quinta-feira, fevereiro 05, 2015

Crise hídrica e nossos padrões de consumo


“Crise hídrica” é o assunto do momento e não seria diferente: o que acontece em São Paulo é uma amostra do que já está acontecendo em muitos lugares do mundo – e para ficar em um exemplo próximo, lembre-se do sertão nordestino.

O caso de São Paulo chama a atenção por dois fatores: 1) por ser o estado mais rico do país – concentra 32% do PIB nacional – a falta de água vai afetar a economia do Brasil, desde setores da indústria até à produção de alimentos; 2) o descaso para com os recursos hídricos (e isso inclui a falta de investimentos e interesse por parte de governos) onde rios e mananciais são transformados em verdadeiros esgotos. O Rio Pinheiros e a represa Billings são dois exemplos evidentes de tamanha irresponsabilidade em relação à água.

Questões climáticas e falta de investimentos à parte, crise representa ameaça, mas também desafio e oportunidade para rever alguns padrões de consumo. Evidente que todos somos consumidores e isso é fundamental para nossa sobrevivência, porém é preciso lembrar que praticamente tudo o que consumimos precisa de água. Aquele hambúrguer que você come na lanchonete precisa de aproximadamente 2400 litros de água para ser produzido; 1 kg de carne bovina requer 15 mil litros de água – pense no boi a partir do pasto que precisa ser irrigado, o volume que o animal consome e o tratamento para limpeza da carne e conservação nos frigoríficos.  E sabe aquela calça jeans que você usa no dia a dia? Ela precisou de 11 mil litros de água para ser produzida. Quer matar a sede com uma cervejinha? Um copo precisa de 75 litros de água. Confira AQUI o quanto de água é preciso para a produção de alimentos e demais bens de uso diário.

A agricultura é responsável por 72% do uso de água no Brasil e boa parte desta água é usada de maneira pouco eficiente. Vimos o quanto deste recurso é necessário para a produção e, ainda assim, o país joga no lixo cerca de 26 milhões de toneladas de alimentos por ano. Seja na agricultura, na indústria ou em nossas casas, desperdiçamos água de todos os modos possíveis e daí a necessidade de revermos padrões de consumo para evitarmos que água boa e potável siga pelo ralo e também é uma boa oportunidade para questionarmos o consumismo, como aquelas compras que fazemos por impulso e sem necessidade e que são esquecidas na geladeira ou no armário -  no caso de alimentos que rapidamente se estragam e vão direto para a lata do lixo. Consumismo, de acordo com Bauman, é um produto social. Será que precisamos mesmo de tantas coisas? Em quarenta anos provavelmente teremos uma população próxima dos 10 bilhões de pessoas na Terra - e com os atuais modelos de consumo, precisaríamos de uma outra Terra para dar conta. 

E a crise traz à tona a necessidade de consciência e atitude sobre o que estamos fazendo com os recursos naturais (finitos) deste simpático planetinha azul. A experiência desastrosa como a que aconteceu no Mar de Aral deveria servir como alerta. Essa consciência vai além de fechar a torneira enquanto se escova os dentes: abrange esferas política (que não se restringe a partidos políticos), ecológica, educacional e cidadã. O que vem acontecendo é o reflexo de nossa (falta de) coletividade. 

14 comentários:

  1. Muito legal a charge e a crise não é brincadeira.A coisa tá séria mesmo! Consciência é preciso! abraços,chica

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  2. Medo do que está por vir, já que tudo é dinheiro nesse mundo injusto :/

    Beijoo'o ;*

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    1. Pois é, Simone: ou mudamos nossos modelos de consumo ou o futuro não será muito promissor. Beijo!

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  3. Olá, professor!

    A questão da falta de coletividade é interessante pois ao mesmo tempo q boa parte das pessoas não está nem aí pro fato de sermos humanos equiparados dividindo o mesmo espaço, não vejo também a figura do "fominha" (aquele q quer fazer tudo sozinho). Temos um coletivo-esquizofrênico-sou-um-oásis-no-deserto, no qual a responsabilidade cai sobre os outros ("só nesse país mesmo as coisas são assim", "a culpa é desse governo - seja municipal, estadual ou federal", etc.); o coletivo existe, negativamente, e eu não faço parte dele. As responsabilidades, portanto, não são minhas. Se tenho q fazer "a minha parte", minha obrigação, isso é visto como um peso... É uma espécie de egoísmo ouroboros.
    No fim, tal qual uma música do Djavan, acabaremos sabendo o q é morrer de sede em frente ao mar, aos rios poluídos...

    bjohnny!

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    1. Olá, moça cabofriente. Realmente, concordo muito:"temos um coletivo-esquizofrênico-sou-um-oásis-no-deserto, no qual a responsabilidade cai sobre os outros" - e é aquela história de esperar pelos outros, a culpa é sempre dos demais. Esquizofrenia define mesmo. Bjks!

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  4. Parabéns pelo texto informativo e reflexivo!

    Muitos pensam que a água é um recurso renovável,mas ledo engano!Sem a tal da sustentabilidade tudo tem seu fim,e não será diferente com a água.
    Mas,como viver de uma maneira sustentável,se estamos imersos em um mundo capitalista feroz,que segue rumando para o caos total?
    Infelizmente,o Homem é lobo do próprio Homem.
    A água se tornará um bem escasso e muito caro.

    Beijão,Jaime!
    Dani.

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    1. Dani, muito obrigado! Enquanto a mentalidade do consumismo desenfreado prevalecer, não teremos nada muito positivo a médio e longo prazo. Beijão!

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  5. Essa crise está entrelaçada com descaso tanto do responsáveis pela administração pública desses serviços essenciais e também do povo. Não adianta querer chorar depois do problema acontecer. Tu usaste uma expressão perfeita: consciência. Belo texto crítico, amigo. Beijinhos.

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    1. Obrigado, Aline. E veja que a crise é resultado de um descaso acumulado há anos, décadas...e agora é que vem surgindo alguma consciência. Beijinhos!

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  6. :O
    Impressionada com os dados acerca do uso da água. Eu tinha uma breve noção de alguns, mas outros...
    E eu também vejo a coisa pelo lado que você citou, Jaime: esta é sim uma ótima e necessária oportunidade pra não só o governo, mas todos nós revermos um monte de coisas e pensarmos e repensarmos nos nossos hábitos, desejos...
    Seria ótimo se todo mundo desse continuidade ao pensamento quando lê alguma notícia ou algo parecido, e que cada sermão de relance não passasse de um fantasma que se esconde sempre que posto à prova.

    Bom texto.
    Bom fim de semana!

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    1. Luria, obrigado por sua visita e comentário. E é algo urgente: ou revemos ( e mudamos) o nosso modelo de desenvolvimento ( e consumo) ou caminharemos a passos largos para um mundo impraticável. :-( Bom final de semana!

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  7. Resumindo, há muita ganância e o que falta é o bom-senso para tratar dos problemas do povo.
    Jaime, beijo!

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    1. É bem assim, Shirley. Beijo e obrigado pela visita!

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