quarta-feira, agosto 20, 2014

A burocracia, meu caro Franz...


Ouvi seu desabafo com atenção, meu caro Franz, e compreendo o que está sentindo, afinal passei por todo este processo também. Aliás, todos nós passamos ou passaremos, é inevitável. Pois entenda, meu caro: tudo o que o Estado puder fazer para atrapalhar a sua vida, ele fará – seja no intuito para arrecadar mais, seja por simples e tola burocracia.

Não se engane com supostas facilidades e aparentes benefícios que representantes do Estado alardeiam com alto e bom som de propaganda tentando convencê-lo que pensam em sua tranquilidade e bem-estar: trata-se de uma armadilha, uma forma de atrair o rebanho para o matadouro e lá aplicar os golpes de misericórdia. E os auxiliares dos carrascos (porque o Estado é uma espécie de polvo e seus tentáculos são incontáveis e sempre alcançam o pescoço dos cidadãos, mas ainda assim precisa de membros auxiliares) estão prontos para agirem, uniformizados e como foi mesmo que Thoreau os descreveu? São máquinas que servem ao Estado, o “exército permanente, a milícia, os carcereiros” - mas eles apenas seguem ordens e as seguem em troca de um salário ao final do mês e neste ponto estamos todos no mesmo barco, meu caro Franz, não os culpemos; no entanto, é possível perceber o prazer de alguns destes auxiliares quando se dirigem ao pobre coitado e dizem o terrível “cadê?”. Este “cadê?” é pronunciado em alto e bom som, para que toda a repartição ou setor escute e saiba que aquele pobre coitado, há horas com uma senha na mão para retirar um mísero comprovante para afirmar sua honestidade ou que é um bom cidadão pagador de impostos, é um incapaz por não levar uma reles cópia “xerox” que prove a cor de suas cuecas ou onde mora. Um sadismo para compensar as frustrações de uma vida sem muitas válvulas de escape, talvez.

O curioso, meu caro Franz, é que temos computadores e sistemas de dados inteligentíssimos (ou ao menos supomos) dos quais basta ao operador digitar o número do CPF e na tela aparece toda a vida do cidadão – onde mora, onde trabalha, se é casado ou solteiro, o que comprou no último mês, quantas vezes por semana faz sexo e quais as posições sexuais preferidas – mas ainda há uma dependência por cópias xerox para praticamente tudo o que você pensa em fazer junto ao Estado. E não tente argumentar, apelar à razão: o auxiliar do carrasco logo dirá que “é assim que funciona o protocolo” e em caso de algum nervosismo por parte do pobre coitado, logo se dará um jeito de chamar a atenção ao cartaz que mostra em letras garrafais a lei do desacato. Basicamente é como se dissessem a você algo como “tente entrar apesar da minha proibição. Mas veja bem: eu sou poderoso”.

Ah, claro, como poderia esquecer “o sistema”, essa entidade misteriosa que parece funcionar ao seu bel prazer e está sujeito a variações de humor? Quantas vezes eu, você e todo mundo não conseguimos resolver nada graças ao “sistema que caiu”, não é verdade? Que expressão interessante: “o sistema caiu!”. Isso há algum tempo soava até revolucionário: “O sistema caiu! Abaixo o sistema!”; hoje, isso significa problemas e para resolvê-los não há outra solução: esperar o especialista com o seu diagnóstico (que geralmente é uma expressão clichê do tipo “regularizamos o processo de operacionalização do fluxo de dados para sistematização”) e receite uma espécie de Rivotril para que “o sistema” volte às boas e assim a máquina estatal possa continuar os seus nobres propósitos de vigilância, controle e arrecadação.

Portanto, meu caro Franz, ignore aquela placa na entrada do órgão do Estado onde se lê “Missão: promover serviços de qualidade para o atendimento eficiente ao cidadão” e vá com o espírito mais leve o possível, carregue uma pasta com todos os documentos que estiver em seu poder (não se esqueça da caderneta de vacinação, vai que queiram um comprovante de que você não tem gripe!), gaste alguns trocados com cópias xerox e lembre-se da imortal frase às portas do inferno: “Lasciate ogni speranza, voi che entrate!”*

*"Deixai toda a esperança, vós que entrais!"    

15 comentários:

  1. A coisa é feia mesmo!! A burrocracia cada vez maior e só pra complicar para o povo.Incrível isso! Belo texto e imagem genial,rs abraço,chica

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  2. Hehehe! É burocracia pra tudo mesmo hoje em dia, é de perder a paciência. Já vi casos de pessoas passando muito mal na porta de hospitais e não serem atendidas porque antes tem que passar o processo da papelada (inclusive há um caso na minha cidade de uma menina que morreu pelo atraso do atendimento por conta do processo burocrático). Enfim, os computadores que deveriam facilitar, muitas vezes são a desculpa perfeita para atrapalhar ainda mais a vida... essa frase "o sistema caiu" ou "no momento estamos sem sistema" é rotina já.

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    1. Nanda, essa situação desumana em hospitais é uma amostra de como o sistema - olha ele aí - é falho. :(

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  3. Ah, muito bacana a ilustração :)
    Abraço!!

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  4. Olá, professor!

    Há algumas semanas tentei assistir Orfeu do Carnaval. Confesso q não consegui ver o filme até o fim, mas tem uma cena em que Orfeu desce aos infernos a procura de Eurídice e esse hades é justamente representado por uma... repartição pública.
    O serviço público é um fenômeno curioso pq tanto a ideia de servir qnto a de público não são absorvidas muito bem. Por ninguém. Salvo raros casos, nem o profissional nem o público tem grandes noções de q a função desses funcionários é estar a serviço da população. Mesmo pq a gente tem essa herança cultural q costuma ver o funcionalismo público quase como um título de nobreza e o trabalho como algo ligado às camadas "menos nobres". Além disso, é no trabalho q nos dividimos em castas, mas não vou enveredar nessa conversa por aqui para não acabar com toda a cota de bobagens numa tacada só.
    Continuando no meu devaneio, esse servidor público, dono desse título de semi-nobreza tem em sua parede seu estandarte: "Veja bem seu tom pq eu sou uma autoridade. Ao contrário dos outros mortais, recebi uma investidura que me faz diferente do resto". Não tinha espaço para a prevaricação no mural, de modos q foi cortada da foto por sabe-se lá quem e do referido artigo ficou só a metade.
    Uma vez q se toma posse desse título, recebe-se junto com a insígnia de distinção tbm uma ferramenta de controle de social, que no caso do serviço público é a burocracia. Ela é um dos últimos símbolos da nobreza decadente que precisa ostentar alguma coisa para mostrar q está resistindo aos golpes. Claro q isso é um "embricamento político-social" e não algo planejado por um funcionário de mal com a vida. Enfim...

    - Ah, Silvana! Acho q essa sua bostagem foi exagero beirando a necessidade de um Ritrovil. Discordo totalmente de vc!
    - Desculpe, mas para discordar é necessário apresentar as três vias do formulário de reclamação devidamente preenchidas.

    Perdoe a viagem.

    bjohnny!

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    1. Olá, moça cabofriense! Seus comentários sempre são muito interessantes - não precisei assinar três vias de formulário para atestar isso. :) Gostei do que falou sobre determinados servidores públicos donos de "títulos de semi-nobreza" - e agem como autoridades que não são, absolutamente. ( a insígnia da distinção é o cargo, mas às vezes é um simples crachá ou uniforme)

      Volte mais vezes com suas viagens - você tem milhas por aqui! :) Bjks!

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  5. Jaime,

    Sim, outra consequência da corrupção, e também um estímulo a ela: inventar dificuldades, para vender facilidades.

    =D
    Satoru

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  6. O setor público é uma DESGRAÇA!,até por que está tomado por pessoas incompetentes,apadrinhadas,que não sabem nem por que existem nesse mundo.Nada funciona,e a tal da 'burrocracia',é calculada,meticulosamente,pra você desanimar de qualquer coisa.Tudo no setor público é arcaico,enfadonho,desrespeitador.Tudo é ruim,e não há por que melhorar;o caos interessa,o caos está beneficiando a alguém."Ah,não,só podemos TENTAR resolver seu problema,se você trazer a impressão em 3D do carbono 14 do seu tataravô" e por aí....Ah,e desacato ao servidor(?) público pode te gerar uma multa ou detenção de seis meses a dois anos...Chupa essa manga!ou melhor,chupa e engula o caroço!

    Beijão,Jaime!Dani.

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    1. Dani, infelizmente vemos diariamente tais exemplos de burocracias que "travam" a vida do cidadão em seus aspectos mais simples. Muito complicado mesmo lidar com certas esferas do setor público. :( Beijão!

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  7. E eu que pensava que só eu enxergava esse sadismo ao dizer que está faltando o documento 'x' rs
    O cara que inventou a burocracia está queimando no inferno, certeza! E não tem tecnologia que faça a coisa andar nesse país, porque não é conveniente que funcionem bem. Aliás, lembro-me que você já fez um texto sobre esse assunto e eu tinha sugerido um vídeo do Asterix e Obelix que fala dessa questão, muito engraçado, mas bem condizente com a realidade!
    Saudades daqui, ando nostálgica nesses tempos! Tirei a poeira do meu 'Introspecção Caótica' após tanto tempo, falando sobre essa coisa de crescer do meu ponto de vista (achei que fazer 30 anos fosse difícil, mas é bem mais do que pensei, rs). Dá uma passadinha lá quando puder ;) abraços! :)

    http://introspeccaocaotica.blogspot.com.br/

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    1. hehehe Acho que todos enxergam tal sadismo, Mari, mas poucos falam ou escrevem sobre isso. rs E já escrevi sobre este tema mesmo, boa lembrança e também do vídeo do Asterix.

      Boa! Vou passar lá sim, sem dúvida! Obrigado e abraço! :)

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  8. Olá Jaime;

    Quanto tempo não passo por aqui...mas estou de volta. Lendo seu post lembrei de uma situação que passei, eu tinha ficado desempregada e era afiliada a uma instituição financeira onde fiz um seguro que me daria um salário minimo em caso de desemprego involuntário. Levei quase uma semana para tirar toda documentação que eles me exigiram e depois autenticar em cartório. Passado todo o sufoco me mandaram aguardar 90 dias para receber a tal "bolada"...esperei 100 dias e como vi que o dinheiro não caiu em minha conta, retornei para verificar o ocorrido, foi aí que descobri que após esperar mais de três meses tinha perdido o direito pois já estava trabalhando. Só que só achei emprego naquele mês e os outros dois meses a qual estava desempregada eu deveria ter vivido de brisa. Só no Brasil mesmo!

    Zaz

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