terça-feira, setembro 27, 2016

A "reforma" do Ensino Médio

O texto a seguir foi publicado em meu Facebook e trata-se de uma breve reflexão sobre a reforma do Ensino Médio proposta pelo presidente Michel Temer. Segue na íntegra e sem edições no conteúdo, com apenas uma nota ao final. A charge também foi publicada na citada rede social.

                                                                    ***

“A forma do sistema educacional brasileiro até hoje é a do período colonial, se passa um verniz de modernidade, mas ele continua o mesmo.”
                                                                        Tião Rocha, educador e antropólogo.

E mais uma camada de verniz foi passada hoje com a chamada “reforma” do Ensino Médio (EM) via Medida Provisória (MP). O enxugamento curricular do EM passa pela não obrigatoriedade de disciplinas como Artes e Educação Física, além de Filosofia e Sociologia – e sob o verniz de modernidade, entram em ação a Escola em tempo integral, flexibilização curricular e a ênfase no ensino técnico e profissionalizante.

Basicamente é um retorno ao modelo da pedagogia tecnicista que vigorou nas escolas brasileiras durante as décadas de 60 e 70, voltadas para suprir a demanda de mão de obra para o mercado de trabalho – o instrumental, a prática e o utilitarismo predominavam e não havia abertura para desenvolvimento do espírito crítico, por exemplo.

Que o Ensino Médio precisa passar por reformas ninguém discute, porém a presente medida provisória não contempla diversos aspectos que atestam a precariedade das escolas como infraestrutura física, por exemplo, e a valorização docente – e neste último ponto abre um precedente perigoso: admitir pessoas e profissionais a partir do “notório saber” para ministrarem aulas sem formação específica na área é desestimular de vez a formação de professores em cursos de licenciaturas que já andam praticamente às moscas. Uma das grandes críticas em relação ao Ensino Médio é justamente no fato de muitos professores não possuírem licenciatura nas disciplinas em que dão aulas – isso acontece também pelo déficit de professores principalmente na área de exatas. Como estamos retrocedendo nesta área, talvez voltemos aos tempos do mestre-escola do século XIX.

É uma reforma com foco em quantidade – quantidade de horas na escola, quantidade de matérias obrigatórias retiradas do currículo – e não em qualidade. É o maldito utilitarismo que desde cedo condiciona as pessoas a tratarem a arte, a poesia, literatura, a diversidade musical e expressões lúdicas como “perda de tempo” e “coisas que não dão dinheiro”. Desta forma, como diz o educador português José Pacheco, o chamado turno integral não passará de uma dose dupla de tédio.



Notas:

1 -  O presente texto foi escrito no dia 22 de Setembro, anterior ao recuo na Medida Provisória que manteve as disciplinas de Artes e Educação Física no currículo obrigatório – ao menos por enquanto.
2 – Citações de Tião Rocha e José Pacheco: A escola e desafios contemporâneos / organização e apresentação Viviane Mosé. – 1ª ed. – Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013. 

sexta-feira, setembro 09, 2016

Viver para trabalhar ou trabalhar para viver?


Há alguns meses o presidente da Confederação Nacional das Indústrias, Robson Braga de Andrade, afirmou que o país necessita de “mudanças duras” na legislação trabalhista brasileira para retomar a competitividade da indústria e citou o exemplo da França, com a possibilidade em estender a jornada de trabalho para até 60 horas semanais.

Ao tomar conhecimento da fala do presidente da CNI lembrei o período em que trabalhei 60 horas semanais na área de Educação. Manhãs, tardes e noites preenchidos pelo trabalho e sem falar nos finais de semana em que eu não conseguia me desligar dos deveres profissionais e levava serviço para casa – provas e trabalhos para corrigir, preparação dos planos de aula/curso e material didático. O resultado deste ritmo foi desastroso sob todos os aspectos, sobretudo no campo emocional.

Mesmo após largar o “turno extra” e agora com a carga “normal” de 40 horas semanais, ainda assim dedico muito tempo ao trabalho fora dele (e quem é professor sabe que a sala de aula está por toda a parte: um filme na TV, uma música no rádio ou um cartaz na rua pode se transformar em plano de aula), embora não cometa mais loucuras como levar pilhas de papel para casa nos finais de semana. Já repararam, aliás, que o fim de semana aos poucos vai sendo engolido pelo trabalho?

O sonho da humanidade durante a chamada Revolução Industrial era reduzir o tempo de trabalho humano – as máquinas fariam todo o esforço. Não foi bem isso o que aconteceu: hoje continuamos trabalhando demais (até 15 horas diárias, como no caso de muitos executivos) e com as tecnologias, principalmente da comunicação, estamos sempre “disponíveis” para assuntos profissionais aos sábados, domingos, feriados e madrugadas. Geralmente a coisa toda começa com um “vestir a camisa da empresa” até chegar o momento em que você ganha uma “nova família”, ou seja, a empresa - isso sem falar no “patrão amigão” para o qual você moverá todos os esforços “em nome da amizade”.

“Seria glorioso ver a humanidade ter descanso uma vez na vida. É só trabalho, trabalho, trabalho”. Parece algo muito atual, mas isso foi escrito há mais de 150 anos por Henry Thoreau, no ensaio “Vida sem princípios” (publicado em 1863). Thoreau condenava o modelo de vida baseado no excesso de trabalho, consumo e velocidade e em sua principal obra, Walden (1854), ele aconselha: “Simplicidade, simplicidade, simplicidade! Eu digo: reduza suas atividades a duas ou três, e não a cem ou mil”. Não parece ser um ótimo conselho para estes nossos tempos repletos de atividades?

Como reduzir o ritmo e o excesso de atividades? Não existe uma receita ou fórmula mágica para resolver isso, afinal cada pessoa elenca quais são suas prioridades na vida e sabe (ou deveria saber) onde o calo dói; no entanto, eu diria que uma virtude é necessária para quem procura reduzir o ritmo de trabalho: coragem. Coragem de abrir mão de um horário extra, de um dinheiro extra; coragem para admitir que não consegue (e não pode) abraçar o mundo de uma só vez; coragem para desconectar ou ao menos ignorar as inúmeras mensagens no celular à noite e nos finais de semana; coragem para dizer “não” a algumas demandas e exigências profissionais que surgem de última hora e cujo prazo “é para ontem”; coragem para cortar determinados consumismos – como dizia meu avô, se você ganha 10 não queira viver como se ganhasse 20. 

Parece algo que um ermitão, um asceta hindu ou um monge budista diria e soa até como idealista (ou ingênuo) diante de tantas contas, dívidas e necessidades que assumimos no dia a dia, além das ameaças de patrões com o desemprego; porém, não deveríamos nos submeter a jornadas extensas e cansativas que são prejudiciais à saúde  e dedicando todo o tempo para o trabalho, transformando nossas vidas em uma lógica como esta descrita por Domenico de Masi no livro "O ócio criativo":

O funcionário deve demonstrar ao chefe que o tempo não é suficiente, que tem muita coisa para fazer e que é tão prestimoso e fiel à empresa, que se dispõe a assumir todas essas tarefas no overtime, até mesmo gratuitamente. Portanto, sacrifica a família e o lazer a este mito que é a empresa, colocando em primeiro lugar, acima de coisa. Por conseguinte, o chefe age de modo que a promoção, o aumento salarial ou somente o relacionamento de confiança dependam da fidelidade do empregado para com a empresa.

Tal lógica não é saudável para ninguém e nem mesmo para as empresas e para a própria sociedade. É sempre difícil quebrar paradigmas e padrões aos quais fomos condicionados, mas é preciso mudar alguns destes padrões, ou melhor, ter a coragem para mudar - a partir de pequenas mas significativas atitudes. E mais uma vez o nosso Thoreau apresenta boa dica para aquelas mensagens de trabalho no celular durante as madrugadas ou finais de semana: "Um homem é rico na proporção das coisas que ele é capaz de deixar de lado".        

sexta-feira, agosto 26, 2016

Os "derrotados" e "fracassados" nos Jogos Olímpicos Rio 2016.

Os Jogos Olímpicos Rio 2016 chegaram ao fim e foi tudo (ou quase tudo) muito bonito: as cerimônias de abertura e encerramento (com direito a Santos Dumont revoltando os norte-americanos, vejam só), os feitos históricos de grandes atletas como Usain Bolt, Michael Phelps e Simone Biles, a “descoberta” de Isaquias Queiroz ( porque a pequena Ubaitaba, às margens do rio de Contas, já o conhecia e sabia de seu potencial) e tantas histórias de superação no esporte - e que vão além

Fácil é falar dos vencedores, dos atletas que subiram ao pódio e conquistaram medalhas. Difícil para estes atletas é saltar, correr, nadar para bem longe dos oportunistas que sempre aparecem nestes momentos, demonstrando na prática o que diz o velho ditado “quando o filho é bonito, todo mundo quer ser o pai”. É fácil amar e orgulhar-se deles agora, mas quem lembrará da Rafaela, do Robson, do Isaquias, do Thiago, do Maicon daqui a algumas semanas? 

Os “programas esportivos” estarão muito ocupados com suas mesas redondas debatendo por horas um gol mal anulado pela arbitragem ou dedicando-se a matérias relevantes e essenciais para o esporte como o prato preferido, as tatuagens e o estilo fashion dos jogadores de futebol. (Sabemos que o futebol - masculino e de times da 1ª divisão do campeonato brasileiro -  movimenta grandes quantias financeiras em marketing, direitos de transmissão, audiência, etc., mas o Brasil não é o país apenas do futebol e outras modalidades esportivas atraem bastante interesse.)



Os atletas ganhadores de medalhas ainda têm chances e seus (poucos) momentos de glória no Olimpo midiático. Já aqueles atletas que não foram dignos dos deuses das mídias e do público por não conquistarem medalhas durante os Jogos amargarão as águas do rio Lete, o rio do esquecimento segundo a mitologia grega. Quem liga para o vice-campeão, para o quarto colocado ou para aqueles que foram desclassificados, terminaram em 59º lugar ou em último lugar?
  
Fabiana Murer fracassa”. 
As manchetes dos jornais não perdoam e nem os críticos das redes sociais com suas opiniões abalizadas de quem pratica esportes de alto desempenho com ótimos resultados. “Fracasso” é um termo muito duro para quem chegou a uma edição de Jogos Olímpicos após anos de treinamentos, privações, competições e seletivas classificatórias – e, no caso do Brasil, um verdadeiro feito, pois 06 em cada 10 escolas públicas não possuem quadra, diversas modalidades esportivas não têm visibilidade,  há toda uma série de dificuldades para os atletas treinarem e falta uma política de Estado para o desenvolvimento do esporte de modo geral, não apenas em termos de competição e profissionalização.


Louvamos os heróis, os exemplos dos quais podemos nos inspirar e usar como modelos e somos cruéis com aqueles que disputam uma competição e não alcançam os louros da vitória – a História, afinal, é contada pelos heroicos vencedores e por quem se destaca em seus campos de atuação. Apesar da derrota ser amarga, ela também pode ser reveladora, como demonstra o depoimento do atleta Luiz Felipe Outerelo, do Salto ornamental:

Eu me lembro muito de uma cena que aconteceu logo depois, e que só eu vi. As pessoas foram esvaziando o estádio, e eu ali, parado, sem acreditar no que tinha acontecido. E aí vi que só tinham quatro pessoas na arquibancada: eram quatro amigos meus de infância, que ficaram até o final para falar comigo. E de repente éramos só eu e meus melhores amigos lá, onde eu tinha acabado de cometer o erro mais grave da minha vida. 


O erro, a última colocação e o sentimento de frustração são terríveis, mas o atleta certamente sabe com quais pessoas poderá contar verdadeiramente em termos de motivação e apoio para prosseguir a sua trajetória no esporte. É importante também saber lidar com as frustrações – e não apenas no esporte, mas na vida: todos nós passamos por reveses, perdas, derrotas e com os atletas não é diferente. 

Muitos dos “heróis olímpicos” que louvamos hoje foram os “fracassados” de ontem e souberam trabalhar bem os seus insucessos, pontos fracos, dúvidas e o aspecto psicológico: habilidade, força, treinamento, resistência, concentração, precisão são fatores essenciais para um atleta, mas o lado emocional também é de suma importância, tanto quanto uma base para apoio e sustentação – interessante notar que até mesmo os atletas de esportes individuais contam com um treinador, nem sempre lembrado pela imprensa e grande público.

Daqui a 04 anos teremos os Jogos Olímpicos de Tóquio (Japão) e claro que os holofotes estarão voltados para os deuses atletas com seus recordes, medalhas e vitórias olímpicas. Mas certamente teremos ótimas histórias sobre os atletas esquecidos e longe do pódio em suas modalidades, como o halterofilista David Katoatau, de Kiribati, um conjunto de 33 pequenas ilhas que está prestes a desaparecer do mapa devido ao aquecimento global. Sem chances de conquistar medalha e nem um pouco preocupado com isso, David usou seu carisma e uma divertida dança para chamar a atenção para o terrível problema que o seu país enfrenta e alertar o mundo sobre as mudanças climáticas provocadas pela ação humana. 

As conquistas nem sempre se revestem de ouro, prata ou bronze.  

segunda-feira, julho 25, 2016

"Retrospectiva" do 1º semestre através de charges

Já estamos em meados de Julho e tantas coisas aconteceram no Brasil, no mundo e em nosso cotidiano que lembrar o que aconteceu há 2, 3 meses pode tornar-se algo bem difícil. Felizmente (ou infelizmente) temos registros em diversos suportes para reavivar nossa memória - textos, vídeos, imagens. 

Rabisquei algumas charges que foram publicadas em redes sociais como Instagram ( @jaimegbr) e Facebook. Agora disponibilizo também no blog.

RETROSPECTIVA 1º SEMESTRE 

Em Salvador o ano começou com o prefeito ACM Neto fechando diversas salas de aula da Educação de Jovens e Adultos (EJA) nas escolas da rede municipal. 



O governador da Bahia, Rui Costa, não ficou atrás e fechou salas de aula em escolas da rede estadual. 


Ainda sobre Salvador, tivemos artistas recebendo cachês bastante "generosos" do governo baiano

Sobra dinheiro para festas, mas...



Falando sobre música, tivemos a partida de Ziggy Stardust, o fantástico David Bowie, para as estrelas. 

Ainda sobre música, o retorno que surpreendeu: Guns n´ Roses com Axl Rose e Slash amigos de novo, contrariando algumas expectativas negativas - minhas, inclusive.


Um retorno, porém, não aconteceu: o ET de Varginha! 


Talvez o ET de Varginha não queira mais saber deste planetinha porque tem muita gente folgada por aqui...


E também para fugir da "gourmetização" que dá o tom nestes tempos. 


Mas não tenho dúvidas que os ETs nos acham... "exóticos", digamos. 






Isso sem falar em nosso comportamento pra lá de contraditório:


Também, nossas lideranças não são mais as mesmas. 


E sobre lideranças (ou a falta delas), o que dominou o noticiário no Brasil durante o 1º semestre foi o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff. 


A votação do impeachment na Câmara dos Deputados foi algo constrangedor e notado até pela imprensa internacional.





Com a "pressão popular" em grandes manifestações "contra a corrupção"...


...e Michel Temer e o PMDB ( e o PSDB, DEM e outros partidos) com a faca e o queijo na mão... 


... o desfecho para a (ex?) presidente Dilma e o PT foram inevitáveis: 



A polarização partidária no Brasil chega a níveis inacreditáveis e assistimos a uma espécie de "Macartismo tupiniquim" que fere o bom senso. 



É claro que isso descambaria em tolices  como o projeto "Escola sem partido". 


Enquanto isso, Michel Temer assume interinamente a presidência com um discurso otimista. 


É mais ou menos como aquele velho discurso motivador do patrão: 


Contra a crise, claro, trabalhe mais...


...e promova reformas profundas nas aposentadorias ( não disseram de quem) e sistema tributário. 



Com tanta notícia deste tipo, o melhor é tirar umas férias - bem longe de tudo. 


E seguir as recomendações médicas! 


Curtir um friozinho em Salvador no inverno é uma boa. 



Até porque tentar entender a política brasileira é para poucos. 


Até tentamos consertar as coisas devolvendo o Brasil aos seus primeiros donos...


... mas vamos seguir em frente, com muito otimismo! 

  


Nem nas festas juninas temos mais sossego...


...e muito menos dinheiro! 


Precisamos de longas e demoradas férias, isso sim. 




quinta-feira, junho 23, 2016

Parece que foi ontem.

Há 30 anos acontecia a tragédia de Chernobyl, na Ucrânia – então União Soviética. A explosão de um reator nuclear trouxe consequências terríveis para as pessoas e ao meio ambiente não apenas em Chernobyl, mas ao longo de diversas áreas da Rússia, Bielorrússia e Ucrânia. É considerado o pior desastre nuclear da história.

Eu era criança à época e vivíamos todos sob a tensão da Guerra Fria e de uma possível guerra nuclear entre Estados Unidos e União Soviética. O uso de armas nucleares estava presente no imaginário das pessoas e também na literatura, nas histórias em quadrinhos, nas teorias conspiratórias, no cinema – o filme “The day after” é um bom exemplo.

Curioso é que passaram 30 anos e parece que foi ontem, pois ainda consigo recordar vivamente muitos eventos relacionados ao fato naquela época. E tenho repetido muito a expressão “parece que foi ontem”.

Não faz muito tempo que eu vi a foto de uma garota chamada Francis Bean Cobain. O sobrenome já entrega: é a filha de Kurt Cobain, líder da banda Nirvana, que causou uma revolução no rock nos anos 90 - ouvir o álbum “Nevermind” proporciona uma sensação de frescor e empolgação típicas da juventude. E a filha do casal Kurt Cobain e Courtney Love já tem 23 anos de idade! Realmente, notícias que causaram grande impacto não são facilmente esquecidas, como Chernobyl, a morte de Tancredo Neves, o suicídio de Kurt Cobain, o ataque às torres gêmeas em Nova York. Não apenas notícias: o primeiro beijo, aquele dia especial na praia, uma viagem inesquecível.

As pessoas costumam assustar com a passagem do tempo. Dizem que o tempo está “passando mais rápido” e a impressão geral é essa, mas prefiro acreditar que é o nosso ritmo de vida e a relação com o tempo que está mudando. Hoje fazemos (muito) mais coisas, temos acesso a grandes volumes de informações e as notícias surgem tão rapidamente o quanto desaparecem ou são substituídas. Se por um lado tudo isso é interessante, pois nunca antes na História tivemos acesso tão fácil e imediato às informações, por outro parece que a nossa memória vai encurtando. Para o jornalista Nicholas Carr, “o influxo de mensagens competindo entre si, que recebemos sempre que estamos on-line, não apenas sobrecarrega a nossa memória de trabalho; torna muito mais difícil para os lobos frontais concentrarem nossa atenção em apenas uma coisa. E o processo de consolidação de memória sequer pode ser iniciado”. Isso é tão sério que alguns especialistas falam em “efeito Google”: não precisamos aprofundar ou sustentar atenção e concentração para memorizar um assunto, pois está tudo em São Google.  

Talvez isso possa ajudar a explicar o motivo pelo qual “eternizamos” alguns fatos, o que pode causar a impressão de que estes aconteceram recentemente, não importa quantos anos passem. Há quem chame de “memória seletiva”, porém sabemos que nosso cérebro registra ao menos 3 tipos de memórias: as de curto prazo, longo prazo e a ultrarrápida. E um componente fundamental para que certas memórias fiquem registradas por longo tempo é a emoção – tanto positivas quanto negativas. Como os mecanismos de memória são muito complexos, é o escritor uruguaio Eduardo Galeano que nos conta uma história vivida pelo fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado ao chegar à mina de Saint Elie, na Guiana Francesa. Um velho mineiro mostra uma fotografia trincada e borrada e diz: “Minha mulher é muito linda”. A conclusão da história, nas palavras de Galeano: “Ela tem vinte anos. Faz meio século que ela tem vinte anos, em algum lugar do mundo”. 

Quais serão minhas lembranças daqui a 30 anos se os ventos do tempo, como diz Galeano, não apagarem completamente suas pegadas? É claro que espero estar vivo (viver e sobreviver) para responder a esta pergunta, mas creio que a resposta vá além das milhares de fotografias que tirei com o celular nas viagens, shows e eventos especiais. Registros fotográficos são importantes e sempre serão, porém ainda prefiro guardar na memória aqueles momentos em que “parece que foram ontem” para ter histórias a contar sem recorrer a um meio digital. Resta saber se alguém vai querer ouvir, mas este é outro capítulo... 

Referências: 
CARR, Nicholas: A geração superficial - o que a internet está fazendo com os nossos cérebros. Editora Agir, 2011. 
GALEANO, Eduardo: Bocas do Tempo. L&PM, 2010.

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