sexta-feira, maio 10, 2019

Resistência à ignorância

     

        Era para ser uma fantasia infantil para a festa de Halloween da escola, mas acabou virando notícia e repercutiu nas redes sociais: a mãe caracterizou o seu filho como escravo e para dar maior realismo à fantasia, a maquiagem simulava cicatrizes, ferimentos pelo corpo e o menino ainda trazia correntes e grilhões utilizados para torturar e aprisionar escravos. A imagem gerou críticas à mãe, que em uma rede social respondeu: “Não leiam livros de história do Brasil. Eles dizem que existiu escravidão no País, mas isso é mentira”. 

        A história acima é surpreendentemente real e aconteceu em 2018, durante o período das eleições brasileiras para presidente. Parece incrível que tenhamos esse tipo de pensamento em pleno século XXI, mas basta passearmos por alguns minutos em sites e redes sociais para nos depararmos com inúmeras afirmações do mesmo nível.

    A internet tem méritos inegáveis: democratizou o acesso à informação, mudou o modo como consumimos notícias e até mesmo o nosso aprendizado – é impensável um estudante atualmente não utilizar a internet para pesquisas e atividades didáticas, sem falar nos cursos EAD (Educação a Distância). Essa mesma internet, no entanto, também é ambiente fértil para a circulação de milhares de teorias e mensagens inacreditavelmente absurdas que em outros tempos soariam “apenas” como piadas de mau gosto; no entanto, a rápida disseminação de tais mensagens afeta a vida das pessoas em diversas atividades e setores do dia a dia, como saúde, educação, segurança e política. 

   Obviamente não se trata de culpabilizar o meio (a internet) por essas loucuras (que sempre existiram e circularam em vários espaços não-virtuais), embora empresas como Facebook e Twitter tenham suas responsabilidades; o fato é que temos um problema quanto ao uso por parte de muitas pessoas que fazem questão de ostentar a ignorância com orgulho e arrogância, sobretudo nas redes sociais. 

A era do “achismo” 

      Quando uma pessoa afirma que a escravidão no Brasil não existiu, ela está desprezando um fato histórico e comprovado não apenas nos livros de História, mas também em documentos e vários registros incluindo manifestações artísticas como a literatura, pintura, etc. Esta pessoa, porém, não está sozinha, pois muita gente pensa como ela. Grupos fortalecem crenças e ajudam a “legitimar” tais ideias. Freud (1921) afirmou que “quando indivíduos se reúnem num grupo, todas as suas inibições individuais caem e todos os instintos cruéis, brutais e destrutivos, que neles jaziam adormecidos, como relíquias de uma época primitiva, são despertados para encontrar gratificação livre”. Tal gratificação tem a ver com pertencimento, aceitação e assim encontramos comunidades virtuais com grande número de participantes que acreditam piamente que a Terra é plana ou que vacinas causam autismo nas crianças, apenas para citar dois exemplos. Saem de cena os fatos, registros, a História e os estudos científicos para darem lugar aos achismos. 

    O “achismo” das redes sociais consolidado no bordão “essa é a minha opinião” sempre existiu no cotidiano, muito antes da popularização do acesso à internet. Basta lembrar das rodas de conversa sobre futebol no barzinho da esquina ou mesmo das vizinhas que gostavam de palpitar sobre a vida de todo mundo. Ter opinião é salutar, é um exercício democrático e o contraditório faz parte do debate; o problema é quando “minha opinião” despreza os fatos, não possui embasamento e tenta se impor como uma verdade – e tal “verdade” não passa de um emaranhado de teorias conspiratórias e manipulações de fatos históricos, um espécie de revisionismo que George Orwell, no livro “1984”, explicou muito bem como tudo isso funciona a serviço de governos autoritários. 

A ignorância saiu das redes 

     
      Alguém pode até dizer que esse tipo de ação está restrita ao ambiente virtual e suas bolhas, mas não é bem assim. Tomemos como exemplo a onda de denuncismo a perseguição a professores rotulados como “doutrinadores comunistas” e como isso tem interferido na autonomia docente e na relação professores-pais-alunos. Uma escola particular do Rio de Janeiro retirou da lista de leitura um livro publicado em 1981 e considerado “comunista” pelos pais dos alunos – tal “descoberta” deveu-se a postagens em um fórum na internet “alertando” para o conteúdo da obra. A ignorância saiu das redes e ganhou espaço no mundo real, até mesmo nas mais elevadas esferas do poder, como o chanceler do Brasil insistindo em rotular o nazismo como uma ideologia “de esquerda” – o que é amplamente rejeitado por estudiosos e historiadores alemães. 

    Geralmente tais posturas partem de pessoas que se deixam levar por formadores de opinião que usam as redes sociais e vídeos para espalharem teses que não resistem aos fatos e argumentações sérias. Como crianças mimadas que querem ganhar coisas através dos gritos, essas pessoas insistem (até com certo nível de agressividade e arrogância) em reproduzir tais como robôs o que leram ou assistiram na internet – sem grandes reflexões ou desprezando e desqualificando o que dizem especialistas e estudiosos. É assim que as Fake News e teorias conspiratórias das mais absurdas e inacreditáveis viralizam praticamente sem controle. O estrago pode ser irreparável, principalmente quando oriundas da dark web, fóruns chans e outras plataformas onde o ódio a determinados grupos e pessoas é estimulado.   

Resistindo à ignorância 

     “Se adotarmos uma postura de seriedade na busca dos fatos”, afirma o historiador Timothy Snyder, “cada um de nós pode fazer uma pequena revolução na forma como a internet funciona. Se procurar por fatos comprovados, você não enviará informações falsas a outras pessoas”. Este é um ótimo conselho para iniciarmos a resistência à ignorância que espalha rapidamente via aplicativos, sites e redes sociais e faz a cabeça de muitas pessoas. 

     Não à toa que adeptos da chamada pós-verdade e revisionismo histórico promovem perseguições e linchamentos de reputações a professores, jornalistas e artistas: são as primeiras vozes a serem caladas principalmente quando um regime autoritário de governo se instala em um país. As categorias citadas são agentes e transmissores do conhecimento e gozam de credibilidade perante a opinião pública. Desqualificar estes profissionais é o primeiro passo para atingir o objetivo de impor uma visão ideológica sobre a História – vejamos o emblemático caso do Brasil e do atual presidente insistindo em negar que passamos por um período de ditadura entre 1964 a 1985, mesmo diante de todos os fatos e atitudes que caracterizam um regime ditatorial. 



        Fala-se até em reescrever os livros de História sobre o período. Neste caso, tomemos como exemplo o bibliotecário Crispino, do conto “Um general na biblioteca”, de Italo Calvino: na fictícia nação da Panduria, uma comissão militar foi formada para examinar todos os livros da Biblioteca Nacional, pois havia a suspeita de que os livros continham “opiniões contrárias ao prestígio” dos militares. Oficiais e soldados ocuparam o prédio, proibiram o acesso dos civis e todos os funcionários da biblioteca foram dispensados, menos o bibliotecário Crispino, um velhinho cuja missão seria auxiliar os militares com a organização dos volumes. Tenentes e o general Fedina, líder da operação, no início eram severos e implacáveis ao apontar problemas nos livros e no preenchimento de relatórios condenando-os, mas o velho bibliotecário, de forma habilidosa, soube sugerir obras que traziam contrapontos às duras convicções dos militares; e aos soldados no pátio, entediados, sempre indicava livros. Logo estavam todos envolvidos nas leituras, nos estudos, nos debates referenciados e os relatórios para o Tribunal Militar eram cada vez mais raros até finalmente cessarem. As ideias que motivaram as suspeitas dos militares mudaram e os livros e a biblioteca estavam a salvo – na verdade o relatório final do general criou um problemão para o Estado-Maior, mas fica a curiosidade e a dica para buscarem pelo conto.

          É uma história de ficção com a marca de um grande escritor criativo como Calvino, mas é bastante atual e podemos usá-la como inspiração juntamente ao conselho de Snyder como exemplo de resistência à ignorância que avança principalmente a partir de cliques, likes e views. Nesta época em que assistimos o renascimento de velhos radicalismos, a ascensão de gurus charlatões e o espírito de manada parece prevalecer, soa como ingenuidade falar em resistência através do conhecimento, dos livros, da arte, da Educação. Não é: provavelmente seja a maior revolução que alguém pode fazer nestes tempos. 

Referências: 

CALVINO, Italo. Um general na biblioteca. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. 

FREUD, Sigmund. Psicologia das massas e análise do eu e outros textos. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. 

SNYDER, Timothy. Sobre a tirania: vinte lições tiradas do século XX para o presente. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. 




domingo, março 17, 2019

Por uma pedagogia da indignação



Em 1997 aconteceu um crime que chocou o Brasil: cinco jovens atearam fogo em um índio que dormia em um ponto de ônibus na capital federal, Brasília. O cacique Galdino dos Santos, da tribo Pataxó no Sul da Bahia, ainda foi levado ao hospital, porém não resistiu. Os assassinos, jovens de classe média entre 17 e 19 anos de idade, afirmaram que a intenção era “dar um susto” no índio e que tudo não passaria de uma “brincadeira”.

À época em que este crime aconteceu, eu tinha quase a mesma idade dos assassinos e lembro muito bem da repercussão e da revolta de boa parte das pessoas – e curiosamente o assassinato ocorreu um dia após a data escolhida para o “Dia do Índio” (19 de Abril). Na imprensa os especialistas em Psicologia, Educação e Sociologia, ao lado de jornalistas e opinião pública, tentavam entender o que se passava na cabeça de jovens de famílias de classe média com alto poder aquisitivo para que cometessem aquele ato bárbaro e cruel.

Naquele mesmo ano morreu Paulo Freire, um dos intelectuais mais celebrados do Brasil e grande referência em Educação. Um de seus últimos textos foi justamente sobre o assassinato do índio Pataxó, em forma de uma breve carta publicada alguns anos depois no livro “Pedagogia da Indignação – cartas pedagógicas e outros escritos”. (Editora Unesp)

“Que coisa estranha, brincar de matar índio, de matar gente. Fico a pensar, aqui, mergulhado no abismo de uma profunda perplexidade, espantado diante da perversidade intolerável desses moços desgentificando-se, no ambiente em que decresceram em lugar de crescer.”

DESGENTIFICAÇÃO

Eu lembrei de Pedagogia da Indignação e das palavras de Paulo Freire exatamente no momento em que o país passa por um choque diante de uma tragédia ocorrida em uma escola pública na cidade de Suzano, em São Paulo. Dois jovens entraram na escola Raul Brasil (de onde já foram alunos) e atiraram de modo aleatório, matando cinco estudantes, a coordenadora pedagógica e a inspetora da unidade. A tragédia seguiu o roteiro da Escola Columbine, nos Estados Unidos, onde dois jovens atiradores alvejaram 12 pessoas e se mataram ao final. A discussão nas redes sociais, imprensa e opinião pública tenta entender as motivações dos atiradores de 25 e 17 anos, respectivamente. 

E como sempre acontece nestes casos, é preciso aparecer “um bode” para colocarem a culpa: em Columbine foi o rock star Marilyn Manson e nas escolas em Realengo (RJ) e Suzano o responsável foi o videogame, mais propriamente os jogos eletrônicos violentos. Os "bodes" são colocados na sala para desviarem o foco do que realmente importa discutir, afinal é muito mais cômodo e dá menos trabalho do que investigar profundamente e chegar a conclusões não muito agradáveis sobre padrões de formação familiar, educacional, política, etc. 

Voltemos a uma palavrinha usada/criada por Paulo Freire no trecho acima: “desgentificando”, ou seja, a desumanização que ocorre com as pessoas ao longo dos processos de formação – familiar, educacional, ético, etc. Os jovens atiradores e assassinos de Suzano foram celebrados como heróis nos fóruns da deep web – também conhecida como esgoto da internet, onde encontramos pedófilos, racistas, misóginos, neonazistas, traficantes de armas e muito mais trocando mensagens livremente e sob anonimato. “Hoje é dia de vocês morrerem!”, gritava um dos atiradores na escola. 

De onde vem tamanho ódio? O que se passou na vida destas pessoas desde a infância até a adolescência e vida adulta para que chegassem ao ponto de cometerem assassinato em massa e comemorarem este feito violento?

E A ESCOLA NISSO TUDO?

É muito difícil, em primeiro lugar, não pensar em como falhamos todos como sociedade ao insistir em modelos falidos e tratar como “normais” e tamanha indiferença diversas situações que acontecem ao nosso redor. Talvez estejamos cansados ou cedemos ao discurso de que as coisas são assim mesmo e nada adianta para que isso mude.

São discursos como estes que Paulo Freire tanto se opôs como educador. Para Freire, a escola não deveria ficar à margem destas discussões, principalmente quando tais situações ocorrem no entorno da instituição - ou seja, não dá para prosseguir apenas com "aula normal" diante de uma realidade cruel e perversa. Não é possível, por exemplo, acontecer um assassinato no caminho para a escola pela manhã com crianças e jovens passando ao lado de um corpo ensanguentado e sem vida e à tarde ter "aula normal" como se nada tivesse acontecido na região. 

"Ah, mas isso é doutrinação e se for tratar destes assuntos não vai ter mais aula de Português, Matemática, etc.", alguém pode dizer. Não se trata de nada disso, mas sim em agregar ao processo de escolarização os valores morais, éticos e desenvolver empatia, sensibilidade e tentar entender o porquê essas coisas acontecem ao nosso lado. Enquanto perdurar uma visão meramente burocrática e reduzida ao tecnicismo da escola (a Educação bancária que Freire se referia) e, por extensão, da vida, prosseguiremos insensíveis e indiferentes às tragédias humanas - sobretudo com negros, indígenas, LGBTs, mulheres.


Voltando à carta que o educador escreveu sobre o índio Galdino, lê-se:

“Urge que assumamos o dever de lutar pelos princípios éticos mais fundamentais como do respeito à vida dos seres humanos, à vida dos outros animais, à vida dos pássaros, à vida dos rios e das florestas. (...) Não é possível refazer este país, democratizá-lo, humanizá-lo, torná-lo sério, com adolescentes brincando de matar gente, ofendendo a vida, destruindo o sonho, inviabilizando o amor”.

Obviamente não se trata de colocar toda a carga na instituição escola e na Educação de modo geral como “salvadores da pátria”, até porque é um fardo pesado para se carregar dado o histórico de desigualdades e injustiças ao longo da história e formação deste país, mas Freire deixa bem claro, na mesma carta, que “se a Educação não transforma a sociedade, sem ela tampouco nada muda”. Parte da mudança passa pela Educação, mas que qual Educação estamos falando e de fato precisamos? (Já abordei o assunto AQUI e AQUI

NA CONTRAMÃO

Ao comentar sobre a escola em Suzano, ouvi de uma pessoa que “perdemos a sensibilidade e a vida não vale mais nada”. Como já ressaltado em relação ao papel da escola e dos educadores, é preciso mudar para transformar um sistema falido, mas é importante lembrar que a insensibilidade também é construída diariamente.

Um senador da República afirmou que se os professores na escola em Suzano estivessem armados, a tragédia poderia ser minimizada. Este tipo de mentalidade em achar que tudo se resolve na bala encontra muitos adeptos e isso não aconteceu do dia para a noite, mas foram construídos ao longo do tempo: são discursos fáceis e simplistas para problemas complexos e por isso mesmo sedutores para boa parte de uma população que assiste todos os dias na TV a programas jornalísticos sensacionalistas (ou mesmo os chamados “sérios”) que exploram o medo e a insegurança em suas pautas. 

Se temos adolescentes cometendo crimes, basta reduzir a maioridade penal; se temos problemas de atiradores nas escolas, basta armar professores; para a violência urbana, o porte de armas para a população se defender dos bandidos. Obviamente temos um sério e gigantesco problema de Segurança Pública no país e isso gera insegurança nas pessoas, porém não é com populismos e argumentos apelando ao senso comum que iremos resolver – e muito menos nos isolando em bolhas virtuais ou mesmo em condomínios fechados. Sobre isso, aliás, o sociólogo Zygmunt Bauman nos oferece uma boa imagem:

“Viver trancados dentro de um condomínio fechado a fim de afastar os medos é o mesmo que escoar a piscina para ter certeza de que as crianças vão aprender a nadar em completa segurança.”

O medo é amplificado e alimenta a insegurança de onde emergem a intolerância, o ódio e a insensibilidade. As tragédias começam a tomar formas quando tais sentimentos são legitimados nas estruturas sociais e mesmo políticas (no sentido mais amplo) em que as crianças e os jovens compartilham. Retomo mais uma vez a leitura de Paulo Freire na sua carta quando faz referência aos assassinos do índio Galdino:

“Penso em suas casas, em sua classe social, em sua vizinhança, em sua escola. Penso, entre coisas mais, no testemunho que lhes deram de pensar e de como pensar. A posição do pobre, do mendigo, do negro, da mulher, do camponês, do operário, do índio neste pensar.” 

Em artigo escrito no ano de 1900, o célebre escritor russo Tolstói registrou a dura realidade de trabalhadores de minas, quebradores de pedra, lavradores e do fato das pessoas não se surpreenderem e tampouco se comoverem com a miséria que os cercava e, com palavras que deixavam claras sua indignação, questionou: “Mas precisa ser mesmo assim?”. Tal pergunta receberia de Freire a resposta “nenhuma realidade social, histórica, econômica é assim porque assim tem que ser”. Embora a mudança seja difícil, ela é possível. A pedagogia freireana é basicamente dialógica, ou seja, não se trata apenas de ensinar a repetir palavras, mas também a fazer uso das palavras por meio do diálogo para o aprendizado, a emancipação do ser e a sua humanização. Não é com armas (principalmente na sala de aula) ou mais violência que vamos promover a mudança que queremos.

A pedagogia da indignação é necessária para que retomemos a capacidade de nos indignarmos diante de injustiças e violências diversas, afastando a perigosa apatia e conformismo que nos deixa vulneráveis a ideias extremistas e desprovidas de humanidade. Este é o primeiro passo para que possamos mudar e efetivamente construir uma sociedade melhor.


Referências: 

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Indignação: cartas pedagógicas e outros escritos. São Paulo: Editora UNESP, 2000.
BAUMAN, Zygmunt. 44 cartas do mundo líquido moderno. Rio de Janeiro: Zahar, 2011.
TOLSTÓI, Liev. Os últimos dias. São Paulo: Penguim Classics Companhia das Letras, 2011. 

Charges: do autor. 

quarta-feira, outubro 24, 2018

Roger Waters e o FEBEAPÁ da estupidez



O Festival de Besteiras que Assola o País, mais conhecido pela sigla FEBEAPÁ, foi uma criação do grande escritor e jornalista Sérgio Porto, que adotava o pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta. O FEBEAPÁ foi uma coleção de 03 livros publicada na década de 1960 em plena ditadura militar e usava do humor para satirizar os atos cometidos pelo regime e também declarações de generais, políticos e o “high society” da época. Sérgio Porto faleceu antes que o Ato Institucional número 5 (o AI-5) fosse institucionalizado e inaugurasse o período mais duro e violento do regime militar.

Se o grande Stanislaw Ponte Preta estivesse vivo, teria farto material para lançar novas coleções do FEBEAPÁ. Eu não tenho dúvida nenhuma de que ele incluiria no festival de besteiras que assola o país a reação de várias pessoas à turnê que o ex-baixista, cantor e compositor do Pink Floyd está fazendo no Brasil. Por conta do seu engajamento e posicionamento político que sempre foi uma característica muito marcante em suas músicas, álbuns e shows, Roger Waters está sendo acusado, acredite, de ter sido contratado pelo PT (Partido dos Trabalhadores) ou sabe-se lá por quem para fazer “showmícios” e campanha política durante o segundo turno das eleições presidenciais no Brasil. Até o Ministro da Cultura embarcou nessa.  



A turnê "US + Them" 

Waters está em turnê mundial desde 2017 quando lançou seu mais recente álbum: “Is this the life we really want?” (“É esta a vida que nós realmente queremos?”). Como em seus álbuns anteriores e nos últimos trabalhos com o Pink Floyd, as canções trazem forte pegada política. O álbum tem como alvo principal o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, mas também toca em temas complexos e atuais como o drama dos refugiados e, claro, uma constante desde “The Wall”: a guerra, causada por governantes “with no fucking brains” (“sem a porra de um cérebro”), como está nos versos de uma de suas novas canções. 

Sempre investindo muito no aspecto cenográfico dos seus shows, Waters leva todo esse protesto para o palco, com os imensos telões, balões, projeções a raio laser e animações que compõem o que ele chama de “espetáculo da resistência”. É, sem dúvida, um espetáculo impressionante, emocionante e inesquecível, tanto musicalmente (as eternas e clássicas músicas do Pink Floyd e do seu trabalho solo) quanto visualmente.



Este mesmo show (banda, repertório, cenário, engajamento político) tem sido levado a todos os países onde a turnê aporta – Estados Unidos (na terra de Donald Trump!), Canadá, Europa, Oceania e América Latina, quando finalmente chegou ao Brasil justamente no período de uma das eleições mais polarizadas e agressivas da história recente do país - as datas dos shows no Brasil, aliás, foram anunciadas ainda em Dezembro de 2017 (eu garanti o meu ingresso para o show em Salvador tão logo iniciaram as vendas). Sua passagem por terras brasileiras não passa despercebida de modo algum: durante seus shows, Waters bate pesado em Trump e em políticos classificados pelo artista como fascistas em ascensão no mundo, como Vladimir Putin (Rússia), Marine Le Pen (França), Sebastian Kurz (Áustria) e Jair Bolsonaro (Brasil). 

Ao se depararem com o nome do candidato brasileiro da extrema-direita, eleitores e apoiadores de Bolsonaro presentes no show explodiram em vaias e a coisa ficou mais tensa quando apareceu no telão o lema “Ele não”, que surgiu nas redes sociais e ganhou as ruas em grandes manifestações contra o candidato que acumula em seu histórico declarações a favor da tortura e da ditadura militar, além do desprezo a homossexuais, mulheres, negros e até mesmo a defesa de fuzilamento de um ex-presidente da República - declarações que valeram o título de "político mais repugnante do mundo" concedido por um site australiano. Obviamente que um político deste porte e com grandes chances de ser eleito presidente entraria no alvo de Roger Waters em sua turnê pelo Brasil. Em 2017 até o presidente Michel Temer entrou na dança do ex-Pink Floyd.

Empty Spaces (espaços vazios)

A furiosa e intempestiva reação de vaias e xingamentos daqueles que se dizem fãs de Pink Floyd e foram ao show de Roger Waters demonstra não apenas o desconhecimento sobre o trabalho que o músico realiza há mais de 40 anos: é uma amostra perfeita do FEBEAPÁ, o festival de besteiras que assola o país revivido em tempos sombrios e de ostentação orgulhosa da ignorância. Pelas redes sociais, espaços que o escritor italiano Umberto Eco afirmou (até de forma exagerada) darem voz para uma legião de imbecis, vídeos e comentários indignados de apoiadores de Bolsonaro espalharam por todas as direções com extenso repertório de ofensas e acusações possíveis e imaginárias ao artista. As queixas mais comuns eram de pessoas bradando que pagaram ingressos para assistirem a um show de rock, não a uma manifestação política. Chega a ser ridículo: quem conhece a trajetória do artista sabe muito bem que suas letras e shows, desde os tempos do Pink Floyd, são marcadas por um posicionamento político muito claro. A estes fãs raivosos, Waters deixou um recado:

“Se vocês, meus fãs, acharam que músicos devem apenas tocar suas músicas… é obviamente apenas errado. Não, não devemos. Nós temos responsabilidade como políticos e também como músicos. Eu acredito que todos os artistas, não interessa qual tipo de arte você faça, todos têm responsabilidades de usar a arte para expressar ideias políticas e criar demandas em favor dos direitos humanos para todos.”  Fonte: TMDQA

É impossível dissociar o trabalho de Waters com a política: em “Amused to death” (1992) ele mira suas letras contra o então presidente dos EUA, George Bush, a Guerra do Golfo e trata de temas como a influência da TV e a guerra sendo tratada como entretenimento, além do massacre da Praça da Paz, na China; em “The Final Cut” (1983), último álbum com a formação do Pink Floyd, lá estão as letras mirando contra a guerra das Malvinas, Margareth Thatcher (primeira-ministra inglesa) e Galtieri (ditador argentino), além de citações a Brejnev (líder da então União Soviética) e a campanha soviética no Afeganistão. Se quiserem um bom exemplo do conteúdo deste álbum, ouçam e prestem atenção à letra da música "The Fletcher memorial home": ali está um apanhado do que Waters defende em críticas bastante pesadas a governantes tiranos e ditadores, como bem definidas em versos como "did they expect us to treat them with any respect?" (eles esperam que os tratemos com algum respeito?). 

Nem vou citar sobre as temáticas que podem ser encontradas em álbuns como “The Wall” e “Animals” (este baseado no livro “A revolução dos bichos”, de George Orwell) para não alongar este texto. Mas deixo a sugestão para que procurem entender e apreciar estes dois espetaculares trabalhos do Pink Floyd, lançados ainda na década de 1970: continuam muito atuais e relevantes. Assim são formados os clássicos.   



Don´t be another brick in the wall! (Não seja outro tijolo no muro)

Ou seja, quem vai ao show do Roger Waters deveria saber exatamente o que esperar dele, principalmente quem se diz fã do Pink Floyd. Se eu vou a um show da Ivete Sangalo, do Capital Inicial, da Anitta, do U2, da Madonna ou dos Racionais MCs sei exatamente o que vou encontrar. Vaiar um artista que desempenha o seu espetáculo de forma competente e coerente com a sua carreira é bobagem. O gosto é de cada um e concordando ou discordando de algumas posturas e ideias, não alegue ignorância quanto ao conteúdo ou espere neutralidade de certos artistas. No caso de Waters não é uma questão de ser “show voltado para inteligentes” e nem precisa muito esforço para saber como poderia ser a apresentação, basta uma simples pesquisa no São Google ou no Youtube: vídeos, repertórios, o que ele falou ou exibiu nas telas no Canadá, na Dinamarca, na Austrália e em outros países em que turnê passou, tudo pode ser facilmente encontrado. 

Quem se dispusesse a pesquisar saberia que o espetáculo de Waters causou polêmica nos EUA, principalmente nos estados sulistas que mais apoiam Donald Trump; e por conta do seu engajamento político, vem perdendo dinheiro, ou melhor, deixando de ganhar: US$ 4 milhões  de verbas de patrocinadores que não gostaram nem um pouco de seu posicionamento contra o governo de Israel. O artista não recua e segue em frente com suas ideias. Diante disso, alguém esperava mesmo que um artista com a personalidade e histórico de Roger Waters não incluiria em seus protestos Jair Bolsonaro, um político que pode ser eleito presidente do Brasil e vem sendo observado com preocupação pelo mundo todo?  

É constrangedor ver um artista do porte e história de Roger Waters aos 75 anos e ainda com vitalidade para uma impressionante turnê mundial ser xingado pelo o que faz e defende há anos por pessoas que vão a seus shows e ser acusado de fazer parte em um suposto esquema de corrupção partidário. É constrangedor, repito, e também vergonhoso: na era da informação literalmente na palma da mão, é muito fácil ler as traduções das músicas, entrevistas, biografia e resenhas sobre seus álbuns para conhecer mais sobre o artista e não deturpar sua obra e tampouco seus ideais; no entanto, como o pessoal anda usando internet mais para espalhar Fake News e outras tolices a rodo e não se preocupa muito com interpretação de texto, não me surpreenderia nem um pouco se aparecesse a história de que o Lulinha (filho do ex-presidente Lula) está patrocinando a turnê de Waters pelo Brasil com o dinheiro da Friboi e da venda de uma Ferrari banhada a ouro. E muita gente acreditaria, pois o FEBEAPÁ continua firme e fornecendo material de sobra por aqui. 




Charges e fotos: arquivo pessoal do autor.  

quarta-feira, agosto 22, 2018

Os caminhos da literatura entre cordéis e gibis


A Festa Literária Internacional do Pelourinho (FLIPELÔ), em Salvador, é um evento que tem tudo para emplacar no roteiro dos amantes da literatura e até para quem não é muito chegado ao universo dos livros, pois há atrações para todos os gostos – desde oficinas lúdicas envolvendo literatura, teatro e contação de histórias até shows musicais e exposições. E o melhor: as atrações são acessíveis e gratuitas ao público, em um espaço que respira cultura todos os dias – o centro histórico de Salvador.

Nesta segunda edição da Festa pude conferir apenas um dia, no sábado (11 de Agosto), mas valeu a pena porque assisti a duas mesas ótimas de debates com escritores baianos: a roda de conversa com Aleilton Fonseca e Carlos Ribeiro e a mesa de debate entre os poetas Jotacê Freitas e Nildão – que também é cartunista “dos bão”. Quero falar um pouco sobre o que refleti desta última mesa.

Jotacê é cordelista, ou seja, um poeta da literatura de cordel. Este tipo de literatura é uma das mais ricas manifestações culturais populares, sobretudo no Nordeste e principalmente no sertão. O poeta nordestino, através de versos rimados, conta histórias sobre temas diversos - principalmente sobre o cotidiano do sertanejo, mas há espaço para temas envolvendo príncipes e princesas, dragões, religiosidade e políticos. Nildão, além de cartunista, também faz versos que ele chama de “nanoversos”: versos curtinhos que transmitem grandes mensagens – é como funcionam os poemas de origem japonesa denominados haicai.

Durante a prosa entre os artistas eu anotei alguns insights que surgiam. Lembrei do meu avô no sertão da Bahia: um homem que não teve escolarização formal, mas era ávido leitor e isso deveu-se, em grande parte, à literatura de cordel – ou “os ABC”, como ele chamava os folhetos. E, de fato, a literatura de cordel funcionava também como um instrumento de informação, letramento e alfabetização para o homem do sertão, pois é marcada por forte oralidade e sua linguagem era facilmente assimilada pelo povo, tanto declamada pelos cordelistas quanto lidas por quem estava dando os primeiros passos na leitura. Ousei comparar com a minha formação como leitor: aparentemente não haveria relação, pois nasci e cresci em ambiente urbano (São Paulo) e aprendi a ler antes mesmo de ir para a escola graças às revistas de Histórias em Quadrinhos, também chamadas de gibis. São universos bem diferentes.

Marginalizados

No entanto a Literatura de Cordel e as Histórias em Quadrinhos têm algo em comum: durante muitos anos foram discriminadas e rejeitadas pela elite cultural, acadêmicos e escolas. Eu sou do tempo em que levar um gibi para a escola era “infração disciplinar grave”, pois as HQs eram vistas como instrumentos de distração e desestímulo para os estudos, além de não colaborarem para o desenvolvimento moral e ético dos jovens – muito pelo contrário: acreditava-se que as HQs estimulavam atitudes violentas e indisciplina. Felizmente as HQs atualmente têm aceitação pedagógica e são consideradas importantes recursos para a formação de leitores. O cordel também sofreu o preconceito por ser um gênero literário próprio das camadas populares e assim era visto com desprezo pela elite cultural, pois além de não ser produzido por autores renomados e não apresentar a erudição acadêmica em seus folhetos, a sua linguagem não seguia a norma culta da língua portuguesa, o que gerava comentários carregados de preconceito linguístico e social em relação aos seus poetas. De uns tempos pra cá vem ganhando espaço e apreciação nos meios acadêmicos entre professores, pesquisadores, universitários e também parte da classe média.

É curioso notar como certas expressões artísticas e culturais que são populares sofreram discriminação e com o tempo foram reabilitadas e os seus valores reconhecidos. Os cordéis e as HQs ajudaram na formação de leitura de muitas pessoas ao longo dos anos graças à sua popularização e linguagem acessível. O distanciamento acadêmico destas realidades levou a conclusões apressadas e ajudou a consolidar estereótipos que não contribuíram na formação de leitores – lembro de uma consagrada autora de literatura infantil afirmar que“Harry Potter não é literatura”. Eu sempre bato na tecla que é preciso dessacralizar a literatura, assunto que já tratei em outro momento

Voltemos ao rumo da prosa: ao ampliar um pouco mais o leque de reflexões eu lembro imediatamente da street art (arte de rua) através do graffiti/grafite: muitas vezes confundido com a simples pichação, o grafiteiro era (ou ainda é) considerado uma figura marginal, um vândalo a “pichar os muros da cidade”; a cultura Hip Hop e o RAP também são alvos de preconceitos e tomados como manifestações de baixo nível cultural. O que temos, na verdade, é a arte que emerge das camadas populares através das letras, das ilustrações, da dança, da poesia e isso é bastante significativo, pois trata-se da quebra de padrões – e tudo aquilo que destoa dos modelos padronizados e elitizados culturalmente causa desconforto e rejeição. 

Evidente que precisamos ter os nossos filtros e critérios, porém essa é outra discussão. Apenas escrevi em mal digitadas linhas algumas breves reflexões surgidas durante encontros e debates sobre literaturas. Eu sou entusiasta da ideia de que mais cidades deveriam abrir espaços e vozes para eventos como a Flipelô ou ideias parecidas. Afinal, é conversando que a gente entende – e com humor, como demonstraram Jotacê e Nildão, tudo fica mais leve e divertido. E até arrisca uns versinhos de cordel: 

O cordel tem grande valor
Para a cultura do sertão:
Registro histórico popular
É fonte de leitura e diversão.
Gibis também vou valorizar
Pois ajudam na alfabetização!

Discriminados muito tempo,
Cordel e gibi hoje são aceitos
Em todas as rodas sociais.
De crianças a adultos feitos,
Palavras e artes visuais
Se unem sem preconceitos!

Porque leitura se faz assim,
O povo gosta de boas histórias.
E tem gente muito habilidosa
Mesmo sem famas ou glórias,
Fazendo arte bem caprichosa
Em traços e palavras meritórias!

Deixemos nos levar
Pelos caminhos da literatura!
Sem rótulos, sem julgamentos
Leitura não é nenhuma tortura
Então leia sem constrangimentos:
É romance, magia, aventura! 


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Confira o trabalho dos autores citados no texto:

Carlos Ribeiro: Site contendo biografia, produção e fotografias.  


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