O trauma da Copa

 


Mais uma Copa do Mundo se aproximando e, como tem acontecido nas últimas edições do torneio, as pessoas não demonstram lá muito entusiasmo com a competição. Nem as lojas e os ambulantes: ao circular pelo calçadão no Farol da Barra, vi uma solitária senhora em sua barraquinha com as camisetas piratas da seleção ao lado de bonés, cornetas e outros apetrechos.

Acho que ela não vendeu nada, coitada. Quem sabe no mês que vem, quando a bola rolar pelos estádios do México, Canadá e dos Estados Unidos, um país que mesmo com os esforços de Pelé e Messi continua gostando é do football praticado por mastodontes de capacete e bola oval.

Talvez entre os colecionadores de figurinhas a animação esteja maior. Em plena era digital onde a molecada não tira os olhos das telas, é impressionante que as figurinhas e o álbum de papel encontrem adeptos entre os jovens. Em muitos casos, o Álbum da Copa virou uma tradição passada de pais para filhos e netos. Uma tradição bem salgada para o orçamento: cada pacote contendo 7 figurinhas custa R$ 7 e como nesta edição do Mundial teremos 48 seleções, isso significa que completar o álbum com 980 figurinhas custará mais de mil reais.

É um gasto e tanto, mas quem completou os álbuns da Copa diz que é uma sensação muito boa, pois estimula até o senso de comunidade na hora de trocar as figurinhas repetidas. Será que ainda jogam bafo? Eu conseguia muitas figurinhas neste jogo e foi assim que quase consegui completar o álbum da Copa de 1990.

Para muitos torcedores, o trauma da Copa foi a seleção de 1982 ser eliminada pela Itália de Paolo Rossi; para outros, a final contra a França em 1998 e o misterioso tremelique do Ronaldo; e o que falar do humilhante 7 x 1 para a Alemanha bem aqui em nossa casa? Pois para mim o maior trauma da Copa é o álbum da Copa de 90, disputada na Itália.

O meu álbum de figurinha estava quase completo, eu diria que 90% preenchido com as figurinhas de craques como os brasileiros Careca e Romário, os alemães Matthaus e Klinsmann, além de Maradona e Canniggia, a dupla argentina que eliminou a seleção brasileira naquela competição. Faltavam poucos cromos para completar o catálogo e as fui passar as férias escolares na casa do meu avô. Levei o álbum comigo, orgulhoso e acreditando que iria conseguir as figurinhas que faltavam no bafo com outros meninos.

Certo dia, uns parentes que eu não conhecia chegaram à casa do meu avô. Dentre essas pessoas, um garoto que foi apresentado como primo. O moleque parecia ser gente boa, bati bola com ele no terreiro e mostrei o meu maior tesouro até então, o álbum da Copa. Caiu a tarde, os tais parentes foram embora e fiquei por ali, tomando as sobras do suco de manga feito das frutas diretamente do pomar. E decidi namorar mais uma vez o meu álbum.

Cadê? Embaixo da cama, no armário, no banheiro, em cima da estante, dentro da mala... não estava em lugar nenhum! Minha mãe, com pena do meu desespero, disse que procuraríamos melhor no dia seguinte. Um novo dia nasceu e nada do álbum. Daí surgiu a grande suspeita: o primo. Quem mais, se mostrei o livro ilustrado apenas para ele? Mas como o cara saiu com o objeto sem ninguém perceber? “Oxe, colocou por dentro da camisa”, disse meu tio.

“Vou atrás, onde ele mora?”, perguntei, com raiva. Infelizmente o moleque morava em outra cidade, a 80 km de distância percorrida em estrada de terra cortando o sertão baiano. Vamos lembrar que era o ano de 1990 e não havia celulares, Whatsapp e telefone ainda era um bem raro do qual as pessoas ganhavam dinheiro alugando aparelhos.

Perdi o álbum. Chorei uns três dias seguidos e ainda levei a culpa: “Quem mandou não cuidar de suas coisas direito?”. Filho da mãe, o moleque parecia um cara legal e afanou toda a minha dedicação e destreza no bafo! Nunca mais vi aqueles parentes e o tal primo, nem lembro mais de suas feições; porém a perda do álbum quase completo foi o meu grande trauma nas Copas do Mundo, tanto que nunca mais voltei a colecionar as figurinhas.

Os meus esforços para a Copa do Mundo nos anos seguintes foram dedicados a ser o desenhista oficial da rua pintada de verde e amarelo com o Zé Carioca e as mascotes dos torneios, além de completar as tabelinhas que eram distribuídas nos mercados, nas farmácias e nos bares.

Falando nisso e voltando a 2026, ainda não consegui a minha tabelinha para a Copa. Será que ainda distribuem?  Não que eu esteja ansioso para acompanhar jogos emocionantes como Canadá x Suíça ou Congo x Uzbequistão, mas seria legal ter essa lembrança tangível de mais uma Copa do Mundo.

E mantê-la longe de primos desconhecidos que aparecem de surpresa.  

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Crônicas são guardiãs da memória e contam as curiosidades e transformações da sociedade. No meu livro “Crônicas do Contador do Tempo” há crônicas que resgatam a memória em passagens de eventos como Copa do Mundo, propagandas antigas, guardinhas noturnos, cometas e Chernobyl.

Está disponível no site www.caminoeditorial.com.br ou pelo instagram @jaimebr. E por aqui também, caso queira saber mais: basta enviar mensagem. J

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