sexta-feira, março 25, 2011

O inimigo


Está quase encerrado mais um turno de trabalho na escola e praticamente todas as salas estão vazias, menos uma, ocupada por um professor que orienta a aluna que ainda tenta desenhar as letras no papel de forma satisfatória. O professor ajudava da maneira que podia, enquanto a aluna – que já é avó – fazia uma esforço muito grande para escrever em seu caderno. Enquanto trabalhavam, a estudante resolveu puxar conversa.

- Viu, professor? Olha no que deu ficar mais de 30 anos sem estudar.
- Nossa, e por que ficou tanto tempo assim, sem ir à escola?
- Ah, professor, era tudo mais difícil antigamente. Pra estudar eu tinha que caminhar muito, não tinha transporte e precisava ajudar em casa. E também, professor, casei bem cedo e tinha que cuidar de casa, marido, filhos...

O professor admira o esforço daquela aluna, já uma senhora passando dos 50 anos, cheia de rugas no rosto, as mãos calejadas e grossas demonstrando uma vida não muito suave até ali; a mão direita, firme, tentava arredondar as letras que formavam as palavras em seu caderno enquanto o olhar procurava alcançar o que estava escrito no quadro.

- Vixe, preciso ir num oculista, usar óculos.

O professor até aceitava a justificativa da dificuldade em enxergar com clareza, mas sabia que o problema não era apenas esse. Curioso, resolveu continuar a conversa.

- E por que resolveu voltar aos estudos?
- Os filho tão tudo criado, professor. O mais novo casou faz pouco tempo e tá vivendo a vida dele. Quer dizer, casou não, juntou com uma menina aí e tão morando junto, é assim que fazem hoje. O marido tem as distração dele, e eu vim procurar uma coisa pra ocupar a mente.

De certa forma o professor experimentou alguma frustração, pois esperava que a mulher alimentasse algum sonho que não conseguiu realizar durante a juventude. Mas logo se conformou: metas aparentemente modestas, se alcançadas, constituem-se em grandes vitórias para muitas pessoas. A vitória daquela senhora era voltar aos estudos depois de 30 anos sem contato com a escola.

- E como está sendo retornar agora, depois de todo esse tempo? A escola, agora, é melhor? – prosseguiu o mestre.
- Olha, professor... é melhor nuns pontos, em outros, não. É melhor porque hoje tá mais fácil o transporte, os professor são mais paciente... eu tinha medo de não entender nada depois desse tempo todo sem estudar, mas até que tô conseguindo pegar uma coisa ou outra. Mas numa coisa hoje é bem pior: a bagunça.

Esta senhora foi matriculada em uma turma voltada para Educação de Jovens e Adultos cuja característica principal é a heterogeneidade: adultos com faixa etária entre 40 e 50 anos estudam na mesma sala com alunos com 18, 20 anos de idade. Ritmos e motivações diferentes. E principalmente comportamentos diferentes.

- Nem me fale em bagunça. A senhora já reparou: todas as aulas tenho dificuldades para lidar com alguns alunos que insistem em atrapalhar a sala! - retormou o professor.
- Mas sabe quem é o culpado por isso, professor? O inimigo!

O professor tomou um susto. Esperava que a aluna fizesse uma referência, talvez, ao governo, ao sistema ou até mesmo aos professores, muitas vezes responsabilizados por não conseguirem controlar a indisciplina dentro da escola. Inimigo?

- Como assim, “inimigo”?
- O inimigo, professor. Ele está aí, levando esses jovem tudo pra marginalidade, levando pras droga, essa música toda de baixaria, a violência, tudo isso é culpa do inimigo da humanidade.

Cada vez mais confuso, o professor começa a pensar que não estava diante de uma aluna comum, e sim de alguém que tinha conhecimentos sobre a Illuminati ou A Nova Ordem Mundial. Mas tudo ficou claro quando a estudante prosseguiu com sua teoria e acabou revelando quem era o inimigo.

- Foi ele que levou a humanidade pro pecado, que tentou Jesus no deserto, mas Deus é grande e opera maravilhas! Esse mundo tá assim por causa do inimigo e é preciso ser forte para não cair na tentação do pecado! O senhor lê a Bíblia, professor?

“E essa agora!”, pensou o professor. Como escapar dessa? Não que ele fosse um ateu ou contestador de religiões, apenas não proclamava fé ou crença em nada relacionado a padres, pastores e as chamadas escrituras – repletas de incoerências, costumava dizer o professor. E como não queria se envolver em polêmicas resolveu responder à francesa:

- Devo admitir que não tenho o hábito, mas é uma boa leitura.
- A Bíblia é a palavra de Deus que nos dá força para enfrentar o inimigo, professor. O que esses jovem tudo precisa é de Jesus no coração pra expulsar o inimigo de suas vida!

O professor gostaria de dizer que adoraria expulsar o governador de sua vida, este sim um inimigo por maltratar o magistério. Mas olhou o relógio e resolveu encerrar a conversa.

- É, pois é... bom, a senhora já terminou de copiar o assunto do quadro?
- Terminei, professor.
- Então, vamos embora, que ainda tenho outro turno para enfrentar. Uma boa tarde para a senhora.
- Boa tarde, professor! Que Deus te abençoe e te livre do inimigo!

Talvez o professor devesse responder “amém”, mas preferiu dizer “obrigado”. Com essa confusão de religiões, seitas e assembléias que existem por aí, é melhor ficar com o óbvio. Parou na sala dos professores, tomou um gole de água e deu uma rápida folheada nos jornais: políticos corruptos que desviaram verba da educação, traficantes de drogas dominando bairros... o professor sabia quem eram os inimigos, de fato.

E surgiu um novo inimigo naquele momento: o relógio. Então partiu para mais um turno de trabalho.

8 comentários:

  1. São muitos inimigos a nos atazanar mesmo... E eles gostam de tentar, principalmente, as pessoas sem alfabetização e sem cultura. Dá-lhe professores! bjs Cris

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  2. Esse é o que podemos chamar de "inimigo íntimo".Está tão presente na vida da pessoa que ela aceita a convivência com ele sob alguma proteção (divina, no caso). Dizia meu irmão, filoso diletante que o maior inimigo do homem é a ignorância. E dizia um outro grande (Sêneca) que crer é mais fácil do que pensar por si mesmo.
    Abraço grande, Jaime. paz e bem.

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  3. E aí, Jaime, tudo bem? Faz tempo, hem! Bom saber que você continua vivo, e lépido e fagueiro como sempre. Quanto a mim, tenho a impressão de que também ainda arrasto a carcaça direitinho por aí.

    Sobre o professor, sabe quem me parece ser o seu maior inimigo?

    Ele mesmo. Porque viver de dar aulas nesse país é coisa que só se deseja para os maiores inimigos. Felizmente, estou livre deste nefando desejo. Na última quinta-feira, bebemorei a morte do último dos meus maiores inimigos!

    Abração

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  4. Para ela, é tão simples, o inimigo é apenas 1. Mas são tantos os inimigos que identificamos e não podemos ficar estagnados. Temos que ser resilientes para continuar dando sentido às nossas ações.A vida segue.

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  5. Chega a ser uma visão romântica dos fatos... E quem vai tirar isso dela? NINGUÉM se atreveria e a essa altura do campeonato nem é bom.

    Tenho a sensação que esse professor é paulista, mora na Bahia e tem um blog maravilhoso que eu amo ler... Acertei? Rs

    Beijinhos!

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  6. O inimigo não é apenas um. São muitos, com certeza!
    Abraços, :-)

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  7. São tantos "inimigos" que dá até desânimo!!!

    Como é dar aula para pessoas mais velhas?
    Tem alguma história emocionante de alguém?

    Uma ótima semana pra você!!!
    Beijão!!

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  8. Jaiminho!

    Bem sou enfatico com relação ao suicídio:

    Se o Deus de merda deu a vida, então faço com ela o que quiser, dado não pode ser pedido de volta.

    Quem dá algo pra vc não pode te dizer como vc pode ou não lidar com o "presente".

    Acho muito hipocrita essa galera toda ai "pro-vida" na sua maioria sao direitistas classe media de merda, fodem com a vida dos outros e acham tudo muito bonito e cor de rosa. Acho muita falta do que fazer e simancol, mas bom senso é uma coisa que cristão não tem.Se tivesse não seria cristão.

    Parem de encher o saco, deixa quem quer abrir mão da vida em paz! Seria o ultimo favor que vc's fazem pra vida do sujeito! kkk

    Se a vida não tem sentido, então não vale a pena ser vivida.


    Eu mesmo tenho meu suicidio programado já, quero so viver até os 30, no maximo os 40, vou me matar sem culpa alguma, e se alguem ficar sofrendo, problema da pessoa, se ninguem ficar sofrendo, foda-c tb.

    Acho que a vida como objeto que não pode ser descartado, não é um presente então, tão menos "dádiva" é um então um fardo ou uma cruz, se é algo que temos que carregar até o fim obrigatoriamente então se torna algo ruim.

    Fora que essa etica doente cristã ainda faz com que o cara que tente se matar e não consiga, responda por processo criminal !!!

    Um suicida não pode ser considerado um assassino! porra!!!!

    Suicida não é ser mal carater.É uma opção.

    Cristianismo é a verdadeira morte em vida.

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