Thursday, May 08, 2008

Elevador também é cultura!

Apesar da minha profunda aversão a elevadores e também por já ter feito meus exercícios matinais, liberei-me de subir os degraus da escada até o segundo andar da empresa e fui mesmo naquela caixa metálica com uns barulhos de cabos de aço sendo puxados ( por que fazem aquele barulho do tipo "moído"?) pelas roldanas (calafrios!!!).

Logo acima do painel onde ficam os botões (tem uns botões ali que eu nunca saberei o que significam), um selo atestando a garantia da manutenção pela empresa ThyssenKrupp.

Não, não é propaganda da empresa. É que esses termos não me soam estranhos. Comecei a lembrar de algumas leituras e de algumas aulas de história.

THYSSEN é a metalúrgica alemã onde o “turco” Ali trabalhou em condições sub-humanas com seus companheiros também da Turquia. Não entendeu nada? Calma que eu explico.

Faço referência ao extraordinário “Cabeça de turco – uma viagem aos porões da sociedade alemã”, livro-denúncia do jornalista alemão Günter Wallraff. Wallraff disfarçou-se como turco, inclusive adotando um sotaque turco e com erros constantes à língua alemã, e passou 02 anos nesta condição registrando as experiências e recolhendo depoimentos que trouxeram à tona as condições degradantes do cotidiano dos imigrantes turcos na Alemanha.

Wallraff – ou Ali Sinirlioglu, seu pseudônimo adotado – escreve relatos indigestos:

“Hermann conta como as coisas funcionavam na Thyssen: ‘Trabalhamos de dezesseis, doze, treze horas horas num único dia – todos os sábados, todos os domingos, todos os feriados – sem parar. Páscoa, Pentecostes, não importa. Lá estávamos nós. Muita coisa precisava ser feita. Haviam desligado o alto-forno para ser totalmente limpo. Já imaginou? Trabalhamos como escravos, debaixo de chuva, vento, neve, frio – não importa. Os uniformes ficavam ensopados”.

Além da jornada massacrante, os turcos ainda tinham que conviver com todas as demonstrações de intolerância e preconceito:

“Vários banheiros da Thyssen vivem rabiscados com frases e insultos xenófobos. Nas paredes da fábrica também sempre há alguma pichação ofensiva aos imigrantes, e ninguém se encarrega de apagá-las. Eis alguns exemplos típicos dessa literatura de mictório, recolhidos dentre centenas nas instalações Oxygen I:


Merda boiando = turco nadando
Melhor mil ratos na cama que um turco no porão
Fuzilem todos esses turcos de merda!”


O livro foi publicado em 1985, há mais de 20 anos, portanto, causando grande impacto. Suponho que muita coisa deva ter mudado na Alemanha em relação ao tratamento aos imigrantes, especialmente os turcos. Uma amiga que vive na Alemanha me disse que os turcos são muito bem tratados na região onde ela vive.

Voltando ao nome Thyssen, não é apenas neste livro que há essa referência. Estudando alguns textos sobre o nazismo, vimos que tal nome está presente durante o período em que Hitler ascendeu ao poder na Alemanha:

“A guerra estava próxima ao fim (...) não tinham [líderes nazistas] escolha senão fugir de sua terra natal se quisessem escapar vivos. Para isso precisavam não apenas de uma rede de apoio composta de homens e mulheres simpáticos à sua condição, mas de uma quantidade substancial de dinheiro. Para isto, acredita-se que em 10 de agosto de 1944 foi realizada no hotel Maison Rouge, em Estrasburgo, uma reunião secreta dos principais industriais alemães ( incluindo o magnata do aço Fritz Thyssen, que financiou a ascensão de Hitler ao poder na década de 1930)”.

Este trecho encontra-se no livro “As sociedades secretas mais perversas da história”, se Shelley Klein e tem aquele gostinho tentador de “teoria conspiratória”.

Se houve tal reunião, aí entra para o ramo das especulações ( também relacionada a uma sociedade secreta conhecida como Odessa), mas o que há de verdade aí: que figuras expoentes do nazismo, como Adolf Eichmann ( chefe do gabinete judaico da Gestapo, reponsável por “caçar” judeus) e do Dr. Joseph Mengele ( o anjo da morte) fugiram e foram parar na Argentina contando com a mais do que prestativa colaboração de Perón, presidente argentino, isso é verdade;

E que o magnata Fritz Thyssen financiou o então emergente partido nazista no ínicio da década de 20, também é verdadeiro. Tanto que Thyssen escreveu o livro “I Paid Hitler”, onde conta detalhes de sua participação no nazismo. Thyssen tornou-se amigão do Fuhrer e beneficiou-se muito desta amizade.

Mas quando falamos de guerra mundial, lembramos de duas no século XX: a primeira guerra mundial ( 1914-1918) e a segunda guerra mundial ( 1939-1945). De comum a estas guerras, além do altíssimo número de mortes, foi a artilharia Krupp.

A empresa sempre foi especialista em aço, fundições e...armamentos. Criada em 1811 a então pequena fundição tornou-se empresa e cresceu ao longo dos anos, e o nome Krupp virou célebre ao criar canhões mais leves, móveis e com grande alcance de tiro. Durante a Guerra de Canudos, no sertão baiano, o exército brasileiro utilizou canhões Krupp para conter os revoltosos liderados por Antônio Conselheiro. Este episódio da história do Brasil está ricamente detalhado no extraordinário “Os Sertões”, de Euclides da Cunha.

E na primeira guerra mundial os canhões Krupp bombarderam Paris e eram produzidos em larga escala. Era a fornecedora principal de armas ao exército alemão, condição que perdurou também na segunda guerra mundial embora, ao que se indica, o herdeiro Alfred Krupp von Bohlen não fosse simpático ao nazismo, inicialmente. Mas os grandes acordos comerciais com o exército nazista talvez tenham mudado seu modo de pensar, já que Alfred tornou-se, em 1943, Ministro das Economia de Guerra, nomeado pelo próprio ditador alemão.

Preso e julgado como criminoso de guerra, Alfred Krupp teve sua fortuna confiscada, mas logo seria solto e fez da Krupp uma das maiores siderurgias do mundo, formando mais tarde o conglomerado ThyssenKrupp que faz também a manutenção deste elevador que talvez você utilize para chegar ao seu apartamento ou ao seu escritório.

Você já tinha pensado se um simples selinho de “visto de manutenção de elevadores” tinha tanta história assim?


Seção descontração
VÍTIMA DA SEMANA: FLAMENGO!( não tem jeito)
Enquanto isso, na África do Sul, provavelmente alguém já esteja arrependido:
E "cuma"era essa historinha aí?

Wednesday, April 30, 2008

Você sabe tocar berimbau?

A polêmica da vez fica por conta das declarações do professor Antônio Natalino Dantas, coordenador do curso de medicina da UFBA – Universidade Federal da Bahia, que justificou o baixo desempenho dos alunos de medicina no ENADE ( Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes) ao “baixo QI”. E ainda deixou a entender que o baiano, de forma geral, possui de fato um baixo quociente de inteligência: “baiano toca berimbau porque só tem uma corda. Se tivesse mais [cordas], não conseguiria".

O professor, que é baiano, também posiciona-se contra as cotas para afro-descendentes nas universidades.

Afirmações como estas não me surpreendem. Em diversos meios acadêmicos ainda perdura a vaidade de “mestres e doutores” ( a conhecida "vaidade acadêmica"), cada qual com sua pavonada julgando-se superior apenas por ostentar títulos e diplomas.

O referido professor meteu os pés pelas mãos. Em relação ao Q.I, trata-se de um teste que já não possui tanta relevância diante daquilo que chama-se inteligências múltiplas, ou seja, o “grau” de inteligência de um individuo não é “medido” apenas quantitativamente, como acontece no velho quociente de inteligência, mas também como o sujeito se relaciona com suas emoções, como desenvolve suas outras capacidades – inclusive a capacidade de percussão, dentre outros fatores.

O problema todo, mais uma vez, reside na educação e de como esta é tratada no Brasil.

A tendência hoje nas escolas públicas no ensino noturno é acabar o ensino regular e a adoção da EJA (Educação de Jovens e Adultos) ou variantes, mas quase com o mesmo esquema do velho supletivo.

Ao invés do aluno passar 04 anos estudando no ensino regular, em apenas 02 anos ele resolve "o problema". Mais 03 anos no ensino médio? Nem pensar.

Além do pouquíssimo tempo de dedicação aos estudos, ainda há a situação de penúria em muitas escolas, onde falta até giz e não raramente os professores precisam “tirar do próprio bolso” o material que as secretarias de educação deveriam oferecer. Um recurso indispensável como um simples livro didático é considerado luxo em muitas unidades de ensino.

O resultado disso? Uma massa enorme de analfabetos funcionais que sequer sabem preencher uma ficha com dados cadastrais.

Logo se percebe que não é com uma política de cotas que vai resolver o problema da inclusão quanto ao acesso a uma faculdade pública, pois é preciso que primeiro aconteça a inclusão quanto ao acesso a uma BOA educação pública e gratuita. O que precisa, de fato, é de uma política educacional séria no país.


Em contrapartida, na rede particular, o desinteresse por parte de muitos alunos também existe, mas neste caso o "desejo de aprender" é sustentado pelos pais que “pegam no pé” da garotada, pois pagam uma verdadeira nota nas mensalidades de colégios particulares acreditando em uma boa educação, sobretudo pelo o que é propagado por colégios “marqueteiros e de grife”.

E para que? Para o estudante passar no vestibular. Esse é o objetivo, via de regra. Então o estudante, muitas vezes, é "adestrado" para aquela finalidade.

Felizmente muitas dessas escolas já perceberam (ainda bem!) que o esquema "decoreba de fórmulas e escolas literárias" não serve mais.

E quando estudante moldado pela decoreba se depara com uma prova mais diversificada, acaba fracassando. O ENADE substituiu o antigo provão e, segundo o MEC, tem como objetivo avaliar os cursos universitários. As notas dos estudantes não são divulgadas e nem constam no histórico escolar. Para entidades estudantis como a UNE ( União Nacional dos Estudantes), o ENADE é apenas um “ranqueamento” das instituições, e não faz uma avaliação real do ensino superior, pois “O resultado do Enade não significa, necessariamente, que a universidade tenha uma boa qualidade de ensino, pois o aluno pode ter estudado somente para fazer a prova”

A Universidade Federal da Bahia, em seu curso de Medicina, um dos mais tradicionais do país ( na verdade o mais antigo), recebeu nota 2 em uma escala que vai de 1 a 5. Ex-estudantes de medicina da faculdade enviaram nota justificando o porquê da péssima nota no exame:

( os ex-estudantes) afirmam que a prova do Enade, realizada no domingo, 11 de novembro à tarde, ocorreu no período das avaliações de residência médica do estado de São Paulo, mais especificamente da prova da USP de Ribeirão Preto, realizada no dia 12 de novembro. "Muitos alunos, por priorizarem a prova de residência, não completaram todas as questões do Enade, ficando apenas o tempo mínimo exigido pela banca (1 hora), pois tinham que correr para o aeroporto para pegar um vôo para São Paulo e de lá um ônibus para Ribeirão", afirmam. Os ex-formandos dizem ter solicitado a liberação para não realização da prova ou então respondê-la no estado de São Paulo. Mas o pedido foi negado pelo Ministério da Educação.

Além de contestarem a data da prova, os ex-formandos afirmam que a maioria de seus colegas que realizaram a prova estão fazendo residência médica nas melhoras escolas do país, como a Escola Paulista de Medicina e a USP; e que o exame não pode traduzir a formação dos alunos, já que as questões são complexas e estudantes do primeiro semestre da UFBA também respondem a prova. "O Enade é completamente falho. Como estudantes do 1º semestre do curso podem responder questões subjetivas de prática médica, inclusive abordando diagnóstico e tratamento de determinadas doenças?", indagam.
Do site “Bahia Notícias”, de Samuel Celestino


Ou seja, não houve boicote declarado. As afirmações imbecis do “doutor-professor” Dantas também desviaram um pouco o foco de um desempenho tão ruim de um curso considerado “carro-chefe” da universidade, mesmo com as falhas na avaliação do ENADE apontadas pelas entidades estudantis.

Porém isso não justifica as infelizes e preconceituosas declarações do “doutor-professor” Antônio Natalino Dantas. Generalizações e determinismos lembram bastante as teorias eugenistas do começo do século XX e que eram muito bem acolhidas por pessoas como um certo Adolf.

UM DEBATE BOM

Em Salvador iria acontecer a surreal “Marcha da Maconha”, mas foi impedida pela justiça:

- Chegou ao nosso conhecimento a existência no site da descrição 'fume maconha', o que leva a crer num indício forte da prática de crime previsto na lei antidrogas, que é induzir ou auxiliar alguém ao uso indevido de drogas - afirmou Paulo Gomes Júnior, promotor de justiça. ( fonte AQUI)

Esta é a Lei 11.343/06:

“induzir, instigar ou auxiliar alguém ao uso indevido de droga acarreta pena de detenção de um a três anos, além de multa”.

Agora vem o debate bom. Não faço uso da erva e sequer sou simpático à droga, mas se “induzir e instigar” ao consumo da droga é prática de crime, o que as propagandas de cerveja continuam fazendo na TV aberta todos os dias em todos os horários?

Ou será que devemos nos deter ao simplismo das “drogas lícitas e ilícitas”?

Eis aí um assunto que dá pano pra manga!

E O RONALDO FENÔMENO, HEIN?
Pra distrair:


( Ministro Veiga é a alcunha deste que vos "escreve"...uhauhahua!)

Saturday, April 19, 2008

What, me worry?

Dois fatos que muito provavelmente tenham passado despercebido pela maioria das pessoas, já que a overdose midiática em torno do caso Isabella fez com que o Brasil “parasse” em alguns aspectos.

O primeiro fato foi a paralisação dos professores da rede municipal de Salvador por 5 dias, em uma tentativa de pressionar a prefeitura a conceder um aumento maior do que os 5% divididos em 2 vezes sem juros e sem correção monetária. Os professores não conseguiram um percentual maior, mas ao menos conseguiram que essa fortuna de 5% fosse paga integralmente já a partir de Maio. Uma vitória! Tem professor que nem sabe o que fazer com todo esse dinheiro!

O segundo fato foi o assassinato do estudante Ruan Sérgio, de 16 anos, por um adolescente de 13 anos de idade, quando saía da escola. Ruan foi morto com 2 tiros disparados de uma arma de fogo em poder do jovem de 13 anos. Os dois estudavam em escolas particulares.

O que uma coisa tem a ver com a outra?

Bastante. Segundo a sempre correta imprensa, 150 mil alunos da rede municipal de ensino foram prejudicados com a paralisação dos professores. Interessante a constatação da imprensa. Os alunos são prejudicados apenas quando há greve ou paralisação – e é claro que uma greve é prejudicial, sem dúvida. O problema é que muito raramente encontram-se reportagens do tipo “150 mil alunos da rede municipal de ensino são prejudicados pelas péssimas condições estruturais das escolas, falta de recursos e carga horária excessiva dos professores”.

Muitos pais sabem das condições estruturais e da falta de recursos de grande parte das escolas públicas ( apesar de certos “especialistas e mestres” em educação desprezarem tais condições preferindo culpabilizar o docente – afinal, mais de 90% das escolas brasileiras tem “água e luz”) e colocam os filhos em escolas particulares, onde acreditam que o ensino e a disciplina são melhores, deixando-os imunes à violência.

Este é mais um daqueles mitos propagados em cima do marketing de muitas escolas “de grife”. Geralmente vemos casos relacionados a drogas e violências como “exclusivos” de escola pública, de periferia, esquecida até por Deus. Como se escolas particulares fossem ilhas isoladas de todos os problemas, até mesmo os relacionados com drogas.

Em várias dessas escolas consideradas “de grife”, que fazem propaganda incessante em TV, revistas e jornais sobre “ensino de qualidade”, as orientadoras pedagógicas e diretores precisam fazer, e não apenas de vez em quando, a operação “abafa o caso”, com alunos que são pegos com drogas escondidos nas mochilas ou criam problemas na escola porque são usuários. Episódios de violência também são comuns. Imagem é tudo, e a imagem negativa deve ficar lá com a periferia, com a escola do governo.

Para muitos pais é bem mais cômodo largar (infelizmente, em muitos casos, é isso o que acaba acontecendo) o filho numa dessas escolas e deixar toda a responsabilidade para professores e coordenadores do que acompanhar o desenvolvimento dos filhos e passar mais tempo com eles. Claro, afinal é preciso trabalhar para trocar de carro ( zero, evidente) todos os anos só pra matar o vizinho de inveja, pagar a TV a cabo e viajar de preferência para Miami ou Nova Iorque, afinal isso é ser feliz.

Este adolescente que matou o Ruan simplesmente fez uma cópia da chave do armário onde estava guardada uma arma (que pertencera ao pai do garoto, morto há 10 anos), escondeu essa arma embaixo da cama e ainda tirou fotos para colocar em seu álbum no orkut. E matou o outro adolescente por conta de motivo fútil ( segundo testemunhas, uma discussão sobre futebol).

Será que esse jovem não tinha noção do que estava fazendo? Matar a sangue frio um rapaz apenas 3 anos mais velho do que ele não se configura apenas em um mais crime que engrossarão as estatísticas dos boletins da sempre eficiente e comprometida secretaria de segurança pública, e sim na triste constatação de o quanto a vida é banalizada. Mata-se por qualquer motivo porque é muito fácil conseguir uma arma. Mata-se sem remorsos porque isso já é comum. Tudo é facilitado. Não há limites. Lembra até propaganda de TV: tudo fácil, sem limites e sem enrolação!

As pessoas andam muito melindradas. Quem tenta orientar quanto aos limites é logo agredido, verbal ou fisicamente. Não se toleram restrições, fracassos, deveres. Nas escolas – públicas e particulares - vemos tudo isso sob a justificativa de “não desestimular o aluno e aumentar sua auto-estima”. Junte este quadro à super proteção de pais com discursos do tipo “estou pagando o salário de vocês pra que meu filho seja educado e não para que ele fique para recuperação! Vai estragar nossos planos de viagem!” e as famigeradas “aprovações automáticas” que teremos, enfim, cidadãos despreparados para lidar com frustrações, fracassos e alguns insucessos ao longo de sua vida. Sobram o consumismo e o conceito de "ser alguém na vida" ligado aos bens materiais que conseguiu, de forma lícita ou ílicita - não se faz mais essa distinção, o que importa é sustentar essa imagem.

Que tem a ver com o poder. O poder de humilhar, ostentar, de causar medo ( nunca se perguntou porque tantos magricelas passeando com seus pitt bulls por aí?), de superar o outro, de tirar uma vida quando bem quiser.

Educação constitui-se de três pilares fundamentais: família, escola e estado. A partir do momento em que família e estado eximem-se de suas responsabilidades, deixando a cargo apenas da escola a função de educar a criança e adolescente, não adianta pais procurarem escolas particulares sejam elas de grife ou não e nem a imprensa querer simplificar uma paralisação de professores com um viés populista ao estilo “o povo, como sempre, paga o pato”. Há questões bem mais sérias envolvidas e todas exigem responsabilidades. Responsabilidades por parte de pais, professores, governantes, sociedade. A escola fracassa. Claro. Está sozinha no processo.

Bom se essas coisas fossem mais simples. Acontece que não são. Não dá para resolver tudo com um cartãozinho de crédito.

Apesar de quererem fazer-nos crer que sim.

CONSEGUIRAM...

O caso da menina Isabella Nardoni já foi tema de dois posts aqui no Grooeland ( veja os dois últimos posts). Muitos blogs ( também de jornalistas) e sites só agora estão falando do que virou um “circo” ou um Big Brother. Bem, antes tarde do que nunca para perceberem, não?
Evidente que isso não é exclusividade de brasileiros. Basta lembrar dos terríveis tablóides ingleses, especializados em publicar notícias interessantíssimas que irão mudar o mundo, como se o príncipe comeu ou não a empregada no palácio. Na verdade, nem precisa ir tão longe, assim: que tal o Notícias Populares, Aqui Agora e o "povo na TV"?

Porém todo esse festival, essa histeria, pessoas que saem de cidades do interior só pra manter vigilância na frente da casa dos acusados ou da delegacia de polícia ( com celulares tirando fotos para depois mostrar aos vizinhos “olha aqui ó! ó o cara que matou a menina! Olha, olha eu tava lá” ) só pode ser resumida em uma palavra: ridículo.

Mas a imprensa deve estar feliz da vida. Estes links não deixam dúvidas que os objetivos foram alcançados:

Isso não é só apenas ridículo. É nojento. Que os imbecis façam bom proveito de suas câmeras digitais e celulares idiotas e registrem tudo para montar um álbum e dizer que “ao menos fizeram alguma coisa”. As escolas estão aí, com muito trabalho a ser feito; os asilos de idosos, os lares de crianças com câncer, os orfanatos.

Mas já há um avanço: até agora, não apareceu ninguém com um cartaz “FILMA EU GALVÃO”. Isso é que é um povo civilizado!

Friday, April 11, 2008

Holofotes, histerias e tudo como d'antes...

"Não existe mais muita diferença entre o jornalismo e a ficção, entre a novela e o jornal das 20h. O tratamento dado a um fato verdadeiro é o mesmo dado a um fato novelesco."
Roberto Albergaria, antropólogo*

Os holofotes, o desejo de aparecer em rede nacional, a fofoca, as apostas, os juízes, os palpiteiros, o circo, o espetáculo. Tudo isso continua envolvendo o caso da menina Isabela Nardoni na mídia.

O caso é sério, mas já se transformou em novela, em espetáculo. E a polícia colabora... a alimentar a central de apostas em que se transformou a imprensa deste país. Delegados, promotores, legistas, todos querendo seu minuto de fama com jornalistas ávidos pela “exclusividade”.

O povo consome tudo com o maior interesse. Ao fim do Big Brother, é preciso uma nova “diversão”, uma nova distração aos moldes de uma famosa novela em que o grande mistério era “quem matou Odete Roitman?”. Não é à toa que Adorno falava sobre uma indústria do divertimento, onde “o espectador não deve trabalhar com a própria cabeça”.

Divertimento? Pode um caso tão chocante destes ter alguma relação com diversão? Infelizmente, conseguiram. O crime continua sem solução. Não se encontra o culpado ou os culpados. Para boa parte da opinião pública, a culpa é do pai e da madrasta; para outros, o culpado é pedreiro; há quem aposte no porteiro; aprendizes de Sherlock Holmes juram que a mãe da menina tem culpa no cartório. Virou uma bolsa de apostas com certos apresentadores fazendo o papel de crupiês da mesa, mas de forma bem direcionada:

- Se você acha que SIM, que o pai da menina é o culpado, e as evidências todas demonstram que ele é o culpado, o sangue, a roupa, a irmã, tudo demonstra que ele matou a própria filha num crime bárbaro, então você liga para tal-tal-tal; mas se você acha que não...bom, se você acha que não, mesmo com todas as evidências que comprovam a culpa do pai da Isabela, então você liga tal-tal-tal. Cadê as imagem??? Cadê as imagem!!! Eu quero as imagem!!!

O espetáculo do Habeas Corpus do casal parecia a chegada do U2 ou dos Rolling Stones. Histeria, correria, flashes, câmeras...o Woodstock da imprensa foi a delegacia e agora será a casa do pai do Alexandre Nardoni.

Que pode ser culpado. Junto com a madrasta. Ou não. Ninguém sabe. Nem a polícia, que outrora julgou o caso “99% resolvido”, depois passou para “70%”, tampouco o promotou que sugeriu quem eram os culpados, depois disse que não sugeriu nada.

É lamentável a dimensão novelesca que o fato chocante da morte da menina Isabela alcançou e como chegou a esse ponto. Que, pelo visto, parece não ter mais volta pelos estragos deixados ao longo dos capítulos anteriores. Só falta chamarem o Horatio.


*Leia a excelente entrevista do antrópologo baiano Roberto Albergaria clicando AQUI ( e depois volte pra expor sua opinião).

SÓ PARA CONSTAR...
A dengue continua matando crianças no Rio de Janeiro.

BAZAR DO ABADIA! PROMOÇÃO!

Outro momento de histeria foi a mega-liquidação Abadia ( rimou) Produtos importados abaixo do preço e com grande desconto! Saldão bota-fora do Abadia!

Mais de 5 mil pessoas apareceram no Jockey Club de São Paulo para conferir as novidades do bazar. Canetas Hello Kit, camisetas de grife internacional, MP3, óculos de grife, bolsas, meias e cuecas usadas a preço de ocasião: entre 15 e 25 reais!

Como em toda a liquidação que se preze, houve tumulto e a polícia entrou em ação com spray de pimenta. Filas, empurra-empurra, protestos - a liquidação foi um sucesso! Promoção boa é a que tem tumulto na porta da loja!

A velha senhora decadente do high society ( que subornou o vigia do Jockey, lugar que freqüentara muito em sua distante juventude rica) comemorou o par de meias usadas e furadas adquiridas por R$ 1:

- Serve direitinho no pé do meu neto! Vou mandar a empregada fazer uma costurazinha boba aqui e tá novinha em folha. Agora quero ver se pego aquele sutiã por 2 reais pra minha amiga Dorinha Vieira do Amaral Cavalcanti e Lins, que tá passando por uma situação tão difícil, coitada...ainda não foi pra Paris este ano! Fico com tanta pena dela!

O mauricinho alien arrecadou por R$ 2 uma cueca Calvin Klein e não se importou com o tecido gasto da roupa íntima do traficante Abadia:

- O que importa é tirar onda com uma cueca que custa a mesada de 1 semana! Vou falar pros cara: essa é a cueca do Abadia! Comprei a cueca do Abadia por 2 real!
- Mas tá meio gasta...e suja, né? Tem um fiozinho marrom ali...
- Tem nada não brother...lavô tá nova!

Já o motorista que encarou uma fila durante 3 horas para entrar no bazar do Abadia agora tentava fazer uma troca:

- Peguei essa caneta importada da Relou Quíti por 5 reais e vi uma igualzinha lá na lojinha do bairro por 2 reais. Sem falar que a caneta aqui do bazar veio sem tinta! Queria ver se podia trocar a caneta por outra coisa, tipo um par de meia, uma tigela, um garfo, sei lá.

Até a perua de-classe-média-falida-metida-a-rica saiu satisfeita com o saldão bota-fora do Abadia:

- Comprei estes óculos Dior por 120 reais! E o melhor é que pude dividir em 3 vezes no cartão. Eles até financiavam caso eu levasse uma bolsa Louis Vitton, mas tenho uns cheques pra cobrir e uns empréstimos a pagar. Mas um Dior por 120 reais é irresistível! Todo mundo vai morrer de inveja!

Segundo a justiça, todo o dinheiro arrecadado no bazar do Abadia será revertido para instituição de caridade. Emocionadas, as crianças de uma das instituições dão o seu “muito obrigado”:

- Muito obrigado a todos os que compraram e ajudaram a gente e muito obrigado ao titio Abadia e...

Oooops! Corta!

Saturday, April 05, 2008

SENSACIONALISMO E HIPOCRISIA - A IMPRENSA NO CASO ISABELLA NARDONI E A QUESTÃO DO "EXISTIR"

Acabou a dengue no Brasil! A agonia de quem depende do serviço público de saúde na cidade do Rio de Janeiro e as mortes, sobretudo de crianças por conta de uma picada de mosquito, já não têm mais espaço na grande imprensa. Atualmente o grande “filão” do jornalismo - notadamente o telejornalismo - é montar acampamento defronte ao prédio onde a menina Isabella Nardoni, de 5 anos, que poderia ter sido arremessada do 6º andar ou mesmo deixada quase morta no jardim do prédio onde morava junto com o pai e a madrasta e transformar essa trágica história em verdadeiro circo.

Antes de continuar a leitura, é bom deixar claro: não se trata de um insensível escrevendo aqui. Claro que a morte da garotinha é um caso triste, trágico e que ganhou dimensão de interesse nacional e até internacional. Também não vou entrar na armadilha de opinar sobre quem matou ou como a Isabella morreu. Este texto procura abordar o sensacionalismo a hipocrisia por parte da imprensa e mesmo da opinião pública.


Trabalho em escolas situadas nas periferias de Salvador. Sim, Salvador também tem periferia, ao contrário do que propaga o marketing da “cidade da alegria, da festa e de praia o ano inteiro”. E nestas periferias acontecem verdadeiras tragédias que passam batido ou, quando muito, recebem pequeninas notas nos jornais.


Em 2007 um aluno perdeu parte da família para as drogas: dois irmãos (um que era usuário de drogas e um menino com 8 anos) e a mãe foram assassinados friamente no barraco onde moravam. A mãe chegou a implorar que poupassem a vida dos filhos mas não foi atendida e ainda teve a própria vida tirada pelos “cobradores”.

Há muitas outras histórias, desde a aluna que perdeu o bebê de poucos meses de nascimento por falta de assistência médica decente até o aluno adolescente que, sem antecedentes criminais e sem nada que o comprometesse, levou um balaço na barriga (disparado por supostos PM’s) e sobreviveu por milagre. Ou da menina que era violentada pelo próprio pai e não freqüentava a escola porque o homem não deixava ou mesmo da senhora que, viúva aos 60 anos, volta a realizar seu sonho: estudar, pois o marido não permitia que a mulher fosse para a escola e a agredia quando falava no assunto.

Quem lê estas mal digitadas linhas ( além dos meus 4 ou 5 leitores corajosos) pode argumentar que tais situações são decorrentes da “situação em que o Brasil se encontra”; há até quem diga que se a pessoa “morre por causa das drogas é porque procurou por isso”.

O tratamento dado pela imprensa e pela opinião pública a tais fatos citados acima, quando existe, é algo frio e distante. Estas notas simplesmente passam batidas, não merecem atenção, não causam “indignação nacional”, são tratadas como coisas comuns de periferia, de gente pobre e miserável. São apenas números que engrossam as estatísticas da violência cada vez mais assustadora e crescente em Salvador.


Tampouco acontece o nascimento de famigeradas “ONG’s” que fazem passeatas ridículas pedindo “paz” com todo mundo vestindo branco achando que tal ato irá ajudar alguma coisa contra a violência. Estes mesmos que estão ali pedindo “paz” vestidos de branco serão os primeiros a xingar de todos os nomes possíveis um motorista que deu uma “fechada” no seu veículo em trânsito. Infelizmente a CPI das ONG's arrasta-se a passo de tartaruga. O que tem de ONG picareta por aí levando (muito) dinheiro não tá no gibi. Taí um assunto que a imprensa deveria investigar com maior interesse.

E vamos deixar de rodeios: mortes como a da menina Isabella e do João Hélio, arrastado por bandidos no RJ, viram “destaque” e “comoção nacional” porque são vítimas brancas, de classe média e crianças bonitas. São episódios que chocam, sem dúvida, mas isso não é conversa de ressentido marxista ou de xiita esquerdista - o Brasil conserva suas formas de preconceitos sob o mito da igualdade racial. Basta verificar qual a preferência de crianças para a adoção no país: a maioria dos pais adotivos quer criança branca ou branca até moreninha.

A “revista” VEJA, guardiã da classe média que “sustenta esse país com seus impostos” já estampa em sua capa (toda preta, como se em “luto”) uma “investigação filosófica, psicológica, religiosa e histórica sobre a perversidade humana”.

Matar crianças é uma perversidade, sem dúvida, mas e quando uma mulher mata o marido, corta-o em pedaços, frita-os em óleo e depois são colocados em sacos plásticos não se configura em uma perversidade que merece também uma ampla discussão filosófica, psicológica, histórica e até religiosa?

Quando um menor de idade mata um bonito casal de namorados surgem imediatamente debates sobre a redução da maioridade penal para 16 anos, passeatas hipócritas “pela paz” e todo um sentimento de indignação. Só que tal sentimento e mobilização não acontece quando um grupo de jovens de classe média queima índio em praça pública, agride a socos e pontapés empregadas domésticas em pontos de ônibus e mata um policial para roubar um celular.

Aí acontece justamente o contrário: há alguma exposição dos fatos, mas logo notícias sobre a lenga-lenga da votação de uma emenda qualquer em Brasília viram destaque e o foco é o governo Lula, o futebol o noticiário internacional... ou o vencedor do Big Brother, a nova onda dos adolescentes, etc. O negócio é desviar o foco dos habeas corpus e dos advogados que entram em cena para livrar os filhos que “tiveram tudo na vida” da cadeia. Uma rápida visita a várias dessas escolinhas particulares sobretudo de “grife” é o suficiente para perceber que muitas crianças não “tem de tudo na vida”. Brinquedos e joguinhos eletrônicos não são o mais importante na formação de uma criança, mas isso é outra história.

E veja que interessante o tratamento da imprensa às manifestações: quando uma dessas ONG’s picaretas fecha o trânsito das avenidas nas grandes cidades para realizar suas “passeatas pela paz”, isso vira uma mobilização bonita e é algo positivo, pois trata-se de manifestação pela paz, pela ordem, pela justiça. Senhoras com seus óculos escuros gigantescos ( máscaras que escondem o espelho d'alma), com a cara retocada por meia dúzia de plásticas, botox, quilos de maquiagem e um poodle a tiracolo dão entrevistas profundas e relevantes que certamente farão os bandidos seguirem o sacerdócio e abandonarem o crime e o tráfico de drogas.

Em contrapartida, quando um grupo da periferia fecha o trânsito em uma rua ou avenida a fim de reivindicar justiça ou melhorias no bairro, tal ação é tratada como “tumulto” ou manifestação com “manobras políticas”.


E o pior de tudo: uma equipe de TV ou jornal cobre a manifestação e foca justamente no congestionamento causado pela passeata e o supra-sumo: entrevistas com motoristas revoltados que saem-se com o clássico “quer fazer manifestação tudo bem, mas não atrapalhe a vida dos outros” mas sobre os problemas do bairro, ou seja, o que deu origem ao manifesto, NENHUMA LINHA no jornal, nenhuma matéria mais apurada na TV. No máximo um frio e seco “os moradores protestam por segurança no bairro”. Pronto.

Tudo o que está escrito aí são chavões? Configura-se em “senso comum”? Soa simplista demais? Pode ser tudo isso. Não importa. Não há aqui nenhuma pretensão em acirrar uma ‘guerra de classes’ (quanta ingenuidade, Miriam Leitão!) ou posar de “porta-voz dos excluídos”.


Nada disso. É apenas a constatação: uma realidade ou um fato, para "existir", é preciso ser explorado pela TV e de preferência numa espécie de Big Brother jornalístico para indignar, comover a opinião pública, explorar o assunto exaustivamente - e agir até como "juiz", julgando e condenando quem é suspeito de um crime - para tornar-se "líder de audiência". E acontece o pior: o desejo de vingança por parte desta mesma opinião pública.


Neste caso da Isabella Nardoni, basta dar uma circulada pela internet para verificar os comentários que já julgaram e condenaram o pai e a madrasta como culpados pelo assassinato, embora a Justiça não tenha chegado a uma conclusão ainda.

A leviandade está em alta e em evidência. A mãe da Isabella, Ana Carolina, é acusada de "insensível" por não se descabelar em lágrimas ao dar entrevista; há até quem consiga imaginar que Ana Carolina vá, num futuro não muito distante, posar nua, pois ela é a "mãe do momento, bonita e serena". Ao menos no Brasil não existe a tradição de se transformar em séries ou filmes tais situações. Pensando bem, não é necessário. O tempo dedicado a este assunto nos telejornais ( de todos os gêneros, dos mais "elitizados", digamos assim, aos mais "popularescos") já é suficiente para uma película e continuação.


Quantas "Isabellas" não perdem a vida todos os dias em circunstâncias tão ou mais trágicas? Estas "Isabellas", se negras e moradoras de periferias, jamais existiram. Serão contabilizadas em estatísticas frias. Suas histórias não serão conhecidas. Não haverá missa. Não haverá indignação. Não haverá ONG. Não haverá pressão de grupos de direitos humanos. Não haverá reportagem de capa nas principais revistas do país. Não haverá novela ou Big Brother jornalístico.


Em suma, o visível nos aprisiona no visível. Para o homem diante da televisão é suficiente o que vê, e aquilo que não é visto não existe. Tal amputação é colossal. E se torna ainda pior pelo motivo e pela forma com que a televisão escolhe aquele detalhe visível, entre centenas ou milhares de outros eventos igualmente dignos de consideração.
SARTORI, Giovanni. Homo Videns - Televisão e pós-pensamento. p.71. Bauru-SP: Edusc,2001

Monday, March 31, 2008

ALELUIA, MANO!

Antes de qualquer coisa: xíitas bitolados, autômatos cristãos e politicamente corretos, não encham a paciência com comentários moralistas ou repletos de passagens bíblicas. Leiam todo o texto antes de fazer qualquer julgamento. Trata-se um texto de ficção ( mas baseado em fatos reais...hauauhauhauhauha!).

E quem gostou, claro, deixa um comentário. Estava na pauta um texto sobre o trânsito ( tá rascunhado) e tem outro sobre a dengue. Mas estes ficam para a outra semana ou quem sabe, ainda no final desta corrente semana ( falei bonito).

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- Bom dia, irmão! Como vai? Tudo bem?
- Olha, tô meio ocupado agora, tá?
- Ocupado para ouvir as palavras de Djesus?
- Jesus pode me falar outra hora, não?
- Ah, sim, mas quando Djesus vem a nosso encontro nós não devemos deixar passar!
- E ele veio?
- DJesus está sempre em nosso coração, está sempre conosco! Essa foi a palavra que ele nos deixou em Mateus capítulo tal versículo tal, mesmo que estejamos dormindo ele não nos abandona! E nós o abandonamos toda a vez que ele vem à nossa porta e não o atendemos.
- Vai ver, ele vem muito cedo e eu ainda esteja dormindo. Trabalho muito e...olha, passa outra hora, tá?
- Mas mesmo que o homem trabalhe muito sempre há de encontrar tempo para Djesus! Em Efésios capítulo tal e versículo tal está escrito que sempre precisamos usar nosso tempo a favor de Djesus sem esquecer as obrigações do dia-a-dia, embora estas não sejam importantes diante daquilo que Djesus promete!
- Ah, tá bom...explica isso pro meu chefe!
- Ele ainda não descobriu a palavra de Deus! E quando o homem descrente encontra as palavras de Deus através de Djesus uma grande transformação acontece em sua vida, como a palavra diz em Lucas capítulo...
- Escuta...vocês não conseguem dizer nada sem olhar na Bíblia?
- É a palavra de Djesus que seguimos e por isso...
- Olha, acho que vocês deveriam ser mais originais, sei lá. Vocês falam desse mesmo jeito para todo mundo que encontram por aí?
- Sim, porque a palavra de Djesus é única e...
- Mas tão erradas. A sua igreja tem departamento de marketing?
- Não. Djesus não é marketing, ele é o filho de Deus que...
- Sei, sei. Olha, queridas, admiro o trabalho de vocês indo de porta em porta e fazendo sua pregação e tal. Mas vocês tem que atingir a massa, sabe? Tem que estar antenada com esses tempos modernos!
- Mas a palavra de Djesus é eterna!
- E quem liga pra eternidade? O negócio hoje é consumir! Tudo quanto é produto tem vida útil de no máximo 4 anos justamente para que o consumidor volte e compre o mesmo produto em pouco espaço de tempo! Jesus prometeu voltar há 2 mil anos e ainda não apareceu. Isso é uma falta de respeito ao consumidor!
- Djesus deixou escrito na Bíblia os sinais que vão acontecer e estão acontecendo agora...
- O povo quer saber mesmo é de comprar um carro zero, uma casa na praia, festa, botar pose de óculos escuros e andar vestido como bacana, entende?
- Djesus dá tudo isso pra quem tem fé!
- E pra quem não tem? Nós temos que pensar nessa classe E..de "Excluídos da fé"! Temos que levá-los para o reino dos céus e assim torná-los consumidores! E um grande filão é essa massa de adolescente que tá por aí, à toa, mas doida pra consumir!
- Irmão, acho que já está confundindo tudo, deixe-me explicar...
- Tá, peraí, tô terminando. Então, vocês falam do mesmo jeito sobre as mesmas coisas...vocês assistem novela?
- De vez em quando só as novelas da Record, irmão!
- Não, pô...tem que ver as novelas da Globo! Olha só como o povo fala: “E ae galera tudo em cima?” ou “caraca que manero!” Então...me desculpem a sua preferência, mas a Globo ainda manda e define comportamentos no Brasil! Então vocês tem que usar o linguajar global para atingir novos rebanhos, pegou?
- Hã?
- Aff...deixa eu dar um exemplo: “Ae galera se liga só na história maneira que vou contar pra vocês! Jesus tava numa balada muito irada, mas aí o vinho acabou. Galera, que mico! Mas aí o Jesus falou: ‘Calma galera! Deixa a parada comigo!’. Pôôôô...então o cara pediu água mineral lá pro dono e quando chegou...galeeeeeraaaa!! Jesus transformou a água em vinho! Show!! Muito irado! Aí a galera que seguia ele falou: ‘Caraca! Sinistro! Ae Jesus, mandou bem!’. E aí galera história massa né? “ Entenderam o espírito da coisa?
- Hã...irmão, temos que ir agora. Tenha um bom dia e que Djesus o abençoe e...
- Não vão embora ainda não! Ei! Com essa estratégia que expliquei a vocês dá pra pregar numa lan house numa boa! Ei, peraí! Cadê meu folhetinho ou aquela revistinha com uns desenhos bacanas? Quanta pressa! E eu ainda ia mostrar esse vídeo pra elas...esses caras, sim, tão no caminho certo:


Tuesday, March 25, 2008

BIG BROTHER É A REFERÊNCIA DE SUCESSO NO BRASIL?

E hoje chega ao fim o edificante programa Big Brother Brasil, que durante meses atraiu as atenções de parte da população, virou tema de discussões tanto em botecos quanto faculdades, os portais de internet, jornais, revistas e programas de TV dedicavam páginas e tempos consideráveis para uma atração repleta de...vazios. Afinal, qual é o fascínio em se espiar a vida de quem só come-dorme-malha-conta piadas? Mas para o apresentador do programa, o intelectual Pedro Bial, os que ficam confinados na casa são “guerreiros” e “heróis”.

Coincidentemente, na mesma semana da “final” do Big Brother, chega ao Brasil (deportada) a cafetina Andreia Schwartz, que serviu como informante no caso que derrubou o governador do estado de New York, Eliot Spitzer ( entenda toda a história
aqui). A cafetina, que já planeja escrever um livro contando suas peripécias, foi cercada pelos repórteres como se fosse uma estrela de Hollywood. Nem Pelé, que estava no mesmo vôo, foi tão assediado quanto Andréia. E, segundo um amigo da cafetina, ela é uma “heroína no Brasil”.

Este Grooeland não tem pretensão e nunca terá de querer “posar de paladino da moralidade em torno desta falta de valores no Brasil atual”, mas é preocupante constatar o quanto se valorizam figuras absolutamente descartáveis, vazias, que muito pouco tem a oferecer.

Isso fica evidente quando damos uma pequena olhada no
blog de uma das participantes do BBB, a tal “finalista” Gisele:

Tudo q eu quizer o cara la de cima vai me ajudar e me dar toda coragem q eu puder e nao vai me faltar forcas p lutar,tudo q eu quizer eu vou tentar melhor do q ja fiz esteja meu destino onde tiver eu vou tentar a sorte ser feliz,estando com vcs eu sou forte pode crer o sonho estar no ar amor me faz dancar….muitos beijos carinhosfiquem com deus e liguadinhos hoje anoite;-0

O “conteúdo” interessante estende-se em outros posts:

oi pessaol bom dia p vcs,estamos com a visita da debora secco aqui na casa estar sendo muito legal a companhia dele muito agradavel uma pessoa muito gentil.espero que esteje tudo bem ai fora eu tou aqui ja imaginado a hora de ver vcs e minha familia que tenho muita saudade sem perde a garra de lutar.fique com deus merci por tudo;-)abracos carinhos p meus amigos da net vcs sao d+.nao v falar bobage

O grande problema não é a Gisele escrever desta forma ou ser incapaz de articular parágrafos lógicos e concisos sobre algum assunto ( mesmo que seja o vazio e o entendiante Big Brother); o grande problema é que uma Gisele vai tornar-se referência de sucesso para milhares de pessoas que assistem TV, acessam internet ( e acessar a internet deixou de ser exclusividade para as chamadas “classes A e B” com o
fenômeno das lan houses que surgem aos montes desde periferias a pequenos lugarejos do interior).

Não se trata de superestimar o poder de moldar comportamentos por parte da TV e tampouco subestimar a autonomia das pessoas. A “caixa mágica” está presente em
praticamente 98% dos lares brasileiros e ainda é a principal fonte de informação para milhares de pessoas. Informação e lazer, além da pretensa cultura. O conhecimento na sociedade difundia-se através de livros, escola, tradições orais (as velhas histórias contadas de pai para filho). Hoje a TV encarrega-se da difusão do conhecimento – se tal conhecimento é válido ou não seria outra discussão. Tanto que o professor Giovanni Sartori afirma que

A televisão não é somente um instrumento de comunicação; é ao mesmo tempo também paidèia [formação da criança, do homem], um instrumento “antropogenético” um meio que gera um novo ánthropos, um novo tipo de ser humano”.

Claro que isso não pode ser considerado como verdade absoluta, até porque seria até uma afronta duvidar da capacidade do ser humano de ter espírito crítico e autonomia. Mas por outro lado verificamos que essa “formação” vem mesmo ocorrendo principalmente entre boa parte dos adolescentes e dos adultos jovens.

Qual é o modelo de ascensão social vigente no Brasil? É se tornar ator, atriz (global, de preferência), jogador de futebol, pagodeiro ou cantor popular, modelo, ser famoso de alguma forma. Nem que seja tornando-se uma cafetina de luxo ou amante de um senador da república. O que vale é a fama e o dinheiro instantâneo.

E, se repararem bem, em nenhum destes referenciais de sucesso encontra-se relação com estudo, com escola, com leitura. Pelo contrário, neste mundo de fama e sucesso, até professora tem o sonho de virar uma atriz famosa, segundo a “pedagogia Xuxa”. A escola tenta de todas as formas atrair os jovens para que não desistam dos estudos. O mantra da aula “prazerosa e agradável” constitui-se num grande desafio aos professores com carga horária estressante e escolas sem recursos. Fazem o que podem, mas muitas vezes os alunos gostariam mesmo é de ter um controle remoto em mão para “zapear” por outros “canais”.

Não se trata de culpabilizar a programação da TV – é apenas uma constatação do que realmente acontece nas escolas e outros meios sociais. Uma alternativa interessante é utilizar estes programas de TV nas aulas. Poderia no mínimo gerar um debate sobre valores que temos hoje em dia e a sociedade que gostaríamos de ter.

E quando uma assembléia legislativa composta por vereadores eleitos pelo voto popular para legislar em prol da cidade resolve oficializar a futilidade ( aliás, trabalho de vereador parece ser a coisa mais fútil no Brasil) sob novamente o argumento de "sujeito desempenhou um papel importante" é porque a coisa chegou a um ponto complicado:

"Infelizmente não vemos com freqüência, pessoas comuns, homens e mulheres simples sendo agraciados e homenageados à altura de sua importância para a sociedade. A homenagem é mais do que justa por se tratar de uma pessoa que é a cara do Rio", disse o vereador Alberto Salles (PSC)durante a solenidade que premiou com a medalha "Pedro Melo" o ex-participante do programa Big Brother, Augustinho Fernandes, por "reforçar a imagem do carioca ao Brasil" ( confira a notícia AQUI).

Quem sabe se o blog da Gisele não poderia ser utilizado nas aulas de português e redação? Um exemplo de como não se deve escrever... um exercício interessante: reescrever, com concisão e coerência, o que a moçoila tentou passar para seus fãs. Talvez seja uma boa idéia...!

Enfim, este é o quadro que nós temos atualmente. Futilidades e sub-celebridades descartáveis que alcançaram seus 15 minutos de fama são os modelos de ascensão para milhares de pessoas que sonham em um dia estarem na tal casa do Big Brother ou criar uma música “de sucesso” ( créééééu!) para faturar dinheiro e espaço na TV. Como disse Adorno há mais de 70 anos, “toda conexão lógica que exija alento intelectual é escrupulosamente evitada”.



E É ISSO...AINDA BEM QUE SUMIU ( quando achamos que nos livramos...créééééu!!!)