Apesar da minha profunda aversão a elevadores e também por já ter feito meus exercícios matinais, liberei-me de subir os degraus da escada até o segundo andar da empresa e fui mesmo naquela caixa metálica com uns barulhos de cabos de aço sendo puxados ( por que fazem aquele barulho do tipo "moído"?) pelas roldanas (calafrios!!!).
Logo acima do painel onde ficam os botões (tem uns botões ali que eu nunca saberei o que significam), um selo atestando a garantia da manutenção pela empresa ThyssenKrupp.
Não, não é propaganda da empresa. É que esses termos não me soam estranhos. Comecei a lembrar de algumas leituras e de algumas aulas de história.
THYSSEN é a metalúrgica alemã onde o “turco” Ali trabalhou em condições sub-humanas com seus companheiros também da Turquia. Não entendeu nada? Calma que eu explico.
Faço referência ao extraordinário “Cabeça de turco – uma viagem aos porões da sociedade alemã”, livro-denúncia do jornalista alemão Günter Wallraff. Wallraff disfarçou-se como turco, inclusive adotando um sotaque turco e com erros constantes à língua alemã, e passou 02 anos nesta condição registrando as experiências e recolhendo depoimentos que trouxeram à tona as condições degradantes do cotidiano dos imigrantes turcos na Alemanha.
Wallraff – ou Ali Sinirlioglu, seu pseudônimo adotado – escreve relatos indigestos:
“Hermann conta como as coisas funcionavam na Thyssen: ‘Trabalhamos de dezesseis, doze, treze horas horas num único dia – todos os sábados, todos os domingos, todos os feriados – sem parar. Páscoa, Pentecostes, não importa. Lá estávamos nós. Muita coisa precisava ser feita. Haviam desligado o alto-forno para ser totalmente limpo. Já imaginou? Trabalhamos como escravos, debaixo de chuva, vento, neve, frio – não importa. Os uniformes ficavam ensopados”.
Além da jornada massacrante, os turcos ainda tinham que conviver com todas as demonstrações de intolerância e preconceito:
“Vários banheiros da Thyssen vivem rabiscados com frases e insultos xenófobos. Nas paredes da fábrica também sempre há alguma pichação ofensiva aos imigrantes, e ninguém se encarrega de apagá-las. Eis alguns exemplos típicos dessa literatura de mictório, recolhidos dentre centenas nas instalações Oxygen I:
Melhor mil ratos na cama que um turco no porão
Fuzilem todos esses turcos de merda!”
O livro foi publicado em 1985, há mais de 20 anos, portanto, causando grande impacto. Suponho que muita coisa deva ter mudado na Alemanha em relação ao tratamento aos imigrantes, especialmente os turcos. Uma amiga que vive na Alemanha me disse que os turcos são muito bem tratados na região onde ela vive.
Voltando ao nome Thyssen, não é apenas neste livro que há essa referência. Estudando alguns textos sobre o nazismo, vimos que tal nome está presente durante o período em que Hitler ascendeu ao poder na Alemanha:“A guerra estava próxima ao fim (...) não tinham [líderes nazistas] escolha senão fugir de sua terra natal se quisessem escapar vivos. Para isso precisavam não apenas de uma rede de apoio composta de homens e mulheres simpáticos à sua condição, mas de uma quantidade substancial de dinheiro. Para isto, acredita-se que em 10 de agosto de 1944 foi realizada no hotel Maison Rouge, em Estrasburgo, uma reunião secreta dos principais industriais alemães ( incluindo o magnata do aço Fritz Thyssen, que financiou a ascensão de Hitler ao poder na década de 1930)”.
Este trecho encontra-se no livro “As sociedades secretas mais perversas da história”, se Shelley Klein e tem aquele gostinho tentador de “teoria conspiratória”.
E que o magnata Fritz Thyssen financiou o então emergente partido nazista no ínicio da década de 20, também é verdadeiro. Tanto que Thyssen escreveu o livro “I Paid Hitler”, onde conta detalhes de sua participação no nazismo. Thyssen tornou-se amigão do Fuhrer e beneficiou-se muito desta amizade.
Mas quando falamos de guerra mundial, lembramos de duas no século XX: a primeira guerra mundial ( 1914-1918) e a segunda guerra mundial ( 1939-1945). De comum a estas guerras, além do altíssimo número de mortes, foi a artilharia Krupp.
A empresa sempre foi especialista em aço, fundições e...armamentos. Criada em 1811 a então pequena fundição tornou-se empresa e cresceu ao longo dos anos, e o nome Krupp virou célebre ao criar canhões mais leves, móveis e com grande alcance de tiro. Durante a Guerra de Canudos, no sertão baiano, o exército brasileiro utilizou canhões Krupp para conter os revoltosos liderados por Antônio Conselheiro. Este episódio da história do Brasil está ricamente detalhado no extraordinário “Os Sertões”, de Euclides da Cunha.
E na primeira guerra mundial os canhões Krupp bombarderam Paris e eram produzidos em larga escala. Era a fornecedora principal de armas ao exército alemão, condição que perdurou também na segunda guerra mundial embora, ao que se indica, o herdeiro Alfred Krupp von Bohlen não fosse simpático ao nazismo, inicialmente. Mas os grandes acordos comerciais com o exército nazista talvez tenham mudado seu modo de pensar, já que Alfred tornou-se, em 1943, Ministro das Economia de Guerra, nomeado pelo próprio ditador alemão.Preso e julgado como criminoso de guerra, Alfred Krupp teve sua fortuna confiscada, mas logo seria solto e fez da Krupp uma das maiores siderurgias do mundo, formando mais tarde o conglomerado ThyssenKrupp que faz também a manutenção deste elevador que talvez você utilize para chegar ao seu apartamento ou ao seu escritório.
Você já tinha pensado se um simples selinho de “visto de manutenção de elevadores” tinha tanta história assim?





A “revista” VEJA, guardiã da classe média que “sustenta esse país com seus impostos” já estampa em sua capa (toda preta, como se em “luto”) uma “investigação filosófica, psicológica, religiosa e histórica sobre a perversidade humana”.
