segunda-feira, dezembro 22, 2014

Uma carta ao Papai Noel.


Querido Papai Noel,

há quanto tempo não escrevo ao bom velhinho! Sei que não tenho sido um bom menino ao longo destes anos todos, principalmente depois que cheguei àquela fase sem graça chamada “adulta”, mas mesmo assim resolvi escrever (ou melhor, digitar) algumas palavrinhas e, claro, fazer um pedido.

Certo, eu andei rebelde por muito tempo duvidando de sua existência e reduzindo sua figura a uma estratégia de marketing de uma conhecida marca de refrigerante e, mais ainda, ao consumismo desenfreado nesta época do ano. Não é culpa sua, querido Nicolau, se trocaram sua roupa verde por uma roupa vermelha. E já escrevi tanta coisa sobre o natal que o tema parece esgotado, porém há uma coisa que eu gostaria de contar e também fazer um pedido.

Bem, além da história do nascimento de Jesus – e aqui, independente da fé e crenças religiosas, devo dizer que é uma bela história e uma personalidade fascinante – nesta época do ano eu gosto de relembrar da maravilhosa obra de Charles Dickens, “Um conto de natal”. Todo mundo, até mesmo as suas renas e duendes, já conhece a história do sovina e rabugento sr. Scrooge, que recebeu a visita de três espíritos na véspera do natal e repensa toda a sua trajetória de vida até então. Essa história é tão bonita que já foi adaptada para cinema, teatro, desenho animado, história em quadrinhos e a criação do Tio Patinhas encontrou inspiração no velho Ebenezer Scrooge.

Não há época de natal em que eu não releia esse conto de Dickens ou até assista alguma reprise de filme adaptado contando a história de Scrooge. Uma passagem que eu gosto muito no livro é quando o velho Ebenezer recebeu a visita do segundo espírito, um gigante que se apresentou como o “Espírito do Natal Presente” e segurava “uma tocha bem estranha”- mas era um objeto bem especial, “porque nas vezes em que algumas pessoas discutiram, só por terem se esbarrado, ele lançou sobre elas algumas poucas gotas e o bom humor delas imediatamente voltou, a ponto de reconhecerem que era mesmo uma vergonha brigar no dia de natal”.

Fale a verdade, querido Nicolau: o gigante era você mesmo, não é? Sim, pois segundo o conto, você usava um largo roupão verde-escuro com acabamento branco e não tinha dificuldade nenhuma ao entrar nos ambientes – fosse por uma janela ou chaminé. Creio que não ficou chateado com Dickens por revelar seu segredo, mas isso não importa: eu gostaria de fazer um pedido, embora não seja merecedor por alguns comportamentos ruins.

O meu pedido é simples: será que essa tocha não poderia circular pelo mundo em um período do tipo o ano inteiro? Sei que o senhor é muito ocupado, querido Nicolau, mas sei também que muitos duendes o ajudam bastante – espero que os duendes tenham registro em carteira e recebam todos os benefícios trabalhistas, certo? Desculpe, voltando ao que interessa: eu acho que o mundo precisa diariamente das gotas desta tocha e não apenas em um breve período natalino. Eu sei que somos ocupados demais, que não largamos o celular, que colocamos muitas vezes o trabalho em primeiro lugar, que temos muitas vezes o coração endurecido e que todos nós temos um pouco de Marley, o sócio de Scrooge, reconhecendo “que não há remorso que pague as oportunidades perdidas na vida”.

Sei de tudo isso, Papai Noel, e também desconfio de sua provável resposta: os responsáveis por lembrar esse espírito e sustentar as gotas durante o ano inteiro somos nós mesmos. E tem razão. E acho que muita gente consegue entender e sustentá-las durante muitos dias do ano; creio, porém, que um reforço seria muito bem vindo, sobretudo aos corações mais duros, não acha? 

Não vou mais tomar o seu tempo, sei que está muito ocupado nesta época. Fica aí registrado o meu pedido (desconsidere o bilhetinho anexo pedindo “A revolução dos bichos”, do Orwell,mas ficaria muito feliz se o encontrasse em minha modesta árvore de natal)  e torcendo para que esta mensagem chegue rapidamente aí na Lapônia. Um grande abraço e Feliz Natal!

segunda-feira, dezembro 01, 2014

Pessoas invasivas


“Entre as recordações de cada pessoa, há coisas que ela não conta para qualquer um, somente para os amigos.” Dostoiévski

Não é difícil reconhecer uma pessoa invasiva e é muito comum encontrar pessoas assim no dia a dia. O escritor Charles Bukowski, em seu estilo direto e sem papas na língua, relatou que teve “algumas experiências terríveis abrindo aquela porta [de casa]” e passa o sua receita: “a gente tem que ser um pouco duro, senão eles ficam aporrinhando”.

Exageros do velho Buk à parte, o fato é que todos nós temos uma espécie de “zona de territorialidade”, ou seja, um espaço do qual é só nosso e não permitimos que outras pessoas entrem – ou somente damos a chave àqueles em que confiamos plenamente. Pessoas reservadas e discretas zelam muito pela manutenção da privacidade e quando tal comportamento é desrespeitado por pessoas efusivas e que forçam a barra para uma intimidade inexistente, isso é uma verdadeira violência para quem cuida de sua discrição. 

É bom não confundir este espaço reservado com a misantropia (aversão às pessoas) ou mesmo a solidão. Quando alguém se sente invadido em sua zona de territorialidade e reage de alguma forma (seja retraindo ou falando de maneira sincera que não gostou da atitude do “invasor”) é imediatamente rotulado como antissocial e considerado “pra baixo” - ou até mesmo “fechada”. O que ocorre é cada pessoa tem o seu ritmo e comportamento e isso deveria ser compreendido e respeitado.

Evidentemente que exageros são perigosos, conforme alerta o psicólogo Walter Riso: “uma territorialidade exagerada leva à paranoia e, se é minúscula, à falta de assertividade.” Como sempre, o equilíbrio é o melhor caminho para não deixar que ocupem os espaços que tanto cuidamos em preservar e nem fechar totalmente as portas com posturas mais rígidas. A partir de posturas mais inflexíveis podemos até perder boas oportunidades para se conhecer pessoas interessantes; no entanto, a falta de assertividade pode levar à perda do espaço e mesmo da intimidade – e pode se tornar um grande problema quando o “invasor” se instala de maneira inconveniente e oportunista.

Não se trata de egoísmo. Estamos falando também sobre estabelecer limites para certas posturas que nos são desconfortáveis – e isso pode vir tanto de colegas de trabalho, parceiras (os), vizinhos e até mesmo parentes próximos. E a intimidade, que está incluída neste espaço limitado, “é essencial para o equilíbrio psicológico de qualquer ser humano”, nas palavras do psicólogo e educador Yves de La Taille, que complementa: “ele precisa controlar o acesso que as pessoas têm à sua intimidade, ao seu corpo, às suas ideias, aos lugares onde vive e assim por diante”. 

É bem verdade que requerer o direito à intimidade e delimitar zona de territorialidade nestes tempos de redes sociais, smartphones, câmeras de vigilância por todos os lados (um pesadelo orwelliano) e posturas exibicionistas/ narcisistas pode soar como algo até um tanto ingênuo; no entanto é preciso manter a assertividade e resguardar o(s) espaço(s) em que é possível ficar “sozinho com o universo inteiro”, nas palavras de Álvaro de Campos (Fernando Pessoa).

quarta-feira, outubro 22, 2014

Indicação literária: "Elvis economiza gasolina em cinco marchas".

“Estes escritos são resultado de uma seleção de crônicas feitas a partir de observações, experiências minhas ou testemunhadas, páginas aqui e ali de leituras, de fatos ocorridos. Divididas por assuntos em capítulos que nominei como as cinco marchas: das artes, do ser humano, da sociedade, dos fatos e das datas”.

É com essas palavras que a publicitária e escritora gaúcha Ana Cecília Romeu apresenta o seu primeiro livro, “Elvis economiza gasolina em cinco marchas”.  A obra, uma coletânea de crônicas publicadas em seu blog pessoal e em diversos jornais do Brasil, apresenta reflexões sobre assuntos de interesse geral – sociedade, literatura, arte, viagens, futebol e relacionamentos.

Eu tive a honra e o privilégio em escrever o prefácio de “Elvis economiza gasolina em cinco marchas”, onde afirmo que “Ana Cecília gentilmente provoca o leitor com a dose equilibrada de razão e emoção evocando também referências literárias, cinematográficas e musicais. A leitura das crônicas neste livro nos remete a fatos e lembranças sobre nós mesmos em diversas situações e isso conduz a um diálogo entre o leitor e a escritora – seja concordando, discordando, rindo, emocionando, relembrando”.

A crônica, apesar de ser considerada por alguns críticos como um gênero literário “menor”, é na verdade um registro fiel aos fatos de um tempo, de uma época – não à toa que etimologicamente a palavra “crônica” remonta à mitologia grega com o deus Cronos, senhor do tempo. Para Fernando Sabino, a crônica "busca o pitoresco ou o irrisório no cotidiano de cada um". E é justamente com esse irrisório que a crônica, nas palavras de Antônio Cândido, “pega o miúdo e mostra nele uma grandeza”.

Geralmente as crônicas são curtas e objetivas e Ana Cecília, publicitária de formação, transmite muito bem as mensagens em breves palavras. Porém, como escrevi em meu prefácio, “que o leitor, no entanto, não se engane com aparentes simplicidades”: em seus textos agradáveis, a escritora apresenta “todo um processo de reflexão que surge através não apenas das notícias veiculadas pelas mídias, mas também a partir de lembranças de reuniões familiares, registros de viagens e até mesmo através da inocência e sagacidade nas perguntas de uma criança de cinco anos de idade”.

E assim encontramos no livro belas crônicas como “A maior casa do mundo”, uma bela homenagem aos pais; na crônica “Sétima gaveta e recomeços” podemos encontrar elementos que são alvos de nossas reflexões mais profundas, como o sofrimento e a felicidade; e em “Fim do nosso mundo” Ana Cecília nos faz a seguinte pergunta: “O que você colocaria na lista de coisas ainda a realizar?”.  

No caso de Ana Cecília certamente a publicação deste livro figurava na lista de coisas que ela realizaria. Eis aí o resultado de um sonho: “Elvis economiza gasolina em cinco marchas” poderia trazer como trilha sonora - e não poderia ser diferente - a canção “If I can dream”, de Elvis Presley:

Enquanto eu puder sonhar,
Por favor, deixe meu sonho
tornar-se realidade.


Título: Elvis economiza gasolina – em cinco marchas,
2014, 104 páginas.
Autora: Ana Cecília Romeu.
Editora: Evangraf 
Preço: R$ 25
Onde comprar:
- Blog da autora ( com as formas de contato) – clique AQUI.
- Livraria Cultura – clique AQUI

quarta-feira, outubro 08, 2014

A criança que existe em cada um de nós.


O garoto “é liso”, como dizem no jargão futebolístico: bom de bola, dribla com facilidade quem aparece pela frente. Não usa nenhum calçado e o estádio é a rua estreita onde joga com vários amigos. Passa por um, domina a bola com perfeição, passa por outro e faz o gol. Os amiguinhos do time o abraçam e ele abre aquele sorriso de quem fez uma jogada à la Neymar ou Messi.

Eu parei alguns minutos durante a correria do dia a dia para observar as crianças brincando – e lembrei os tempos em que eu era um garotinho correndo atrás de uma bola. Na verdade eu era um jogador “de linha” sofrível, mas um ótimo goleiro! Infelizmente, a miopia (e a necessidade em usar óculos) interrompeu a trajetória de um brilhante goleiro. E lembrei também da sorte que tive (e os meus amigos) em ter espaço para jogar bola: um terreno do qual era o nosso Maracanã, onde aconteciam jornadas épicas com o famoso clássico “Meninos da rua de baixo” x “Meninos da rua de cima”.

Neste breve exercício de observação vieram estas lembranças e também algumas reflexões. Nas grandes cidades, com o crescimento desordenado e a especulação imobiliária, aqueles espaços onde as crianças podiam brincar livremente praticamente não existem mais. Os parques e praças, os campos e a própria rua foram substituídos pelas áreas de lazer em condomínios fechados que oferecem segurança e vigilância 24 horas. As chamadas brincadeiras de rua como esconde-esconde, pega-pega, queimada, taco e tantas outras deram lugar aos jogos eletrônicos – não há nada de errado com tais jogos, mas as crianças precisam da mediação de adultos atentos para que não passem o tempo todo online ou com os tablets e vivenciem também outras experiências lúdicas e socializem com amigos.

Continuando com a observação dos meninos jogando bola, eles não se importavam com o fato de estarem descalços e em um ambiente onde não era tão propício para a prática do jogo: simplesmente se divertiam, de forma espontânea, tomando o cuidado em observar quando um veículo de aproximava da pacata rua em bairro residencial. E neste momento me questionei: por que nós, adultos, deixamos de ser espontâneos?

Ao longo do desenvolvimento, vários atores contribuíram para “desmontar” essa espontaneidade: família, escola, religião, grupos, sociedade, mídias. O brincar é deixado de lado e as crianças seguem “agenda de adultos” com atividades diversas (programadas) para ocuparem um tempo que deveria ser dedicado para que a criança se expresse, descubra, compartilhe e aprenda através da brincadeira – e isso sem falar de crianças exploradas de diversas formas e que são privadas da própria infância. Resgatar a infância dentro de cada um é algo que deveria ser praticado, pois se trata de resgatar a essência do nosso lado mais criativo, livre, espontâneo e lúdico. Muitas vezes não é fácil separar o que é natural e o que foi construído, mas procure observar como as crianças precisam de muito pouco para se divertir e como elas improvisam brincadeiras “do nada” muitas vezes. Quantas vezes nós, adultos, não soubemos lidar com imprevistos e reclamamos de situações onde “não há condições ideais” para exercer alguma atividade?

Claro que como adultos temos as responsabilidades referentes às contas, trabalho, casa, leis, etc.; além disso, ainda estamos submetidos a pressões de uma sociedade competitiva onde os apelos consumistas e o culto ao desempenho (no trabalho, nos estudos, na forma física, nos relacionamentos, no sexo) podem até mesmo levar a uma série de problemas de ordem emocional e psicológica. Com um cenário assim é mais do que fundamental resgatar a essência da infância e despertar aquela criança livre, criativa e espontânea que existe dentro de cada um de nós.

E aquele garotinho realmente é muito bom de bola! Ah, mas se fosse eu o goleiro, ele não teria vida fácil! 

Indicação: TARJA BRANCA” é um ótimo documentário que traz à tona a importância de brincar e o reencontro com a criança interior, além da manutenção do espírito lúdico. Vale (muito!) a pena conferir.


TARJA BRANCA – A revolução que faltava.
Documentário: 80 minutos, Brasil, 2014.
Direção: Cacau Rhoden
Mais informações e trailer, clique AQUI.  

quarta-feira, agosto 20, 2014

A burocracia, meu caro Franz...


Ouvi seu desabafo com atenção, meu caro Franz, e compreendo o que está sentindo, afinal passei por todo este processo também. Aliás, todos nós passamos ou passaremos, é inevitável. Pois entenda, meu caro: tudo o que o Estado puder fazer para atrapalhar a sua vida, ele fará – seja no intuito para arrecadar mais, seja por simples e tola burocracia.

Não se engane com supostas facilidades e aparentes benefícios que representantes do Estado alardeiam com alto e bom som de propaganda tentando convencê-lo que pensam em sua tranquilidade e bem-estar: trata-se de uma armadilha, uma forma de atrair o rebanho para o matadouro e lá aplicar os golpes de misericórdia. E os auxiliares dos carrascos (porque o Estado é uma espécie de polvo e seus tentáculos são incontáveis e sempre alcançam o pescoço dos cidadãos, mas ainda assim precisa de membros auxiliares) estão prontos para agirem, uniformizados e como foi mesmo que Thoreau os descreveu? São máquinas que servem ao Estado, o “exército permanente, a milícia, os carcereiros” - mas eles apenas seguem ordens e as seguem em troca de um salário ao final do mês e neste ponto estamos todos no mesmo barco, meu caro Franz, não os culpemos; no entanto, é possível perceber o prazer de alguns destes auxiliares quando se dirigem ao pobre coitado e dizem o terrível “cadê?”. Este “cadê?” é pronunciado em alto e bom som, para que toda a repartição ou setor escute e saiba que aquele pobre coitado, há horas com uma senha na mão para retirar um mísero comprovante para afirmar sua honestidade ou que é um bom cidadão pagador de impostos, é um incapaz por não levar uma reles cópia “xerox” que prove a cor de suas cuecas ou onde mora. Um sadismo para compensar as frustrações de uma vida sem muitas válvulas de escape, talvez.

O curioso, meu caro Franz, é que temos computadores e sistemas de dados inteligentíssimos (ou ao menos supomos) dos quais basta ao operador digitar o número do CPF e na tela aparece toda a vida do cidadão – onde mora, onde trabalha, se é casado ou solteiro, o que comprou no último mês, quantas vezes por semana faz sexo e quais as posições sexuais preferidas – mas ainda há uma dependência por cópias xerox para praticamente tudo o que você pensa em fazer junto ao Estado. E não tente argumentar, apelar à razão: o auxiliar do carrasco logo dirá que “é assim que funciona o protocolo” e em caso de algum nervosismo por parte do pobre coitado, logo se dará um jeito de chamar a atenção ao cartaz que mostra em letras garrafais a lei do desacato. Basicamente é como se dissessem a você algo como “tente entrar apesar da minha proibição. Mas veja bem: eu sou poderoso”.

Ah, claro, como poderia esquecer “o sistema”, essa entidade misteriosa que parece funcionar ao seu bel prazer e está sujeito a variações de humor? Quantas vezes eu, você e todo mundo não conseguimos resolver nada graças ao “sistema que caiu”, não é verdade? Que expressão interessante: “o sistema caiu!”. Isso há algum tempo soava até revolucionário: “O sistema caiu! Abaixo o sistema!”; hoje, isso significa problemas e para resolvê-los não há outra solução: esperar o especialista com o seu diagnóstico (que geralmente é uma expressão clichê do tipo “regularizamos o processo de operacionalização do fluxo de dados para sistematização”) e receite uma espécie de Rivotril para que “o sistema” volte às boas e assim a máquina estatal possa continuar os seus nobres propósitos de vigilância, controle e arrecadação.

Portanto, meu caro Franz, ignore aquela placa na entrada do órgão do Estado onde se lê “Missão: promover serviços de qualidade para o atendimento eficiente ao cidadão” e vá com o espírito mais leve o possível, carregue uma pasta com todos os documentos que estiver em seu poder (não se esqueça da caderneta de vacinação, vai que queiram um comprovante de que você não tem gripe!), gaste alguns trocados com cópias xerox e lembre-se da imortal frase às portas do inferno: “Lasciate ogni speranza, voi che entrate!”*

*"Deixai toda a esperança, vós que entrais!"    

quarta-feira, julho 23, 2014

Sinais para o espaço

Desde os tempos de criança eu gosto de ler sobre o universo e os seus mistérios. Ao lado de estudos e observações sobre os corpos celestes e as galáxias, o espaço também instiga a imaginação abundante nas obras de ficção científica e até mesmo em algumas curiosas e divertidas teorias conspiratórias.

Ao falar sobre o universo, a pergunta que surge quase institivamente é: “Você acredita na existência de seres extraterrestres?”. Logo imaginamos as figuras de homenzinhos verdes (ou marrons) com olhos gigantescos a bordo de astronaves moderníssimas e dotados de tecnologia avançada. Deixando a imaginação um pouco de lado, existe um projeto que busca respostas sobre os ETs: trata-se do SETI (  Search for Extra-Terrestrial Intelligence – Busca por inteligência extraterrestre), que busca sinais de rádio emitidos através do espaço por algum tipo de vida inteligente.  

E aqui da Terra enviamos sinais. As ondas de rádio e TV viajam pelo espaço à velocidade da luz e viajarão por tempo indefinido, a menos que sejam interceptadas ou encontrem obstáculos pelo cosmos. “Se o maior telescópio de rádio/radar na Terra estivesse apontado para um telescópio equivalente num planeta de outra estrela, os dois telescópios poderiam escutar os sinais um do outro, mesmo que estivessem separados por milhares de anos-luz”, afirmou o astrônomo norte americano Carl Sagan.

É fascinante, mas de certa forma poderia ser preocupante: considerando que alguma civilização extraterrestre avançada receba e compreenda os sinais destas ondas eletromagnéticas, qual seria a impressão deixada pelos seres humanos habitantes deste pálido ponto azul na periferia da Via Láctea? Que mensagens nós estamos enviando ao espaço através destes sinais?

Ao ligar a TV ou o aparelho de rádio nos deparamos com notícias nada animadoras: a relação de conflitos armados pelo mundo não é pequena – considerando também ações violentas envolvendo o narcotráfico e diversos conflitos regionais - e a quantidade de refugiados atualmente já é a maior desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Os índices de violência aumentam no mundo todo e as mulheres e crianças são as maiores vítimas. Lições da história não foram aprendidas: o filósofo britânico John Gray, em seu livro “Cachorros de Palha”, chama a atenção para os genocídios cometidos pela humanidade: “Desde 1950, ocorreram perto de vinte genocídios; pelo menos três deles tiveram mais de um milhão de vítimas (em Bangladesh, no Camboja e em Ruanda)”.

Eis o cartão de visitas dos seres humanos através das ondas do rádio e TV pelo universo. É claro que algum ET poderá interceptar, com sorte, sinais de belas músicas, discursos pacifistas, declamações de poemas, histórias de amor e receitas de bolo de chocolate; no entanto, as mensagens que estamos enviando para o espaço e para nós mesmos são terríveis. Se alguma forma de vida inteligente extraterrestre estiver nos monitorando, vai desviar a rota dos seus discos voadores e passar bem longe daqui. 

“Já que conhecem tão bem o que está fora de vocês, devem conhecer melhor ainda o que está dentro”. É uma passagem do conto “Micromegas”, de Voltaire, que conta exatamente as reações e diálogos entre dois seres extraterrestres recém chegados à Terra com seres humanos.  Buscar vida em outros planetas, conhecer os segredos do universo são ações válidas, mas deveríamos também nos esforçar em conhecer melhor nós mesmos e praticar o que Carl Sagan recomendou em suas obras: afiar a nossa capacidade de diálogo e o nosso potencial para a compaixão “que, assim como as capacidades intelectuais, precisa de prática para ser aperfeiçoado”. 

Referências: 
SAGAN, Carl. Bilhões e bilhões: reflexões sobre vida e morte na virada do milênio. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
SAGAN, Carl. Variedades da experiência científica: uma visão pessoal da busca por Deus. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
GRAY, John. Cachorros de Palha: reflexões sobre humanos e outros animais. Rio de Janeiro: Record, 2011.
VOLTAIRE. Micromegas e outros contos. São Paulo: Hedra, 2007. 

quarta-feira, junho 11, 2014

A Copa do Mundo é nossa.



Após 64 anos, o Brasil novamente é sede de uma Copa do Mundo de futebol. A primeira vez, em 1950, o torneio contou com apenas 13 seleções divididas em 6 cidades sedes:  São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre e Recife. Agora, em 2014, teremos 32 seleções em 12 cidades.

A Copa do Mundo no Brasil ainda divide opiniões quanto à organização e os gastos com a construção de novos estádios para atender os critérios exigidos pela FIFA. Muitos brasileiros contestam o fato do país inaugurar uma série de estádios caros e modernos ao passo que a situação em setores como saúde e educação continua precária. Isso também se repetiu em1950: a construção do Estádio do Maracanã foi polêmica e os brasileiros já contestavam que o dinheiro seria melhor aplicado para melhorar a infraestrutura da saúde.

Evidente que as deficiências do país em diversos setores não são culpa da FIFA e muito menos da Copa do Mundo – aliás, triste do país que precisa de um torneio de futebol para resolver problemas básicos de infraestrutura. O grande problema com a Copa não é o evento em si, mas as expectativas criadas em torno do campeonato de futebol. De 2007, ano em que o Brasil foi anunciado como país sede, até agora, duas expressões foram muito difundidas através de governos, empresários e imprensa: “legado da Copa” e “vetor de oportunidades”. Acreditava-se que com a Copa do Mundo teríamos uma espécie de “Jardim do Éden” no país: cidades resolvendo problemas de mobilidade urbana e infraestrutura, brasileiros falando inglês e espanhol com muita naturalidade em cada esquina, hotéis e pousadas lotadas de turistas que chegariam do exterior em aeroportos modernos e eficientes. Sete anos depois o cenário de pujança idealizado não chega nem perto do que tentaram vender à população – daí a frustração e a disposição para protestos e manifestações como as que tivemos em Junho de 2013.

(Um adendo sobre manifestações e protestos: a Copa do Mundo é um evento que atrai atenções do mundo inteiro. Então é natural que os manifestantes aproveitem este acontecimento para obterem maior visibilidade para suas causas e reivindicações – “sou visto, logo existo”, é o lema da contemporaneidade. É claro que há oportunistas de todos os tipos, mas também há categorias de trabalhadores e movimentos populares que sempre manifestaram suas insatisfações em relação às políticas públicas e reivindicam melhores condições de trabalho e de vida independentemente de grandes eventos esportivos.) 

Quem tem boa memória lembra que essa história de “legado” foi repetida à exaustão quando os Jogos Pan Americanos foram sediados no Rio de Janeiro em 2007. Anos depois o tal legado para a cidade não se concretizou e muito pelo contrário: vários equipamentos esportivos (apenas para citar a parte do esporte) foram abandonados ou mesmo destruídos – e é bom lembrar que o Rio de Janeiro vai receber os Jogos Olímpicos em 2016 daqui a dois anos. E a maioria dos gastos para organizar o Pan do Rio saiu dos cofres públicos – e o “legado” daquele evento foi um fiasco. O histórico das políticas públicas do Brasil, planejamento e obras (além da corrupção endêmica) não é animador.

Fãs de futebol do mundo inteiro e os brasileiros vão acompanhar e torcer, é claro, por suas seleções e todos querem conferir as jogadas de grandes craques como Messi, Cristiano Ronaldo, Robben, Neymar, além de equipes candidatas ao título como Espanha e Alemanha – dentro de campo a Copa tem tudo para ser bem sucedida. Mas é preciso manter o espírito crítico: se o país é capaz de realizar um grande esforço para que novos estádios sejam construídos (a custos elevadíssimos) a fim de atender exigências da instituição que dirige e controla o futebol no mundo, por que novas escolas modernas e confortáveis não são construídas ao invés de simplesmente “reformarem” os prédios escolares caindo aos pedaços, ultrapassados e nada estimulantes para os alunos e professores? Tão bonito quanto um gol de Pelé ou uma jogada de Neymar é uma educação digna para todos – mas aí a torcida precisa deixar as arquibancadas e entrar em campo.

Enfim, vai ter Copa e vai ter postura crítica também – o que é salutar. Torcer pela seleção brasileira não configura “alienação” e criticar o evento também não significa ser “vira lata”, em alusão ao “complexo de vira latas” a que Nelson Rodrigues se referiu. O que esperamos é que possamos um dia dizer “vai ter boa Educação”, “vai ter boa Saúde”, “vai ter respeito pelo meio ambiente” e muito mais. Essa é a torcida que vai unir a todos.   

quinta-feira, maio 08, 2014

O espírito da manada.

Uma amiga gentilmente me enviou um texto muito interessante (“o tempo é um rio que corre”) da escritora Lya Luft, publicado na revista VEJA no mês de Abril. A escritora fala do seu novo livro e tece considerações interessantes sobre o tempo e a escrita, mas um trecho em especial chamou a atenção e o destaco:

Se conseguirmos escapar ao espírito da manada que nos queria todos conservados eternamente no formol da utilidade, as águas – que não param quando dormimos, usamos o computador, comemos o hambúrguer, choramos no escuro ou cantamos baixinho porque nos sentimos bem – poderão nos levar a uma viagem instigante.”

O termo “espírito da manada” é muito interessante. Outros escritores, em épocas diferentes, já se referiram a tal espírito. Sêneca, na Roma antiga, escreveu que “nada é pior do que nos acomodarmos ao clamor da maioria, convencidos de que o melhor é aquilo a que todos se submetem”. Séculos depois foi a vez de Hermann Hesse: “O que hoje existe não é comunidade: é simplesmente o rebanho”; alguns anos depois Charles Bukowski afirmou que as pessoas “esquecem logo como pensar, deixam que os outros pensem por elas”.

Quantas vezes deixamos de fazer coisas ou suprimimos alguns desejos e vontades com receio de que possa “parecer estranho”? O pensamento que logo surge na mente é “o que os outros vão pensar?”. Esta busca por aprovação externa é natural, afinal todos apreciam o reconhecimento a um bom trabalho realizado ou outro feito – tem a ver com “desejo de apoio social”, nas palavras de Bauman. O problema surge quando a necessidade de tal aprovação torna-se um imperativo e nos anulamos como indivíduos – experimentem pensar ou agir diferente dos padrões de comportamento aos quais fomos condicionados desde a infância: seremos rotulados com diversos termos, alguns nada lisonjeiros.  E desta forma, buscando aprovação, cedemos e acabamos seguindo a “manada", permanecendo na zona de conforto de pertencer à maioria. “Às vezes, te consideras por demais esquisito e te reprovas por seguires caminhos diversos dos da maioria. Deixa-te disso.”, eis o que nos aconselha Hermann Hesse em seu ótimo “Demian”.

É claro que algumas opiniões têm peso diferente. Há pessoas em nossas vidas que são confiáveis e suas aprovações/reprovações a alguns de nossos atos e pensamentos são representativos e importantes em determinados momentos.  Cabe avaliarmos o peso que daremos a certas opiniões e mesmo para regras impostas até de modo “inconsciente” pela massa, pela galera. Por isso é fundamental  desenvolver autonomia e segurança necessárias para que não nos acomodemos ao “clamor da maioria” de forma que fiquemos paralisados, com medo da reprovação ao que sentimos, desejamos e queremos viver de forma saudável. 

Difícil não lembrar a conhecida fábula “O velho, o menino e a mulinha”, contada por Monteiro Lobato e da citação de William Shakespeare feita por Dona Benta: “E isto acima de tudo: sê fiel a ti mesmo”.  Remar contra a maré, ir contra o senso comum da manada pode ser um processo realmente trabalhoso, porém trata-se de afirmar a identidade e reconhecer o próprio valor. Fernando Pessoa, com seu heterônimo Alberto Caeiro, nos brinda com suas sábias e encorajadoras palavras:

Procuro despir-me do que aprendi,
Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram, 
E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos, 
Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras”.

sexta-feira, abril 11, 2014

Dos arrependimentos e fracassos: sempre podemos aprender e crescer.


“Eu adoraria ter esta ‘cabeça’ que eu tenho hoje quando eu tinha meus 20, 22 anos. Teria evitado muitos erros e faria tudo diferente!”. Quem nunca pensou algo parecido quando paramos alguns minutos para refletirmos sobre esta montanha russa que é a vida?

Muitas pessoas continuam pensando desta maneira e ruminando arrependimentos em relação ao modo (ou modos) como conduziram alguma situação no passado. Oportunidades aparentemente imperdíveis que deixaram passar, relacionamentos que poderiam ter outro desfecho, comportamentos que renderam problemas ou situações vexatórias. A lista de arrependimentos pode ser longa.

É normal arrepender-se de algumas coisas que fizemos ou que poderíamos ter realizado; no entanto, para se ter a tal “cabeça de hoje”, ou seja, a maturidade necessária para lidar com situações que surgem no campo profissional, afetivo ou no cotidiano de modo geral , foi preciso passar por todos os processos que normalmente as pessoas querem evitar a todo custo: erro, fracasso, frustrações, sofrimento.  Evidentemente ninguém erra por querer e tampouco busca pelo sofrimento, mas são episódios que fazem parte da vida. Podemos aprender muito com os “erros” cometidos e com as frustrações – é assim que desenvolvemos a chamada maturidade emocional. Frédéric Lenoir, filósofo e escritor francês, afirma que os fracassos são “autênticos mestres espirituais, ou seja, guias que nos ajudam a retificar nossa trajetória”. 

Claro que é doloroso falhar, sobretudo em uma sociedade onde a ideologia do sucesso e da perfeição se tornou uma obsessão: “Proibido errar!”, é assim que muitas vezes somos educados e condicionados a pensar desde a infância.  Com “medo de errar” (e do julgamento alheio), também desenvolvemos o medo de tentar, arriscar. E desta forma estamos sempre preocupados em evitar a dor ao perseguir a felicidade plena – e o filósofo André Comte-Sponville nos adverte: “Aquele que só amasse a felicidade não amaria a vida, e com isso se proibiria de ser feliz.” Parece estranho, mas o filósofo complementa: “Viver é uma tragédia, viver é uma comédia, e é a mesma peça, e ela é bela e boa, em todo caso pode sê-lo, se sabemos vivê-la, se sabemos amá-la como ela é, e, aliás, não temos escolha.” Amar a vida como ela é, com todas as suas delícias e dores. “Se a vida não corresponde às nossas esperanças”, continua Comte-Sponville, “não é forçosamente a vida que está errada: pode ser que sejam as nossas esperanças que nos enganam”.  

Não se trata de uma ode ao sofrimento. A verdade é que não é possível agir como no filme “Peggy Sue” e voltar ao passado para “corrigir erros” e assim evitar frustrações futuras, da mesma forma que é impossível blindar a vida de decepções e sofrimentos. Não adianta se arrepender amargamente de coisas realizadas (ou não) no passado, mas sim aprender as lições do período e principalmente ocupar-se com o que pode ser feito agora – o que será plantado hoje para ser colhido em um breve futuro.  Buscar a “liberdade e a felicidade num ponto qualquer do passado”, como escreveu Hermann Hesse, é praticamente fechar os olhos para o que acontece ao redor e deixar de lado as possibilidades de mudança.

A vida é de tal forma dinâmica que sempre continuaremos tentando, arriscando... e falhando e acertando, chorando e sorrindo. E nesta gangorra, busquemos a serenidade para que possamos “nos rejubilar quando vêm os seus altos; e quando chega a hora dos baixos, cuidemos de aceitá-los e de fazer com que nos sirvam de trampolim”, segundo Lenoir. E trazer do passado somente o aprendizado, e não os grilhões que nos paralisam e impedem a nossa caminhada rumo ao autoconhecimento.

Referências:
Comte-Sponville, André. Bom dia, angústia! . São Paulo: Martins Fontes, 2010.
Lenoir, Frédéric. Pequeno tratado da vida interior. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.     

terça-feira, março 11, 2014

Criança tem que brincar!


Com o seu peculiar bom humor, o escritor Luís Fernando Veríssimo é o autor do conto
“a bola”, que narra sobre um garoto que ganha uma bola de presente do pai e não sabe como  brincar com ela – o menino procura por botões, comandos e até por um manual de instruções para saber como utilizar o brinquedo. 

Este divertido conto (ou crônica) de Veríssimo é encontrado no volume “Comédias para se ler na escola”, de 2001. Apesar do garoto da história ainda brincar com um videogame, o fato é que as nossas crianças estão brincando cada vez menos. Em 2007 uma pesquisa realizada pelo Instituto Ipsos revelou que parte considerável do tempo das crianças é ocupada por diversas atividades que merecem até agenda de horários – e os pais acham que quanto mais cedo as crianças estarem “preparadas para o futuro competitivo”, melhor. Não é à toa que algumas escolas acrescentam em suas grades curriculares disciplinas como empreendedorismo e educação financeira para crianças a partir dos três anos de idade

Evidente que os pais querem o melhor para os seus filhos e há a preocupação com o futuro em um mundo cada vez mais competitivo no mercado de trabalho. No entanto,
acelerar etapas do desenvolvimento infantil não é algo interessante para o futuro destas crianças.  Uma agenda lotada de atividades leva ao estresse e o excesso de expectativas dos pais pode gerar frustração e ansiedade nos pequenos. Infelizmente há pais que consideram o ato de brincar como “perda de tempo”, o que não é verdade: quando brinca, a criança desenvolve diversas habilidades - dentre elas, habilidades cognitivas, motoras, afetivas e sociais.  A imaginação e a criatividade entram em cena, contribuindo para o desenvolvimento em várias áreas – linguagem, interação, ética, etc. Notemos: o ato de brincar deve ser espontâneo, e não espremido em um espaço curto na agenda com data e horários determinados. 

É bem verdade que o crescimento desordenado nas grandes cidades – e com todos os problemas oriundos pela falta de planejamento urbano e de políticas públicas para lazer e esporte - tirou espaços que eram utilizados para as brincadeiras das crianças, como praças, campos e parques; a vida moderna na qual um dia de 24 horas parece ser insuficiente para o volume de atividades, também compromete o tempo que os pais deveriam passar com os filhos. No entanto, que tal organizar o tempo e rever algumas ações? Segundo pesquisa do Datafolha em 2012, as crianças ficam muito felizes quando estão com os pais e quando podem brincar. E não é preciso brinquedos avançados tecnologicamente – quem nunca soube de uma criança que preferiu brincar com a caixa do presente que ganhou? Brincadeiras simples e criativas fazem sucesso entre elas. 

Philippe Ariès, em seus estudos sobre a infância e família, nos diz que as crianças na Idade Média eram vistas como “adultos em miniatura” e não havia uma distinção clara entre o mundo infantil e o mundo adulto. Parece algo distante de nossa realidade, mas em pleno século XXI ainda há quem tente “acelerar a infância”: sutiãs com bojo (enchimento) para meninas a partir dos 6 anos e até mesmo crianças em propagandas de lingerie infantil posam como adultos. É preciso tomar muito cuidado com certas representações.  

Brincar é um direito das crianças e o universo infantil deve ser respeitado e valorizado em suas etapas quanto ao desenvolvimento. Lembremos das palavras do poeta Carlos Drummond de Andrade: “brincar com crianças não é perder tempo, é ganhá-lo”.      

segunda-feira, fevereiro 10, 2014

Amar ou depender? Sobre o amor e maturidade emocional.


Quem disse que para estabelecer uma relação de afeto devemos nos encarcerar? De onde vem esta ridícula ideia de que o amor implica estancamento? Por que algumas pessoas, ao se apaixonarem, perdem seus interesses vitais? O amor deve ser castrador? (...) Amar não é se anular, mas crescer a dois.” (p.68)

Escrever sobre o amor e as relações afetivas não é fácil e ao longo dos séculos estes temas já serviram como inspiração para escritores, músicos, dramaturgos, religiosos e até mesmo vários filósofos debruçaram sobre tais temáticas procurando entender aquilo que Freddie Mercury se referia como “crazy little called love” em uma de suas músicas. 

O dicionário Aurélio traz o significado para amor como “sentimento que predispõe alguém a desejar o bem de outrem”.  Não há dúvidas de que amar e querer o bem da pessoa amada é um sentimento belíssimo e todos apreciam; no entanto, existe o chamado “lado B do amor”, uma espécie de amor que leva ao sofrimento e abala a autoestima. Não é difícil encontrar histórias de casais onde a relação é doentia e até mesmo acontecem tragédias nos chamados crimes passionais.

É justamente sobre este “lado B” do amor que o psicólogo Walter Riso trata em seu livro “Amar ou depender? Como superar a dependência afetiva e fazer do amor uma experiência plena e saudável”, da editora L&PM pocket. Em pouco mais de 160 páginas de linguagem simples e leitura fluida, Riso enumera diversos comportamentos que levam ao quadro de dependência em atitudes nas quais “sob o disfarce de amor romântico, a pessoa dependente afetiva começa a sofrer uma despersonalização lenta e implacável até se transformar num anexo da pessoa ‘amada’, um simples apêndice”.

À primeira vista o livro parece ser destinado apenas para casais com problemas de relacionamento, mas na verdade o que se discute em suas páginas são conceitos ligados à inteligência emocional, bem-estar e autonomia – ou seja, assuntos que são válidos para todos, até porque mantemos relações afetivas com pais, filhos e demais parentes, por exemplo.  Obviamente ninguém vive sem afeto, mas quando há insistência em relações que envolvam medos, castrações e humilhações apenas por “estar com alguém para não ficar sozinho (a)”, há problemas.  Para o psicólogo, a origem desta dependência “parece estar na superproteção dos pais durante a infância e na crença de que o mundo é perigoso e hostil.” A autonomia e a liberdade são tolhidas e isso irá se refletir na vida adulta e nos relacionamentos amorosos destas pessoas, o que resultará em dificuldades ao lidar com frustrações, sofrimentos e incertezas.  Impossível não lembrar o educador Paulo Freire em sua “Pedagogia da Autonomia”, onde ele clama pelo “respeito à autonomia e à dignidade de cada um”.

Muitas pessoas podem estranhar uma relação onde não há cenas de ciúmes (sobre este tema, leiam “Otelo”, de Shakespeare) e a liberdade afetiva é encarada como se fosse frieza, egoísmo e mesmo libertina ou “promíscua”, mas o que o autor defende, além do amor que se regozija e compartilha a alegria do outro, também é uma linha de pensamento que muitos filósofos e mesmo guias espirituais já disseram há séculos:  Pitágoras (“Acima de tudo, respeita a ti mesmo”), Aristóteles (“O homem virtuoso tem o dever de amar a si mesmo”) e Jesus (“Ama o teu próximo como a ti mesmo”) são alguns exemplos de que o amor deve começar primeiro por nós mesmos. O filósofo e escritor Frédéric Lenoir, em seu (ótimo) “Pequeno tratado de vida interior”, deixa tudo muito claro: “a qualidade de nossa relação com os outros depende intrinsecamente da relação que temos com nós mesmos”. Quando estamos seguros sobre quem somos e sobre o que queremos, lidamos melhor com os problemas que surgem, inclusive de ordem afetiva.

É maravilhosa a dimensão lírica do amor (lembrem-se dos poemas, dos romances e das cartas apaixonadas) e as idealizações românticas das quais todos passamos quando o Cupido nos acerta em cheio em suas flechas – e até por isso teorizar ou racionalizar demais sobre o amor é algo complexo; mas todos nós desejamos uma relação equilibrada, harmoniosa, madura e alegre.

“Amar somente se justifica quando podemos fazê-lo de forma limpa, com honestidade e liberdade.”, afirma Riso. Eis a busca para efetivamente se amar e ser amado (a), e não depender. 


“Amar ou depender? Como superar a dependência afetiva e fazer do amor uma experiência plena e saudável”
Walter Riso
Editora L&PM coleção Pocket
166 páginas
De R$ 11,35 até R$ 17,90

quarta-feira, janeiro 15, 2014

Os livros de 2013


Foto: arquivo pessoal de Jaime Guimarães.
Como eu costumo dizer, "antes tarde do que muito tarde", então aqui vai a minha tradicional listinha de livros preferidos ao longo de 2013. A listinha não se propõe a realizar resenhas mais aprofundadas, e sim um breve comentário sobre as leituras no ano que passou. 


Mestre e a Margarida – Mikail Bulgakóv, editora Alfaguara.
O diabo e sua corte chegam a Moscou e essa turminha vai aprontar mil e uma maldades. Lembra a Sessão da Tarde, mas trata-se de um livro escrito durante as décadas de 20 e 30 na então União Soviética dominada por Stálin. Bulgakóv satiriza a classe intelectual, os artistas e a burocracia soviética em uma obra ágil, divertida e extremamente criativa – a história revista de Pôncio Pilatos (um “livro dentro do livro”) e cenas que remetem a “Fausto”, de Goethe (não à toa temos uma Margarida) são apenas alguns exemplos desta obra deliciosa em pouco mais de 400 páginas e da qual recomendo entusiasticamente. 



O homem do castelo alto – Phillip K. Dick, editora Verus.
Faça um seguinte exercício de ficção: imagine que o desfecho da Segunda Guerra Mundial tenha sido bem diferente, com a vitória da Alemanha nazista, do império japonês e da Itália fascista. É isso o que propõe Phillip K. Dick nesta obra instigante onde a realidade é contestada o tempo todo – na trama, um autor escreve um livro onde a história como conhecemos a partir da II Guerra é a ficção. Quem assistiu e gostou de filmes como “O vingador do Futuro”, “Minority Report” e “Blade Runner”, também vai gostar deste livro: os filmes citados foram inspirados em obras de Phillip K. Dick. 



V de Vingança – Allan Moore e David Lloyd, Editora Panini.
Foi uma releitura obrigatória durante o período das grandes manifestações no Brasil em Junho de 2013. As pessoas que saíam às ruas com máscaras de Guy Fawkles, a personagem principal de “V de Vingança”, relembraram essa História de Quadrinhos escrita por Allan Moore e desenhada por David Lloyd. A obra é uma distopia: a Inglaterra é governada por um regime fascista e autoritário, com a cassação de direitos individuais e manipulação da informação. Política, filosofia, arte, cultura, literatura, sociologia, anarquismo: “V de Vingança” traz tudo isso. O filme, lançado em 2006, é muito bom – mas a HQ é extraordinária!



História Universal da Infâmia – Jorge Luís Borges, editora Companhia das Letras.
Segundo as próprias palavras do escritor argentino, a compilação de contos deste livro que não chega a 100 páginas trata-se de “irresponsável brincadeira de um tímido que não se animou a escrever contos e que se distraiu falsificando e deturpando (sem justificativa estética uma vez ou outra) histórias alheias.” E como toda brincadeira, o resultado é diversão pura: uma coletânea de breves contos com biografias de trambiqueiros, piratas, assassinos e outros infames. E, claro, com toda a genialidade literária de Borges.   

Os filhos dos dias  - Eduardo Galeano, editora L&PM.
Neste livro do uruguaio Eduardo Galeano, autor de “Veias abertas da América Latina”, encontramos 365 histórias – uma para cada dia do ano, em formato de calendário. Quem já conhece o estilo de Galeano sabe o que vai encontrar: relatos jornalísticos, história, manifestos, poesia em textos agéis e objetivos, mas com o olhar sensível que caracteriza o escritor uruguaio. E tem assunto para todos os gostos: política, futebol, religião, economia, amor, humor, etc. Uma obra que reserva uma surpresa a cada dia do ano – ou melhor, a cada página virada. 

A trégua – Mario Benedetti, editora Alfaguara.
Martín Santomé está prestes a completar 50 anos e a poucos meses da aposentadoria. Viúvo e morando com os três filhos já adultos, leva uma vida rotineira no estilo casa-trabalho-casa. Até o dia em que conhece Laura Avellaneda, funcionária do escritório onde trabalha e muito mais jovem. E assim redescobre o amor. À primeira vista um romance como tantos outros por aí, mas o uruguaio Benedetti criou uma obra-prima: escrito em forma de diário, o livro traz reflexões sobre a passagem do tempo, inseguranças, relacionamentos e religião. Impossível terminar sua leitura e permanecer impassível: é um livro que mexe com os sentimentos. E o final é tocante.  

Sidarta – Hermann Hesse, editora BestBolso.
Este livro já mereceu uma postagem aqui no blog porque é uma obra que eu classifiquei como maravilhosa! Basicamente, o livro conta a história de um homem em busca da iluminação espiritual, da paz interior e serenidade. Em pouco mais de 100 páginas temos uma história muito bonita e simples da trajetória da personagem Sidarta. Leia mais sobre este livro no texto publicado em Abril de 2013 clicando AQUI

Como mudar o mundo – John-Paul Flintoff, editora Objetiva.
Um livro com este título pretensioso e encontrado na seção de autoajuda faria muita gente torcer o nariz imediatamente e descartá-lo. Uma pena, pois perderiam um livro bastante inspirador sobre ações aparentemente pequenas e realizadas por pessoas “comuns”, mas que podem mudar a vida de muitas pessoas – ou até mesmo o mundo, por que não? A obra faz parte do projeto “The school of life”, criado pelo filósofo e escritor suíço Alain de Botton em 2008 e promove cursos, workshops e encontros sobre vários temas – filosofia, psicologia, artes, literatura.

Pulp Head – John Jeremiah Sullivan, editora Companhia das Letras.
Uma bela surpresa no ano de 2013 foi este livro de John Jeremiah Sullivan, que até então era um ilustre desconhecido para mim. O ritmo de sua escrita e a variedade dos temas tratados – desde estrelas como Michael Jackson e Axl Rose, passando por reality shows, séries de TV, o furacão Katrina e cavernas nos cafundós dos Estados Unidos – torna a leitura de seus ensaios uma experiência muito agradável, como se estivéssemos lendo um conto ou novela. Mesmo que o leitor não tenha afinidade com os temas que Sullivan aborda, ele é “fisgado” pelo seu ótimo texto. 

Um 2014 com ótimas leituras para todos! 

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