sexta-feira, dezembro 16, 2016

Retrospectiva literária 2016


Como costumam dizer, 2016 foi um ano “tenso” em diversas áreas – e na política, nem se fala. É tempo das emissoras de TV e sites informativos exibirem suas retrospectivas do ano e desconfio que estas precisarão de muito tempo e páginas para que possamos relembrar de tantas coisas que aconteceram neste ano. Como de costume também faço minha retrospectiva literária, trazendo algumas obras que eu li ao longo do ano e que deixo como dicas para quem está procurando boas (ao meu ver) leituras. Vamos a elas. 
  
As vinhas da ira – John Steinbeck. (Editora Best Bolso, 585 páginas) 
Eu não gosto daquelas listinhas que trazem um apanhado de livros (ou filmes, lugares, etc.) que os apresentam como “obrigatórios” ou “livros que você DEVE ler” – leia o que quiser e quando puder, lembre-se dos direitos do leitor segundo Daniel Pennac. Mas no caso desta obra de Steinbeck eu a classificaria como “essencial” não apenas por ser muito bem escrita, mas principalmente por suscitar grandes reflexões sobre o homem, as relações de poder e os "sistemas" (bancário, penitenciário, econômico). Trata-se um retrato fiel dos cafundós dos Estados Unidos durante o período chamado de Grande Depressão causado pela crise de 1929: uma família (os Joad) que deixa (ou melhor, é expulsa) os campos de algodão de Oklahoma para tentarem a sobrevivência na Califórnia e ao longo do caminho enfrenta todos os tipos de provações e privações – o retrato da pobreza, dos sonhos despedaçados e da injustiça, mas também da solidariedade e da humanidade. Uma obra prima com narrativa ágil e sem rodeios, com personagens marcantes – bem ao estilo de Steinbeck.  

Quando Nietzsche chorou – Irvin D. Yalom. (Editora Agir, 373 páginas) 
Conheci a literatura de Yalom graças à leitura do bom “Criaturas de um dia” e gostei do estilo do autor. “Quando Nietzsche chorou” é um daqueles livros que ao final da leitura deixa a pessoa fascinada não apenas pela fluidez do texto, mas também por trabalhar com maestria temas que à primeira vista parecem complexos, como a filosofia de Nietzsche e a psicanálise de Freud – e estes dois grandes nomes são personagens deste romance que se juntam no quarto final do efervescente século XIX a nomes como Josef Breuer (um dos pais da psicanálise) e a incrível Lou Salomé. Uma obra inteligente, arrebatadora. 

Ragtime – E.L. Doctorow. (Editora Best Bolso, 277 páginas) 
Sabe aquele tipo de livro em que você devora as páginas e não quer largar de jeito nenhum até o fim da leitura? Este é Ragtime, que apresenta os Estados Unidos no início do século XX intercalando personagens fictícios com históricos do porte de Henry Ford,  o mágico ilusionista Harry Houdini, o multimilionário J.P.Morgan e a ativista anarquista e feminista Emma Goldman. O contexto histórico é riquíssimo: as greves, a pobreza (principalmente dos imigrantes), o poder da imprensa sobre a opinião pública e o preconceito racial – com um retrato da brutalidade policial sobre os negros, uma questão que infelizmente continua bastante atual nos EUA. O termo “ragtime” refere-se a um estilo musical muito popular nos Estados Unidos entre 1897 e 1917. Com frases curtas e ritmo marcante, Ragtime é um livro para ser apreciado como se aprecia uma boa música. 

O monge endinheirado, a mulher do bandido e outras histórias de um rio indiano – Gita Mehta. ( Companhia de Bolso, 199 páginas) 
A cultura indiana é uma das mais complexas, diversificadas e exuberantes do mundo. Permeada pela religiosidade, as histórias deste livro apresentam todas essas características em personagens que chegam às margens do rio Narmada:ascetas, músicos, ladrões, milionários, cortesãs, hinduístas, jainistas e burocratas como o administrador da pousada que deseja tornar-se um vanaprasthi, ou seja, uma pessoa que deixa as obrigações mundanas de lado para meditar na natureza. E é este administrador que recolhe e conta as histórias fascinantes que refletem toda a pluralidade desta milenar cultura.

Marcovaldo ou as estações na cidade – Italo Calvino. (Companhia das Letras, 143 páginas)
Marcovaldo é um homem puro, um humilde operário que busca por coisas simples para sua vida: o canto dos pássaros ao amanhecer, uma pescaria, o por do sol no morro perto da cidade, uma plantação de cogumelos, dormir sob as estrelas. Ele até consegue colocar em prática algumas ações, mas por pouco tempo: sempre acontece alguma coisa que atrapalha seus planos. De estilo cômico e com uma leveza que falta ao humor de nossos tempos, “Marcovaldo” diverte em seus 20 contos com as peripécias do nosso ingênuo e quixotesco personagem pela cidade. 

Contos húngaros: Kosztolányi, Csáth, Karinthy e Krúdi – Paulo Schiller (org). (Editora Hedra, 197 páginas)
A literatura do leste europeu sempre despertou curiosidade e fascínio para mim. Autores como Franz Kafka, Karel Capek (autor do sensacional “Guerra das Salamandras” e “Fábrica de robôs”) e Ferenc Molnár (de “Os meninos da rua Paulo”) dispensam maiores comentários por suas obras de grande qualidade literária. Este volume de contos húngaros apresenta um bom panorama da literatura húngara, tão desconhecida por aqui.  Os contos reúnem produções de autores do primeiro quarto do século XX e o estilo é conciso e agradável: Karinthy apresenta as desventuras de um aluno na escola, Krúdi traz dois contos que são complementares sobre um duelo e a “cereja no bolo” fica por conta de Kosztolányi, um contista de mão de cheia e uma das melhores descobertas a serem feitas sobre a literatura deste país tão distante. 

A festa e outros contos – Katherine Mansfield. (Editora Revan, 143 páginas)
Apontada como discípula de Tchekov, o genial contista russo, Katherine Mansfield é dona de uma personalidade marcante e encontra a literatura nas minúcias do dia a dia em fatos e pessoas que geralmente não despertam maiores atenções – tal como fazia Tchekov. Chegou a ser acusada de plagiar o escritor russo, mas isso logo se revelou infundado. Para que se tenha uma ideia do talento e sensibilidade de Mansfield, dentre suas admiradoras estão Virginia Woolf e Clarice Lispector: a leitura de contos como “a vida de Mae Parker” e “Uma xícara de chá” neste volume ajudam a entender o por quê.  

O Rei de Havana - Pedro Juán Gutiérrez. (Edição digital)
Encontrei este livro em versão digital e além deste formato só é possível encontra-lo em sebos. “O rei de Havana” segue a mesma linha de “Trilogia suja de Havana”, do mesmo Gutiérrez: linguagem nua e crua, seca e sem rodeios, com personagens miseráveis se virando entre os escombros da capital cubana e movidos a rum, salsa e muito, mas muito sexo. O “rei” nesta obra é Reynaldo, um jovem que passou por todos os tipos de tragédias possíveis e imaginárias até parar num reformatório, de onde foge e ganha as ruas da Havana e se envolve com prostitutas, travestis, drogas, turistas, trapaceiros e vive uma relação sórdida com Madalena. O estilo seco e direto de Gutiérrez pode assustar a alguns, afinal não se trata de “literatura limpinha” – quem conhece e aprecia a obra de Bukowski, Rubem Fonseca, Henry Miller e Reinaldo Moraes vai se identificar totalmente.  

E você, quais foram suas leituras preferidas no ano de 2016? 

domingo, novembro 13, 2016

Axl Rose: gente como a gente.


Hello, mundo, inicio dos anos 90: o Guns n´ Roses percorria o planeta com a grandiosa e extravagante turnê “Use your Illusion”. Mesmo com o surgimento do grunge, do Nirvana e de mais de 1 trilhão de bandas que tentavam copiar o estilo e a sonoridade da banda de Kurt Cobain, o Guns continuava firme na MTV, nas rádios e nos shows lotados – Axl Rose, o temperamental vocalista, era ídolo não apenas por ser um ótimo frontman pelos palcos com sua postura encrenqueira (no rock isso conta pontos) e um carisma gigantesco, mas também uma espécie de sex symbol do rock, com suas bermudas coladas, danças sensuais entre uma música e outra, além de um rostinho um tanto angelical, com longa cabeleira loira envolta em bandana descolada - havia até quem o chamasse de "barbie do rock" disputando o posto com Jon Bon Jovi e Sebastian Bach

Por aí pelo mundo, ano de 2006: após um hiato e retorno meia boca no início do século (sem o guitarrista Slash e o baixista Duff), Axl Rose surge renovado por festivais pela Europa e Estados Unidos. Com uma trupe de músicos contratados e tentando concluir a bomba chamada “Chinese Democracy”, Rose está robusto (mas não gordo), ágil no palco e parece ter voltado aos bons tempos quanto à voz. No entanto, continua o mesmo esquisitão de sempre, como relata John Jeremiah Sullivan: “Axl Rose, que não lança um disco oficial faz treze anos e que durante esse período se transformou num personagem que lembra Howard Hughes – pedindo comida por telefone (...) fazendo aparições ocasionais e assustadoras em eventos esportivos e desfiles de moda, coisas assim – parecendo um pouco selvagem, um pouco perdido”. Tão selvagem que naquele mesmo ano mordeu a perna (!) de um segurança de hotel na Suécia e foi preso.

Rock in Rio, 2011: ninguém consegue acreditar que aquele sujeito no palco é Axl Rose. Gordo, roupas largas e chapéus enormes tentando esconder um rosto inchado, movimentos lentos e até desajeitados, a sua voz lembrava o desenho do Mickey Mouse e estava acompanhado por uma banda que se ao menos tecnicamente era ok, tinha carisma zero – três guitarristas tentando soar tal como Slash nas canções clássicas do grupo. Axl Rose, quem poderia imaginar, havia chegado ao fundo do poço.

Olá, mundo, 2016! Tinha tudo para dar errado: é anunciado o retorno da “formação clássica” do Guns n´Roses, ou parte dela – o guitarrista Slash (que ao contrário de Axl gravou ótimos álbuns nos últimos anos – com exceção do Velvet Revolver) estava de volta juntamente com o baixista Duff McKagan; como se não bastasse, o vocalista do AC/DC, Brian Johnson, não poderia prosseguir com a turnê de sua banda devido a problemas de saúde e quem iria substituí-lo? Quando o nome de Axl Rose foi anunciado, ninguém acreditou – e os fãs mais radicais do AC/DC torceram o nariz.

Em diversas mitologias existe a história de um pássaro chamado Fênix que é capaz de renascer das próprias cinzas. O que estamos assistindo em 2016 é um Axl Rose renascendo dos desastrosos últimos anos - e para melhor. O appetite for rock voltou e o vocalista, agora com 54 anos, não apenas retomava sua voz e o gosto pelos palcos, superando todas as expectativas negativas tanto no Guns n´ Roses quanto no surpreendente AC/DC, como também deixa transparecer algo que não víamos até então: o sujeito parecia feliz.

Não era mais um sex symbol inacessível cheio de não-me-toques e chiliques de artistas temperamentais. Axl Rose ostenta uma bela barriga de tiozão do churrasco, os cabelos não são mais aqueles de propaganda comercial de shampoo, se veste como um roqueiro de meia idade que não troca aquela camiseta preta bacana (todo mundo tem uma que se pudesse seria a segunda pele) e usa um monte de balangandãs que poderiam ser encontrados em quaisquer lojinhas da galeria do rock em São Paulo. Antes avesso a máquinas fotográficas, agora tira fotos com fãs e até toma um cafezinho com eles, se deixa filmar e em algumas entrevistas ele demonstra um bom humor invejável. E os atrasos são dentro dos limites toleráveis – coisa de 20 minutos, em média. Ou seja, é um Axl Rose gente como a gente (guardadas as devidas proporções) que agora sente a passagem do tempo e ao contrário do que aparentemente tentava fazer há alguns anos, simplesmente aceita. Quando nos aceitamos com nossas limitações, imperfeições e abandonamos certas ilusões ( a da juventude eterna, por exemplo), a vida flui com mais facilidade - adaptação é uma boa palavra. Para um artista da área do cinema, da TV e da música isso sempre é mais complicado, pois a imagem é um componente fundamental não apenas para seu público como também para conseguir trabalhos em um universo que impõe padrões em relação ao corpo que beiram a paranoia – daí a familiaridade com nomes estranhos de métodos e substâncias como toxina botulínica (o popular botox, usado pelo próprio Mr. Rose), ácido hialurônico, laser CO2 fracionado, carboxiterapia, etc.

O escritor e professor Affonso Romano de Sant´Anna escreveu que “o que atrapalha alguns maus envelhecedores é a desmesurada projeção que fizeram de si mesmos”. Talvez Axl Rose tenha caído na real e largado um belo “fuck off” para toda essa projeção que não apenas ele mas muitos ainda sustentavam sobre sua imagem – esqueçam o rostinho do final dos anos 80, as bermudas e shorts colados, o sex symbol: estes ficam nos clipes, nas fotos, na galeria de mitos. Agora temos o nosso tiozão do rock que berra ao seu público “you know where you are?” para iniciar a festa com os bons e atemporais clássicos, solos de guitarra, baladas para se cantar junto e muita energia no palco, como visto nos shows no Brasil.   

Até quando isso vai durar ninguém sabe. O negócio é aproveitar a boa fase do nosso tiozão do rock ao lado do cada vez melhor Slash, do centrado Duff McKagan e grande elenco, abrir uma cerveja e partir para a nostálgica Paradise City, onde a grama é verde e ali, sim, o tempo parece passar devagar.  

Referências:

Sant´Anna, Affonso Romano. Fizemos bem em resistir: crônicas selecionadas. Rio de Janeiro, Rocco, 1994.

Sullivan, John Jeremiah. Pulp Head: o outro lado da América. São Paulo, Companhia das Letras, 2013. 

sexta-feira, outubro 14, 2016

Bob Dylan: uma pedra rolando sobre o conservadorismo acadêmico literário.

Foi anunciado o vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 2016: o compositor, cantor e músico norte-americano Bob Dylan, de 75 anos. As reações da opinião pública foram, claro, controversas: muitos amaram, outros detestaram, uns acharam estranho, outros louvaram a escolha.

No entanto, as melhores reações que eu tenho observado e me divertido são os chiliques e esperneios de alguns acadêmicos, críticos literários e literatos que consideram tal escolha “uma coisa absurda”, visto que Bob Dylan "é compositor", “não é escritor com livro publicado” (mas ele tem) e, sendo assim, não mereceria um prêmio Nobel neste campo sagrado da literatura. O mundinho fechado e solene dos cânones foi profanado por um compositor popular de folk, rock e country. Onde já se viu tamanha ofensa?

Parece que o problema reside justamente no fato de ele ser um músico, um compositor. Ora, um compositor não escreve?  De acordo com a secretária da Academia Sueca, “pode parecer uma decisão radical, mas se você olhar lá para trás, você descobre Homero, Safo, que escreviam poemas para serem ouvidos, cantados, é a mesma coisa com Bob Dylan. Ainda lemos Homero e Safo.” Exatamente: relembremos trovadores galego-portugueses e provençais com seus cancioneiros em suas peregrinações pelas cidades e cortes a partir do século XII – isso para ficar apenas num recorte histórico; ou um exemplo mais próximo, o dos poetas do cordel no Nordeste brasileiro, cuja tradição remonta aos cantadores. O que os cantadores faziam e ainda fazem? Cantam, em versos, a vida: o sertão, os povoados, as pelejas, a religiosidade, os amores, as dores.

O escritor Affonso Romano de Sant´anna já nos lembra que “a confluência entre música e poesia cada vez mais se acentua desde que poetas como Vinicius de Moraes voltaram-se para a música popular e que autores como Caetano e Chico se impregnaram na literatura”. Independente de preferências e posicionamentos políticos, como negar a poética de um Chico Buarque ou de Vinicius? Aliás, o próprio poetinha afirmou: “Não separo a poesia que está nos livros da que está nas canções".

A literatura popular foi, durante muito tempo, desprezada pela Academia e acadêmicos por ser considerada “simplória”, sem “erudição”. Evidente que há o que selecionar quanto à qualidade, mas alguém aí se atreve a questionar a genialidade de um Patativa de Assaré, por exemplo?  (lembrando que o poeta e compositor cearense foi bastante premiado durante sua vida - inclusive Doutor Honoris Causa em várias universidades)   

E por que um compositor do porte de Bob Dylan não pode ser premiado também? Ok, podemos questionar vários aspectos sobre as premiações do Nobel, mas não tratemos destes critérios por aqui neste momento. Concentremo-nos na literatura. É bom sair do mundinho da academia e ouvir/ler/apreciar coisas que não estejam classificadas em grupinhos seletos. A obra de Dylan está aí desde a década de 1960 e suas influências literárias são extraordinárias:  de Rimbaud a Tchekhov, passando por Dylan ThomasJack Kerouac, Allen Ginsberg e a literatura beat, tais influências podem ser notadas em várias de suas letras. Em “Desolation row”, por exemplo, há referências de T.S Eliot e Ezra PoundSe a questão é "ser livro", então que se ouça Bob Dylan como uma espécie de audiobook - e preste atenção às letras de "Subterranean homesick blues", "Tanged up in blue", "Visions of Johanna" e a extraordinária "Hurricane", para citar algumas das mais populares do compositor norte-americano.

Dylan sempre foi um artista inquieto e controverso, quebrou várias convenções e era, literalmente, uma
pedra rolando. O prêmio Nobel de Literatura está em ótimas e talentosas mãos - os literatos e acadêmicos podem bufar e espernear à vontade em sua santa cruzada pela sacralização da literatura ( um desserviço), mas se Dylan pudesse cantar algo a eles, provavelmente seria "The times they are changing" (Os tempos, eles estão mudando). Youtubers com seus canais de literatura que o digam, mas essa já é outra história. 

terça-feira, setembro 27, 2016

A "reforma" do Ensino Médio

O texto a seguir foi publicado em meu Facebook e trata-se de uma breve reflexão sobre a reforma do Ensino Médio proposta pelo presidente Michel Temer. Segue na íntegra e sem edições no conteúdo, com apenas uma nota ao final. A charge também foi publicada na citada rede social.

                                                                    ***

“A forma do sistema educacional brasileiro até hoje é a do período colonial, se passa um verniz de modernidade, mas ele continua o mesmo.”
                                                                        Tião Rocha, educador e antropólogo.

E mais uma camada de verniz foi passada hoje com a chamada “reforma” do Ensino Médio (EM) via Medida Provisória (MP). O enxugamento curricular do EM passa pela não obrigatoriedade de disciplinas como Artes e Educação Física, além de Filosofia e Sociologia – e sob o verniz de modernidade, entram em ação a Escola em tempo integral, flexibilização curricular e a ênfase no ensino técnico e profissionalizante.

Basicamente é um retorno ao modelo da pedagogia tecnicista que vigorou nas escolas brasileiras durante as décadas de 60 e 70, voltadas para suprir a demanda de mão de obra para o mercado de trabalho – o instrumental, a prática e o utilitarismo predominavam e não havia abertura para desenvolvimento do espírito crítico, por exemplo.

Que o Ensino Médio precisa passar por reformas ninguém discute, porém a presente medida provisória não contempla diversos aspectos que atestam a precariedade das escolas como infraestrutura física, por exemplo, e a valorização docente – e neste último ponto abre um precedente perigoso: admitir pessoas e profissionais a partir do “notório saber” para ministrarem aulas sem formação específica na área é desestimular de vez a formação de professores em cursos de licenciaturas que já andam praticamente às moscas. Uma das grandes críticas em relação ao Ensino Médio é justamente no fato de muitos professores não possuírem licenciatura nas disciplinas em que dão aulas – isso acontece também pelo déficit de professores principalmente na área de exatas. Como estamos retrocedendo nesta área, talvez voltemos aos tempos do mestre-escola do século XIX.

É uma reforma com foco em quantidade – quantidade de horas na escola, quantidade de matérias obrigatórias retiradas do currículo – e não em qualidade. É o maldito utilitarismo que desde cedo condiciona as pessoas a tratarem a arte, a poesia, literatura, a diversidade musical e expressões lúdicas como “perda de tempo” e “coisas que não dão dinheiro”. Desta forma, como diz o educador português José Pacheco, o chamado turno integral não passará de uma dose dupla de tédio.



Notas:

1 -  O presente texto foi escrito no dia 22 de Setembro, anterior ao recuo na Medida Provisória que manteve as disciplinas de Artes e Educação Física no currículo obrigatório – ao menos por enquanto.
2 – Citações de Tião Rocha e José Pacheco: A escola e desafios contemporâneos / organização e apresentação Viviane Mosé. – 1ª ed. – Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013. 

sexta-feira, setembro 09, 2016

Viver para trabalhar ou trabalhar para viver?


Há alguns meses o presidente da Confederação Nacional das Indústrias, Robson Braga de Andrade, afirmou que o país necessita de “mudanças duras” na legislação trabalhista brasileira para retomar a competitividade da indústria e citou o exemplo da França, com a possibilidade em estender a jornada de trabalho para até 60 horas semanais.

Ao tomar conhecimento da fala do presidente da CNI lembrei o período em que trabalhei 60 horas semanais na área de Educação. Manhãs, tardes e noites preenchidos pelo trabalho e sem falar nos finais de semana em que eu não conseguia me desligar dos deveres profissionais e levava serviço para casa – provas e trabalhos para corrigir, preparação dos planos de aula/curso e material didático. O resultado deste ritmo foi desastroso sob todos os aspectos, sobretudo no campo emocional.

Mesmo após largar o “turno extra” e agora com a carga “normal” de 40 horas semanais, ainda assim dedico muito tempo ao trabalho fora dele (e quem é professor sabe que a sala de aula está por toda a parte: um filme na TV, uma música no rádio ou um cartaz na rua pode se transformar em plano de aula), embora não cometa mais loucuras como levar pilhas de papel para casa nos finais de semana. Já repararam, aliás, que o fim de semana aos poucos vai sendo engolido pelo trabalho?

O sonho da humanidade durante a chamada Revolução Industrial era reduzir o tempo de trabalho humano – as máquinas fariam todo o esforço. Não foi bem isso o que aconteceu: hoje continuamos trabalhando demais (até 15 horas diárias, como no caso de muitos executivos) e com as tecnologias, principalmente da comunicação, estamos sempre “disponíveis” para assuntos profissionais aos sábados, domingos, feriados e madrugadas. Geralmente a coisa toda começa com um “vestir a camisa da empresa” até chegar o momento em que você ganha uma “nova família”, ou seja, a empresa - isso sem falar no “patrão amigão” para o qual você moverá todos os esforços “em nome da amizade”.

“Seria glorioso ver a humanidade ter descanso uma vez na vida. É só trabalho, trabalho, trabalho”. Parece algo muito atual, mas isso foi escrito há mais de 150 anos por Henry Thoreau, no ensaio “Vida sem princípios” (publicado em 1863). Thoreau condenava o modelo de vida baseado no excesso de trabalho, consumo e velocidade e em sua principal obra, Walden (1854), ele aconselha: “Simplicidade, simplicidade, simplicidade! Eu digo: reduza suas atividades a duas ou três, e não a cem ou mil”. Não parece ser um ótimo conselho para estes nossos tempos repletos de atividades?

Como reduzir o ritmo e o excesso de atividades? Não existe uma receita ou fórmula mágica para resolver isso, afinal cada pessoa elenca quais são suas prioridades na vida e sabe (ou deveria saber) onde o calo dói; no entanto, eu diria que uma virtude é necessária para quem procura reduzir o ritmo de trabalho: coragem. Coragem de abrir mão de um horário extra, de um dinheiro extra; coragem para admitir que não consegue (e não pode) abraçar o mundo de uma só vez; coragem para desconectar ou ao menos ignorar as inúmeras mensagens no celular à noite e nos finais de semana; coragem para dizer “não” a algumas demandas e exigências profissionais que surgem de última hora e cujo prazo “é para ontem”; coragem para cortar determinados consumismos – como dizia meu avô, se você ganha 10 não queira viver como se ganhasse 20. 

Parece algo que um ermitão, um asceta hindu ou um monge budista diria e soa até como idealista (ou ingênuo) diante de tantas contas, dívidas e necessidades que assumimos no dia a dia, além das ameaças de patrões com o desemprego; porém, não deveríamos nos submeter a jornadas extensas e cansativas que são prejudiciais à saúde  e dedicando todo o tempo para o trabalho, transformando nossas vidas em uma lógica como esta descrita por Domenico de Masi no livro "O ócio criativo":

O funcionário deve demonstrar ao chefe que o tempo não é suficiente, que tem muita coisa para fazer e que é tão prestimoso e fiel à empresa, que se dispõe a assumir todas essas tarefas no overtime, até mesmo gratuitamente. Portanto, sacrifica a família e o lazer a este mito que é a empresa, colocando em primeiro lugar, acima de coisa. Por conseguinte, o chefe age de modo que a promoção, o aumento salarial ou somente o relacionamento de confiança dependam da fidelidade do empregado para com a empresa.

Tal lógica não é saudável para ninguém e nem mesmo para as empresas e para a própria sociedade. É sempre difícil quebrar paradigmas e padrões aos quais fomos condicionados, mas é preciso mudar alguns destes padrões, ou melhor, ter a coragem para mudar - a partir de pequenas mas significativas atitudes. E mais uma vez o nosso Thoreau apresenta boa dica para aquelas mensagens de trabalho no celular durante as madrugadas ou finais de semana: "Um homem é rico na proporção das coisas que ele é capaz de deixar de lado".        

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