quarta-feira, agosto 22, 2018

Os caminhos da literatura entre cordéis e gibis


A Festa Literária Internacional do Pelourinho (FLIPELÔ), em Salvador, é um evento que tem tudo para emplacar no roteiro dos amantes da literatura e até para quem não é muito chegado ao universo dos livros, pois há atrações para todos os gostos – desde oficinas lúdicas envolvendo literatura, teatro e contação de histórias até shows musicais e exposições. E o melhor: as atrações são acessíveis e gratuitas ao público, em um espaço que respira cultura todos os dias – o centro histórico de Salvador.

Nesta segunda edição da Festa pude conferir apenas um dia, no sábado (11 de Agosto), mas valeu a pena porque assisti a duas mesas ótimas de debates com escritores baianos: a roda de conversa com Aleilton Fonseca e Carlos Ribeiro e a mesa de debate entre os poetas Jotacê Freitas e Nildão – que também é cartunista “dos bão”. Quero falar um pouco sobre o que refleti desta última mesa.

Jotacê é cordelista, ou seja, um poeta da literatura de cordel. Este tipo de literatura é uma das mais ricas manifestações culturais populares, sobretudo no Nordeste e principalmente no sertão. O poeta nordestino, através de versos rimados, conta histórias sobre temas diversos - principalmente sobre o cotidiano do sertanejo, mas há espaço para temas envolvendo príncipes e princesas, dragões, religiosidade e políticos. Nildão, além de cartunista, também faz versos que ele chama de “nanoversos”: versos curtinhos que transmitem grandes mensagens – é como funcionam os poemas de origem japonesa denominados haicai.

Durante a prosa entre os artistas eu anotei alguns insights que surgiam. Lembrei do meu avô no sertão da Bahia: um homem que não teve escolarização formal, mas era ávido leitor e isso deveu-se, em grande parte, à literatura de cordel – ou “os ABC”, como ele chamava os folhetos. E, de fato, a literatura de cordel funcionava também como um instrumento de informação, letramento e alfabetização para o homem do sertão, pois é marcada por forte oralidade e sua linguagem era facilmente assimilada pelo povo, tanto declamada pelos cordelistas quanto lidas por quem estava dando os primeiros passos na leitura. Ousei comparar com a minha formação como leitor: aparentemente não haveria relação, pois nasci e cresci em ambiente urbano (São Paulo) e aprendi a ler antes mesmo de ir para a escola graças às revistas de Histórias em Quadrinhos, também chamadas de gibis. São universos bem diferentes.

Marginalizados

No entanto a Literatura de Cordel e as Histórias em Quadrinhos têm algo em comum: durante muitos anos foram discriminadas e rejeitadas pela elite cultural, acadêmicos e escolas. Eu sou do tempo em que levar um gibi para a escola era “infração disciplinar grave”, pois as HQs eram vistas como instrumentos de distração e desestímulo para os estudos, além de não colaborarem para o desenvolvimento moral e ético dos jovens – muito pelo contrário: acreditava-se que as HQs estimulavam atitudes violentas e indisciplina. Felizmente as HQs atualmente têm aceitação pedagógica e são consideradas importantes recursos para a formação de leitores. O cordel também sofreu o preconceito por ser um gênero literário próprio das camadas populares e assim era visto com desprezo pela elite cultural, pois além de não ser produzido por autores renomados e não apresentar a erudição acadêmica em seus folhetos, a sua linguagem não seguia a norma culta da língua portuguesa, o que gerava comentários carregados de preconceito linguístico e social em relação aos seus poetas. De uns tempos pra cá vem ganhando espaço e apreciação nos meios acadêmicos entre professores, pesquisadores, universitários e também parte da classe média.

É curioso notar como certas expressões artísticas e culturais que são populares sofreram discriminação e com o tempo foram reabilitadas e os seus valores reconhecidos. Os cordéis e as HQs ajudaram na formação de leitura de muitas pessoas ao longo dos anos graças à sua popularização e linguagem acessível. O distanciamento acadêmico destas realidades levou a conclusões apressadas e ajudou a consolidar estereótipos que não contribuíram na formação de leitores – lembro de uma consagrada autora de literatura infantil afirmar que“Harry Potter não é literatura”. Eu sempre bato na tecla que é preciso dessacralizar a literatura, assunto que já tratei em outro momento

Voltemos ao rumo da prosa: ao ampliar um pouco mais o leque de reflexões eu lembro imediatamente da street art (arte de rua) através do graffiti/grafite: muitas vezes confundido com a simples pichação, o grafiteiro era (ou ainda é) considerado uma figura marginal, um vândalo a “pichar os muros da cidade”; a cultura Hip Hop e o RAP também são alvos de preconceitos e tomados como manifestações de baixo nível cultural. O que temos, na verdade, é a arte que emerge das camadas populares através das letras, das ilustrações, da dança, da poesia e isso é bastante significativo, pois trata-se da quebra de padrões – e tudo aquilo que destoa dos modelos padronizados e elitizados culturalmente causa desconforto e rejeição. 

Evidente que precisamos ter os nossos filtros e critérios, porém essa é outra discussão. Apenas escrevi em mal digitadas linhas algumas breves reflexões surgidas durante encontros e debates sobre literaturas. Eu sou entusiasta da ideia de que mais cidades deveriam abrir espaços e vozes para eventos como a Flipelô ou ideias parecidas. Afinal, é conversando que a gente entende – e com humor, como demonstraram Jotacê e Nildão, tudo fica mais leve e divertido. E até arrisca uns versinhos de cordel: 

O cordel tem grande valor
Para a cultura do sertão:
Registro histórico popular
É fonte de leitura e diversão.
Gibis também vou valorizar
Pois ajudam na alfabetização!

Discriminados muito tempo,
Cordel e gibi hoje são aceitos
Em todas as rodas sociais.
De crianças a adultos feitos,
Palavras e artes visuais
Se unem sem preconceitos!

Porque leitura se faz assim,
O povo gosta de boas histórias.
E tem gente muito habilidosa
Mesmo sem famas ou glórias,
Fazendo arte bem caprichosa
Em traços e palavras meritórias!

Deixemos nos levar
Pelos caminhos da literatura!
Sem rótulos, sem julgamentos
Leitura não é nenhuma tortura
Então leia sem constrangimentos:
É romance, magia, aventura! 


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Confira o trabalho dos autores citados no texto:

Carlos Ribeiro: Site contendo biografia, produção e fotografias.  


sábado, agosto 11, 2018

A greve dos professores de Salvador: charges


A greve dos professores da rede municipal de Salvador completou 01 mês. Os professores pedem reajuste salarial de 6,8%, cumprimento do plano de carreira, eleição para diretores de escola e melhores condições de trabalho. A prefeitura insiste em apenas 2,5% de reajuste. 

Todos acompanharam ou viram imagens sobre uma manifestação dos professores em frente à Secretaria Municipal de Educação ser rechaçada com brutalidade pela Guarda Municipal. Bombas de gás e spray de pimenta foram usados pelos guardas para dispersar os professores - até mesmo uma ARMA foi apontada a um grupo de docentes. 

É lamentável ter chegado a tal ponto, mas ao mesmo tempo é emblemático por demonstrar como o país trata os docentes e a própria Educação. 

Não basta corte de salários; 

Não basta fechar escolas;
Não basta acabar com gratificações; 
Não basta tratar professores com desdém e desprezo. 
É preciso apontar ARMAS para professores em manifestação na secretaria de Educação. 
Armas, spray de pimenta, bombas de gás lacrimogênio. 
Como se fôssemos criminosos. 

Contra a truculência típica de covardes autoritários, 
Eu só tenho um lápis e um papel. 
É com eles que eu sigo. 
E sigo com os demais colegas em luta por valorização profissional, condições de trabalho decentes, contra o fechamento de escolas e pela Educação de Jovens de Adultos.

Só preciso de um lápis e papel: 









sexta-feira, agosto 03, 2018

Água em Marte para abastecer nossa fantasia




A recente notícia que pesquisadores italianos encontraram indícios de água líquida em Marte encantou a todos em nosso simpático planetinha e ainda levantou a hipótese sobre a existência de vida no planeta vermelho. E é claro que atiçou a fantasia de muita gente.

Marte sempre exerceu grande fascínio ao ser humano. Inúmeros filmes, livros, histórias em quadrinhos e desenhos animados foram produzidos com temas relacionados ao planeta e aos seus hipotéticos habitantes, os marcianos. Um dos episódios mais marcantes de nossa relação com Marte aconteceu em 1938, com a leitura dramática de notícias sobre uma invasão extraterrestre inspirada no livro “A guerra dos mundos”, de H.G. Wells.  Esta leitura, feita pelo cineasta Orson Welles e transmitida via rádio, foi tão convincente que espalhou terror nos Estados Unidos: as pessoas realmente acreditaram que a Terra estava sendo invadida pelos marcianos e entraram em pânico, congestionando ruas e estradas ao tentarem fugir da invasão fictícia. 

Hoje já sabemos muitas coisas sobre o nosso vizinho vermelho e até reunimos fotografias da paisagem marciana – temos um jipe rodando à vontade pelo planeta. Ainda assim a nossa imaginação continua fértil e há “excursões” previstas para Marte nos próximos anos. Teve gente do mundo todo que se inscreveu para uma viagem apenas “de ida” para o planeta aparentemente inóspito para seres humanos. A proposta não é apenas turismo, claro: é também para a colonização do planeta.

Sempre que falam sobre Marte e temas relacionados a ele como formas de vida e colonização, lembro do ótimo livro “As crônicas marcianas”, do norte-americano Ray Bradbury. É ficção científica das boas e, apesar de publicado em 1954 (bem antes de sondas espaciais e jipes explorarem Marte), ainda consegue encantar e levantar ótimas reflexões sobre o desejo da humanidade em conquistar outros planetas e audaciosamente indo onde nenhum homem jamais esteve. Um dos trechos mais interessantes deste livro é o diálogo, em solo marciano, entre o astronauta Spender e o capitão da nave terrestre que levou exploradores a Marte:

- E depois haverá mais interesses em jogo. Os homens que trabalham com minérios e os que trabalham com turismo. O senhor se lembra do que aconteceu com o México quando Cortez e os seus belos amigos chegaram da Espanha? Toda uma civilização foi destruída por pessoas preconceituosas, gananciosas e donas da verdade. A história jamais perdoará Cortez. 

- Mas você próprio não agiu com ética hoje – observou o capitão. 
- O que eu podia fazer? Argumentar com vocês? Sou apenas um contra toda a ganância distorcida e faminta da Terra. Eles vão fabricar suas bombas atômicas imundas aqui, brigando por bases para travar guerras. Não basta terem estragado nosso planeta, precisam mesmo estragar outro?


As viagens tripuladas e com humanos para Marte acontecerão algum dia. Eu adoraria estar vivo para presenciar este momento. Na verdade eu gostaria de estar vivo para presenciar as fascinantes e incríveis descobertas que serão feitas sobre o Universo. Particularmente acho improvável não existir outras formas de vida pelo cosmos - e nem estou falando de homenzinhos verdes e civilizações avançadíssimas, especificamente. As futuras gerações poderão conferir tudo isso e também cuidar para que, durante os processos de colonização de outros planetas, as suspeitas e temores de Spender não se tornem realidade. 

Que as futuras gerações aprendam algo sobre a história e não estraguem outro planeta como estamos fazendo com o nosso pálido ponto azul. Se houver vida inteligente em Marte, os seres que vivem lá certamente estão torcendo para que as expedições tripuladas demorem muito para chegar. Tolerar um jipezinho andando aqui e ali, tudo bem; aguentar turistas, exploradores e gente folgada, nem os marcianos merecem.

Referência e dica de leitura: 

AS CRÔNICAS MARCIANAS, de Ray Bradbury. 
Bradbury, Ray. As crônicas marcianas. São Paulo: Globo, 2006.


quarta-feira, julho 25, 2018

A memória é uma estranha*: a internet está substituindo nossa memória?



A Copa do Mundo chegou ao fim há uma semana e quase ninguém mais lembra do evento – com exceção, claro, dos franceses campeões, dos croatas com sua grande campanha e dos russos anfitriões da Copa. O Brasil não chegou sequer às semifinais do torneio, então o assunto foi esfriando nas rodas e redes sociais até praticamente ser esquecido. Daqui a um mês será pálida lembrança

Tempos de hiperconectividade. Nossa memória é afetada pelo grande volume de notícias e informações transmitidas todos os dias ao alcance de nossas mãos, literalmente. Novos assuntos aparecem nas telonas e telinhas tão rapidamente que ao fim do dia aquela notícia veiculada pela manhã já é "coisa velha" e isso não desperta interesse. Não há tempo a perder tentando lembrar aquela informação: basta acessar São Google como acessório complementar para a nossa memória que não consegue dar conta de todas as demandas que surgem (e são criadas) a cada minuto.  Uma rádio de notícias possui até um bordão emblemático sobre isso: “em 20 minutos, tudo pode mudar”.

O que aconteceu ontem ainda é possível ser lembrado, mas o que aconteceu há uma semana não vale mais a pena ser lembrado ou comentado; fatos ocorridos há um mês, seis meses, isso deixaremos para os programas de retrospectiva ao final do ano. Nossa atenção é sistematicamente desviada para o que está acontecendo de novidade. A excitação com o “novo” dura apenas o tempo que o assunto ou fato está em evidência – para o bem ou para o mal. Rapidamente somos compelidos a consumir o que há de novidade, seja com o que se passa nas redes sociais e assuntos do momento, seja comprar ou trocar aparelhos tecnológicos considerados "ultrapassados" com poucos meses de uso por novíssimos aparelhinhos que prometem nos deixar conectados o tempo todo e com maior rapidez e eficiência. Aparentemente não há espaço para consolidarmos uma lembrança, a não ser que aconteça um forte envolvimento emocional e mesmo intelectual com o(s) fato(s).
       
Isso afeta a todos nós em diversos campos. Ao analisar a relação entre Educação e uma sociedade hiperconectada, o sociólogo Zygmunt Bauman busca entender o problema: “Elas [aprendizagem e educação] foram criadas na medida de um mundo durável, que esperava permanecer assim e pretendia ser ainda mais durável do que havia sido até então. Num mundo desses, a memória era uma riqueza.” E ele prossegue, demonstrando que a situação é bem mais crítica, afinal “em nosso mundo volátil, de mudanças instantâneas e erráticas, os hábitos consolidados, os esquemas cognitivos sólidos e as preferências por valores estáveis transformam-se em desvantagens”. De fato existe o correto entendimento e até o apelo para que a escola e os professores adaptem-se aos novos tempos, porém como fazê-lo neste mundo e sociedade em constantes e velozes mudanças? É por isso que Bauman afirma que os educadores, em nenhum outro momento histórico, se depararam com um desafio tão grande.

Novos tempos, novas gerações 

O exemplo anterior foi citando diretamente a escola e os professores, porém é válido para todos. Adaptar-se a estes tempos em que precisamos nos manter atualizados o tempo todo pode acarretar cansaço mental que leva a crises de ansiedade. Ônibus de viagens mais modernos receberam conexão wi-fi e carregadores de bateria embaixo dos bancos – tudo para não passarmos desconectados durante algumas horas na estrada. Passar todo este tempo sem internet ou até mais é algo impensável, além do “tédio” da viagem em que não olhamos mais para janelas e suas paisagens exteriores e assim “viajar dentro da viagem”. 

Estamos desaprendendo a esperar, estamos desaprendendo a refletir, estamos desaprendendo até mesmo a lembrar. E em relação às nossas lembranças, confiamos nos suportes e dispositivos de armazenamento digitais - aplicativos, redes sociais, nuvens, etc. Isso, porém pode ser um problema, segundo o escritor Nicholas Carr: “Quando começamos a usar a net como um substituto para a memória pessoal, desviando dos processos interiores de consolidação, arriscamo-nos a esvaziar as nossas mentes de suas riquezas”. É o “efeito Google”, assim chamado por alguns pesquisadores. Há quem diga que trata-se de uma espécie de "terceirização da memória". Dentre estes processos interiores sabemos que as emoções são fundamentais para consolidar a memória. 

Ao longo de sua trajetória, a humanidade tem buscado registrar suas memórias através de diversos suportes, principalmente através das artes. Pintura e literatura são alguns meios utilizados para o registro dos fatos de uma época. O surgimento da fotografia no século XIX e sua popularização no século XX transformou radicalmente o modo como registramos a memória - tanto coletiva quanto individual. Fotografar o "retrato de família", revelar o filme com as fotos da viagem, dos parentes e amigos, mostrar o álbum para as visitas era um evento muito aguardado. E por trás daquelas imagens sempre havia alguma história a ser contada. A memória era preservada não apenas na mente das pessoas, mas também de modo físico através do papel fotográfico e do próprio álbum. 

Com a massificação das câmeras digitais e smartphones no século XXI, a relação com as fotografias atingiu um patamar impressionante: apenas no aplicativo Instagram são publicadas 80 milhões de fotos por dia. A fotografia digital tornou-se acessível a todos, além de ser facilmente manipulável através de softwares de edição de fotos. Neste caso a função da fotografia mudou: o que antes era usado exclusivamente para registro de memórias e havia algum componente afetivo ou histórico relacionado à imagem, hoje pode ser utilizado apenas como entretenimento, onde o objetivo é a busca por "likes" e aprovação social - em muitos casos, com traços de grande narcisismo, o que pode causar alguns problemas de subjetividade e identidade com o corpo.           

São os novos tempos e novas gerações. Quem não se adaptar aos atuais paradigmas tecnológicos e de comunicação ficará isolado. Até mesmo os nossos pais e avós entenderam o recado e estão buscando tal adaptação com as novas tecnologias – para 95% das pessoas acima de 50 anos, o uso de redes sociais e aplicativos de comunicação aproxima-os de amigos e familiares e fazer uso da tecnologia eleva a autoestima para tarefas cotidianas como utilizar um caixa eletrônico. Estas pessoas, no entanto, tentam se equilibrar entre o tradicional e o moderno: mandam mensagens com fotos digitais para os filhos e parentes, mas não abrem mão do velho álbum de fotografias e apreciam contar histórias “de cabeça” em reuniões com familiares e amigos. Suas memórias são preciosos registros de tempo e espaço e gostam de compartilhá-las à moda antiga, tomando um cafezinho e se deliciando com um bolo no meio da tarde. 

Tradição/modernidade: é possível conciliar?

Este equilíbrio seria o desejável. Como as mudanças são inevitáveis e bradar contra elas poderiam irromper em longas sessões de nostalgia e saudosismo, é preciso, nas palavras do escritor Tom Chatfield, “começar a pensar de outra forma sobre os diferentes tipos de tempos em nossa vida”. E, de fato, existe uma grande procura pela prática de Mindfulness (espécie de meditação que promete inúmeros benefícios inclusive para a memória) e até mesmo por hotéis e retiros “off-line” onde os hóspedes passam períodos desconectadas da internet e longe de seus celulares. É como diz o velho ditado popular “tudo o que é bom, é demais”: há a consciência por parte de muitas pessoas de que é preciso passar algum tempo desconectado para conectarem-se a si mesmos, com seus pensamentos, sonhos, frustrações e memórias – e no caso das memórias, não é possível terceirizá-las, pois “o que vivenciamos, fazemos e aprendemos se torna uma parte de nós”, nas palavras de Chatfield. 

Difícil imaginar o que teremos daqui a alguns anos. Os chamados “saltos geracionais” nas últimas décadas ocorrem em espaço de tempo relativamente menores nesta sociedade que passa por constantes e velozes mudanças. Os registros históricos de eras estarão armazenados no Google e outros dispositivos virtuais. A relação das futuras gerações com a memória, informação e conhecimento será totalmente diferente do que conhecemos hoje – talvez até com implantes de chips de memórias no cérebro. Outras habilidades serão desenvolvidas. Diante de tantas incertezas e possibilidades, é interessante fazer um exercício especulativo: como seremos lembrados no futuro?

Referências

BAUMAN, Zygmunt. Capitalismo parasitário e outros temas contemporâneos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2010. 

CARR, Nicholas. A geração superficial: o que a internet está fazendo com nossos cérebros. Rio de Janeiro: Agir, 2011. 

CHATFIELD, Tom. Como viver na era digital. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.  

* Parte do título deste texto faz alusão a um verso da música "Perfect Sense I", de Roger Waters. 

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