quarta-feira, outubro 24, 2018

Roger Waters e o FEBEAPÁ da estupidez



O Festival de Besteiras que Assola o País, mais conhecido pela sigla FEBEAPÁ, foi uma criação do grande escritor e jornalista Sérgio Porto, que adotava o pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta. O FEBEAPÁ foi uma coleção de 03 livros publicada na década de 1960 em plena ditadura militar e usava do humor para satirizar os atos cometidos pelo regime e também declarações de generais, políticos e o “high society” da época. Sérgio Porto faleceu antes que o Ato Institucional número 5 (o AI-5) fosse institucionalizado e inaugurasse o período mais duro e violento do regime militar.

Se o grande Stanislaw Ponte Preta estivesse vivo, teria farto material para lançar novas coleções do FEBEAPÁ. Eu não tenho dúvida nenhuma de que ele incluiria no festival de besteiras que assola o país a reação de várias pessoas à turnê que o ex-baixista, cantor e compositor do Pink Floyd está fazendo no Brasil. Por conta do seu engajamento e posicionamento político que sempre foi uma característica muito marcante em suas músicas, álbuns e shows, Roger Waters está sendo acusado, acredite, de ter sido contratado pelo PT (Partido dos Trabalhadores) ou sabe-se lá por quem para fazer “showmícios” e campanha política durante o segundo turno das eleições presidenciais no Brasil. Até o Ministro da Cultura embarcou nessa.  



A turnê "US + Them" 

Waters está em turnê mundial desde 2017 quando lançou seu mais recente álbum: “Is this the life we really want?” (“É esta a vida que nós realmente queremos?”). Como em seus álbuns anteriores e nos últimos trabalhos com o Pink Floyd, as canções trazem forte pegada política. O álbum tem como alvo principal o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, mas também toca em temas complexos e atuais como o drama dos refugiados e, claro, uma constante desde “The Wall”: a guerra, causada por governantes “with no fucking brains” (“sem a porra de um cérebro”), como está nos versos de uma de suas novas canções. 

Sempre investindo muito no aspecto cenográfico dos seus shows, Waters leva todo esse protesto para o palco, com os imensos telões, balões, projeções a raio laser e animações que compõem o que ele chama de “espetáculo da resistência”. É, sem dúvida, um espetáculo impressionante, emocionante e inesquecível, tanto musicalmente (as eternas e clássicas músicas do Pink Floyd e do seu trabalho solo) quanto visualmente.



Este mesmo show (banda, repertório, cenário, engajamento político) tem sido levado a todos os países onde a turnê aporta – Estados Unidos (na terra de Donald Trump!), Canadá, Europa, Oceania e América Latina, quando finalmente chegou ao Brasil justamente no período de uma das eleições mais polarizadas e agressivas da história recente do país - as datas dos shows no Brasil, aliás, foram anunciadas ainda em Dezembro de 2017 (eu garanti o meu ingresso para o show em Salvador tão logo iniciaram as vendas). Sua passagem por terras brasileiras não passa despercebida de modo algum: durante seus shows, Waters bate pesado em Trump e em políticos classificados pelo artista como fascistas em ascensão no mundo, como Vladimir Putin (Rússia), Marine Le Pen (França), Sebastian Kurz (Áustria) e Jair Bolsonaro (Brasil). 

Ao se depararem com o nome do candidato brasileiro da extrema-direita, eleitores e apoiadores de Bolsonaro presentes no show explodiram em vaias e a coisa ficou mais tensa quando apareceu no telão o lema “Ele não”, que surgiu nas redes sociais e ganhou as ruas em grandes manifestações contra o candidato que acumula em seu histórico declarações a favor da tortura e da ditadura militar, além do desprezo a homossexuais, mulheres, negros e até mesmo a defesa de fuzilamento de um ex-presidente da República - declarações que valeram o título de "político mais repugnante do mundo" concedido por um site australiano. Obviamente que um político deste porte e com grandes chances de ser eleito presidente entraria no alvo de Roger Waters em sua turnê pelo Brasil. Em 2017 até o presidente Michel Temer entrou na dança do ex-Pink Floyd.

Empty Spaces (espaços vazios)

A furiosa e intempestiva reação de vaias e xingamentos daqueles que se dizem fãs de Pink Floyd e foram ao show de Roger Waters demonstra não apenas o desconhecimento sobre o trabalho que o músico realiza há mais de 40 anos: é uma amostra perfeita do FEBEAPÁ, o festival de besteiras que assola o país revivido em tempos sombrios e de ostentação orgulhosa da ignorância. Pelas redes sociais, espaços que o escritor italiano Umberto Eco afirmou (até de forma exagerada) darem voz para uma legião de imbecis, vídeos e comentários indignados de apoiadores de Bolsonaro espalharam por todas as direções com extenso repertório de ofensas e acusações possíveis e imaginárias ao artista. As queixas mais comuns eram de pessoas bradando que pagaram ingressos para assistirem a um show de rock, não a uma manifestação política. Chega a ser ridículo: quem conhece a trajetória do artista sabe muito bem que suas letras e shows, desde os tempos do Pink Floyd, são marcadas por um posicionamento político muito claro. A estes fãs raivosos, Waters deixou um recado:

“Se vocês, meus fãs, acharam que músicos devem apenas tocar suas músicas… é obviamente apenas errado. Não, não devemos. Nós temos responsabilidade como políticos e também como músicos. Eu acredito que todos os artistas, não interessa qual tipo de arte você faça, todos têm responsabilidades de usar a arte para expressar ideias políticas e criar demandas em favor dos direitos humanos para todos.”  Fonte: TMDQA

É impossível dissociar o trabalho de Waters com a política: em “Amused to death” (1992) ele mira suas letras contra o então presidente dos EUA, George Bush, a Guerra do Golfo e trata de temas como a influência da TV e a guerra sendo tratada como entretenimento, além do massacre da Praça da Paz, na China; em “The Final Cut” (1983), último álbum com a formação do Pink Floyd, lá estão as letras mirando contra a guerra das Malvinas, Margareth Thatcher (primeira-ministra inglesa) e Galtieri (ditador argentino), além de citações a Brejnev (líder da então União Soviética) e a campanha soviética no Afeganistão. Se quiserem um bom exemplo do conteúdo deste álbum, ouçam e prestem atenção à letra da música "The Fletcher memorial home": ali está um apanhado do que Waters defende em críticas bastante pesadas a governantes tiranos e ditadores, como bem definidas em versos como "did they expect us to treat them with any respect?" (eles esperam que os tratemos com algum respeito?). 

Nem vou citar sobre as temáticas que podem ser encontradas em álbuns como “The Wall” e “Animals” (este baseado no livro “A revolução dos bichos”, de George Orwell) para não alongar este texto. Mas deixo a sugestão para que procurem entender e apreciar estes dois espetaculares trabalhos do Pink Floyd, lançados ainda na década de 1970: continuam muito atuais e relevantes. Assim são formados os clássicos.   



Don´t be another brick in the wall! (Não seja outro tijolo no muro)

Ou seja, quem vai ao show do Roger Waters deveria saber exatamente o que esperar dele, principalmente quem se diz fã do Pink Floyd. Se eu vou a um show da Ivete Sangalo, do Capital Inicial, da Anitta, do U2, da Madonna ou dos Racionais MCs sei exatamente o que vou encontrar. Vaiar um artista que desempenha o seu espetáculo de forma competente e coerente com a sua carreira é bobagem. O gosto é de cada um e concordando ou discordando de algumas posturas e ideias, não alegue ignorância quanto ao conteúdo ou espere neutralidade de certos artistas. No caso de Waters não é uma questão de ser “show voltado para inteligentes” e nem precisa muito esforço para saber como poderia ser a apresentação, basta uma simples pesquisa no São Google ou no Youtube: vídeos, repertórios, o que ele falou ou exibiu nas telas no Canadá, na Dinamarca, na Austrália e em outros países em que turnê passou, tudo pode ser facilmente encontrado. 

Quem se dispusesse a pesquisar saberia que o espetáculo de Waters causou polêmica nos EUA, principalmente nos estados sulistas que mais apoiam Donald Trump; e por conta do seu engajamento político, vem perdendo dinheiro, ou melhor, deixando de ganhar: US$ 4 milhões  de verbas de patrocinadores que não gostaram nem um pouco de seu posicionamento contra o governo de Israel. O artista não recua e segue em frente com suas ideias. Diante disso, alguém esperava mesmo que um artista com a personalidade e histórico de Roger Waters não incluiria em seus protestos Jair Bolsonaro, um político que pode ser eleito presidente do Brasil e vem sendo observado com preocupação pelo mundo todo?  

É constrangedor ver um artista do porte e história de Roger Waters aos 75 anos e ainda com vitalidade para uma impressionante turnê mundial ser xingado pelo o que faz e defende há anos por pessoas que vão a seus shows e ser acusado de fazer parte em um suposto esquema de corrupção partidário. É constrangedor, repito, e também vergonhoso: na era da informação literalmente na palma da mão, é muito fácil ler as traduções das músicas, entrevistas, biografia e resenhas sobre seus álbuns para conhecer mais sobre o artista e não deturpar sua obra e tampouco seus ideais; no entanto, como o pessoal anda usando internet mais para espalhar Fake News e outras tolices a rodo e não se preocupa muito com interpretação de texto, não me surpreenderia nem um pouco se aparecesse a história de que o Lulinha (filho do ex-presidente Lula) está patrocinando a turnê de Waters pelo Brasil com o dinheiro da Friboi e da venda de uma Ferrari banhada a ouro. E muita gente acreditaria, pois o FEBEAPÁ continua firme e fornecendo material de sobra por aqui. 




Charges e fotos: arquivo pessoal do autor.  

quarta-feira, agosto 22, 2018

Os caminhos da literatura entre cordéis e gibis


A Festa Literária Internacional do Pelourinho (FLIPELÔ), em Salvador, é um evento que tem tudo para emplacar no roteiro dos amantes da literatura e até para quem não é muito chegado ao universo dos livros, pois há atrações para todos os gostos – desde oficinas lúdicas envolvendo literatura, teatro e contação de histórias até shows musicais e exposições. E o melhor: as atrações são acessíveis e gratuitas ao público, em um espaço que respira cultura todos os dias – o centro histórico de Salvador.

Nesta segunda edição da Festa pude conferir apenas um dia, no sábado (11 de Agosto), mas valeu a pena porque assisti a duas mesas ótimas de debates com escritores baianos: a roda de conversa com Aleilton Fonseca e Carlos Ribeiro e a mesa de debate entre os poetas Jotacê Freitas e Nildão – que também é cartunista “dos bão”. Quero falar um pouco sobre o que refleti desta última mesa.

Jotacê é cordelista, ou seja, um poeta da literatura de cordel. Este tipo de literatura é uma das mais ricas manifestações culturais populares, sobretudo no Nordeste e principalmente no sertão. O poeta nordestino, através de versos rimados, conta histórias sobre temas diversos - principalmente sobre o cotidiano do sertanejo, mas há espaço para temas envolvendo príncipes e princesas, dragões, religiosidade e políticos. Nildão, além de cartunista, também faz versos que ele chama de “nanoversos”: versos curtinhos que transmitem grandes mensagens – é como funcionam os poemas de origem japonesa denominados haicai.

Durante a prosa entre os artistas eu anotei alguns insights que surgiam. Lembrei do meu avô no sertão da Bahia: um homem que não teve escolarização formal, mas era ávido leitor e isso deveu-se, em grande parte, à literatura de cordel – ou “os ABC”, como ele chamava os folhetos. E, de fato, a literatura de cordel funcionava também como um instrumento de informação, letramento e alfabetização para o homem do sertão, pois é marcada por forte oralidade e sua linguagem era facilmente assimilada pelo povo, tanto declamada pelos cordelistas quanto lidas por quem estava dando os primeiros passos na leitura. Ousei comparar com a minha formação como leitor: aparentemente não haveria relação, pois nasci e cresci em ambiente urbano (São Paulo) e aprendi a ler antes mesmo de ir para a escola graças às revistas de Histórias em Quadrinhos, também chamadas de gibis. São universos bem diferentes.

Marginalizados

No entanto a Literatura de Cordel e as Histórias em Quadrinhos têm algo em comum: durante muitos anos foram discriminadas e rejeitadas pela elite cultural, acadêmicos e escolas. Eu sou do tempo em que levar um gibi para a escola era “infração disciplinar grave”, pois as HQs eram vistas como instrumentos de distração e desestímulo para os estudos, além de não colaborarem para o desenvolvimento moral e ético dos jovens – muito pelo contrário: acreditava-se que as HQs estimulavam atitudes violentas e indisciplina. Felizmente as HQs atualmente têm aceitação pedagógica e são consideradas importantes recursos para a formação de leitores. O cordel também sofreu o preconceito por ser um gênero literário próprio das camadas populares e assim era visto com desprezo pela elite cultural, pois além de não ser produzido por autores renomados e não apresentar a erudição acadêmica em seus folhetos, a sua linguagem não seguia a norma culta da língua portuguesa, o que gerava comentários carregados de preconceito linguístico e social em relação aos seus poetas. De uns tempos pra cá vem ganhando espaço e apreciação nos meios acadêmicos entre professores, pesquisadores, universitários e também parte da classe média.

É curioso notar como certas expressões artísticas e culturais que são populares sofreram discriminação e com o tempo foram reabilitadas e os seus valores reconhecidos. Os cordéis e as HQs ajudaram na formação de leitura de muitas pessoas ao longo dos anos graças à sua popularização e linguagem acessível. O distanciamento acadêmico destas realidades levou a conclusões apressadas e ajudou a consolidar estereótipos que não contribuíram na formação de leitores – lembro de uma consagrada autora de literatura infantil afirmar que“Harry Potter não é literatura”. Eu sempre bato na tecla que é preciso dessacralizar a literatura, assunto que já tratei em outro momento

Voltemos ao rumo da prosa: ao ampliar um pouco mais o leque de reflexões eu lembro imediatamente da street art (arte de rua) através do graffiti/grafite: muitas vezes confundido com a simples pichação, o grafiteiro era (ou ainda é) considerado uma figura marginal, um vândalo a “pichar os muros da cidade”; a cultura Hip Hop e o RAP também são alvos de preconceitos e tomados como manifestações de baixo nível cultural. O que temos, na verdade, é a arte que emerge das camadas populares através das letras, das ilustrações, da dança, da poesia e isso é bastante significativo, pois trata-se da quebra de padrões – e tudo aquilo que destoa dos modelos padronizados e elitizados culturalmente causa desconforto e rejeição. 

Evidente que precisamos ter os nossos filtros e critérios, porém essa é outra discussão. Apenas escrevi em mal digitadas linhas algumas breves reflexões surgidas durante encontros e debates sobre literaturas. Eu sou entusiasta da ideia de que mais cidades deveriam abrir espaços e vozes para eventos como a Flipelô ou ideias parecidas. Afinal, é conversando que a gente entende – e com humor, como demonstraram Jotacê e Nildão, tudo fica mais leve e divertido. E até arrisca uns versinhos de cordel: 

O cordel tem grande valor
Para a cultura do sertão:
Registro histórico popular
É fonte de leitura e diversão.
Gibis também vou valorizar
Pois ajudam na alfabetização!

Discriminados muito tempo,
Cordel e gibi hoje são aceitos
Em todas as rodas sociais.
De crianças a adultos feitos,
Palavras e artes visuais
Se unem sem preconceitos!

Porque leitura se faz assim,
O povo gosta de boas histórias.
E tem gente muito habilidosa
Mesmo sem famas ou glórias,
Fazendo arte bem caprichosa
Em traços e palavras meritórias!

Deixemos nos levar
Pelos caminhos da literatura!
Sem rótulos, sem julgamentos
Leitura não é nenhuma tortura
Então leia sem constrangimentos:
É romance, magia, aventura! 


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Confira o trabalho dos autores citados no texto:

Carlos Ribeiro: Site contendo biografia, produção e fotografias.  


sábado, agosto 11, 2018

A greve dos professores de Salvador: charges


A greve dos professores da rede municipal de Salvador completou 01 mês. Os professores pedem reajuste salarial de 6,8%, cumprimento do plano de carreira, eleição para diretores de escola e melhores condições de trabalho. A prefeitura insiste em apenas 2,5% de reajuste. 

Todos acompanharam ou viram imagens sobre uma manifestação dos professores em frente à Secretaria Municipal de Educação ser rechaçada com brutalidade pela Guarda Municipal. Bombas de gás e spray de pimenta foram usados pelos guardas para dispersar os professores - até mesmo uma ARMA foi apontada a um grupo de docentes. 

É lamentável ter chegado a tal ponto, mas ao mesmo tempo é emblemático por demonstrar como o país trata os docentes e a própria Educação. 

Não basta corte de salários; 

Não basta fechar escolas;
Não basta acabar com gratificações; 
Não basta tratar professores com desdém e desprezo. 
É preciso apontar ARMAS para professores em manifestação na secretaria de Educação. 
Armas, spray de pimenta, bombas de gás lacrimogênio. 
Como se fôssemos criminosos. 

Contra a truculência típica de covardes autoritários, 
Eu só tenho um lápis e um papel. 
É com eles que eu sigo. 
E sigo com os demais colegas em luta por valorização profissional, condições de trabalho decentes, contra o fechamento de escolas e pela Educação de Jovens de Adultos.

Só preciso de um lápis e papel: 









sexta-feira, agosto 03, 2018

Água em Marte para abastecer nossa fantasia




A recente notícia que pesquisadores italianos encontraram indícios de água líquida em Marte encantou a todos em nosso simpático planetinha e ainda levantou a hipótese sobre a existência de vida no planeta vermelho. E é claro que atiçou a fantasia de muita gente.

Marte sempre exerceu grande fascínio ao ser humano. Inúmeros filmes, livros, histórias em quadrinhos e desenhos animados foram produzidos com temas relacionados ao planeta e aos seus hipotéticos habitantes, os marcianos. Um dos episódios mais marcantes de nossa relação com Marte aconteceu em 1938, com a leitura dramática de notícias sobre uma invasão extraterrestre inspirada no livro “A guerra dos mundos”, de H.G. Wells.  Esta leitura, feita pelo cineasta Orson Welles e transmitida via rádio, foi tão convincente que espalhou terror nos Estados Unidos: as pessoas realmente acreditaram que a Terra estava sendo invadida pelos marcianos e entraram em pânico, congestionando ruas e estradas ao tentarem fugir da invasão fictícia. 

Hoje já sabemos muitas coisas sobre o nosso vizinho vermelho e até reunimos fotografias da paisagem marciana – temos um jipe rodando à vontade pelo planeta. Ainda assim a nossa imaginação continua fértil e há “excursões” previstas para Marte nos próximos anos. Teve gente do mundo todo que se inscreveu para uma viagem apenas “de ida” para o planeta aparentemente inóspito para seres humanos. A proposta não é apenas turismo, claro: é também para a colonização do planeta.

Sempre que falam sobre Marte e temas relacionados a ele como formas de vida e colonização, lembro do ótimo livro “As crônicas marcianas”, do norte-americano Ray Bradbury. É ficção científica das boas e, apesar de publicado em 1954 (bem antes de sondas espaciais e jipes explorarem Marte), ainda consegue encantar e levantar ótimas reflexões sobre o desejo da humanidade em conquistar outros planetas e audaciosamente indo onde nenhum homem jamais esteve. Um dos trechos mais interessantes deste livro é o diálogo, em solo marciano, entre o astronauta Spender e o capitão da nave terrestre que levou exploradores a Marte:

- E depois haverá mais interesses em jogo. Os homens que trabalham com minérios e os que trabalham com turismo. O senhor se lembra do que aconteceu com o México quando Cortez e os seus belos amigos chegaram da Espanha? Toda uma civilização foi destruída por pessoas preconceituosas, gananciosas e donas da verdade. A história jamais perdoará Cortez. 

- Mas você próprio não agiu com ética hoje – observou o capitão. 
- O que eu podia fazer? Argumentar com vocês? Sou apenas um contra toda a ganância distorcida e faminta da Terra. Eles vão fabricar suas bombas atômicas imundas aqui, brigando por bases para travar guerras. Não basta terem estragado nosso planeta, precisam mesmo estragar outro?


As viagens tripuladas e com humanos para Marte acontecerão algum dia. Eu adoraria estar vivo para presenciar este momento. Na verdade eu gostaria de estar vivo para presenciar as fascinantes e incríveis descobertas que serão feitas sobre o Universo. Particularmente acho improvável não existir outras formas de vida pelo cosmos - e nem estou falando de homenzinhos verdes e civilizações avançadíssimas, especificamente. As futuras gerações poderão conferir tudo isso e também cuidar para que, durante os processos de colonização de outros planetas, as suspeitas e temores de Spender não se tornem realidade. 

Que as futuras gerações aprendam algo sobre a história e não estraguem outro planeta como estamos fazendo com o nosso pálido ponto azul. Se houver vida inteligente em Marte, os seres que vivem lá certamente estão torcendo para que as expedições tripuladas demorem muito para chegar. Tolerar um jipezinho andando aqui e ali, tudo bem; aguentar turistas, exploradores e gente folgada, nem os marcianos merecem.

Referência e dica de leitura: 

AS CRÔNICAS MARCIANAS, de Ray Bradbury. 
Bradbury, Ray. As crônicas marcianas. São Paulo: Globo, 2006.


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