quarta-feira, julho 18, 2018

Memórias das Copas



Meninos e meninas, eu vi mais uma Copa do Mundo. Desde 1986 acompanho o principal torneio de futebol do planeta e sempre carrego na memória alguma lembrança afetiva das edições do mundial. E quando termina mais uma edição da Copa embarco em uma espécie de túnel do tempo onde algumas lembranças ainda estão conservadas.

A história é contada pelos vencedores e os valoriza. Os times campeões e os melhores jogadores são louvados e lembrados merecidamente, porém gosto de lembrar alguns detalhes e fatos do contexto social e histórico do ano em que uma copa foi disputada - e sem deixar de lado o futebol, é claro. 

1986 foi um ano e tanto: passagem do cometa Halley, a tragédia de Chernobyl, a morte do presidente Tancredo Neves e a Copa no México com o país ainda abalado por um devastador terremoto no ano anterior. Em campo lembro de Maradona dando o seu show e marcando um gol com a “mãozinha divina” contra a Inglaterra e a eliminação do Brasil na cobrança de pênaltis contra a França – estes franceses adoram nos causar problemas nas edições do mundial. Jurei nunca mais desenhar e pintar um muro para Copa do Mundo.

Chegou 1990 e lá estava eu quebrando a promessa ao pintar e desenhar o Zé Carioca nos muros e na rua.  Foi o ano em que Fernando Collor de Melo assumiu a presidência do Brasil e logo lançou um plano econômico que incluía o confisco das cadernetas de poupança. Como desgraça pouca era bobagem, uma seleção brasileira que não convencia ninguém foi eliminada pela Argentina. A melhor lembrança só podia vir da incrível seleção de Camarões e do atacante Roger Milla, então com 38 anos, praticamente aposentado e que foi só foi ao mundial graças ao amigo que também era presidente do país. Viram como é bom ter amigos influentes? Não conheço os feitos do presidente de Camarões à época, mas esta foi uma grande realização, pois Milla jogou um futebol fino, de grande técnica e que encantou o mundo. Pena que a bela trajetória de Camarões na Copa da Itália não passou pela Inglaterra, mas tudo o que eu queria era ter Roger Milla e Makanaki no meu time, o Santos, que passava por uma fase terrível.  

Em 1994 morreu o piloto Ayrton Senna. Eu estava em Mogi das Cruzes (SP) quando recebi a notícia. Foi uma comoção como eu nunca vi. A decoração para a Copa nos muros e ruas homenageava o piloto brasileiro de alguma forma. Kurt Cobain foi encontrado morto nos Estados Unidos, país sede daquele ano onde a gente ouviu (e como ouviu!) o narrador Galvão Bueno berrar “é tetra! É tetra!” ao lado do Pelé em comemoração ao tetracampeonato mundial da seleção brasileira. Para mim, no entanto, a seleção da Copa foi a Romênia que contava com um grande craque: George Hagi. Que jogador! Desfilou elegância e inteligência nos gramados daquele mundial. E o Roger Milla estava lá, nos states, entrando para a história como o jogador mais velho (42 anos) a marcar um gol em Copas do Mundo. A Colômbia, que prometia uma linda participação no mundial, guarda uma triste memória: o assassinato do zagueiro Escobar, que marcou um gol contra e (dizem) que foi morto após discutir com torcedores em seu país. Que ano pesado.

A internet chegou e modificou minha memória

Entre muitos estudiosos da comunicação e novas tecnologias há a discussão sobre o impacto da internet em relação à nossa memória. É mais fácil lembrar de fatos quando outros elementos entram em campo, principalmente a emoção e o envolvimento com o objeto ou tema abordado. Isso ajuda a explicar porque tenho lembranças mais fortes da Copa de 1986 do que da Copa de 2006 e 2010, por exemplo. A internet faz o papel de memorizar informações, no que muitos chamam de “efeito Google”. A partir de 1998 comecei a usar timidamente a grande rede graças aos CDs de instalação para os discadores de acesso – era emocionante ouvir o barulhinho da discagem, do modem e a conexão estabelecida após meia noite, claro, pois era "pulso único" e garantia que ninguém (ou quase ninguém) telefonaria para casa naquele horário para interromper a conexão. É até difícil para um jovem de 18 anos ( a chamada "geração Z") imaginar um mundo sem internet ou conexão tão precária que baixar uma simples música poderia levar horas.

Na Copa da França, no mesmo ano de 1998, descobrimos que a sapatada de 3 x 0 que a seleção brasileira tomou na final para os franceses (olha eles, de novo!) foi fruto de um engenhoso esquema em que o Brasil VENDEU a Copa para a França. Como milhares de pessoas, eu recebi e acreditei na primeira grande corrente compartilhada através de e-mail: “se as pessoas soubessem o que aconteceu na Copa do Mundo, ficariam enojadas”. A ausência inesperada e de história mal contada do atacante Ronaldo na grande decisão ajudou a dar tintas de credibilidade para a famosa mensagem através de um meio que fascinava a todos nós. Hoje reler tal mensagem é até divertida, mas ai de quem experimentasse dizer ao "primo tecnológico", cunhado mala ou vizinho chato que aquilo era mentira. 

A Copa de 2002 aconteceu em duas sedes: Japão e Coréia do Sul. Não guardo tantas lembranças também por causa do fuso horário – muitos jogos durante a madrugada e bem cedo pela manhã. O mundo em alerta por causa do atentado ao World Trade Center em 2001 e o receio de que algo parecido pudesse acontecer na Copa asiática. Mas terror mesmo só com as péssimas arbitragens que marcaram negativamente aquela Copa em que a seleção brasileira sagrou-se pentacampeã. Foi o ano da redenção de Ronaldo: após uma grave contusão no joelho e da crise nervosa em 1998, não foram poucos os que acusaram “o fim da carreira" do craque – profetas do apocalipse não acertam uma.  

Efeito Google

O efeito Google entra em ação quando tento relembrar algo sobre a Copa de 2006, na Alemanha. Sem recorrer ao site de pesquisas tudo o que eu lembro daquela Copa, além de uma seleção brasileira pesada e desanimada, é do craque francês Zinedine Zidane dando uma cabeçada no zagueiro italiano Materazzi em plena final – e eu tive que recorrer a São Google para relembrar que a Itália foi a grande campeã. Da Copa de 2010 na África do Sul do ícone Nelson Mandela eu lembro das caras e bocas do Maradona dublê de técnico da Argentina, das irritantes vuvuzelas e do épico Uruguai x Gana, um jogo que entrou para a história das Copas.

Realmente lembro muito pouco destas duas Copas e do contexto à época. Alguém pode até dizer que isso é “coisa da idade” – e em parte tem razão, pois surgem outras motivações e preocupações com a vida profissional, pessoal, etc. No entanto é fato que eu não precisei e nem quis fazer esforço para guardar estes eventos na memória pessoal porque sei que com uma busca simples e rápida no Google encontrarei todas as informações necessárias. É mais ou menos o que alguns chamam de “terceirização da memória” através da internet. Tem suas vantagens, porém podemos correr o risco de desprezar processos interiores para consolidar boas lembranças.  

Memórias recentes e atuais


E um destes processos, como já citado, é a emoção. A Copa de 2014 foi aqui no quintal de casa, no Brasil e isso para quem gosta de futebol é extraordinário – e até mesmo para quem não é muito fã do esporte, pois a diversidade das torcidas visitantes com seus sotaques e culturas é muito interessante de ser notado e mesmo servir de exemplo, como os torcedores japoneses recolhendo o lixo das arquibancadas. Claro que a lembrança desta Copa remete e sempre remeterá ao humilhante 7 x 1 da seleção alemã sobre uma seleção brasileira aos frangalhos emocionalmente. 

Mas foi uma Copa divertida porque além da festa promovida pelos brasileiros ainda tivemos jogos inesquecíveis como Holanda 5 x 1 Espanha e Itália 0 x 1 Uruguai, o famoso “jogo da mordida” em que atacante Suárez simplesmente mordeu um zagueiro italiano. E como a Copa foi aqui em casa, claro que lembro da dinheirama que custou a construção de novos estádios e que depois do mundial ficariam “às moscas”, como realmente aconteceu com algumas arenas modernas em Manaus, Cuiabá e Natal - e sem falar do "legado da Copa" que deixou a desejar, além dos protestos e manifestações contra os enormes gastos públicos para custear o evento que ocorreram em todo o país. 

E finalmente mais uma Copa, desta vez na Rússia, em 2018. A Copa que teve uma Bélgica e sua geração de bons jogadores apresentando talvez o melhor futebol do torneio, embora o título tenha ficado com a rápida e objetiva França em uma final contra a surpreendente e raçuda seleção da Croácia – que superou a ótima campanha na Copa de 1998. No mundial onde os torcedores esperavam grandes atuações das estrelas Messi, Cristiano Ronaldo e Neymar, todos viram um garoto francês de 19 anos roubar a cena: além de jogar muita bola, o Mbappé tem uma velocidade que só o Usain Bolt conseguiria alcança-lo na corrida.

E grandes histórias pessoais: Lukas Modric, melhor jogador da Copa e comandante do bom time croata, é um refugiado de guerra que teve o avô assassinado, a casa destruída e jogava bola entre um bombardeio e outro na guerra que acabou com a Iugoslávia e deu a independência à Croácia e outros países na complicada região dos balcãs; e o que dizer do volante francês Kanté, que quando criança catava lixo em Paris para ajudar o pai, foi dispensado diversas vezes de clubes onde tentava seguir carreira na adolescência sob a justificativa de “ser baixinho” e acabou se formando em contabilidade? Provavelmente serão essas as melhores lembranças que terei do mundial da Rússia.

Em 2022 a Copa será no Catar. Sempre que uma Copa termina eu me pergunto se conseguirei assistir a próxima – quatro anos demoram a passar e muita coisa acontece neste período. Isso soa um tanto dramático, mas a passagem do tempo faz isso com a gente. E é claro que espero assistir mais esta edição do mundial para escrever mais algumas linhas em meu caderninho de memórias afetivas da Copa do Mundo, que não é apenas sobre futebol, mas também sobre histórias e lembranças de vida.

segunda-feira, julho 09, 2018

"O brasileiro é o abutre de si mesmo"



O título desta humilde prosa tomei emprestado do maior cronista esportivo brasileiro de todos, o inesquecível Nelson Rodrigues. Engana-se quem pensa que tais crônicas de Nelson são apenas sobre futebol: o seu olhar arguto, dramático e muitas vezes irônico sobre o esporte mais popular do país ajuda a entender e a desvendar a alma do brasileiro.

Durante um mês os jogos da Copa do Mundo da FIFA na Rússia e da seleção brasileira foram o centro das atenções e discussões em todos os lugares: onde houvesse uma roda de conversa no bar, no ponto de ônibus, no intervalo do trabalho, o assunto dominante era sobre futebol e a seleção de Tite, Neymar e companhia. Nas redes sociais, este grande boteco do século XXI, não foi diferente. Entre memes e piadas sobre o cabelo de Neymar, a eliminação prematura da seleção alemã e da apatia de Messi na seleção argentina, naturalmente havia também espaço para comentários e opiniões diversas, inclusive de uma galera conhecida como “lacradora” – aqueles que buscam likes e visibilidade pegando carona (muitas vezes de forma oportunista) nos assuntos em evidência nas mídias.

Enquanto você torce...

Dois padrões de discursos se destacaram neste mar de opiniões. A turma que resolveu politizar a Copa do Mundo com o típico maniqueísmo e polarização que tomou conta dos debates no país lançou mão daqueles velhos e surrados chavões que sempre retornam de quatro em quatro anos – desde “Enquanto você grita gol, os políticos te roubam” até “A Copa do Mundo desvia a atenção das pessoas para o que é realmente importante no Brasil”, passando pelo manjadíssimo “pão e circo”. Para muitas pessoas que concordam com esta linha de pensamento, quem acompanhava os jogos e torcia pela seleção brasileira era rotulado como “alienado”, “ingênuo” ou “manipulado pela mídia”.

Copa do Mundo acontece a cada quatro anos e dura somente um mês. Da mesma forma que o sujeito apelidado de "chato do IDH" (Índice de Desenvolvimento Humano) aparecendo de quatro em quatro anos para lembrar sobre o quanto nossos demonstrativos em Educação, Saúde, Segurança, etc. estão distantes dos índices de países mais desenvolvidos, surge também o termo “alienado”, cuja origem é do latim alienarus (alienus) e que pode ser entendido como “estar alheio”. Quem é o alienado, afinal? O sujeito que torce a cada quatro anos pela seleção na Copa do mundo, que brinca no carnaval uma vez ao ano e acompanha a telenovela após um dia de trabalho ou o sujeito que não assume a responsabilidade por suas escolhas preferindo reproduzir discursos superficiais e abrindo mão da autonomia inclusive de pensamento?  

Eu odeio o Neymar!

O outro padrão era encontrado na turma que odeia o Neymar. Falar sobre o craque rende discussões, cliques e visibilidade – sobretudo quando a raiva e o ódio pelo jogador escorrem pelos teclados. Em diversas crônicas Nelson Rodrigues evoca a figura do que ele chama de cretino fundamental. Este sujeito, nas palavras do dramaturgo, é aquele que “gostaria de tocar fogo no escrete e, depois, sapatear em cima das cinzas, (...) o sujeito que fala contra o individualismo de nosso craque”.

Criticar o jogador Neymar em relação a aspectos técnicos e táticos durante a partida é uma coisa; outra coisa é desqualificar seu talento e fazer juízo sobre o caráter de uma pessoa baseado em corte de cabelo, a um comportamento narcisista/exibicionista (vale lembrar que isso é um traço comum a muitos jovens de sua geração) ou a um exagero nos gestos em algumas das inúmeras faltas sofridas pelo jogador. Dizer que tal comportamento atrapalha seu desempenho nos gramados é mais uma das falácias que não se sustentam: basta verificar a trajetória e o histórico do jogador com seus impressionantes números e conquistas no futebol para descartar esse tipo de argumento.

Uma das manifestações mais absurdas que eu vi durante a Copa foi um texto se referindo a Neymar como “psicótico e mau caráter”. O texto, compartilhado por milhares de pessoas, é de autoria de um jornalista condenado por injúria racial contra um colega de profissão. Hipocrisias como estas eram e são facilmente encontradas nas redes, ambiente ideal onde encontramos abutres prontos para agredir, odiar e emitir vereditos com pretensa autoridade e dedos em riste nos teclados dos notebooks e smartphones.


É até interessante acompanhar pessoas que bradavam sobre o “desequilíbrio emocional” de Neymar sendo incapazes de lidar com uma simples divergência de ideias em redes sociais. O que mais se viu nestes espaços foi a multiplicação de dublês de psicólogos e psiquiatras “indicando” tratamento psicológico para o jogador. O país de 200 milhões de técnicos de futebol se tornou o país de 200 milhões de “psicólogos” de ocasião. Na verdade trata-se simplesmente de desconstrução e destruição, nada mais – ou nas palavras de Rodrigues, atos para “estraçalhar nossos bens”. Temos aí a junção do cretino fundamental com o invejoso pelo sucesso pessoal, lembrando uma expressão atribuída a Tom Jobim.

O brasileiro é um frustrado sebastianista


Não se trata de “pachequismo” ou coisa do tipo. Torcer pela seleção brasileira na Copa do Mundo não significa o endosso à corrupção da entidade que organiza o futebol (no caso do Brasil, é a CBF - Confederação Brasileira de Futebol) e tampouco deixar de torcer representa um engajamento político efetivo. Neymar não é imune às críticas, desde que justas e que não resvalem para o ódio gratuito propagado pelo "espírito de manada" que impera nas redes sociais, principalmente. Se as "encenações" do jogador são exageradas, a reação dos "haters" (palavra da língua inglesa que pode ser traduzida para "odiadores") beira a histeria. 

Com exceção dos haters que buscam somente visibilidade e devem ser ignorados (ou denunciados quando seus comentários adquirem cunho preconceituoso e tomam a dimensão de ameaça), encontramos o modelo de brasileiro que cria muitas expectativas sobre “eles. Quem são “eles”? “Eles” são as pessoas que resolverão os problemas brasileiros e darão alegrias ao povo: o craque que decidirá o torneio sozinho e será exemplo de liderança em conduta ética e moral no país da Lei de Gerson e da "Lei de Jô"; o político que rapidamente dará um jeito no país, o empresário-apresentador de TV inovador que mudará o modelo de desenvolvimento do Brasil. 

Esperamos pelo Salvador da Pátria na bola, na política, na economia, nas causas sociais da mesma forma como os portugueses aguardavam pelo rei Dom Sebastião. O sebastianismo é uma crença portuguesa do século XVI em que o citado rei, desaparecido durante uma batalha no Marrocos, ressurgiria triunfante para levar o país a tempos de glórias e conquistas. A nossa crença no salvador da pátria disfarça, de certa forma, a nossa omissão e apatia diante de cenários em que deveríamos agir e reagir de forma mais ativa. Evidente que não é a única justificativa para tal comportamento, porém é fato que preferimos utilizar o sujeito indeterminado “eles” em vez do pronome “nós” porque é mais cômodo não assumir responsabilidades - sejam elas sociais, familiares, profissionais, afetivas, ambientais, etc. 

Como é preciso escolher um bode quando algo dá errado, os frustrados explodem em uma espécie de histeria coletiva descarregando toneladas de lixo emocional sobre aquela pessoa ou aquele evento que não correspondeu às suas expectativas que podem ser em boa parte irreais ou até mesmo injustas a depender a quem é direcionado tal esperança ou desejo. Não é possível esperar que um jogador de futebol encarne o papel de redentor das mazelas políticas, sociais e éticas do país e nem podemos imaginar que escrever um texto enorme contra o futebol ou a Copa do Mundo nas redes sociais rotulando pessoas de acordo com suas convicções ideológicas promoverá mudanças significativas em nosso cenário atual. Como afirma o ditado popular, o "buraco é mais embaixo".  


Não é o Neymar que vai resolver o baixo salário dos professores e nem o futebol em época de Copa do Mundo (ou qualquer outro campeonato) que vai alienar as pessoas para os problemas do Brasil. Nelson Rodrigues recomendava aos chamados cretinos fundamentais e abutres de redações o divã de psicanalista e uns vinte anos de análise profunda. No fundo, dizia ele, era problema de autoestima e o cronista tinha razão, acredito. Ao não saber lidar com frustrações, o brasileiro torna-se abutre de si mesmo e é preciso amadurecer – o mesmo amadurecimento que tanto cobram de Neymar estende-se a nós como cidadãos.


ATUALIZAÇÃO: A seleção brasileira foi eliminada nas quartas-de-final da Copa do Mundo ao perder para a boa seleção da Bélgica por 2x1. Um dos gols da seleção belga surgiu após cobrança e escanteio em que a bola desviou no jogador Fernandinho, do Brasil. Gol contra e que abriu caminho para a classificação da Bélgica. Após o jogo, vários torcedores brasileiros, inconformados com a derrota e desclassificação do Brasil, passaram a atacar Fernandinho com ofensas, xingamentos e racismo em seu perfil no Instagram – e até mesmo familiares do jogador não foram poupados. Um triste e criminoso episódio em mais um caso de “caça a um culpado” ou a um bode expiatório para que frustrados pudessem descarregar palavras de ódio e seus preconceitos.

Referência e dica para leitura: Brasil em campo, crônicas de Nelson Rodrigues. Org. Sônia Rodrigues. Rio de Janeiro: editora Nova Fronteira, 2012.

sexta-feira, junho 08, 2018

Cadê o "clima de Copa do Mundo"?



Escrevo estas mal digitadas no dia 07 de Junho de 2018. Daqui a exatamente 10 dias a seleção brasileira fará a sua estreia na Copa do Mundo da Rússia diante da Suíça, às 15 horas. Eu tive que pesquisar no Google para saber disso, pois o “clima de Copa” não me afetou, ao menos por enquanto.

O que é bem estranho, pois em Copas anteriores eu sabia com bastante antecedência os jogos e horários da seleção brasileira, consultava tabela, fazia projeções, buscava informações sobre outras seleções - uma ótima oportunidade para relembrar das aulas de Geografia, aliás. Em outros tempos e outra cidade eu entrava com tudo no clima de Copa: desenhava e pintava nas ruas, muros, onde houvesse espaço. As ruas eram enfeitadas com bandeirolas e bandeiras do Brasil, conversávamos e especulávamos sobre os 22 convocados, as ausências notáveis, os candidatos a craques, nos divertíamos com a pronúncia de nomes estranhos de jogadores da seleção da Croácia ou da Bulgária.

Hoje o meu sentimento pela Copa do Mundo e Seleção Brasileira é da mais completa indiferença. Serei apenas eu? Apenas ontem eu vi um muro pintadinho com bandeiras do Brasil e uma tentativa de caricatura do Neymar. No fim de semana vi outro muro sendo pintado com o que parecia ser a tabela da primeira fase dos jogos da seleção brasileira. E só. Ao menos pelos locais por onde costumo passar, não vi mais nada – estavam montando algumas bandeirinhas em uma escola, mas para as festas juninas. Aparentemente o “clima de Copa” não afetou a muita gente também.

Desânimo com o futebol

Talvez seja a crise econômica e o altíssimo índice de desempregados, alguns comentam; outros relacionam a camisa da CBF (Confederação Brasileira de Futebol, envolvida em escândalos de corrupção) a um símbolo controverso e contraditório envolvendo manifestantes “anticorrupção” (assim diziam) em mais um capítulo de nossa polarização político-partidária; a humilhação diante da seleção alemã ( 7 x 1) na Copa realizada em nosso território também é citado; e há quem diga que a seleção brasileira há muito tempo perdeu a identidade com o povo brasileiro. Pode até ser: dei uma olhada na lista de convocados e há jogadores que são conhecidos só mesmo por quem acompanha fielmente o futebol, seus campeonatos diversos e suas transferências: Ederson, Fagner, Filipe Luís, Marquinhos, Fernandinho, Fred (não é aquele atacante?), William, Douglas Costa, Taison... praticamente um time de desconhecidos que jogam no exterior.

Os demais jogadores parecem ser intocáveis, estrelas hollywoodianas cercados por seguranças e milionários – e não há problema nenhum com a fama e com o dinheiro que ganham com suas habilidades, mas sim a falta de espontaneidade, de autenticidade: todos os seus gestos, passos e falas são rigorosamente controlados por assessores de imprensa e marketing. “Nós, jogadores, somos frangos de granja: movimentos controlados, regras rígidas, comportamentos fixos que devem sempre ser repetidos”, afirmou o ex-jogador inglês Paul Gascoigne, citado pelo escritor uruguaio Eduardo Galeano no ótimo “Futebol ao sol e à sombra”. É de Galeano e está no mesmo livro uma frase que soa até como ofensa diante de um esporte cada vez mais burocrata e mecanizado: "o futebol continua querendo ser a arte do imprevisto". 

Lembrei de uma pesquisa do instituto Datafolha realizada no início de 2018 e divulgada em Maio: o desinteresse do brasileiro pelo futebol aumentou nos últimos 08 anos: 41% dos entrevistados declararam não ter interesse pelo esporte mais popular do país. Eu não fui entrevistado pelo instituto, porém me encaixo neste percentual. Não sei se as pessoas sentem o mesmo que eu, pois acompanho futebol muito esporadicamente e ainda assim apenas jogos do meu time (Santos) quando é possível e tenho alguma disposição, mas está tudo muito chato: estádios agora se chamam “arenas” com nomes de cervejarias, seguradoras e sei lá mais o que; torcedores comemoram renda e público como se fossem títulos; a corrupção e política de clubes são temas recorrentes e ocupam o espaço dos “gols da rodada”; certas discussões sobre futebol parecem exigir conhecimentos sobre Direito, Contabilidade, Gestão de Recursos, etc.; programas futebolísticos na TV e internet (com honrosas exceções) se transformaram em “humorísticos” de gosto bastante duvidoso e investem na “zoeira” e “provocação”;  diversos comentaristas e jornalistas esportivos se tornaram celebridades tão afetadas quanto o astro de rock mais temperamental.

E o principal: os melhores jogadores mal ficam nos times brasileiros e se mandam para o exterior. Vejam o caso deste menino do Santos, o atacante Rodrygo, de apenas 17 anos e considerado uma grande promessa do futebol: Real Madrid e Barcelona já disputam o jogador e ambos possuem dinheiro de sobra para efetuarem o pagamento de 50 milhões de euros (algo em torno de R$ 230 milhões) pelo jovem talento da Vila Belmiro. Provavelmente iniciará o ano de 2019 jogando no exterior e nem vai dar tempo para o jogador conquistar algum título pelo seu clube de formação e consolidar a imagem de ídolo e referência para a torcida. Com jovens craques e promessas como Rodrygo e Vinicius Junior (Flamengo) indo embora, o nível técnico dos campeonatos regionais e sobretudo do campeonato nacional é sofrível. Difícil acompanhar os jogos. Não à toa a garotada prefere acompanhar, torcer e consumir produtos de um Real Madrid, por exemplo.

Pode ser mesmo a idade associada a um certo saudosismo do tempo em que o futebol era mais importante dentro das quatro linhas do gramado e nossas discussões eram sobre o frango do goleiro ou o golaço do craque do time. Gera até um conforto saber que não estou sozinho neste sentimento de indiferença pela Copa do Mundo. Quem sabe a estreia da seleção brasileira seja convincente e desperte o “clima de Copa” que por enquanto parece adormecido na maior parte da população deste que um dia foi chamado de "país do futebol". 

quarta-feira, abril 18, 2018

Dessacralizar a literatura.



“Zeus é o Mr. Catra do além!”. A expressão divertida foi dita por uma de minhas alunas após um bate papo sobre Thor, personagem de HQ que ganhou as telas de cinema. Outros alunos também participaram deste bate papo informal e falaram sobre Hércules, Afrodite, Poseidon e outros deuses e semideuses. A pergunta que fiz a eles pode parecer meio ridícula, mas segui em frente: “onde vocês aprenderam todas essas coisas sobre mitologia grega?”.  Por que a pergunta pode parecer ridícula? Porque estou em uma escola, então seria óbvia a resposta, não é? Que nada: “A gente leu nos livros do Percy Jackson!”.

Confessei minha ignorância em admitir que não conhecia Percy Jackson, mas logo fiquei sabendo que trata-se de personagem criado pelo norte-americano Rick Riordan que já vendeu mais de 50 milhões de cópias de seus livros com a série “Percy Jackson e os Olimpianos”. Riordan traz a mitologia grega para o século XXI quando o jovem Jackson descobre que é filho de Poseidon e passa por diversas aventuras envolvendo todo o panteão dos deuses, semideuses e heróis mitológicos. Não é difícil entender este fenômeno literário entre a turminha: é o tipo de livro que eu adoraria ter lido na adolescência. E hoje, também.  

Livros como os da série Percy Jackson, Harry Potter, Divergente e autores como John Green, Kiera Cass e Jojo Moyes são aguardados e lidos com entusiasmo pelo público jovem, que formam grupos de debates sobre as obras, produzem vídeos no Youtube, postagens em redes sociais, etc. Não é maravilhoso ver jovens entusiasmados com livros e falando sobre suas impressões de leitura? Tudo isso é muito salutar para o incentivo à leitura. Infelizmente, nem todos pensam assim.

Clássicos e modismos

Não são poucos os literatos e acadêmicos que classificam estas leituras como “superficiais” ou simples modismos literários e mercadológicos que logo serão esquecidos.  Imediatamente são feitas comparações com os clássicos da literatura universal, mas precisamos mesmo deste tipo de comparação? Autores como Shakespeare, Tolstoi, Dostoiévski, Poe, Kafka e tantos outros têm o seu lugar garantido no sacrossanto cânone literário e continuarão sendo referência para muita gente. Se um jovem leitor chegar até eles, que bom; e se nunca alcançá-los ou não gostar da leitura de alguns destes clássicos, não vejo problema nenhum: os escritores contemporâneos também têm seu valor literário e há muita gente talentosa por aí. 

Quanto aos modismos literários e questões ligadas ao mercado, eles sempre existiram. Os romances e novelas de cavalaria eram extremamente populares na Europa da Idade Média, principalmente na Espanha, Inglaterra, Portugal, Itália e França. Podemos dizer que entre os séculos XV e XVII, graças à invenção da prensa de Gutenberg, os romances de cavalaria eram “moda”, sobretudo em histórias envolvendo o Rei Arthur e o Santo Graal. Um grande clássico surgiu neste período: O engenhoso fidalgo Dom Quixote, de Cervantes. Lembro de uma entrevista de Umberto Eco falando que “os gêneros literários e pictóricos são criados por imitação e influência. (...) Se descubro que escrevendo um romance de amor posso ganhar dinheiro, não vou me privar de tentar por minha vez”. O escritor francês Daniel Pennac chama isso de literatura industrial, ou seja, uma literatura que explora o filão do momento. O sucesso de um livro como “Cinquenta tons de cinza” despejou no mercado uma enxurrada de livros com a mesma temática. As editoras precisam sobreviver. Em consequência encontramos também várias matérias nas mídias trazendo referências sobre literatura erótica: lá estavam os clássicos “O amante de Lady Chaterlley”, “Lolita” e autores como Sade, Anaïs Nin, Bocaccio e até o "Kamasutra". Tem espaço para todos. 

É bom lembrar que muitos destes gigantes da literatura em seus tempos não alcançaram sucesso absoluto ou imediato: Scott Fitzgerald, autor do clássico “O grande Gatsby”, mantinha em seu escritório 120 bilhetes de recusa para seus contos; “Moby Dick”, de Melville, também foi recusado por não ser “interessante” para jovens ingleses; um dos casos mais impressionantes aconteceu com Rudyard Kipling, autor de “O livro da selva” (onde o menino Mowgli tornou-se personagem imortal da literatura): despedido do jornal onde trabalhava, Kipling leu na carta de demissão um “Lamento, sr. Kipling, mas o senhor não sabe escrever em inglês”. E a lista de recusas é imensa, passando por George Orwell, R.R Tolkien e J. K. Rowling, somente para citar alguns. No caso das mulheres a coisa era pior, como no caso das irmãs Brontë: tiveram que adotar pseudônimos masculinos ou seria muito difícil a publicação de obras como “Morro dos ventos uivantes” e “Jane Eyre”. Muitos dos livros hoje clássicos foram considerados como modismos, superficiais ou mesmo ousados para suas épocas.

Dessacralização

“Oh, mas como alguém pode não gostar de Shakespeare, que absurdo!”, dirão os acadêmicos. Bem, Tolstoi detestava Shakespeare, apenas para dar um exemplo sobre como os clássicos não são absolutos em termos de preferências literárias. Vejo algumas pessoas envergonhadas em admitir que leram obras consideradas clássicas e não gostaram ou não entenderam nada. Ora, não há nenhum problema: tem muito livro e autor clássico por aí que realmente é muito chato; além disso, certos estilos podem não cair no gosto do leitor. O já citado Daniel Pennac, autor do ótimo “Como um romance”, chama a atenção sobre este aspecto: “Bem, temos a nossa escolha: ou vamos pensar que é nossa culpa, que temos uma telha de menos, que abrigamos uma porção irredutível de burrice, ou vamos bisbilhotar do lado da noção tão controvertida do gosto e buscar estabelecer o mapa dos nossos gostos cuidadosamente”. Ele recomenda a segunda opção e é um bom conselho que vale tanto para os jovens e também para os adultos.

O que precisamos na verdade é dessacralizar a literatura. Desmitificar o senso comum de que livros e leitura “é coisa só pra gente inteligente” e retirar o livro de um pedestal inalcançável para boa parte da população. Dessacralizar a literatura é também deixar de lado a vaidade intelectual e academicismo quando falamos de determinados gêneros textuais e literários. Durante muito tempo gêneros e estilos literários como ficção científica, policial, romântico, cordel e tantos outros foram considerados “literatura menor” (também chamado de paraliteratura) e desprezados tanto pela crítica, escolas e academia de modo geral. Tais posturas não contribuem para ações de incentivo à leitura principalmente entre os mais jovens, pois estigmatizam de forma pejorativa estes gêneros e seus leitores. É extremamente frustrante para um leitor que gosta de determinado autor ou obra ouvir que aquele livro é “uma bobagem” ou, pior, não é literatura. Uma crítica literária embasada e criteriosa sempre é bem vinda e desejável (menos para os fãs clubes, claro), mas o pedantismo em classificar a literatura como “alta” ou “menor” por associação a um autor ou estilo literário é bobagem.  


É interessante lembrarmos que vivemos em um país onde 44% da população não lê e as políticas para incentivo à leitura esbarram em dificuldades. Sem dúvida há outros fatores que também contribuem para índices baixos em relação à leitura, porém gosto de lembrar do caso das Histórias em Quadrinhos: a própria escola tratava a leitura de gibis como prejudiciais ao desenvolvimento cognitivo, pois havia a “concepção errônea de que os quadrinhos são ingênuos, infantis” (SANTOS); hoje, no entanto, a escola acolhe as HQs como recursos didáticos importantes na formação de leitores. Eu formei meu hábito de leitura a partir dos gibis do Pato Donald e Tio Patinhas. Daí para outros estilos e textos foi um pulo. Com muitas pessoas, creio, também funcionou assim.

Dessacralizar a literatura é admitir que a leitura pode e deve ser uma agradável diversão. Quem também pensa assim é o escritor Italo Calvino, na apresentação do sua novela O visconde partido ao meio: “creio que divertir seja uma função social, corresponde à minha moral; penso sempre no leitor que deve absorver todas estas páginas, é preciso que ele se divirta, é preciso que ele tenha também uma gratificação”.  Quer gratificação melhor do que ler um livro e se divertir com sua leitura?

Por falar em Calvino, ele é também autor do livro “Por que ler os clássicos”, onde ele enumera diversos pontos sobre o que é um clássico literário e sua leitura. Vale a pena. Em um de seus ensaios, ele afirma que “as razões do fascínio de um livro (...) são feitas de tantos elementos imponderáveis”.  Não nos importemos tanto com as famosas (e polêmicas) listas que trazem uma relação de livros que DEVEMOS ler: o que vai estimular a leitura de um livro são os “elementos imponderáveis” que farão a pessoa amar uma obra de Rick Riordan e seus Olimpianos ou Machado de Assis com seus contos, por exemplo.

Apenas leia, independente dos rótulos. E divirta-se com as aventuras de bruxos, viaje com alienígenas em naves espaciais, vibre com os heróis, passe raiva com vilões, encante-se com a poesia e suas imagens: você é o leitor e cabe a você o veredito da obra. Boa leitura! 

Referências:
Carrière, Jean-Claude. Não contem com o fim do livro / Jean-Claude Carrière, Umberto Eco. Rio de Janeiro: Record, 2010.
Sant´Anna, Afonso Romano de. A cegueira e o saber. Rio de Janeiro: Rocco, 2006.
Santos, Roberto Elísio dos. Para reler os quadrinhos Disney: linguagem, evolução e análise de HQs. São Paulo: Paulinas, 2002. 
Pennac, Daniel. Como um romance. Rio de Janeiro: Rocco, 1993. 

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