quarta-feira, outubro 08, 2014

A criança que existe em cada um de nós.


O garoto “é liso”, como dizem no jargão futebolístico: bom de bola, dribla com facilidade quem aparece pela frente. Não usa nenhum calçado e o estádio é a rua estreita onde joga com vários amigos. Passa por um, domina a bola com perfeição, passa por outro e faz o gol. Os amiguinhos do time o abraçam e ele abre aquele sorriso de quem fez uma jogada à la Neymar ou Messi.

Eu parei alguns minutos durante a correria do dia a dia para observar as crianças brincando – e lembrei os tempos em que eu era um garotinho correndo atrás de uma bola. Na verdade eu era um jogador “de linha” sofrível, mas um ótimo goleiro! Infelizmente, a miopia (e a necessidade em usar óculos) interrompeu a trajetória de um brilhante goleiro. E lembrei também da sorte que tive (e os meus amigos) em ter espaço para jogar bola: um terreno do qual era o nosso Maracanã, onde aconteciam jornadas épicas com o famoso clássico “Meninos da rua de baixo” x “Meninos da rua de cima”.

Neste breve exercício de observação vieram estas lembranças e também algumas reflexões. Nas grandes cidades, com o crescimento desordenado e a especulação imobiliária, aqueles espaços onde as crianças podiam brincar livremente praticamente não existem mais. Os parques e praças, os campos e a própria rua foram substituídos pelas áreas de lazer em condomínios fechados que oferecem segurança e vigilância 24 horas. As chamadas brincadeiras de rua como esconde-esconde, pega-pega, queimada, taco e tantas outras deram lugar aos jogos eletrônicos – não há nada de errado com tais jogos, mas as crianças precisam da mediação de adultos atentos para que não passem o tempo todo online ou com os tablets e vivenciem também outras experiências lúdicas e socializem com amigos.

Continuando com a observação dos meninos jogando bola, eles não se importavam com o fato de estarem descalços e em um ambiente onde não era tão propício para a prática do jogo: simplesmente se divertiam, de forma espontânea, tomando o cuidado em observar quando um veículo de aproximava da pacata rua em bairro residencial. E neste momento me questionei: por que nós, adultos, deixamos de ser espontâneos?

Ao longo do desenvolvimento, vários atores contribuíram para “desmontar” essa espontaneidade: família, escola, religião, grupos, sociedade, mídias. O brincar é deixado de lado e as crianças seguem “agenda de adultos” com atividades diversas (programadas) para ocuparem um tempo que deveria ser dedicado para que a criança se expresse, descubra, compartilhe e aprenda através da brincadeira – e isso sem falar de crianças exploradas de diversas formas e que são privadas da própria infância. Resgatar a infância dentro de cada um é algo que deveria ser praticado, pois se trata de resgatar a essência do nosso lado mais criativo, livre, espontâneo e lúdico. Muitas vezes não é fácil separar o que é natural e o que foi construído, mas procure observar como as crianças precisam de muito pouco para se divertir e como elas improvisam brincadeiras “do nada” muitas vezes. Quantas vezes nós, adultos, não soubemos lidar com imprevistos e reclamamos de situações onde “não há condições ideais” para exercer alguma atividade?

Claro que como adultos temos as responsabilidades referentes às contas, trabalho, casa, leis, etc.; além disso, ainda estamos submetidos a pressões de uma sociedade competitiva onde os apelos consumistas e o culto ao desempenho (no trabalho, nos estudos, na forma física, nos relacionamentos, no sexo) podem até mesmo levar a uma série de problemas de ordem emocional e psicológica. Com um cenário assim é mais do que fundamental resgatar a essência da infância e despertar aquela criança livre, criativa e espontânea que existe dentro de cada um de nós.

E aquele garotinho realmente é muito bom de bola! Ah, mas se fosse eu o goleiro, ele não teria vida fácil! 

Indicação: TARJA BRANCA” é um ótimo documentário que traz à tona a importância de brincar e o reencontro com a criança interior, além da manutenção do espírito lúdico. Vale (muito!) a pena conferir.


TARJA BRANCA – A revolução que faltava.
Documentário: 80 minutos, Brasil, 2014.
Direção: Cacau Rhoden
Mais informações e trailer, clique AQUI.  

13 comentários:

  1. Olá Jaime,
    Acho que esse é de fato um dos lados perversos da especulação imobiliária! Quantas vezes nos deparamos com locais que nos marcaram de alguma maneira, seja um campinho de futebol ou mesmo aquele cantinho romântico onde cravamos na árvore o nosso amor por uma jovem e quando observamos já não existe? De uma certa maneira, nunca devemos matar a criança que existe em cada um de nós! Pois isso torna a vida muito mais prazerosa e feliz!

    Belo texto meu caro!

    Abraço
    Flavio Ribeiro

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    1. Pois é, Flávio, a especulação imobiliária tem esse lado cruel que poucos enxergam. Muito obrigado! :) Um abraço!

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  2. Texto primoroso e verdadeiro!
    Fico preocupada em ver como cada vez menos podemos deixar nossas crianças brincarem em campinhos, sair para ir à casa dos amigos e cada vez mais jogando em aparelhos eletrônicos e assistindo DVD's dentro de casa. Infelizmente é uma consequência do aumento da insegurança.. Mas também da cada vez mais precoce "adultização" das crianças, que tem de passar o dia divididas entre escola-natação-curso de inglês- curso disso-curso daquilo. E o tempo para brincar livremente cada vez mais espremido. (por isso deixo meus alunos brincarem por um bom tempo durante o dia!)
    Abraços e novamente parabéns pelo texto!

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    1. Obrigado, Mari. Isso, essa "adultização" das crianças que não leva em consideração as etapas do desenvolvimento é uma péssima ideia - e muita gente acha que brincar é "perda de tempo". :( Uma pena. Abraço e obrigado mais uma vez! :)

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  3. Que beleza teu texto e vem de encontro ao que sempre penso e falo! Adorei! Vamos brincar e deixar as crianças brincarem. abraços, tudo de bom,chica

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    1. Obrigado, Chica! Brinque mais, se divirta mais! :) Abraço!

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  4. A partir do ato de brincar,a criança obterá novas experiências de se relacionar com o mundo a sua volta,e isso a auxilia nas tomadas de decisões,a introduz a um repertório salutar em sua confecção de vida.É na brincadeira que lhe sãp proporcionadas renovações com o ato do próprio brincar,contribuindo assim,para o seu desenvolvimento em todos os sentidos.Realmente,não há por que ter pressa de crescer!!!Infelzimente,hoje,as crianças estão crescendo muito rápido,perdendo essa fase mágica da vida cedo demais...Pena...

    Belíssimo e sensível texto,Jaime!!!

    Beijão!Dani.

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    1. Obrigado, Dani e muito bom o seu comentário! O brincar é tão importante para o desenvolvimento das crianças...! E quando adultos ainda brincamos...pouco, mas isso porque "tolhemos" a nossa criança interna. Muito obrigado mais uma vez! :) Beijo!!!

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  5. Ah, que maravilha Jaime!
    Como é gostoso resgatar a criança escondidinha dentro da gente!
    Acabei de chegar lá do Atitude, da querida Lu Nogfer, onde ela fala exatamente disso, da infância que reside dentro da gente! Sabe, adoro resgatá-la!! :D
    E chego aqui e encontro mais essa maravilha baseada em fatos reais da sua infância! Ah, não poderia ter vindo em hora melhor amigo!!

    É bom demais conhecer e saber um pouquinho da sua doce e terna infância, quando fora um goleiro dos bons! rsrs Ah, o futebol sempre encantou os meninos de uma maneira quase mágica não né amigo?
    Ainda mais naqueles tempos, onde qualquer terreno ( pois ainda existia espaço) virava um belo campinho! Poderia ser de chão de terra mesmo, pois ninguém se importava! Era só colocar 4 tijolos ou madeira e pronto: as traves estava perfeitas na concepção dos garotos! Era mesmo incrível! E todos corriam para lá e para cá, caiam, ralavam os joelhos, se sujavam de verdade! Hoje, se as mães pensarem em uma possibilidade dessas, ficam até histéricas...hahaha Preferem encher os filhos de tablets, videogames e outros acessórios "cibernéticos" e tê-los dentro de casa, do que soltos por aí. É claro que a situação atual não é como antes, está mais violento, ninguém confia mais nas pessoas... Mas isso está tirando a infância das crianças!! Elas estão perdendo muito, o aprendizado fica prejudicado, pois a infância é feita de liberdade e desprendimento! :)))

    Ora, a melhor coisa do mundo é brincar, correr, subir árvores! Como era gostoso brincar de queimada! Ah, e por falar em queimada eu pegava a bola como ninguém e chocava as minhas amiguinhas com a força que eu "tascava" nelas...kkkkk Como eu era muito tímida, me soltava nas brincadeiras, nos jogos. Também não sei se lembrará, mas as meninas pulavam muito "elástico" rsrs Sim, aquele elástico branquinho e fininho que se usa para costurar! Fui campeã de elástico...hahaha e treinava sozinha em casa amarrando o elástico em duas cadeiras! Ah, fazia peripécias mil...rsrs em vários lugares sem me preocupar se poderia machucar.. Meus joelhos estavam sempre ralados, pois subia em barrancos e descia de bicicleta morro abaixo..rsrs Resultado: tombos e mais tombos e chilique da mamãe quase todos os dias! hahaha Mas nossa, agora vi que realmente tive uma infância fantástica!!!

    Seu texto está brilhante Jaime, pois funcionou como um retorno ao tempo... Tempo bom demais! Tempo de brincadeiras! Aliás, adorei sua indicação do documentário Tarja Branca! O trailer é excelente e me chamou muito a atenção! "Brincadeira é magia, é usar o fio inteiro de cada ser", brincar é urgente" Puxa, apenas nessas poucas frases, já dá para ter uma ideia da dimensão do conteúdo! Adorei!

    Aliás, gostei de tudo aqui, estou bem leve e agora pronta para voltar às atividades de gente grande..rsrs Queria ser criança para sempre!!
    Obrigada pelo carinho amigo, agradeço muito por ter conhecido pessoas assim, com tanta sensibilidade e alma essencialmente pueril!
    Beijos e uma semana maravilhosa, com muitas brincadeiras e muitos risos, SEMPRE!!!

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    1. Adriana, muito obrigado pelo seu comentário. "Tarja branca" é um documentário que tenho recomendado para muitas pessoas porque resgata o valor do brincar e de como isso é importante - e não apenas para as crianças, mas resgatar a infância mesmo na fase é importantíssimo!

      Lembro sim da brincadeira do "elástico" que as meninas adoravam. rs Os meninos ficavam na bola, no carrinho de rolimã e na bolinha de gude. Mas era legal também a queimada, pega-pega e esconde-esconde, quando meninos e meninas brincavam juntos.

      Eu que agradeço, Adriana! Beijo e vamos brincar mais! :)

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  6. Olá Jaime!

    Que maravilha este texto!
    Muito bom parar alguns minutos durante a correria do dia a dia para observar as crianças brincando. E é assim que conseguimos libertar a nossa criança de dentro para dar um pouco de leveza a vida.
    E gostei muito de sua reflexão também, pois por tantas ambições, as crianças já não tem mais lugares amplos para liberarem suas energias infantis . E é por estas e outras que hoje em dia elas se tornam adultas muito rápido. Culpa dos adultos...

    PS: Querido, quero agradecer a tua visita no atitude e muito obrigada também pelas palavras deixadas la. Sinta-se a vontade e volte sempre!
    Também gostei muito daqui!

    Abraços;

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    1. Olá, Lu.

      Eu também gostaria de agradecer sua visita e suas palavras.

      Verdade, hoje muitas crianças são submetidas a "agendas de adultos" com rotinas que tiram o espaço para brincadeiras.

      Obrigado, voltarei, sem dúvida! E você também, fique à vontade! Um abraço!

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  7. Texto gostoso de ler e que me fez pensar ainda mais nessa questão das brincadeiras das crianças de hoje. Além de elas acabarem preferindo jogos eletrônicos, a própria falta de espaço e segurança precária impossibilitam as crianças de terem uma vida social mais ativa. Vemos muito mães incentivando seus filhos a terem mil aulas de coisas que irão ser úteis no mercado de trabalho, mas e a infância, as brincadeiras? O bom de ser criança é não ter que pensar nessas responsabilidades futuras, é sonhar que o mundo é aquele lugar mágico da imaginação, é não ter pressão. Eu andei muito de bicicleta na rua e brinquei muito ao ar livre com minhas primas no interior, mas acho que meus filhos não terão a infância que eu tive, não poderão correr soltos e aprontar das suas, pois acabamos também ficando superprotetores visto que o mundo tem se tornado um lugar cada vez mais hostil.

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