “O amante de Lady Chaterlley”, “Lolita” e autores como Sade, Anaïs Nin, Bocaccio e até o "Kamasutra". Tem espaço para todos. 

É bom lembrar que muitos destes gigantes da literatura em seus tempos não alcançaram sucesso absoluto ou imediato: Scott Fitzgerald, autor do clássico “O grande Gatsby”, mantinha em seu escritório 120 bilhetes de recusa para seus contos; “Moby Dick”, de Melville, também foi recusado por não ser “interessante” para jovens ingleses; um dos casos mais impressionantes aconteceu com Rudyard Kipling, autor de “O livro da selva” (onde o menino Mowgli tornou-se personagem imortal da literatura): despedido do jornal onde trabalhava, Kipling leu na carta de demissão um “Lamento, sr. Kipling, mas o senhor não sabe escrever em inglês”. E a lista de recusas é imensa, passando por George Orwell, R.R Tolkien e J. K. Rowling, somente para citar alguns. No caso das mulheres a coisa era pior, como no caso das irmãs Brontë: tiveram que adotar pseudônimos masculinos ou seria muito difícil a publicação de obras como “Morro dos ventos uivantes” e “Jane Eyre”. Muitos dos livros hoje clássicos foram considerados como modismos, superficiais ou mesmo ousados para suas épocas.

Dessacralização

“Oh, mas como alguém pode não gostar de Shakespeare, que absurdo!”, dirão os acadêmicos. Bem, Tolstoi detestava Shakespeare, apenas para dar um exemplo sobre como os clássicos não são absolutos em termos de preferências literárias. Vejo algumas pessoas envergonhadas em admitir que leram obras consideradas clássicas e não gostaram ou não entenderam nada. Ora, não há nenhum problema: tem muito livro e autor clássico por aí que realmente é muito chato; além disso, certos estilos podem não cair no gosto do leitor. O já citado Daniel Pennac, autor do ótimo “Como um romance”, chama a atenção sobre este aspecto: “Bem, temos a nossa escolha: ou vamos pensar que é nossa culpa, que temos uma telha de menos, que abrigamos uma porção irredutível de burrice, ou vamos bisbilhotar do lado da noção tão controvertida do gosto e buscar estabelecer o mapa dos nossos gostos cuidadosamente”. Ele recomenda a segunda opção e é um bom conselho que vale tanto para os jovens e também para os adultos.

O que precisamos na verdade é dessacralizar a literatura. Desmitificar o senso comum de que livros e leitura “é coisa só pra gente inteligente” e retirar o livro de um pedestal inalcançável para boa parte da população. Dessacralizar a literatura é também deixar de lado a vaidade intelectual e academicismo quando falamos de determinados gêneros textuais e literários. Durante muito tempo gêneros e estilos literários como ficção científica, policial, romântico, cordel e tantos outros foram considerados “literatura menor” (também chamado de paraliteratura) e desprezados tanto pela crítica, escolas e academia de modo geral. Tais posturas não contribuem para ações de incentivo à leitura principalmente entre os mais jovens, pois estigmatizam de forma pejorativa estes gêneros e seus leitores. É extremamente frustrante para um leitor que gosta de determinado autor ou obra ouvir que aquele livro é “uma bobagem” ou, pior, não é literatura. Uma crítica literária embasada e criteriosa sempre é bem vinda e desejável (menos para os fãs clubes, claro), mas o pedantismo em classificar a literatura como “alta” ou “menor” por associação a um autor ou estilo literário é bobagem.  


É interessante lembrarmos que vivemos em um país onde 44% da população não lê e as políticas para incentivo à leitura esbarram em dificuldades. Sem dúvida há outros fatores que também contribuem para índices baixos em relação à leitura, porém gosto de lembrar do caso das Histórias em Quadrinhos: a própria escola tratava a leitura de gibis como prejudiciais ao desenvolvimento cognitivo, pois havia a “concepção errônea de que os quadrinhos são ingênuos, infantis” (SANTOS); hoje, no entanto, a escola acolhe as HQs como recursos didáticos importantes na formação de leitores. Eu formei meu hábito de leitura a partir dos gibis do Pato Donald e Tio Patinhas. Daí para outros estilos e textos foi um pulo. Com muitas pessoas, creio, também funcionou assim.

Dessacralizar a literatura é admitir que a leitura pode e deve ser uma agradável diversão. Quem também pensa assim é o escritor Italo Calvino, na apresentação do sua novela O visconde partido ao meio: “creio que divertir seja uma função social, corresponde à minha moral; penso sempre no leitor que deve absorver todas estas páginas, é preciso que ele se divirta, é preciso que ele tenha também uma gratificação”.  Quer gratificação melhor do que ler um livro e se divertir com sua leitura?

Por falar em Calvino, ele é também autor do livro “Por que ler os clássicos”, onde ele enumera diversos pontos sobre o que é um clássico literário e sua leitura. Vale a pena. Em um de seus ensaios, ele afirma que “as razões do fascínio de um livro (...) são feitas de tantos elementos imponderáveis”.  Não nos importemos tanto com as famosas (e polêmicas) listas que trazem uma relação de livros que DEVEMOS ler: o que vai estimular a leitura de um livro são os “elementos imponderáveis” que farão a pessoa amar uma obra de Rick Riordan e seus Olimpianos ou Machado de Assis com seus contos, por exemplo.

Apenas leia, independente dos rótulos. E divirta-se com as aventuras de bruxos, viaje com alienígenas em naves espaciais, vibre com os heróis, passe raiva com vilões, encante-se com a poesia e suas imagens: você é o leitor e cabe a você o veredito da obra. Boa leitura! 

Referências:
Carrière, Jean-Claude. Não contem com o fim do livro / Jean-Claude Carrière, Umberto Eco. Rio de Janeiro: Record, 2010.
Sant´Anna, Afonso Romano de. A cegueira e o saber. Rio de Janeiro: Rocco, 2006.
Santos, Roberto Elísio dos. Para reler os quadrinhos Disney: linguagem, evolução e análise de HQs. São Paulo: Paulinas, 2002. 
Pennac, Daniel. Como um romance. Rio de Janeiro: Rocco, 1993. 

segunda-feira, março 26, 2018

Escolarização e Educação



Quando eu digo que teremos muito trabalho pela frente pois os nossos problemas estão apenas começando e são mais sérios do que imaginamos, o exemplo de uma desembargadora no Rio de Janeiro deixa isso bem claro. Sobre a execução da vereadora Marielle Franco por motivos e autores ainda desconhecidos até a presente data, a desembargadora Marília Castro afirmou em uma rede social que a vereadora estava envolvida com bandidos e foi eleita graças a uma facção criminosa - além de insinuar que o ocorrido foi "acerto de contas". Mas esta opinião (sic) da desembargadora do TJ do Rio de Janeiro é também um ótimo exemplo de que ao mantra “Educação é a solução” é preciso acrescentar a pergunta “Que tipo de Educação?”. 

Vejam: a escolaridade da desembargadora certamente é de excelência - da Educação Básica ao Ensino Superior. É Mestre em Direito Processual pela UERJ, foi professora universitária e é Desembargadora desde 2007. Sem dúvida é uma profissional bem-sucedida e qualificada em relação à sua formação. Como uma pessoa com tal nível foi capaz de escrever palavras tão absurdas baseadas em “um texto que recebeu de uma amiga”? 

Duas coisas: a primeira é que ela caiu nas terríveis e perigosas “Fake News” disseminadas de forma irresponsável através de redes sociais como Facebook e aplicativos de comunicação como o WhatsApp. A própria desembargadora admitiu não conhecer a vereadora Marielle e com base em informações sem procedência emitiu juízo sobre uma pessoa da qual ela nada sabe – e que não está mais aqui para se defender destas acusações. “E se for verdade?”, podem questionar alguns. “E se...” entra no terreno das especulações, dos devaneios – e aí são moldados de acordo com o gosto e preferências do freguês. 

Segundo: notem que o elevado nível de escolarização não impediu que a desembargadora emitisse uma opinião desprovida de empatia, sensibilidade e sobretudo ética. Ela afirma que emitiu sua opinião não como desembargadora, mas como cidadã, o que piora as coisas. Aí retomo a questão e o prumo da prosa: que tipo de Educação precisamos? A escolarização faz a sua parte – os conteúdos de Inglês, Português, Matemática, Física, etc. são ministrados todos os dias nas escolas. E ninguém questiona a importância e a relevância de se aprender o verbo to be, as regras ortográficas, as leis de Newton, a hidrografia da Amazônia, etc. Educação, porém, vai além disso. Nas escolas devem ser construídos espaços e situações onde questões ligadas à ética, cidadania, discriminação racial, social e religiosa, Direitos Humanos, política, dor, emoções sejam pensadas, debatidas, dialogadas, trabalhadas e incorporadas ao cotidiano escolar. Já tratei um pouco sobre isso em outra ocasião e talvez seja até repetitivo, porém é necessário insistir, refletir e agir. 

Uma educação burocrática, estritamente conteudista e tecnicista não cabe mais em um mundo bastante diferente do que tínhamos há um século, por exemplo. De John Dewey e Maria Montessori a Paulo Freire, de Anísio Teixeira a Howard Gardner e Ken Robinson, diversos teóricos e estudiosos sobre Educação concordam ou concordaram que este modelo educacional arcaico (sob muitos aspectos) deve ser revisto. 

Se ainda há tempo? Talvez, se a escola não caminhar sozinha para esta mudança. Uma analogia perfeita é dada por Hermann Hesse, em Demian: “A ave sai do ovo. O ovo é o mundo. Quem quiser nascer tem que destruir um mundo”. E aqui encerra-se essa prosa com outra questão: temos coragem para destruir um mundo e disposição para reconstruí-lo?

quinta-feira, março 15, 2018

Quarta-feira, 14 de Março de 2018.




Os professores da rede municipal de SP, em greve e manifestando contra um desconto previdenciário indecente, foram rechaçados e alguns até feridos em uma ação da guarda municipal – daquele jeitinho que conhecemos, com direito a bombas e cassetetes. Ao dar uma olhada nas redes sociais e repercussão sobre o fato, aqueles velhos comentários de sempre: “vagabundos, desce o cacete, polícia!”, “se estivessem na sala de aula não aconteceria nada disso”, “não são professores, são sindicalistas e a doutrinadores esquerdopatas comunistas!”, dentre outras pérolas de inteligência e bom senso.
Uma vereadora ativista de Direitos Humanos, Marielle Franco (também professora e pesquisadora), crítica da intervenção federal no RJ e da violência da Polícia Militar em comunidades pobres, foi executada, juntamente com o motorista, Anderson Gomes – que fazia uns bicos para sustentar a família. Novamente uma passadinha pelas redes sociais em seus comentários e deparei com gente (sic) soltando gotas de sabedoria como “ela morreu pelas mãos dos bandidos que defendia, bem feito!”, e muitas outras palavras que não valem a pena citar.
Não há dúvida de que fracassamos miseravelmente. Pensei com os meus botões se as pessoas que usam tais palavras transmitem essas “ideias” (e outras tantas com o mesmo teor) aos seus filhos, sobrinhos, netos. Se isso realmente acontece, então os nossos problemas estão apenas começando. Não à toa candidaturas de políticos irrelevantes como Jair Bolsonaro e outros do mesmo porte alavancam nestas mesmas redes sociais – embora tenhamos inúmeros social bots (robôs sociais) neste caso; não à toa que charlatães religiosos ganham mais visibilidade e poder de influência em várias esferas. “Educação é a solução!” é o mantra repetido ad nauseam em todas as rodinhas de conversa e propostas para o país, mas pensem: o que professores fragilizados em sua condição profissional e até emocional por “n” fatores podem fazer diante deste contexto?
Idealizações como “não desistir”, “manter a esperança” são ótimas para mensagens de dia dos professores, porém isso não basta. Lembro de entrevista do professor José Pacheco (Escola da Ponte,Portugal) na qual ele dizia não é possível pensar em modificar a sociedade somente por meio da escola, pois escola e sociedade devem caminhar juntas. Nas palavras de Pacheco, que “os brasileiros ousem afastar a apatia e participar” (da comunidade escolar, da política, em defesa de Direitos Humanos, do Meio Ambiente, da Cultura) ou continuaremos a lamentar em redes sociais e reproduzir (até de forma inconsciente) mecanismos de desigualdade, exclusão e ódios aguardando por algum “salvador da pátria aventureiro” na pele de políticos, juízes, charlatães religiosos, celebridades de TV e outras figuras sedutoras para quem está perdido, sem rumo e com medo. Basta um olhar mais atento ao que está acontecendo de forma geral no país para se preocupar, pois o terreno é fértil para tais aventureiros que se apresentam sob o verniz de “novidade”, porém com tintas e cores fortes de um período recente da história que não traz boas recordações e tampouco oferece propostas e soluções viáveis para o país. Afastar a apatia é também posicionar-se firmemente contra este cenário preocupante. 
A quarta-feira do dia 14 de Março de 2018 também foi o dia que o astrofísico inglês Stephen Hawking, uma das mentes mais privilegiadas de nosso tempo contemporâneo, faleceu. O seu legado para a humanidade foi gigantesco, o que me levou a pensar sobre qual legado deixaremos para as futuras gerações. Pense nisso. E pense nisso você também que vibra e aplaude quando professores são agredidos por policiais e ativistas de Direitos Humanos são executados.

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