sábado, abril 22, 2017

Biblioterapia: livros para a alma



Recentemente vi na imprensa algumas matérias informando a respeito de uma técnica chamada “biblioterapia”, que é uma espécie de terapia complementar baseada na leitura de livros indicados por especialistas para aliviar o estresse e a lidar com sentimentos relacionados à solidão, frustrações, etc.

Fui pesquisar um pouco mais sobre o termo até então desconhecido para mim – e talvez o seja para muita gente. “Biblioterapia” é a junção de duas palavras gregas: biblion (livros ou suportes para leitura) e therapein (alusivo à terapia). E não se trata propriamente de uma novidade, pois o primeiro registro sobre o tema data de 1916, embora muito antes disso (estamos falando dos antigos gregos, romanos e egípcios) as qualidades terapêuticas que a leitura proporcionava eram reconhecidos. Além dos alívios para os sentimentos já citados, a biblioterapia também promove efeitos benéficos para a alma e consequentemente para o bem-estar.

Na verdade qualquer pessoa apaixonada pela leitura conhece esses efeitos já comprovados pela ciência. Quando “entramos” no livro e nos envolvemos com a história, os cenários e seus personagens obtemos sensações prazerosas e lúdicas – sim, pois a ludicidade, de acordo com o professor Cipriano Luckesi, é um estado de atenção plena ao que fazemos com prazer: “Enquanto estamos participando verdadeiramente de uma atividade lúdica, não há lugar, na nossa experiência, para qualquer outra coisa além dessa própria atividade. (...) Estamos inteiros, plenos, flexíveis, alegres, saudáveis”.

Tal estado de plenitude com a prática de biblioterapia apresenta bons resultados. No estudo biblioterapêutico realizado com pacientes de clínicas médicas, a bibliotecária Eva Seitz concluiu que tal prática foi muito útil para, dentre outras coisas, tornar a hospitalização “menos agressiva e dolorosa”, pois a leitura como lazer “proporciona tranquilidade, prazer, reduzindo a ansiedade, o medo, a monotonia, a angústia inerente à hospitalização e ao processo de doença”.

Livros que são bálsamos para a alma

Durante um período conturbado de minha vida eu recorri aos livros em busca de respostas para o que eu estava passando e até mesmo algum alívio para as angústias. Para muitas pessoas isso é um caminho fácil para a leitura dos chamados livros de autoajuda, porém não foi o meu caso. Posso dizer que fiz uma biblioterapia por conta própria e deu certo sob muitos aspectos. Claro que gostar de ler desde a infância ajudou bastante e algumas obras, mesmo aquelas que passaram por releitura, serviram como bálsamo para alma.

A poesia de Alberto Caeiro, o meu predileto dentre tantos heterônimos de Fernando Pessoa, evocando o que à primeira vista parece ser a bucólica simplicidade de homem em comunhão com a natureza, apresenta verdadeiras pérolas para repensarmos os olhares e dogmas que nos prendem a correntes das quais tentamos arrastar durante a vida. Como escreve o poeta em seu “O Guardador de Rebanhos” (XXIV), é preciso desnudar a alma e passar por um processo de “aprender a desaprender”. Mais do que um simples exercício, um desafio que vale a pena tentar.

A filosofia de Sêneca também serviu como terapia complementar para muitas angústias. Na verdade buscava entender alguns reveses da vida e o filósofo latino oferece em seus escritos boas reflexões sobre frustrações, imprevistos e expectativas exageradas. O tratado “Da tranquilidade da alma” é belíssimo.

Nem sempre a literatura oferece alívio à primeira vista – ou melhor, à primeira leitura. De fato alguns livros não trazem nenhum tipo de alívio em suas páginas, e sim incômodos, o que é muito bom para sair do lugar comum e considerar outros pontos de vista. Um livro que fez a “ficha cair” definitivamente após cuidadosa releitura foi “A morte de Ivan Ilitch”, do escritor russo Lev Tolstoi. Ao contrário de “Guerra e Paz” com suas mais de mil páginas, esta novela é breve em número de páginas (não chega a cem) e densa em conteúdo. Os questionamentos por parte de um burocrata (Ivan) no leito de morte repassando a sua vida de aparências e busca por prestígio perante a sociedade geram desconforto ao leitor, principalmente quando Ivan Ilitch, em suas observações, se dá conta da fragilidade da vida e da insignificância de alguns atos. É um livro que não deixa ninguém indiferente e nos convida ao mergulho interior: o que estamos fazendo, afinal, de nossas vidas?

Posso citar alguns outros livros que me ajudaram bastante no processo de autoconhecimento e aprendizados: o belíssimo ensaio “A vida humana” e o delicioso “Pequeno tratado das grandes virtudes”, do filósofo André Comte-Sponville; a simplicidade nas páginas de “Walden”, de Henry David Thoreau – que também é autor de “Desobediência civil”, obra fundamental para posicionar-se contra leis injustas; a iluminação de um dos livros mais bonitos que já li, “Sidarta”, de Herman Hesse; a leitura comovente e sensível de “A trégua”, de Mario Benedetti; a tragédia shakespeariana de “Otelo” trazendo à tona temas universais como ciúme, inveja, ambição, racismo; alguns contos do brilhante Machado de Assis como “O Espelho” e “Um homem célebre” que tratam o eterno dilema humano entre “ser e parecer”. 

Sempre gosto de citar também obras como “A vida líquida” e “Amores líquidos”, de Bauman, “Ócio Criativo”, de Domenico De Masi e “Uma história íntima da humanidade”, de Theodore Zeldin, pois apresentam boas contribuições para tentarmos compreender o mundo e como chegamos até aqui. E embora o título soe como uma arrogante e pretensiosa autoajuda, o livro “Como mudar o mundo” de John-Paul Flintoff é um daqueles que eu classificaria como inspiradores para que possamos agir e efetuar pequenas porém significativas mudanças no dia a dia.

“A literatura faz acontecer”

Claro que o gosto literário é estritamente particular. Estes livros que citei podem não ser do agrado de muita gente ou pouco significativos durante ou após a leitura. É natural. Há quem se identifique com obras de não-ficção, com autoajuda, com clássicos, com biografias, fábulas, poesias, ficção científica, não importa: aqui lembro da lista dos direitos do leitor, de Daniel Pennac (autor de “Como um romance”, uma ode à literatura), e um desses direitos está o de ler qualquer coisa – é uma boa sugestão para quem não tem o hábito de leitura: comece por temas que despertem o seu interesse e não dê importância ao que dizem sobre o estilo literário que você gosta. 

Hoje já existe a figura do biblioterapeuta como o profissional mais indicado para recomendar os livros adequados para um tratamento. Há quem possa torcer o nariz para este uso da literatura como uma espécie de terapia complementar, mas lembrei do escritor, professor e poeta Affonso Romano de Sant´anna com sua crônica “Leitura faz acontecer”: com intensa atividade literária publicada em jornais, revistas e livros, o autor relata as diversas ocasiões em que foi abordado por leitores que citam alguns de seus textos como inspiradores para eventos importantes em suas vidas. “A literatura faz acontecer”, encerra assim a crônica. 

Para a literatura acontecer (e uma biblioterapia ser eficaz) é preciso dar a ela uma chance. Abra o livro, mas também abra a mente para as ideias e histórias que os autores apresentam - concorde, discorde, reflita, releia. E tenha uma boa viagem pelo mundo das palavras e do autoconhecimento. Faz bem para a saúde, faz bem para a alma. 

Referências: 

LUCKESI, Cipriano Carlos. Educação, Ludicidade e Prevenção das Neuroses Futuras: uma proposta pedagógica a partir da Biossíntese. 2005. Disponível em  http://www.luckesi.com.br/artigoseducacaoludicidade.htm 

SEITZ, Eva Maria. Biblioterapia: uma experiência com pacientes internados em clínicas médicas
Bibliotherapy: an experience with patients interned in medical clinica. p.155-170
Revista ACB, [S.l.], v. 11, n. 1, p. 155-170, nov. 2006. ISSN 1414-0594. Disponível em: https://revista.acbsc.org.br/racb/article/view/452/567

SANT´ANNA, Affonso Romano de. Ler o mundo. São Paulo, SP: Global, 2011. 

segunda-feira, março 27, 2017

Greve de professores e o discurso "prejudicando os alunos".


O roteiro é o mesmo de sempre: basta que os professores façam uma paralisação ou greve e repentinamente parte da imprensa SE INTERESSA pelas escolas e pelos estudantes – e o discurso também não muda: “os alunos estão sendo prejudicados”, “os alunos que se preparam para o ENEM estão sendo prejudicados”.
Acho lindo que essa narrativa “os alunos estão sendo prejudicados” só apareça nestes momentos. Experimente colocar no Google “telhado de escola desaba” e você encontrará sabe-se lá quantos resultados colocando a culpa dos desabamentos na chuva, nos fortes ventos, em Odin, no El Niño, nos ETs. Quase não se encontra uma palavra sobre a infraestrutura decadente da escola em que os alunos estudam – é que isso “não prejudica os alunos”, claro.
Também “não prejudica os alunos” a falta de merenda, falta de materiais básicos para que professores possam trabalhar, falta de segurança no entorno e na própria escola, políticas desastradas como fechamento de escolas e enturmações com salas de aula lotadas, etc e mais dezenas de etceteras. Nada, nada disso “prejudica os alunos”.
E então, no final do ano, quando são divulgados os resultados das avaliações externas como o PISA e tantos outros, surge o discurso: “É preciso investir em Educação e valorizar os professores”. Parece até um lance bipolar, não?
Antes fosse, mas a gente sabe muito bem que não é. Há 40 anos Darcy Ribeiro já dizia que “a crise na Educação não é crise, é projeto”. O mantra “os alunos estão sendo prejudicados” repetido ad nauseam pelos chamados formadores de opinião de parte da imprensa durante períodos de greve e paralisações também insere-se neste projeto: desqualificar e esvaziar as reivindicações dos professores perante a opinião pública é apenas mais um dos capítulos deste roteiro já conhecido.
                                                                          ***
O texto acima é uma postagem feita por mim no Facebook no dia 17 de Março de 2016. No dia 22 de Março de 2016, apenas 5 dias depois, surge a notícia: "Muro e telhado de colégio desabam no Corredor da Vitória", em Salvador. O texto no site do jornal A TARDE inicia assim: "A chuva que atinge a capital baiana na manhã desta quarta-feira, 22, provocou o desabamento do muro e destelhamento do Colégio Estadual Odorico Tavares".
Fui chamado de "profeta" por causa desta notícia e do texto que escrevi em tão pouco espaço de tempo. Não se trata de "profetizar": basta prestar atenção a certos discursos e práticas, além de vivenciar o cotidiano da área educacional. É muito cômodo responsabilizar a chuva ou demais fenômenos da natureza pela falta de manutenção, investimentos e cuidado com as escolas, alunos, professores e funcionários. (Em tempo: felizmente não houve feridos no desabamento do telhado e muro do colégio citado na notícia) 


terça-feira, março 07, 2017

Excesso de trabalho e pouco viver


                                "Deve-se ganhar a vida amando-a." Henry David Thoreau

Há algum tempo circulou na imprensa a informação de que o prefeito de São Paulo, João Doria, dorme apenas 3 horas por noite. O empresário assegura que tal ritmo acontece há anos e é o modo que ele encontrou para manter-se produtivo.

As reações foram diversas – de admiração ao trabalhador incansável e também condenação a um ritmo insano que afeta também aos secretários municipais. No geral vi muitos elogios não apenas ao prefeito, mas para aqueles que dormem pouco e dedicam a maior parte do seu tempo para o trabalho. 

Recentemente deparei com a notícia de um publicitário nas Filipinas que morreu devido a complicações de pneumonia e mesmo doente foi trabalhar. A morte deste publicitário trouxe à tona históricos de profissionais que tiveram problemas com o excesso de trabalho – no Japão isso tem até um nome: karoshi.

As pessoas com esse perfil “trabalhador incansável” são admiradas e tomadas como ideal de profissionalismo, ao passo que pessoas com mais tempo livre são rotuladas com termos desagradáveis e até sarcásticos. Isso não é novo: no século XVI o teólogo reformador João Calvino já considerava o trabalho uma benção divina e um propósito de vida, enquanto a ociosidade era algo condenável, uma afronta a Deus. Obviamente não foi Calvino o criador desse sistema que explora a força de trabalho à exaustão (o sentido das ideias calvinistas sobre trabalho e ociosidade possuía outra conotação), mas tal ideia foi muito bem adaptada e usada pela burguesia e chegou aos nossos tempos em que funcionários sentem-se culpados em tirar férias – além da culpa, o medo de perder o emprego ou “perceberem” que as coisas na empresa funcionam bem sem eles.

Cada pessoa tem o seu ritmo produtivo seja para o trabalho, estudos e mesmo para o lazer. O que ocorre é que a imposição de um só ritmo e uniforme para todos gera angústia e frustração. Um dos maiores defensores do conceito do ócio criativo, o italiano Domenico de Masi, afirma: “assim que dispomos de uma hora livre a enchemos de tantos compromissos ou tarefas, que o tempo acaba sempre faltando”. Um artigo da antropóloga Miriam Goldenberg publicado na Folha de São Paulo demonstra bem o que De Masi quis dizer: a colunista apresenta o relato de sua rotina com inúmeras atividades e ela confessa que não consegue “ficar sem fazer nada” – ou fazer coisas consideradas improdutivas, como bater um papo.

Não conseguimos desacelerar e somos tomados de culpa quando não exercemos atividades consideras produtivas. A tecnologia ajuda a elevar tais sensações: com o celular e seus aplicativos para comunicação não há mais distinção entre o tempo livre e trabalho. Diretores de escola que recebem mensagens de coordenadores regionais às 2 da madrugada com algum pedido urgente de relatório ou coisa parecida; executivos que enviam mensagens às 4 da manhã para diretores solicitando documentos ou informações relacionadas à empresa; funcionários que nos feriados estão conectados e atentos aos grupos de trabalho. Tais atitudes, muito apreciadas por alguns, na verdade não são saudáveis para a saúde emocional.

Durante alguns anos eu trabalhei em regime de 60 horas semanais. Quem trabalha na área de Educação sabe o que isso. Reduzi o ritmo de trabalho não apenas porque adoeci, mas também porque entendi que estava abrindo mão de mim mesmo e de pessoas que eram importantes em minha vida. Quebrar ritmos, padrões, reduzir salário e adaptar-se não é tão simples, mas é necessário e vale a pena. Hoje não consigo imaginar minha vida sem pausas maiores para fazer atividades que eu gosto: uma corrida, desenhar, pintar aquarela, leitura, escrever, ouvir música ou simplesmente tirar alguns momentos para devanear à toa. E não carrego sentimento de culpa e improdutividade ao fazer tais coisas. 

Que cada um tenha seu ritmo e sinta-se bem com ele é uma coisa – não vou condenar quem trabalha 16 e até inimagináveis 18 horas por dia, quem sou eu para ditar como as pessoas devem viver suas vidas. Apenas que não queiram impor às outras pessoas os padrões (ou seus padrões) que consideram “tempo maior de trabalho = produtividade”. O equilíbrio faz-se necessário para uma vida saudável e de fato produtiva – e sem culpas. 

Referências: 
De Masi, Domenico. O ócio criativo. Rio de Janeiro: Sextante, 2000.
Burckhardt, Martin. Pequena história das grandes ideias: como a filosofia inventou nosso mundo. Tinta Negra Bazar Editorial: 2011.
Thoreau, Henry David. A desobediência civil. São Paulo: Penguim Classics Companhia das Letras, 2012. 

terça-feira, fevereiro 21, 2017

De volta ao passado


Uma das cenas mais surreais e fascinantes da história do cinema pode ser vista no filme Super-Homem, com Christopher Reeve no final dos anos 70: inconformado ao ver Lois Lane soterrada após um terremoto, o homem de aço voa ao redor da Terra em sentido anti-horário e simplesmente muda a rotação do planeta (!). Com isso, o tempo “voltou para trás” e assim ele conseguiu salvar sua amada.

Às vezes penso que estamos neste movimento “de volta ao passado” quando deparo com algumas teorias que caberiam bem à Idade Média ou tempos anteriores. É até engraçado ler as teorias conspiratórias sobre a chegada (ou não) do homem à Lua, mas quando leio em pleno ano de 2017 algumas teses (sic) sobre “a Terra é plana” defendidas e compartilhadas por muita gente (entenda que é muita gente MESMO: joguem no Google o termo “flat Earth” ou “Terra plana” e vejam a quantidade de resultados), a coisa perde a graça.

Perde a graça porque se há quem acredite em uma teoria refutada há séculos e com todo embasamento científico, o que impede que grupos e pessoas acreditem também em outras ideias ultrapassadas, absurdas e inverossímeis? Ainda hoje encontramos por aí quem utilize como "argumentação" conceitos oriundos do racismo científico que eram muito comuns no século XIX e parte do século XX.  E o que dizer do “movimento antivacina”? Outrora sustentado por adeptos de teorias conspiratórias envolvendo a indústria farmacêutica, hoje encontra apoio de muitos pais que recusam vacinar seus filhos por medo de efeitos colaterais nas crianças – experimentem uma pesquisa rápida no Google sobre “autismo e vacinação” e vejam os resultados. Vocês encontrarão de tudo, até uma celebração (!) chamada “Festa da catapora”. Impossível não lembrar da Revolta da Vacina ocorrida em 1904 no Rio de Janeiro.

E isso é só um pequenino exemplo do que encontramos por aí. O que preocupa é que tais ideias são compartilhadas e ostentadas com orgulho pela internet, sobretudo nas redes sociais.  Neste ponto Umberto Eco estava correto quando falou em “idiotas da aldeia” que ganharam voz, embora Aldous Huxley também chamasse a atenção lá nos longínquos anos 1930 para os esnobismos (crescentes) da ignorância. Não é algo novo, no entanto é mais rápido e tem maior alcance: algumas dessas teorias espalham com velocidade impressionante (tão rápidas quanto o Superman) e encontram adeptos dispostos a darem créditos a elas, mesmo com toda a informação científica e acadêmica disponível na palma da mão, literalmente. 

Fica a sensação de que se o Super-Homem fosse real talvez ele desprezasse a ordem de seu pai Jor-El (“é proibido interferir na História humana”) e faria voltas com maior tempo de duração ao redor do planeta, voltando uns 4 milhões de anos. A humanidade poderia recomeçar e assim fazer as coisas direito. 

quinta-feira, janeiro 26, 2017

Os idiotas da aldeia


O escritor italiano Umberto Eco, falecido em 2016, em crítica à internet e principalmente às redes sociais utilizou o termo “idiotas da aldeia” para referir-se ao que ele chamou de “portadores da verdade”, pois estes “têm o mesmo direito à fala que um ganhador do Prêmio Nobel”.

Há quem pense que o autor de obras como “O nome da Rosa”, "Cemitério em Praga" e “Baudolino” exagerou, pois além de soar como uma crítica elitista, a internet e as redes sociais também deram vozes a muitos excluídos das grandes mídias que têm coisas interessantes para contar - além de quebrar monopólios de grupos que detinham o poder da informação; esse tipo de a crítica de Eco sobre a imbecilidade (que grassa pela internet) pode ser conferida também no bate-papo com Jean-Claude Carrière, publicado sob o título “Não contem com o fim do livro” (2009):

Ser culto não significa necessariamente ser inteligente. Não. Mas hoje todas essas pessoas querem se fazer ouvir e, fatalmente, em certos casos fazem ouvir apenas sua simples burrice. Então digamos que uma burrice de antigamente não se expunha, não se dava a conhecer, ao passo que, em nossos dias, vitupera.”

Ao navegarmos pela internet e redes sociais encontramos perfeitos exemplos do que Eco quis dizer. As caixas de comentários nos portais de notícias estão repletas de pérolas de tamanha imbecilidade que chegam a assustar aos desavisados (ou corajosos) que resolvem ler as “opiniões” sobre determinadas notícias – independentemente dos temas. O criador da Wikipedia, Jimmy Wales, também afirma que estes espaços para comentários são formados “basicamente em idiotas gritando uns com os outros”.

O mais preocupante é que tal imbecilidade é ostentada com orgulho por muita gente que compartilha e ajuda a disseminar tais ideias. Sob a justificativa da “liberdade de expressão” e da “opinião livre”, não é difícil encontrar expressões agressivas que descambam para preconceitos e ofensas publicados todos os dias em diversos ambientes virtuais, promovendo intolerância e incitando a violência. Em 2014 foram recolhidas mais de 86 mil denúncias de racismo e 4,2 mil de homofobia pela internet, segundo a ONG SaferNetBrasil. O chamado "discurso de ódio" é simplista, raso e superficial em análise, o que é bastante atrativo para muita gente. Isso é bastante perigoso, pois estes discursos podem sair da esfera virtual para se transformarem em agressões de fato no "mundo real".  

Isso relaciona-se também com a imensa quantidade de notícias falsas de “autoria desconhecida” circulando pelas redes sociais e aplicativos de mensagens via celular. Não seria tão difícil reconhecer parte considerável dessas informações como falsas: em geral são textos mal escritos que apresentam erros gramaticais gritantes e não possuem fontes consistentes. Sem aprofundamento na leitura, as figuras de linguagem (como a ironia) sequer são percebidas pelo leitor, independente do seu grau de escolaridade. Não à toa que há sites como o e-farsas e o boatos.org que se dedicam a desmascarar as notícias falsas que são rapidamente compartilhadas pelas redes.

Para o jornalista norte-americano Nicholas Carr, autor do livro “A geração superficial – o que a internet está fazendo com os nossos cérebros”, esse tipo de leitura apressada e superficial é preocupante: “A passagem da leitura para a conferida rápida está ocorrendo muito aceleradamente. (...) Não há nada errado com o navegar e o escanear, ou mesmo com a conferida rápida. (...) O que é diferente, e perturbador, é que ler por alto está se tornando o nosso meio dominante de leitura”. Com base apenas na chamada de uma notícia (sites e blogs sabem disso e assim promovem chamadas polêmicas para atrair mais visitantes) os “idiotas da aldeia” travam verdadeiras guerras verbais onde ofensas, acusações e julgamentos são apenas alguns “aperitivos” para aqueles dispostos a acompanhar certos grupos e comentários – isso quando a coisa não termina em tragédia, como o caso da dona de casa que foi espancada até a morte graças aos boatos espalhados nas redes sociais.

Em 2007 o criador do termo “web 2.0” e defensor do software livre, Tim O´Reilly, teve a ideia de publicar uma espécie de “código de conduta” para os blogueiros – o que causou grande polêmica à época porque tal medida foi vista por muitos como um ataque à liberdade de expressão. O tal “código de conduta” foi proposto por conta da agressividade vista nos blogs e buscava promover alguma civilidade no ambiente virtual. Dois itens daquele código talvez chamassem a atenção hoje: “nunca diga na internet aquilo que você não diria pessoalmente” e “não alimente os trolls”. Isso foi há 10 anos e ainda lidamos com a agressividade no meio virtual em plataformas diferentes porque ao que parece o clichê "pensar diferente não faz de alguém o seu inimigo" ainda não foi assimilado.   

Provavelmente os trolls e idiotas da aldeia virtual não passem de indivíduos que descarregam suas mágoas, frustrações (até sexuais), agressividade e tolices na grande rede. De qualquer forma é preciso cuidado até para filtrar as "amizades" em redes sociais e aplicativos. Como hoje somos todos narradores e comentaristas de assuntos que envolvem desde reality show culinário até a crise dos refugiados na Europa, é inevitável que encontremos também uma série de opiniões de todos os tipos – sensatas, inteligentes, idiotas. Não precisamos falar sobre tudo e todos, principalmente daquilo que não conhecemos bem ou tratamos apenas de forma superficial.    

Na era da pós-verdade seria bom se pudéssemos resumir tudo a uma expressão: bom senso, o grande desafio quanto à postura na internet -  e na vida, de modo geral.  

Referências:
Carr, Nicholas. A geração superficial: o que a internet está fazendo com nossos cérebros. Rio de Janeiro: Agir, 2011.
Carrière, Jean-Claude. Não contem com o fim do livro / Jean Carriére, Umberto Eco, Rio de Janeiro: Record, 2009.
 

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