quarta-feira, janeiro 27, 2010

O Manuscrito 512 e a cidade perdida na Bahia

O título é bem chamativo e evoca até um certo “ar de mistério”. E é justamente disso que se trata esse texto: uma história misteriosa e fascinante!

Desde criança sempre gostei muito de história geral e de várias lendas e mistérios que envolviam os egípcios, incas, maias, profecias, cavaleiros templários e tantos outros assuntos com um “pezinho” no sobrenatural e na teoria conspiratória, isso sem falar no folclore brasileiro.

Enquanto no mundo inteiro teorias e histórias como lidas em “O Código Da Vinci” e vistas em séries como “Arquivo X” (que em muitos casos misturam teorias conspiratórias, lendas e mistérios da história recheadas com enredos instigantes) fazem sucesso, aqui no Brasil temos um caso bastante interessante e que é pouco divulgado, ao menos por enquanto: o Manuscrito 512.

Antes de falar diretamente em tal documento que está na Biblioteca Nacional no Rio de Janeiro, devo recomendar a leitura de um livro que provavelmente em breve chegará às telas de cinema contando com o astro Brad Pitt – por isso, leiam o livro logo, antes que o filme seja lançado: “Z, a cidade perdida: a obsessão mortal do Coronel Fawcett em busca do Eldorado Brasileiro”, do jornalista norte-americano David Grann.





O Coronel britânico Percy Harrison Fawcett, tomado como inspirador do personagem Indiana Jones, embrenhou-se pelo território brasileiro em busca do famoso mito do “Eldorado”, uma cidade extraordinária perdida em algum lugar da Amazônia. Fawcett acreditava que tal construção poderia estar em território brasileiro graças a relatos de exploradores espanhóis e portugueses quando chegaram à América e também a relatos de índios que confirmariam a existência de tal paraíso, além de uma estatueta pré-colombiana encontrada em solo tupiniquim – um presente dado pelo escritor H. R. Haggard, autor de “As minas do Rei Salomão”. Aliás, gostou de “Jurassic Park” do Spielberg? Saiba que foi inspirado, em parte, no livro de Conan Doyle, “O Mundo Perdido” e muitas paisagens descritas nesta obra de autoria do “pai” de Sherlock Holmes nasceram por conta das conversas entre Doyle e Fawcett.

O Coronel Fawcett, experiente explorador, desapareceu sem deixar vestígios em 1925, próximo à Serra do Roncador, no Mato Grosso e nunca foi encontrado. Desde então inúmeras expedições foram realizadas para descobrir o que aconteceu com o coronel britânico – e muitos, igualmente a Fawcett, também jamais retornaram. Diversas teorias surgiram, embora provavelmente ele e sua pequena expedição tenham sido mortos por índios. (suyás ou xavantes)  Recomendo entusiasticamente a leitura do livro de Hermes Leal, “O enigma do Cel. Fawcett, o Verdadeiro Indiana Jones”, que é tão bom quanto o livro de Grann. (embora o brasileiro esteja processando o jornalista americano por suposto plágio. Na verdade creio que a obra de Leal seja em alguns pontos superior como biografia em relação ao livro do jornalista norte-americano, que tem como vantagem ter sido escrito em 2005, quando recentes descobertas arqueológicas podem confirmar se Fawcett estaria na pista certa)

Agora, voltemos ao manuscrito 512. Antes do Coronel concentrar suas buscas pela mitológica “Z” - como ele chamava o “Eldorado” que já havia despertado o interesse de centenas de exploradores, dentre eles Cabeza de Vaca - pela Serra do Roncador (MT) e Xingu, o britânico andou pelos sertões baianos, mais exatamente na Chapada Diamantina, em busca de outra cidade perdida. Desta vez, no entanto, o explorador britânico contava com uma informação bem mais confiável do que relatos fantásticos: um documento do século XVIII em que um grupo de bandeirantes conta a descoberta de uma cidade antiquíssima, abandonada e em ruínas, mas que demonstrava alto grau de "civilização". Este relato é conhecido como “Manuscrito 512” ou “Documento 512”.

A lenda em torno deste documento remete às famosas minas de prata de Muribeca. Nos primeiros anos do “descobrimento” do Brasil, a caravela de Diogo Álvares naufragou no litoral brasileiro. Álvares foi o único sobrevivente e resgatado pelos Tupinambás acabou se casando com uma índia chamada Paraguaçu - assim passou a viver entre os índios, sendo chamado de "Caramuru". Um sobrinho de Caramuru, também casado com uma índia ( irmã de Paraguaçu, por sinal), ficou conhecido pelos nativos como “Muribeca”. Este encontrou minas de prata, ouro e diversas pedras preciosas que se tornaram motivo de cobiça na Europa. A localização das minas nunca ficou clara, mas acredita-se que estariam localizadas na Bahia, já que foi onde Álvares e mais tarde Muribeca passaram a viver no Brasil.

Exatamente por isso os bandeirantes que encontraram as estranhas construções desbravando o sertão baiano acreditavam estarem também próximos às lendárias minas de prata de Muribeca. O documento 512 procura, inclusive, detalhar a região onde foram encontradas as ruínas:

“Gastamos boas três horas na subida (...) e no cume do monte fizemos alto, do qual estendendo a vista, vimos em um campo raso maiores demonstrações para a nossa admiração. Divisamos cousa de légua e meia uma povoação grande, persuadindo-nos pelo dilatado da figura ser alguma cidade da corte do Brasil.(...) Vieram confirmando o referido depoimento de não haver povo, e assim nos determinamos todos a entrar com armas por esta povoação (...) cuja entrada é por três arcos de grande altura, o do meio é maior e os dois dos lados são mais pequenos; sobre o grande e principal divisamos letras que se não puderam copiar pela grande altura, sendo este um dos signaes evidentes das povoações. (...) Um nosso companheiro chamado João Antonio achou em as ruínas de uma casa um dinheiro de ouro, figura espherica, maior que as nossas moedas de seis mil e quatrocentos. (...) Estas notícias mando a Vm. deste sertão da Bahia e dos rios Paraoaçú, Uná, assentando não darmos parte à pessoa alguma, porque julgamos se despovoarão villas e arraiaes; mas eu a Vm. a dou das minas que temos descoberto, lembrado do muito que vos devo”. (1)
Como se lê, os exploradores não encontraram prata, mas apenas uma moeda de ouro; desses exploradores não mais se ouviu falar, mas o relato manuscrito está conservado na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Algumas expedições foram feitas para tentar encontrar esta cidade. A mais conhecida foi a chefiada pelo padre Benigno José de Carvalho, entre 1839 e 1842, justamente na região da Chapada Diamantina entre os rios Paraguaçu e Una. O padre afirma ter visto a cidade, mas suas descrições sobre a mesma são um tanto “exageradas”, se é que entendem.

Uma cidade perdida no sertão baiano e que demonstrava um grau de "civilização" superior ao dos índios que eram encontrados na região. O que já seria fascinante ganha contornos apaixonantes com a tese de que tal cidade teria sido uma colônia de refugiados incas que primeiro se estabeleceram na região Norte do Brasil. A moeda de ouro com a efígie de um guerreiro com arco e flecha e as estranhas inscrições encontradas no portal da entrada da cidade levam a crer nessa teoria, embora refutada por muitos arqueólogos e pesquisadores.

E hoje, com tanta tecnologia, satélites, GPS e parte considerável de nossas matas devastadas, como é que tal cidade nunca foi encontrada? Provavelmente as ruínas estejam cobertas pela mata que restou em algum ponto remoto e de difícil acesso da Chapada Diamantina. Ou até já tenha sido encontrada e pouco divulgada.  As nossas matas, grutas e serras ainda escondem segredos que somente agora começam a ser explicados, como as recentes descobertas arqueológicas na Amazônia e na região do Xingu. ( o coronel Fawcett provavelmente estava no caminho certo e encontraria ruínas de uma avançada civilização pré-colombiana no Brasil)

Esta é, sem dúvida, uma história e tanto que nada fica a dever às melhores tramas relatadas em best-sellers literários e blockbusters de Hollywood. E trata-se de uma história pouco conhecida que o cinema se encarregará de divulgar para os brasileiros. Se por um lado é uma coisa muito boa, por outro é uma pena que tal história precise virar um filme estrelado por ator famoso para que seja conhecida e divulgada. Mas é melhor assim do que pouco ou quase nada.

Só espero que durante a divulgação e exibição da película não haja uma “febre de exploradores” querendo se enfiar nas matas do Xingu, na floresta Amazônica ou na Chapada Diamantina atrás de restos mortais do coronel Fawcett, cidades perdidas e tesouros. A história em torno do britânico é realmente fantástica, mas nestas buscas muitas pessoas morreram – desde exploradores experientes a amadores – ou foram até mesmo sequestrados por tribos indígenas. Os mistérios ainda permanecem por lá, em pleno século XXI.

(1) ACQUAVIVA, Marcus Cláudio. Lendas e Tradições das Américas – Arqueologia, etnologia e folclore dos povos latino-americanos. Ed. Hemus.

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domingo, janeiro 24, 2010

Revista Sunshine Edição Verão


O verão é a estação da alegria, das cores, da beleza e do alto astral. E é assim que a edição de Verão da Revista Sunshine se apresenta neste mês.

O idealizador do projeto, Rubens Medeyros, mandou muito bem. A revista está maravilhosa, muito bem editada, colorida e traz como princesa e destaque a Natália Valarini, em um ensaio que deixaria Lewis Carrol bastante satisfeito.

A revista ainda traz poesias, ilustrações, textos incríveis, só gente boa escrevendo, desenhando e fotografando. Claro que a única nota dissonante é este blogueiro que vos escreve, colaborando com um texto sem graça e duas charges bem chinfrins. Novamente agradeço ao Rubens pela oportunidade.

Então fica o convite: baixem a revista e se deliciem. Além do conteúdo e da beleza, a navegação está bastante funcional, simples e direta. Vale muito a pena conferir.

Para baixar a revista basta clicar na imagem no inicio deste post ou ir direto ao endereço da Sunshine: www.revistasunshine.com.br

E boa leitura!

quarta-feira, janeiro 20, 2010

Um bate-papo do outro mundo!


NOTA: Para comodidade de nossos (raros) leitores, o diálogo extra-terreno já está traduzido do Plutoniano para a língua Portuguesa, com alguns termos adaptados ao nosso idioma.

- Como vão as coisas no sistema Zol-Arh, vigilante?
- Tudo normal, senhor. A estrela e os demais planetas do sistema não apresentam alterações, com exceção do planetinha azul Teh-Rah, senhor.
- Ah, o planeta Teh-Rah já é um velho problemático, vigilante. É um planeta muito instável por causa de seus habitantes. Bem, continue com o seu trabalho.
- Senhor, com o devido respeito...na academia aprendemos que os habitantes do planeta Teh-Rar são muito perigosos. Mas não consigo compreender o porquê, senhor. Eles produzem até umas coisas agradáveis, como uns sons que eles chamam de “Muzi-K” e confesso, senhor, até gosto de ouvir alguns sons como o Pagoh-Dhi e o Fan-Ky.
- Vigilante, como você é jovem e novo em sua função, vou te explicar. De fato, os chamados terráqueos são criaturas perigosas. Tem um potencial incrível tanto para a criação como para a destruição. Eles não são como nós, Plutonianos, que desenvolvemos uma alta sensibilidade e entendemos e respeitamos o equilíbrio do planeta e do universo.
- Como assim, senhor?
- Você gostou dos sons produzidos pelos terráqueos, não? Eles tem a capacidade de criar coisas belíssimas como as chamadas Muzi-Kas, mas recomendo que sintonize outra estação de rádio-satélite, meu caro vigilante, pois eles possuem vários estilos de sons muito mais bonitos e inteligentes do que o Pagoh-Dhi e o Fan-Ky. Além da Muzi-Ka, eles possuem alguns dons que poucas criaturas no Universo podem se orgulhar: a chamada Ar-Teh. Se bem me lembro apenas os Titânicos, Zeuzianos e Aasgaordianos possuem essa capacidade de criar belas obras de Ar-Teh. Os terráqueos não sabem, mas cada vez que produzem obras belas, sensíveis e simbólicas acabam se aproximando dos deuses-criadores do universo! Além disso, os terráqueos desenvolveram um sentimento que são poucas as criaturas que surgiram há apenas 150 mil ziclos* conseguiram desenvolver: o Ah-Mor! E o Ah-Mor muitas vezes é o combustível para as belíssimas obras de Ar-Teh que eles produzem!
- Senhor, como criaturas assim podem representar algum perigo, então? E ainda mais tão distantes de nós, eles nem sabem que existimos...
- Lembre-se do que eu falei, vigilante: estes seres possuem potencial tanto para a criação como para a destruição. E eles desenvolveram a coisa mais mortífera já vista pelo universo: a Gueh-Rah!
- O que é Gueh-Rah?
- É um tanto complicado de explicar, vigilante, mas funciona assim: os terráqueos constituem-se em apenas uma raça, chamada Hu-Mana. Mas há variantes: alguns mais claros, outros mais escuros, alguns são chamados “Rih-Kos” e outros “Poh-Brez”. “Rih-Kos” são aqueles que tem valores materiais e, acredite, donos de pedaços do planeta!
- Sério? Como isso é possível?
- Pois é, esses terráqueos são estranhos. Pois bem, os “Rih-Kos” exploram os “Po-Brez”, que já tem muito pouco e às vezes os “Rih-Kos” querem tomar até esse pouco. Então fazem à força. E para isso usam a Gueh-Rah: criam armas poderosas para envenenar os recursos naturais, invadir, dominar e, principalmente, destruir os seus semelhantes!
- Eles destroem seres da mesma raça? Que absurdo! Nunca ouvi falar de uma civilização que faça isso no universo!
- Além disso eles destroem também os frágeis sistemas naturais do planeta, o que vem causando inúmeras tragédias ambientais, matando milhares de terráqueos todos os dias. E destroem porque os “Rih-Kos” querem mais e mais valores materiais e os “Poh-Brez” querem sobreviver. E com isso muitos terráqueos passam fome, sede e necessidades. Acredite, vigilante, é um planeta difícil, são seres perigosos, apesar de ainda haver terráqueos generosos e conscientes por lá.
- Que absurdo! Nós, como seres superiores, deveríamos alertá-los, senhor!
- E tentamos, vigilante. Há dois mil ziclos enviamos um de nossos sábios e ele tentou transmitir mensagens de amor ao semelhante e desapego aos valores materiais.
- E o que aconteceu?
- Ah, os terráqueos primeiro tentaram matar nosso sábio e ele voltou para nosso planeta. Alguns que o seguiam deram inicio a um culto. Hoje, o nosso sábio ainda é lembrado, mas é explorado por alguns terráqueos inescrupulosos que se transformam em “Mili-Oh-Nah-Rioz” ( algo muito parecido com os “Rih-Kos”) e sua mensagem, abandonada. Poucos ainda a seguem, na verdade.
- Mas será que se ele voltasse...
- Esqueça, ele já disse que não bota mais os pés lá no planeta Teh-Rah! Agora, vigilante, volte ao seu trabalho.
- Só mais uma coisa, senhor: eu já compreendi que os terráqueos são perigosos, mas será que um dia eles chegarão aqui, em nosso planeta, e destruirão toda a nossa civilização?
- É difícil, vigilante. Eles estão evoluindo: já fizeram pequenas viagens para o pequeno satélite conhecido como Lu-Ah. E enviam pequeninas naves não tripuladas pelo universo para descobrir outros planetas com condições para o desenvolvimento da vida, além de seres inteligentes como nós. Uma dessas naves chegou próximo ao nosso sistema e eu mesmo a desviei, impedindo que nos descobrissem.
- Perdão, senhor, mas para onde desviou essa pequena nave?
- Para o planeta Ha-Des vigilante!
- Mas o planeta Ha-Des é terrível, senhor. É habitado por seres mesquinhos, invejosos e que gostam de brigar com todo mundo! Além disso faz um calor daqueles...!
- Então, vigilante, é bem adequado aos terráqueos, não? Agora não tire os olhos dessa tela e principalmente deste planetinha azul. Vou tirar um cochilo. E pare de ouvir esses sons como Pagoh-Dhi e o Fan-Ky. Podem afetar suas ondas cerebrais. Até mais, vigilante.

*ziclos = anos

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sexta-feira, janeiro 15, 2010

O Haiti e a condição humana


A cena(1) que vocês veem acima é impressionante. São centenas de corpos empilhados, amontoados, jogados para todos os lados em Porto Príncipe, capital do Haiti, que já era um país devastado pela miséria ( 80% da população já vivia abaixo da linha de pobreza), golpes políticos, instabilidade e corrupção desenfreada. Imagens assim só comparáveis àquelas que mostram os judeus nos campos de concentração durante a II Guerra Mundial.

Na verdade, todas as notícias que chegam do Haiti impressionam. O terremoto, ocorrido por uma falha natural entre duas placas tectônicas ( e aqui eu me recordo da minha professora de Geografia na 5ª série, profa. Lílian, quando ouvi falar da primeira vez sobre tais placas e de como elas estão em constante movimento) foi de uma intensidade tão grande que equivale à detonação de uma carga de meia tonelada de dinamite! A devastação foi quase total. Nenhuma cidade, nenhum prédio, nenhuma construção teria condições de resistir a um tremor de tal magnitude – tentem imaginar algo parecido no Brasil, em qualquer capital onde construções irregulares em morros e encostas são abundantes.

Apenas para se ter ideia do que é o Haiti, recorro a Mike Davis em seu “Planeta Favela”, que traz o depoimento de uma voluntária que trabalha em uma ONG no país.

Agora tudo está à venda. A mulher costumava nos receber com hospitalidade, servir café, dividir tudo o que tinha em casa. (...) Mas esses atos de solidariedade estão desaparecendo com o crescimento da pobreza. Agora, quando a gente chega nalgum lugar, ou a mulher se oferece para vender-lhe uma xícara de café ou não há café. A tradição de doação mútua que nos permitia ajudar uns aos outros e sobreviver, tudo isso está se perdendo.” (2)

Isso em 2001. Imaginem agora, em 2010, com falta absoluta de comida, água, mantimentos e um cenário sem perspectivas.

A menos que alguém esteja mais preocupado com o BBB10 ou com as contratações do seu time para a temporada 2010, é impossível não refletir sobre a terrível tragédia no Haiti. Como nós, seres humanos, somos frágeis e arrogantes. Catástrofes naturais como Tsunamis que acontecem no Sudeste Asiático, deslizamentos de terra que são manchetes quase diárias no Brasil e agora esse terremoto no Haiti mostram que somos muito pequenos diante um planeta em constante agressão. Claro, terremotos, furacões e maremotos são fenômenos comuns, mas a questão toda é que não estamos cuidando nem dos recursos naturais e tampouco de nós mesmos, seres humanos.

É inadmissível que em um período histórico de notável avanço tecnológico ainda tenhamos mais de 1 bilhão de pessoas passando fome, milhares de pessoas sem moradia, sem tratamento médico básico, sem direito à educação. É inadmissível que tudo tenha que girar em torno do lucro ( o famoso “mercado”), que ainda haja guerras e mortes por questões religiosas ( estupidez tão grande quanto o fanatismo, como o de um pastor norte-americano que atribuiu a tragédia no Haiti a um “pacto com o diabo”), que ainda haja tanta agressão ao meio ambiente e a ingenuidade em se acreditar que a natureza pode ser controlada.

Todos querem ajudar o Haiti. Da admirável Zilda Arns - que morreu enquanto se preparava para uma palestra que certamente iria ajudar bastante os haitianos - ao casal Brad Pitt e Angelina Jolie, todos ajudarão de alguma forma para amenizar o sofrimento daquele povo e a reconstruir o país. Mas fica o alerta: é preciso reconstruir também consciências. O atual modelo de consumo e exploração no planeta não se sustenta e tampouco o modo como estamos tratando uns aos outros. É preciso um novo conceito do que é realmente “progresso”. Recorro novamente ao professor Giovanni Sartori em seu livro "Homo Videns": “Aceitamos como certo o fato de que qualquer progresso tecnológico é, por definição, um progresso; isso, porém, nem sempre é verdade, dependendo do conceito que temos a respeito do progresso”.

NOTAS: 1) Imagem do portal G1. Não há como ter uma charge, ao menos não consegui pensar em nada; 2) antes que alguém questione, evidente que isso não é um trabalho acadêmico, por isso às favas as normas da ABNT. Citei autores que podem ser encontrados nos links relacionados.

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segunda-feira, janeiro 11, 2010

Investigar e conhecer a história não é frescura


Neste período do ano Salvador se torna uma cidade muito interessante. Verão, céu azul e limpo, algumas pancadinhas de chuva rápida para refrescar, calor, festas para todos os cantos (e desencantos), garotas de biquíni e uma paisagem natural que, felizmente, o homem ainda não conseguiu destruir por completo, embora seu esforço para tal objetivo seja até comovente – um dia chegaremos lá.

O problema com o calor é que ele parece derreter alguns cérebros que já não tem os miolos assim tão consistentes – sei que o cérebro é composto quase por 80% de água, mas em certas cabecinhas eu arrisco a dizer que é 100% água, afogando todos os neurônios que um dia passaram por ali.

Como a estação do ano é propícia para a prática de exercícios físicos, faço minhas caminhadas matinais pela (mal cuidada e mal estruturada) orla de Salvador e ao final do exercício é hora de parar num quiosque e tomar uma água de coco bem gelada e apreciar os biquín...digo, a paisagem, a paisagem. Como se vê, é uma vida muito dura essa.

E num desses finais de semana, tomando minha água de coco e admirando a paisagem (isso!) escutei uma conversa bastante interessante entre três distintos cidadãos – e antes que alguém me chame de xereta ou curioso, saibam que “conversa em voz baixa” e “discrição” não combinam em nada com o típico soteropolitano.

Um dos sujeitos dizia o seguinte: “Agora ficam aí com essa frescura toda de investigar quem fez o que na ditadura, quem torturou, quem censurou, essas coisas; isso é coisa do passado, já passou, tem que olhar pro futuro, isso é coisa que mantém o país atrasado!”

Os outros dois cidadãos concordaram e eu, agora sim movido pela curiosidade, decidi prestar atenção aos sujeitos: eu diria que eram até bem sucedidos em suas profissões, com nível superior, idade acima dos 40 e integrantes da classe média, pelo o que se constatava a partir dos tênis e relógios utilizados. Elementar, caro blogueiro!

É uma pena que pessoas supostamente bem esclarecidas tenham esse tipo pensamento. Apurar os crimes e abusos cometidos durante o período da ditadura militar no Brasil não é frescura e nem bobagem: trata-se, além do direito à justiça, de conhecer em detalhes como situações que envolveram torturas, censuras, perseguições políticas, sequestros, desaparecimentos, estupros e mortes aconteceram e mais: como chegou-se àquele ponto de terror em que o país passou por 20 anos. E a discussão sobre a alteração de certos pontos sobre a Lei de Anistia incluída no Programa Nacional dos Direitos Humanos já está rolando e é bom ficar atento para que novas injustiças não sejam cometidas.

Conhecer o passado é fundamental para se planejar o futuro. É preciso conhecer as causas e consequências de um fato histórico para que os mesmos erros sejam evitados futuramente. E isso precisa ser feito, obviamente, no presente. Infelizmente neste Brasil varonil o estudo da história é sempre recebido com gracejos do tipo “quem vive de passado é museu” ou “isso é velho, do tempo da minha vó, eu quero é novidade”. E se no mundo virtual a notícia de ontem já é encarada como “old”, o que dirá se um fato histórico recente como a ditadura.

Lá no quiosque os três cidadãos continuavam discutindo outras ideias para lá de inteligentes - e isso porque estavam tomando água de coco, imagino aqueles caras com umas a mais na cabeça- e resolvi sair dali antes que eu me metesse na conversa e fosse acusado de comunista ou esquerdista xiita radical. Preferi prestar atenção ao belo cenário composto pelo céu azul, as palmeiras, o mar e algumas belíssimas paisagens ( você entende) que passavam por ali, embelezando mais ainda a manhã de verão. Saúde! ( e que saúde, minha nossa...)

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domingo, janeiro 03, 2010

Boris e o meio ambiente

Ano novo, vida nova, problemas de sempre. E quase tão “tradicional” quanto vestir de branco na virada de ano, mais uma tragédia acontece no Brasil, desta vez na região de Angra dos Reis, RJ, onde deslizamentos de terra causados pelas fortes chuvas já mataram mais de 40 pessoas.

Infelizmente tais cenas vem se tornando cada vez mais comuns: as chuvas castigam as cidades que sofrem com inundações, deslizamentos e isolamento com queda de energia e estradas interditadas.

Talvez a ministra Dilma Rousseff tivesse mesmo razão, a partir de um certo ponto de vista ( frio e tecnocrata), ao cometer o “ato falho” em referir-se ao meio ambiente como “ameaça”. As cidades crescem esporadicamente, sem planejamento e sem respeitar os limites que a natureza ( vulgo "ameaça") impõe. Apenas para se ter uma ideia das alterações climáticas no planeta, o volume de chuvas em uma semana no Rio ultrapassou a média esperada para um mês inteiro, no caso Dezembro de 2009. Se alguém quiser reclamar com São Pedro, fique à vontade, mas não creio que seja o caso.

Enquanto ingenuamente esperávamos que os “líderes mundiais” apresentassem soluções viáveis para o meio ambiente no fracasso de Copenhagen, continuamos detonando com tudo. Vivemos em uma sociedade voltada para o consumo até mesmo do que não precisamos ( e viva a “mão invisível do mercado”!) e se ao menos fizéssemos coisas simples como não jogar o lixo nas ruas e praias, já seria uma grande ajuda ao meio ambiente.

Bastava dar uma voltinha em algumas praias em Salvador logo pela manhã do primeiro dia de 2010: latas e garrafas de cerveja jogadas pela areia, embalagens pet no vaivém das ondas, saquinhos plásticos voando pela paisagem. E não apenas em Salvador: em Copacabana foram 522 toneladas de lixo. Sobrou para os garis.

Garis que o sr. Boris Casoy, bastião da moralidade e ética no jornalismo tupiniquim, afirmou que são os “mais baixos da escala de trabalho” e, por isso mesmo, não deveriam desejar felicidades em 2010. Patético posicionamento do jornalista ( e do cidadão Boris) mas a afirmação causou revolta em muitas pessoas que se surpreenderam com tamanha “insensibilidade e desprezo” do famoso âncora do telejornalismo.

Sem querer defender o suposto ex-integrante do CCC ( Comando de Caça aos Comunistas), longe disso, mas o que o sr. Casoy afirmou apenas reflete o quanto vivemos em um verdadeiro inferno preconceituoso que é o Brasil. O fato de ser o “Boris Casoy, o famoso”, causou toda a indignação, mas no dia a dia é muito comum observarmos profissionais como garis, diaristas, jardineiros, porteiros, lavadeiras serem humilhados por palavras ou por gestos por muitos patrões que pertencem a uma nojenta “classe média alta”. Aliás, nem precisa pertencer à elite: basta a mera e suspeitíssima condição de “superioridade social” para dar inicio a um festival de abusos.

Quem observou isso muito bem foi o psicólogo Fernando Braga da Costa, que se vestiu como gari e conviveu com eles durante 8 anos para concluir a tese de mestrado sobre “invisibilidade pública”. Neste ponto, o cidadão Boris Casoy não é diferente de muita gente que trata garis, porteiros, diaristas e lavadeiras como seres invisíveis, do mais baixo estrato social.

E assim 2010 começou com mais do mesmo: o meio ambiente apenas reagindo às agressões causadas pelo ser humano ( olha a “ameça”aí, sra. Ministra) e preconceitos velados que vem à tona por “pessoa famosa e bastião da moralidade” mas que estão entranhados em nosso dia a dia até com certa passividade. Com tanta sujeira,não há gari que dê jeito. Isso é uma vergonha!

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