terça-feira, fevereiro 21, 2017

De volta ao passado


Uma das cenas mais surreais e fascinantes da história do cinema pode ser vista no filme Super-Homem, com Christopher Reeve no final dos anos 70: inconformado ao ver Lois Lane soterrada após um terremoto, o homem de aço voa ao redor da Terra em sentido anti-horário e simplesmente muda a rotação do planeta (!). Com isso, o tempo “voltou para trás” e assim ele conseguiu salvar sua amada.

Às vezes penso que estamos neste movimento “de volta ao passado” quando deparo com algumas teorias que caberiam bem à Idade Média ou tempos anteriores. É até engraçado ler as teorias conspiratórias sobre a chegada (ou não) do homem à Lua, mas quando leio em pleno ano de 2017 algumas teses (sic) sobre “a Terra é plana” defendidas e compartilhadas por muita gente (entenda que é muita gente MESMO: joguem no Google o termo “flat Earth” ou “Terra plana” e vejam a quantidade de resultados), a coisa perde a graça.

Perde a graça porque se há quem acredite em uma teoria refutada há séculos e com todo embasamento científico, o que impede que grupos e pessoas acreditem também em outras ideias ultrapassadas, absurdas e inverossímeis? Ainda hoje encontramos por aí quem utilize como "argumentação" conceitos oriundos do racismo científico que eram muito comuns no século XIX e parte do século XX.  E o que dizer do “movimento antivacina”? Outrora sustentado por adeptos de teorias conspiratórias envolvendo a indústria farmacêutica, hoje encontra apoio de muitos pais que recusam vacinar seus filhos por medo de efeitos colaterais nas crianças – experimentem uma pesquisa rápida no Google sobre “autismo e vacinação” e vejam os resultados. Vocês encontrarão de tudo, até uma celebração (!) chamada “Festa da catapora”. Impossível não lembrar da Revolta da Vacina ocorrida em 1904 no Rio de Janeiro.

E isso é só um pequenino exemplo do que encontramos por aí. O que preocupa é que tais ideias são compartilhadas e ostentadas com orgulho pela internet, sobretudo nas redes sociais.  Neste ponto Umberto Eco estava correto quando falou em “idiotas da aldeia” que ganharam voz, embora Aldous Huxley também chamasse a atenção lá nos longínquos anos 1930 para os esnobismos (crescentes) da ignorância. Não é algo novo, no entanto é mais rápido e tem maior alcance: algumas dessas teorias espalham com velocidade impressionante (tão rápidas quanto o Superman) e encontram adeptos dispostos a darem créditos a elas, mesmo com toda a informação científica e acadêmica disponível na palma da mão, literalmente. 

Fica a sensação de que se o Super-Homem fosse real talvez ele desprezasse a ordem de seu pai Jor-El (“é proibido interferir na História humana”) e faria voltas com maior tempo de duração ao redor do planeta, voltando uns 4 milhões de anos. A humanidade poderia recomeçar e assim fazer as coisas direito. 

quinta-feira, janeiro 26, 2017

Os idiotas da aldeia


O escritor italiano Umberto Eco, falecido em 2016, em crítica à internet e principalmente às redes sociais utilizou o termo “idiotas da aldeia” para referir-se ao que ele chamou de “portadores da verdade”, pois estes “têm o mesmo direito à fala que um ganhador do Prêmio Nobel”.

Há quem pense que o autor de obras como “O nome da Rosa”, "Cemitério em Praga" e “Baudolino” exagerou, pois além de soar como uma crítica elitista, a internet e as redes sociais também deram vozes a muitos excluídos das grandes mídias que têm coisas interessantes para contar - além de quebrar monopólios de grupos que detinham o poder da informação; esse tipo de a crítica de Eco sobre a imbecilidade (que grassa pela internet) pode ser conferida também no bate-papo com Jean-Claude Carrière, publicado sob o título “Não contem com o fim do livro” (2009):

Ser culto não significa necessariamente ser inteligente. Não. Mas hoje todas essas pessoas querem se fazer ouvir e, fatalmente, em certos casos fazem ouvir apenas sua simples burrice. Então digamos que uma burrice de antigamente não se expunha, não se dava a conhecer, ao passo que, em nossos dias, vitupera.”

Ao navegarmos pela internet e redes sociais encontramos perfeitos exemplos do que Eco quis dizer. As caixas de comentários nos portais de notícias estão repletas de pérolas de tamanha imbecilidade que chegam a assustar aos desavisados (ou corajosos) que resolvem ler as “opiniões” sobre determinadas notícias – independentemente dos temas. O criador da Wikipedia, Jimmy Wales, também afirma que estes espaços para comentários são formados “basicamente em idiotas gritando uns com os outros”.

O mais preocupante é que tal imbecilidade é ostentada com orgulho por muita gente que compartilha e ajuda a disseminar tais ideias. Sob a justificativa da “liberdade de expressão” e da “opinião livre”, não é difícil encontrar expressões agressivas que descambam para preconceitos e ofensas publicados todos os dias em diversos ambientes virtuais, promovendo intolerância e incitando a violência. Em 2014 foram recolhidas mais de 86 mil denúncias de racismo e 4,2 mil de homofobia pela internet, segundo a ONG SaferNetBrasil. O chamado "discurso de ódio" é simplista, raso e superficial em análise, o que é bastante atrativo para muita gente. Isso é bastante perigoso, pois estes discursos podem sair da esfera virtual para se transformarem em agressões de fato no "mundo real".  

Isso relaciona-se também com a imensa quantidade de notícias falsas de “autoria desconhecida” circulando pelas redes sociais e aplicativos de mensagens via celular. Não seria tão difícil reconhecer parte considerável dessas informações como falsas: em geral são textos mal escritos que apresentam erros gramaticais gritantes e não possuem fontes consistentes. Sem aprofundamento na leitura, as figuras de linguagem (como a ironia) sequer são percebidas pelo leitor, independente do seu grau de escolaridade. Não à toa que há sites como o e-farsas e o boatos.org que se dedicam a desmascarar as notícias falsas que são rapidamente compartilhadas pelas redes.

Para o jornalista norte-americano Nicholas Carr, autor do livro “A geração superficial – o que a internet está fazendo com os nossos cérebros”, esse tipo de leitura apressada e superficial é preocupante: “A passagem da leitura para a conferida rápida está ocorrendo muito aceleradamente. (...) Não há nada errado com o navegar e o escanear, ou mesmo com a conferida rápida. (...) O que é diferente, e perturbador, é que ler por alto está se tornando o nosso meio dominante de leitura”. Com base apenas na chamada de uma notícia (sites e blogs sabem disso e assim promovem chamadas polêmicas para atrair mais visitantes) os “idiotas da aldeia” travam verdadeiras guerras verbais onde ofensas, acusações e julgamentos são apenas alguns “aperitivos” para aqueles dispostos a acompanhar certos grupos e comentários – isso quando a coisa não termina em tragédia, como o caso da dona de casa que foi espancada até a morte graças aos boatos espalhados nas redes sociais.

Em 2007 o criador do termo “web 2.0” e defensor do software livre, Tim O´Reilly, teve a ideia de publicar uma espécie de “código de conduta” para os blogueiros – o que causou grande polêmica à época porque tal medida foi vista por muitos como um ataque à liberdade de expressão. O tal “código de conduta” foi proposto por conta da agressividade vista nos blogs e buscava promover alguma civilidade no ambiente virtual. Dois itens daquele código talvez chamassem a atenção hoje: “nunca diga na internet aquilo que você não diria pessoalmente” e “não alimente os trolls”. Isso foi há 10 anos e ainda lidamos com a agressividade no meio virtual em plataformas diferentes porque ao que parece o clichê "pensar diferente não faz de alguém o seu inimigo" ainda não foi assimilado.   

Provavelmente os trolls e idiotas da aldeia virtual não passem de indivíduos que descarregam suas mágoas, frustrações (até sexuais), agressividade e tolices na grande rede. De qualquer forma é preciso cuidado até para filtrar as "amizades" em redes sociais e aplicativos. Como hoje somos todos narradores e comentaristas de assuntos que envolvem desde reality show culinário até a crise dos refugiados na Europa, é inevitável que encontremos também uma série de opiniões de todos os tipos – sensatas, inteligentes, idiotas. Não precisamos falar sobre tudo e todos, principalmente daquilo que não conhecemos bem ou tratamos apenas de forma superficial.    

Na era da pós-verdade seria bom se pudéssemos resumir tudo a uma expressão: bom senso, o grande desafio quanto à postura na internet -  e na vida, de modo geral.  

Referências:
Carr, Nicholas. A geração superficial: o que a internet está fazendo com nossos cérebros. Rio de Janeiro: Agir, 2011.
Carrière, Jean-Claude. Não contem com o fim do livro / Jean Carriére, Umberto Eco, Rio de Janeiro: Record, 2009.
 

segunda-feira, janeiro 23, 2017

Charges II semestre 2016

Publicada a primeira parte das charges que marcaram o ano de 2016, agora dou prosseguimento à segunda parte - o segundo semestre de 2016, mais especificamente. As charges são de minha autoria e publicadas no Instagram e Facebook. 


Tivemos olimpíadas no Rio de Janeiro! 


Uma das estrelas, o jamaicano Usain Bolt, fez o que se esperava dele e lamentamos que outras coisas não sejam tão rápidas quanto o atleta. 


Em relação ao desempenho dos atletas brasileiros, sempre há aqueles críticos com alto grau de conhecimento no esporte. 


A imprensa esportiva também demonstrou todo o seu preparo para comentar sobre os esportes olímpicos. 


Quando os atletas brasileiros começaram a ganhar medalhas de ouro (como Rafaela Silva, no judô), foi emocionante ver quantos apoiadores e amigos surgiram. 


E os políticos, é claro, que sempre investiram no esporte. 

2016 foi um ano para se preocupar com a alimentação e a saúde!




Novos ingredientes (como pelos de roedores) foram adicionados a produtos industrializados, melhorando o exigente paladar dos brasileiros. 


E a política? Ah, foi um ano de muitas transformações neste cenário. Começou com o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff e a efetivação do vice, Michel Temer, na presidência. Os deputados, todos conscientes e visando o melhor para o país, contribuíram. 



Com um discurso motivador, Michel Temer logo chamou o povo para o trabalho. 

Para isso cercou-se de gente nova e com ideias arejadas. 


Não tinha como dar errado: era só tirar a ex-presidenta para tudo melhorar!


E os bons ventos sopravam para a nação: Eduardo Cunha cassado - e logo depois, preso. O cheirinho da mudança, ah! 


Foi então que surgiu o Ministro da Educação com sua "reforma do Ensino Médio" abrindo espaço para gente com "notório saber" assumindo salas de aula. 

 

Porque claramente a escola brasileira atualmente é tomada por ideologias e doutrinadores terríveis. 


E o comunismo é um perigo real e imediato em nosso país. 


Mas uma nova esperança surgiu: as eleições municipais!


Teve menos sujeira (nas ruas) este ano, porém certas coisas não mudam. 


Com os ventos da mudança e fé no futuro, o negócio é trabalhar para a retomada do crescimento e do progresso!


E a aposentadoria, com sua proposta de reforma, vai se transformar em uma coisa lendária. O negócio é trabalhar, trabalhar e trabalhar. 


E melhor ainda: vestindo a camisa da empresa, que é importantíssimo. 


Vai ver por isso muita gente goste tanto da segunda-feira. 


Enfim, o Brasil segue em frente!


Com alguns espertalhões de sempre...


... com todo mundo se entendendo... 


O negócio foi sair às ruas... para caçar pokémons! 


O que é muito melhor do que assistir TV e conferir as notícias da política. 




sexta-feira, dezembro 16, 2016

Retrospectiva literária 2016


Como costumam dizer, 2016 foi um ano “tenso” em diversas áreas – e na política, nem se fala. É tempo das emissoras de TV e sites informativos exibirem suas retrospectivas do ano e desconfio que estas precisarão de muito tempo e páginas para que possamos relembrar de tantas coisas que aconteceram neste ano. Como de costume também faço minha retrospectiva literária, trazendo algumas obras que eu li ao longo do ano e que deixo como dicas para quem está procurando boas (ao meu ver) leituras. Vamos a elas. 
  
As vinhas da ira – John Steinbeck. (Editora Best Bolso, 585 páginas) 
Eu não gosto daquelas listinhas que trazem um apanhado de livros (ou filmes, lugares, etc.) que os apresentam como “obrigatórios” ou “livros que você DEVE ler” – leia o que quiser e quando puder, lembre-se dos direitos do leitor segundo Daniel Pennac. Mas no caso desta obra de Steinbeck eu a classificaria como “essencial” não apenas por ser muito bem escrita, mas principalmente por suscitar grandes reflexões sobre o homem, as relações de poder e os "sistemas" (bancário, penitenciário, econômico). Trata-se um retrato fiel dos cafundós dos Estados Unidos durante o período chamado de Grande Depressão causado pela crise de 1929: uma família (os Joad) que deixa (ou melhor, é expulsa) os campos de algodão de Oklahoma para tentarem a sobrevivência na Califórnia e ao longo do caminho enfrenta todos os tipos de provações e privações – o retrato da pobreza, dos sonhos despedaçados e da injustiça, mas também da solidariedade e da humanidade. Uma obra prima com narrativa ágil e sem rodeios, com personagens marcantes – bem ao estilo de Steinbeck.  

Quando Nietzsche chorou – Irvin D. Yalom. (Editora Agir, 373 páginas) 
Conheci a literatura de Yalom graças à leitura do bom “Criaturas de um dia” e gostei do estilo do autor. “Quando Nietzsche chorou” é um daqueles livros que ao final da leitura deixa a pessoa fascinada não apenas pela fluidez do texto, mas também por trabalhar com maestria temas que à primeira vista parecem complexos, como a filosofia de Nietzsche e a psicanálise de Freud – e estes dois grandes nomes são personagens deste romance que se juntam no quarto final do efervescente século XIX a nomes como Josef Breuer (um dos pais da psicanálise) e a incrível Lou Salomé. Uma obra inteligente, arrebatadora. 

Ragtime – E.L. Doctorow. (Editora Best Bolso, 277 páginas) 
Sabe aquele tipo de livro em que você devora as páginas e não quer largar de jeito nenhum até o fim da leitura? Este é Ragtime, que apresenta os Estados Unidos no início do século XX intercalando personagens fictícios com históricos do porte de Henry Ford,  o mágico ilusionista Harry Houdini, o multimilionário J.P.Morgan e a ativista anarquista e feminista Emma Goldman. O contexto histórico é riquíssimo: as greves, a pobreza (principalmente dos imigrantes), o poder da imprensa sobre a opinião pública e o preconceito racial – com um retrato da brutalidade policial sobre os negros, uma questão que infelizmente continua bastante atual nos EUA. O termo “ragtime” refere-se a um estilo musical muito popular nos Estados Unidos entre 1897 e 1917. Com frases curtas e ritmo marcante, Ragtime é um livro para ser apreciado como se aprecia uma boa música. 

O monge endinheirado, a mulher do bandido e outras histórias de um rio indiano – Gita Mehta. ( Companhia de Bolso, 199 páginas) 
A cultura indiana é uma das mais complexas, diversificadas e exuberantes do mundo. Permeada pela religiosidade, as histórias deste livro apresentam todas essas características em personagens que chegam às margens do rio Narmada:ascetas, músicos, ladrões, milionários, cortesãs, hinduístas, jainistas e burocratas como o administrador da pousada que deseja tornar-se um vanaprasthi, ou seja, uma pessoa que deixa as obrigações mundanas de lado para meditar na natureza. E é este administrador que recolhe e conta as histórias fascinantes que refletem toda a pluralidade desta milenar cultura.

Marcovaldo ou as estações na cidade – Italo Calvino. (Companhia das Letras, 143 páginas)
Marcovaldo é um homem puro, um humilde operário que busca por coisas simples para sua vida: o canto dos pássaros ao amanhecer, uma pescaria, o por do sol no morro perto da cidade, uma plantação de cogumelos, dormir sob as estrelas. Ele até consegue colocar em prática algumas ações, mas por pouco tempo: sempre acontece alguma coisa que atrapalha seus planos. De estilo cômico e com uma leveza que falta ao humor de nossos tempos, “Marcovaldo” diverte em seus 20 contos com as peripécias do nosso ingênuo e quixotesco personagem pela cidade. 

Contos húngaros: Kosztolányi, Csáth, Karinthy e Krúdi – Paulo Schiller (org). (Editora Hedra, 197 páginas)
A literatura do leste europeu sempre despertou curiosidade e fascínio para mim. Autores como Franz Kafka, Karel Capek (autor do sensacional “Guerra das Salamandras” e “Fábrica de robôs”) e Ferenc Molnár (de “Os meninos da rua Paulo”) dispensam maiores comentários por suas obras de grande qualidade literária. Este volume de contos húngaros apresenta um bom panorama da literatura húngara, tão desconhecida por aqui.  Os contos reúnem produções de autores do primeiro quarto do século XX e o estilo é conciso e agradável: Karinthy apresenta as desventuras de um aluno na escola, Krúdi traz dois contos que são complementares sobre um duelo e a “cereja no bolo” fica por conta de Kosztolányi, um contista de mão de cheia e uma das melhores descobertas a serem feitas sobre a literatura deste país tão distante. 

A festa e outros contos – Katherine Mansfield. (Editora Revan, 143 páginas)
Apontada como discípula de Tchekov, o genial contista russo, Katherine Mansfield é dona de uma personalidade marcante e encontra a literatura nas minúcias do dia a dia em fatos e pessoas que geralmente não despertam maiores atenções – tal como fazia Tchekov. Chegou a ser acusada de plagiar o escritor russo, mas isso logo se revelou infundado. Para que se tenha uma ideia do talento e sensibilidade de Mansfield, dentre suas admiradoras estão Virginia Woolf e Clarice Lispector: a leitura de contos como “a vida de Mae Parker” e “Uma xícara de chá” neste volume ajudam a entender o por quê.  

O Rei de Havana - Pedro Juán Gutiérrez. (Edição digital)
Encontrei este livro em versão digital e além deste formato só é possível encontra-lo em sebos. “O rei de Havana” segue a mesma linha de “Trilogia suja de Havana”, do mesmo Gutiérrez: linguagem nua e crua, seca e sem rodeios, com personagens miseráveis se virando entre os escombros da capital cubana e movidos a rum, salsa e muito, mas muito sexo. O “rei” nesta obra é Reynaldo, um jovem que passou por todos os tipos de tragédias possíveis e imaginárias até parar num reformatório, de onde foge e ganha as ruas da Havana e se envolve com prostitutas, travestis, drogas, turistas, trapaceiros e vive uma relação sórdida com Madalena. O estilo seco e direto de Gutiérrez pode assustar a alguns, afinal não se trata de “literatura limpinha” – quem conhece e aprecia a obra de Bukowski, Rubem Fonseca, Henry Miller e Reinaldo Moraes vai se identificar totalmente.  

E você, quais foram suas leituras preferidas no ano de 2016? 

domingo, novembro 13, 2016

Axl Rose: gente como a gente.


Hello, mundo, inicio dos anos 90: o Guns n´ Roses percorria o planeta com a grandiosa e extravagante turnê “Use your Illusion”. Mesmo com o surgimento do grunge, do Nirvana e de mais de 1 trilhão de bandas que tentavam copiar o estilo e a sonoridade da banda de Kurt Cobain, o Guns continuava firme na MTV, nas rádios e nos shows lotados – Axl Rose, o temperamental vocalista, era ídolo não apenas por ser um ótimo frontman pelos palcos com sua postura encrenqueira (no rock isso conta pontos) e um carisma gigantesco, mas também uma espécie de sex symbol do rock, com suas bermudas coladas, danças sensuais entre uma música e outra, além de um rostinho um tanto angelical, com longa cabeleira loira envolta em bandana descolada - havia até quem o chamasse de "barbie do rock" disputando o posto com Jon Bon Jovi e Sebastian Bach

Por aí pelo mundo, ano de 2006: após um hiato e retorno meia boca no início do século (sem o guitarrista Slash e o baixista Duff), Axl Rose surge renovado por festivais pela Europa e Estados Unidos. Com uma trupe de músicos contratados e tentando concluir a bomba chamada “Chinese Democracy”, Rose está robusto (mas não gordo), ágil no palco e parece ter voltado aos bons tempos quanto à voz. No entanto, continua o mesmo esquisitão de sempre, como relata John Jeremiah Sullivan: “Axl Rose, que não lança um disco oficial faz treze anos e que durante esse período se transformou num personagem que lembra Howard Hughes – pedindo comida por telefone (...) fazendo aparições ocasionais e assustadoras em eventos esportivos e desfiles de moda, coisas assim – parecendo um pouco selvagem, um pouco perdido”. Tão selvagem que naquele mesmo ano mordeu a perna (!) de um segurança de hotel na Suécia e foi preso.

Rock in Rio, 2011: ninguém consegue acreditar que aquele sujeito no palco é Axl Rose. Gordo, roupas largas e chapéus enormes tentando esconder um rosto inchado, movimentos lentos e até desajeitados, a sua voz lembrava o desenho do Mickey Mouse e estava acompanhado por uma banda que se ao menos tecnicamente era ok, tinha carisma zero – três guitarristas tentando soar tal como Slash nas canções clássicas do grupo. Axl Rose, quem poderia imaginar, havia chegado ao fundo do poço.

Olá, mundo, 2016! Tinha tudo para dar errado: é anunciado o retorno da “formação clássica” do Guns n´Roses, ou parte dela – o guitarrista Slash (que ao contrário de Axl gravou ótimos álbuns nos últimos anos – com exceção do Velvet Revolver) estava de volta juntamente com o baixista Duff McKagan; como se não bastasse, o vocalista do AC/DC, Brian Johnson, não poderia prosseguir com a turnê de sua banda devido a problemas de saúde e quem iria substituí-lo? Quando o nome de Axl Rose foi anunciado, ninguém acreditou – e os fãs mais radicais do AC/DC torceram o nariz.

Em diversas mitologias existe a história de um pássaro chamado Fênix que é capaz de renascer das próprias cinzas. O que estamos assistindo em 2016 é um Axl Rose renascendo dos desastrosos últimos anos - e para melhor. O appetite for rock voltou e o vocalista, agora com 54 anos, não apenas retomava sua voz e o gosto pelos palcos, superando todas as expectativas negativas tanto no Guns n´ Roses quanto no surpreendente AC/DC, como também deixa transparecer algo que não víamos até então: o sujeito parecia feliz.

Não era mais um sex symbol inacessível cheio de não-me-toques e chiliques de artistas temperamentais. Axl Rose ostenta uma bela barriga de tiozão do churrasco, os cabelos não são mais aqueles de propaganda comercial de shampoo, se veste como um roqueiro de meia idade que não troca aquela camiseta preta bacana (todo mundo tem uma que se pudesse seria a segunda pele) e usa um monte de balangandãs que poderiam ser encontrados em quaisquer lojinhas da galeria do rock em São Paulo. Antes avesso a máquinas fotográficas, agora tira fotos com fãs e até toma um cafezinho com eles, se deixa filmar e em algumas entrevistas ele demonstra um bom humor invejável. E os atrasos são dentro dos limites toleráveis – coisa de 20 minutos, em média. Ou seja, é um Axl Rose gente como a gente (guardadas as devidas proporções) que agora sente a passagem do tempo e ao contrário do que aparentemente tentava fazer há alguns anos, simplesmente aceita. Quando nos aceitamos com nossas limitações, imperfeições e abandonamos certas ilusões ( a da juventude eterna, por exemplo), a vida flui com mais facilidade - adaptação é uma boa palavra. Para um artista da área do cinema, da TV e da música isso sempre é mais complicado, pois a imagem é um componente fundamental não apenas para seu público como também para conseguir trabalhos em um universo que impõe padrões em relação ao corpo que beiram a paranoia – daí a familiaridade com nomes estranhos de métodos e substâncias como toxina botulínica (o popular botox, usado pelo próprio Mr. Rose), ácido hialurônico, laser CO2 fracionado, carboxiterapia, etc.

O escritor e professor Affonso Romano de Sant´Anna escreveu que “o que atrapalha alguns maus envelhecedores é a desmesurada projeção que fizeram de si mesmos”. Talvez Axl Rose tenha caído na real e largado um belo “fuck off” para toda essa projeção que não apenas ele mas muitos ainda sustentavam sobre sua imagem – esqueçam o rostinho do final dos anos 80, as bermudas e shorts colados, o sex symbol: estes ficam nos clipes, nas fotos, na galeria de mitos. Agora temos o nosso tiozão do rock que berra ao seu público “you know where you are?” para iniciar a festa com os bons e atemporais clássicos, solos de guitarra, baladas para se cantar junto e muita energia no palco, como visto nos shows no Brasil.   

Até quando isso vai durar ninguém sabe. O negócio é aproveitar a boa fase do nosso tiozão do rock ao lado do cada vez melhor Slash, do centrado Duff McKagan e grande elenco, abrir uma cerveja e partir para a nostálgica Paradise City, onde a grama é verde e ali, sim, o tempo parece passar devagar.  

Referências:

Sant´Anna, Affonso Romano. Fizemos bem em resistir: crônicas selecionadas. Rio de Janeiro, Rocco, 1994.

Sullivan, John Jeremiah. Pulp Head: o outro lado da América. São Paulo, Companhia das Letras, 2013. 

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