terça-feira, março 29, 2011

Sobre o suicídio

(Desta vez, não tem charge infame. Fica para outra vez. Fiquem com um artista de verdade: Edward Munch)

Não conhecia Cibele Dorsa. Na verdade, nunca ouvi falar nesta atriz, modelo e apresentadora até que seu nome e fotos figurassem entre as principais notícias nos sites, jornais e telejornais. Infelizmente, não por algum trabalho ou programa de TV, e sim por um trágico suicídio.

O suicídio...tema pesado e desagradável. O escritor Albert Camus, autor de O Estrangeiro (recomendo!), já se referia ao suicídio como “ a grande questão filosófica de nosso tempo”. E continua: “decidir se a vida merece ou não ser vivida é responder a uma pergunta fundamental da filosofia.". Dante Alighieri dedicou um dos círculos do inferno em sua Comédia para os suicidas – que são transformados em árvores que esvaem em sangue quando as Harpias pousam e usam suas garras – e os cristãos condenam o ato.

Para muitas pessoas, o ato do suicídio trata-se de uma covardia ou egoísmo; para tantas outras, é um ato corajoso. Independente da natureza ou motivação do ato, o suicídio é um problema de saúde publica, segundo a OMS – Organização Mundial de Saúde. Atualmente mais de 1 milhão de pessoas cometem suicídio, por ano.

O que leva alguém ao suicídio? Sem esquecer das patologias e da depressão, há várias motivações. Muitas incompreensíveis se observadas em primeiro plano ou de forma apenas superficial. É o que faz muitas pessoas questionarem, no caso da Cibele Dorsa, por que uma mulher “jovem, bonita, com alguma fama e dinheiro, que tem tudo” faria isso. Para o filósofo francês André Comte-Sponville, “não é a vida que se recusa, é a velhice, é a solidão, é a escravidão da doença ou da miséria, os sofrimentos da deficiência ou da agonia”. É por isso que o fato de ser “jovem, bonita, famosa, rica” não implica necessariamente em uma vida feliz.

Confunde-se, novamente e como sempre, a felicidade aos bens materiais e padrões de consumo. Que alguém pode encontrar momentos de felicidade com isso, sem dúvida – se eu ganhasse na mega sena acumulada, certamente faria bom proveito com algumas benesses que o dinheiro pode proporcionar; no entanto, isso não livra da agonia, da falta de esperança, da tristeza. Novamente, dou a palavra ao filósofo francês: “só podemos usar duas coisas contra o sofrimento e a infelicidade: a aceitação e o combate”.

Parece duro? Sim, pois vivemos no mito do “felizes para sempre”, o que não existe. Desculpem se pareço ácido ou meu tom não é otimista. O que existe é a vida com todas as suas complexidades, com suas felicidades e infelicidades, e aceitar isso é o primeiro passo, seguindo por encontrar meios para combater o sofrimento e o principal de tudo: amar a vida. Quando isso é vencido, entra-se em processo de melancolia, depressão. O que pode levar ao suicídio.

Covardia ou coragem? Aí retomo a citação de Camus logo no começo deste texto. Creio que não cabe a nós julgarmos o suicídio como covardia ou coragem. Trata-se de uma escolha, cada pessoa é o seu próprio juiz. No entanto, se nós pudermos ajudar de alguma forma ao potencial suicida – há sinais - retomar o gosto pela vida, façamos. Uma simples manifestação de carinho ou amizade, um ombro para apoiar e ouvidos para escutar...talvez o que tenha faltado para a atriz. Talvez o que esteja faltando para muitos, em uma época em que o descartável e a indiferença começam a predominar.

sexta-feira, março 25, 2011

O inimigo


Está quase encerrado mais um turno de trabalho na escola e praticamente todas as salas estão vazias, menos uma, ocupada por um professor que orienta a aluna que ainda tenta desenhar as letras no papel de forma satisfatória. O professor ajudava da maneira que podia, enquanto a aluna – que já é avó – fazia uma esforço muito grande para escrever em seu caderno. Enquanto trabalhavam, a estudante resolveu puxar conversa.

- Viu, professor? Olha no que deu ficar mais de 30 anos sem estudar.
- Nossa, e por que ficou tanto tempo assim, sem ir à escola?
- Ah, professor, era tudo mais difícil antigamente. Pra estudar eu tinha que caminhar muito, não tinha transporte e precisava ajudar em casa. E também, professor, casei bem cedo e tinha que cuidar de casa, marido, filhos...

O professor admira o esforço daquela aluna, já uma senhora passando dos 50 anos, cheia de rugas no rosto, as mãos calejadas e grossas demonstrando uma vida não muito suave até ali; a mão direita, firme, tentava arredondar as letras que formavam as palavras em seu caderno enquanto o olhar procurava alcançar o que estava escrito no quadro.

- Vixe, preciso ir num oculista, usar óculos.

O professor até aceitava a justificativa da dificuldade em enxergar com clareza, mas sabia que o problema não era apenas esse. Curioso, resolveu continuar a conversa.

- E por que resolveu voltar aos estudos?
- Os filho tão tudo criado, professor. O mais novo casou faz pouco tempo e tá vivendo a vida dele. Quer dizer, casou não, juntou com uma menina aí e tão morando junto, é assim que fazem hoje. O marido tem as distração dele, e eu vim procurar uma coisa pra ocupar a mente.

De certa forma o professor experimentou alguma frustração, pois esperava que a mulher alimentasse algum sonho que não conseguiu realizar durante a juventude. Mas logo se conformou: metas aparentemente modestas, se alcançadas, constituem-se em grandes vitórias para muitas pessoas. A vitória daquela senhora era voltar aos estudos depois de 30 anos sem contato com a escola.

- E como está sendo retornar agora, depois de todo esse tempo? A escola, agora, é melhor? – prosseguiu o mestre.
- Olha, professor... é melhor nuns pontos, em outros, não. É melhor porque hoje tá mais fácil o transporte, os professor são mais paciente... eu tinha medo de não entender nada depois desse tempo todo sem estudar, mas até que tô conseguindo pegar uma coisa ou outra. Mas numa coisa hoje é bem pior: a bagunça.

Esta senhora foi matriculada em uma turma voltada para Educação de Jovens e Adultos cuja característica principal é a heterogeneidade: adultos com faixa etária entre 40 e 50 anos estudam na mesma sala com alunos com 18, 20 anos de idade. Ritmos e motivações diferentes. E principalmente comportamentos diferentes.

- Nem me fale em bagunça. A senhora já reparou: todas as aulas tenho dificuldades para lidar com alguns alunos que insistem em atrapalhar a sala! - retormou o professor.
- Mas sabe quem é o culpado por isso, professor? O inimigo!

O professor tomou um susto. Esperava que a aluna fizesse uma referência, talvez, ao governo, ao sistema ou até mesmo aos professores, muitas vezes responsabilizados por não conseguirem controlar a indisciplina dentro da escola. Inimigo?

- Como assim, “inimigo”?
- O inimigo, professor. Ele está aí, levando esses jovem tudo pra marginalidade, levando pras droga, essa música toda de baixaria, a violência, tudo isso é culpa do inimigo da humanidade.

Cada vez mais confuso, o professor começa a pensar que não estava diante de uma aluna comum, e sim de alguém que tinha conhecimentos sobre a Illuminati ou A Nova Ordem Mundial. Mas tudo ficou claro quando a estudante prosseguiu com sua teoria e acabou revelando quem era o inimigo.

- Foi ele que levou a humanidade pro pecado, que tentou Jesus no deserto, mas Deus é grande e opera maravilhas! Esse mundo tá assim por causa do inimigo e é preciso ser forte para não cair na tentação do pecado! O senhor lê a Bíblia, professor?

“E essa agora!”, pensou o professor. Como escapar dessa? Não que ele fosse um ateu ou contestador de religiões, apenas não proclamava fé ou crença em nada relacionado a padres, pastores e as chamadas escrituras – repletas de incoerências, costumava dizer o professor. E como não queria se envolver em polêmicas resolveu responder à francesa:

- Devo admitir que não tenho o hábito, mas é uma boa leitura.
- A Bíblia é a palavra de Deus que nos dá força para enfrentar o inimigo, professor. O que esses jovem tudo precisa é de Jesus no coração pra expulsar o inimigo de suas vida!

O professor gostaria de dizer que adoraria expulsar o governador de sua vida, este sim um inimigo por maltratar o magistério. Mas olhou o relógio e resolveu encerrar a conversa.

- É, pois é... bom, a senhora já terminou de copiar o assunto do quadro?
- Terminei, professor.
- Então, vamos embora, que ainda tenho outro turno para enfrentar. Uma boa tarde para a senhora.
- Boa tarde, professor! Que Deus te abençoe e te livre do inimigo!

Talvez o professor devesse responder “amém”, mas preferiu dizer “obrigado”. Com essa confusão de religiões, seitas e assembléias que existem por aí, é melhor ficar com o óbvio. Parou na sala dos professores, tomou um gole de água e deu uma rápida folheada nos jornais: políticos corruptos que desviaram verba da educação, traficantes de drogas dominando bairros... o professor sabia quem eram os inimigos, de fato.

E surgiu um novo inimigo naquele momento: o relógio. Então partiu para mais um turno de trabalho.

quarta-feira, março 16, 2011

O Japão e a minha professora da 5ª série

(clique na imagem para melhor visualização, isso se você tiver coragem e não tiver preconceito com tosqueirarte)

Confesso que não tenho uma memória que poderia ser chamada de prodigiosa e vivo cometendo gafes como esquecer do nome de algumas pessoas. Curiosamente, demonstrando que ainda há esperança, minha memória conserva fresquinha a lembrança dos meus professores do tempo de escola – sou capaz de lembrar-me do nome de boa maioria, chuto uns oitenta por cento.

E uma das professoras que não esqueço é a professora Clarice, de Geografia e História. Talvez pelo fato de adorar essas duas disciplinas e devorar livros e enciclopédias que traziam estes temas, fui um “dos queridinhos” da professora, ao ponto de ser escolhido, vejam só, “monitor da classe” – isso, para uma criança ou um pré-adolescente tímido e reservado, era quase o fim.

Passado um bom tempo, lembro das aulas de Geografia da 5ª série com a professora Clarice enquanto acompanho as notícias sobre o que vem acontecendo no Japão. Parece que ouço a voz da minha professora, lá na frente da sala, explicando sobre as placas tectônicas e dizendo uma coisa que jamais saiu da minha cabeça: o planeta está em constante movimentação geológica.

Acompanhando no twitter várias opiniões e links sobre o terremoto e o tsunami que devastaram o Japão, dois “atores” eram constantemente citados em uma possível explicação para a tragédia japonesa: uns diziam que a culpa era do homem alterando de forma negativa o meio ambiente e outros diziam que tudo o que estava acontecendo era castigo divino.

Por mais que o homem esteja, realmente, alterando o meio ambiente – e destruindo ecossistemas - ou que Deus esteja descontente com o que vem acontecendo no planeta que Ele criou – segundo os religiosos -, desta vez não se trata de Deus ou do homem: é a própria Terra que segue com seus movimentos geológicos naturais. Tremores de terra são comuns: cerca de 40 por dia. A intensidade e o local onde eles ocorrem é que determinam o impacto que causará na vida das pessoas.

Sei que pareço extremamente frio, insensível e alheio à dor e ao sofrimento que os japoneses e o mundo sentem por conta destes terríveis acontecimentos. E claro que uma explicação teórica e racional não alivia em nada o luto. Não se trata de insensibilidade: trata-se de constatar, na verdade, quão frágeis somos, os seres humanos, diante do curso normal do planeta e de seu ecossistema. E de forma arrogante teimamos em alterar tal curso e insistimos em lidar com forças que podem escapar ao controle, como a energia nuclear – alguns países europeus finalmente estão repensando sobre as usinas.

E mais uma vez me lembro da professora Clarice falando das placas e da teoria da deriva dos continentes e como eu observava e simplesmente viajava com a representação cartográfica do que poderia ter sido a Pangéia. Era um olhar fascinado, de uma criança procurando entender como chegamos até aqui.

Com os eventos ocorridos no Japão retomo o olhar de criança curiosa procurando respostas, procurando entender o porquê das coisas. E apesar de minha memória caber em um velho disquete de 1.44 Mb, lá está minha professora de Geografia ali na frente, expondo sua aula com o mapa e um globo terrestre, atiçando ainda mais minha curiosidade natural. Gostaria de um dia poder agradecê-la pessoalmente.

sexta-feira, março 11, 2011

Futurologia


Levante a mão quem nunca teve ao menos uma leve curiosidade sobre como será o futuro! Pois é, desde consultas com as ciganas que lêem as linhas das mãos – uma velha cigana disse que viverei 100 anos! – à ficção científica, em algum momento imaginamos como será “o dia de amanhã”. Eu adoraria ter um carro voador e um robô que faz tudo em casa, e você?

Enquanto eu penso nos Jetsons, gente bem mais séria do que eu prefere pensar em possibilidades mais interessantes para o futuro. Por exemplo, o físico Michio Kazu. Depois de ter conversado com 300 cientistas, o físico arriscou previsões para este século e uma delas me chamou a atenção: “sensores microscópicos vão monitorar continuamente as células, a procura de sinais de perigo, aumentando a duração da vida humana”.

Um passinho à frente, por favor. Vem mais gente aí. A expectativa de vida em alguns países já vem aumentando, até mesmo no Brasil: hoje, os brasileiros que resistem à fila do SUS, balas perdidas, acidentes de trânsito e descasos governamentais vivem em média 73 anos. No Japão a expectativa de vida chega a 82 anos; em países como França e Espanha, 80 anos.

Na “outra ponta da tabela”, temos os países africanos. Na Suazilândia, que fica encravada na África do Sul, a expectativa de vida não chega aos 40 anos. Cenário parecido é encontrado em outros países africanos, com expectativas que não chegam sequer aos 50 anos.

Enquanto o avanço tecnológico possibilita novos tratamentos para a saúde nos países desenvolvidos e contribui para o aumento da expectativa de vida, a realidade em muitos outros lugares ainda é bem diferente. O que acontece no continente africano pode ser explicado em parte pela AIDS, guerras e fome. Falando em fome, a ONU vem chamando a atenção para a alta nos preços dos alimentos no mundo. Com a população do planeta aumentando, a produção precisaria acompanhar o ritmo. Temos 925 milhões de famintos no planeta – para uma população de 6 bilhões de pessoas. Estima-se que em 2050 teremos 9 bilhões de pessoas neste simpático planetinha azul. E daqui a 40 anos a água será escassa em muitos lugares pelo mundo. Marte é logo ali - e com água, é o que todos esperam.

Há muitos entusiastas tecnológicos que esbanjam otimismo para o futuro e falam até mesmo na relação homem-máquina como um salto na evolução humana. Não que eu seja exatamente um pessimista, mas recebo tais entusiasmos com bastante desconfiança. Ao longo da história podemos encontrar movimentos que prometiam melhorar a vida das pessoas e, no entanto, tais melhorias ficaram restritas a uma pequena parcela da população, ao menos em um primeiro momento.

Prefiro falar, então, sobre futuros: para uma parte do planeta, um futuro genial, com telecinesia, inteligência artificial, novos aparelhos que proporcionarão cada vez mais a comunicação entre as pessoas – ao menos de modo virtual, digamos assim – e aquelas crenças de que as máquinas tornarão nossas vidas tranquilas, embora continuemos trabalhando mais ainda do que antes; já para outra parte do planeta, talvez bem maior, o futuro ideal seria bem mais modesto: comida na mesa, assistência à saúde e paz, em prioridades. Parece simplista, reducionista, ingênuo, o que for. E acho até que seja, mas eu confesso ser um tanto idealista – o que de certa forma me coloca no rol dos otimistas, daqueles que ao menos mantém a esperança.

E uma dessas esperanças ainda é, quem sabe, ter uma Rosie em casa. Se bem que aquele teletransporte de Star Trek pode ser bastante útil...desde que meus átomos não se percam por aí!

sexta-feira, março 04, 2011

Sobre carnaval, abadás, cordas e povo

Houve um tempo em que eu caí na armadilha de bradar aos montes, além dos montes e trás-os- montes sobre o quanto carnaval e futebol eram “instrumentos de alienação do povo” e aquele papinho todo radical que certamente você já leu e ouviu por aí.

Bobagem, é claro. Nada como a maturidade para que possamos refletir algumas idéias e expressões. Não me envergonho do fato de ter dito tais coisas, talvez de forma até ingênua, mas sim de ter embarcado numa espécie de preconceito ao que costumava ser uma manifestação popular e espontânea. O carnaval, segundo Roberto DaMatta, é “um movimento numa sociedade que tem horror à sociabilidade, sobretudo a mobilidade que permite trocar efetivamente de posição social”.

Se não podem vencê-los, juntem-se a eles – ou melhor, tome o lugar deles e criem suas próprias regras. Notem que falei do carnaval como manifestação que costumava ser popular e espontânea. Hoje, o jogo virou e não tenho lido ou escutado com tanta freqüência sobre a “alienação do carnaval”. Quando algo – seja material ou imaterial – deixa de ser exclusivamente de domínio popular, é possível falar-se até na beleza que nasceu das classes populares e hoje “frequenta as mesas dos restaurantes mais requintados da cidade”. Lembrei-me da boa e velha cachaça.

Estaria exagerando ou caindo no discurso “a culpa é das elites que tornaram o carnaval mais uma fonte de lucro”? Ora, apenas presto atenção a alguns detalhes. Vejamos o que acontece em Salvador, quando aquela multidão invade as ruas da capital baiana para sair atrás dos trios elétricos. Surpreenda-se com este dado: 60% da população de Salvador passa o carnaval em casa, assistindo filmes, ouvindo música ou acessando a internet. Tal informação motivou até uma brincadeira sem graça feita por Marcelo Tas – e, se me permitem, Tas é um excelente comunicador e jornalista, mas um sofrível humorista, caso ele insista em perseguir tal rótulo.

O que acontece neste carnaval de Salvador é bastante emblemático: pessoas uniformizadas com o que se chama “abadá” – os blocos mais famosos custam uma pequena fortuna – separadas do resto do povão por uma corda. Neste espaço entram apenas aqueles que pagaram, uma espécie de ingresso. Para quem procura um pouco mais de conforto existem os camarotes, também alguns com preços cujos valores são quase surreais. A estrutura dos camarotes toma o espaço que antes era ocupado pelo povo que não pagava para brincar o carnaval, o chamado “folião pipoca”. Este prefere ficar em casa ou viajar com a família a pagar cerca de 800 reais pelo abadá do Chiclete com Banana – preço válido para um único dia.

E o supra-sumo acontece quando as músicas de duplo sentido ou conotação sexual - que sempre existiram, é bom ressaltar - condenadas veemente por “serem grotescas, de baixo nível e denegrirem a imagem da mulher” recebem até coreografia daqueles que, fora deste espaço, condenam o cantor e banda por “promoverem a baixaria”. É curioso observar como no carnaval o “pode tudo” legitima o que normalmente se condena. Novamente, quem explica é o professor DaMatta: "Sabemos que o carnaval é definido como 'liberdade' e como possibilidade de viver uma ausência fantasiosa de utópica de miséria, trabalho, obrigações, pecados e deveres. (...) Sensação de liberdade que que me parece fundamental numa sociedade cuja rotina é dominada pelas hierarquias que sujeitam a todos a uma escala complexa de direitos e deveres vindos de cima para baixo".

Por isso mesmo vejo com bastante simpatia a tentativa de resgate dos tradicionais blocos carnavalescos de rua, como já acontece em algumas cidades do Brasil e até mesmo em boas iniciativas que há neste sentido na capital baiana. Não faço pregação pelo fim das escolas de samba no Rio ou mesmo dos abadás em Salvador – são fontes de emprego e renda para muita gente. Apenas espero que o caráter popular do carnaval seja efetivamente resgatado ou que continue firme nos lugares onde isso ainda não se perdeu.

Mais feio do que aquela segregação explícita da corda que acontece no carnaval de Salvador só mesmo Bell Marques raspando a barba e ganhando, segundo se comenta por aí, R$ 2 milhões para tal ato. Isso, sim, é uma injustiça: sou tão desafinado quanto ele, sei rimar "amor" com "ô ô ô" e sou menos feio. E minha barba não encrava!

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