O título é bem chamativo e evoca até um certo “ar de mistério”. E é justamente disso que se trata esse texto – que será longo, portanto se você não tem paciência para ler, procure algum blog de vídeos engraçados ou piadas curtas.Desde criança sempre gostei muito de história geral e de várias lendas e mistérios que envolviam os egípcios, incas, maias, profecias, cavaleiros templários e tantos outros assuntos com um “pezinho” no sobrenatural e na teoria conspiratória, isso sem falar no folclore brasileiro.
Enquanto no mundo inteiro teorias e histórias como lidas em “O Código Da Vinci” e vistas em séries como “Arquivo X” - que não são nada além de “colchas de retalhos” de teorias conspiratórias, lendas e mistérios da história recheadas com enredos instigantes – fazem sucesso, aqui no Brasil temos um caso bastante interessante e que é pouco divulgado, ao menos por enquanto: o Manuscrito 512.
Antes de falar diretamente em tal documento que está na Biblioteca Nacional no Rio de Janeiro, devo recomendar a leitura de um livro que provavelmente em breve chegará às telas de cinema contando com o “astro” Brad Pitt – por isso, leiam o livro logo, antes que o filme seja lançado: “Z, a cidade perdida: a obsessão mortal do Coronel Fawcett em busca do Eldorado Brasileiro”, do jornalista norte-americano David Grann.
O Coronel britânico Percy Harrison Fawcett, inspirador do personagem Indiana Jones, embrenhou-se pelo território brasileiro em busca do famoso mito do “Eldorado”, uma cidade extraordinária perdida em algum lugar da Amazônia. Fawcett acreditava que tal construção poderia estar em território brasileiro graças a relatos de exploradores espanhóis e portugueses quando chegaram à América, a relatos de índios que confirmariam a existência de tal paraíso e a uma estatueta pré-colombiana encontrada em solo tupiniquim – um presente dado pelo escritor H. R. Haggard, que escreveu “As minas do Rei Salomão”. Aliás, gostou de “Jurassic Park” do Spielberg? Saiba que foi inspirado, em parte, no livro de Conan Doyle, “O Mundo Perdido” e muitas paisagens descritas neste obra escrita pelo “pai” de Sherlock Holmes nasceram por conta das conversas entre Doyle e Fawcett.O Coronel Fawcett, experiente explorador, desapareceu sem deixar vestígios em 1925, próximo à Serra do Roncador, no Mato Grosso e nunca foi encontrado. Desde então inúmeras expedições foram realizadas para descobrir o que aconteceu com o coronel britânico – e muitos, igualmente a Fawcett, também jamais retornaram – e também várias teorias surgiram, embora provavelmente ele e sua pequena expedição tenham sido mortos por índios. ( provavelmente os suyás ou xavantes) Recomendo entusiasticamente a leitura do livro de Hermes Leal, “O enigma do Cel. Fawcett, o Verdadeiro Indiana Jones”, que é tão bom quanto o livro de Grann. (embora o brasileiro esteja processando o jornalista americano por suposto plágio. Na verdade creio que o livro de Leal seja em alguns pontos bem superior como biografia em relação ao livro do jornalista norte-americano, que tem como vantagem ter sido escrito em 2005, quando recentes descobertas arqueológicas podem confimar se Fawcett estaria na pista certa)
Agora, voltemos ao manuscrito 512. Antes do Coronel concentrar suas buscas pela mitológica “Z” - como ele chamava o “Eldorado” que já havia despertado o interesse de centenas de exploradores, dentre eles Cabeza de Vaca - pela Serra do Roncador (MT) e Xingu, o britânico andou pelos sertões baianos, mais exatamente na Chapada Diamantina, em busca de outra cidade perdida. Desta vez, no entanto, o explorador britânico contava com uma informação bem mais confiável do que relatos fantásticos de índios: um documento do século XVIII em que um grupo de bandeirantes conta a descoberta de uma cidade antiquíssima, abandonada e em ruínas, mas que demonstrava alto grau de "civilização". Este relato é conhecido como “Manuscrito 512” ou “Documento 512”.A lenda em torno deste documento remete às famosas minas de prata de Muribeca. Nos primeiros anos do “descobrimento” do Brasil, a caravela de Diogo Álvares naufragou no litoral brasileiro. Álvares foi o único sobrevivente e resgatado pelos Tupinambás acabou se casando com uma índia chamada Paraguaçu e passou a viver entre os índios, sendo chamado de "Caramuru". Um sobrinho de Caramuru, também casado com uma índia ( irmã de Paraguaçu, por sinal), ficou conhecido pelos nativos como “Muribeca”. Este encontrou minas de prata, ouro e diversas pedras preciosas que se tornaram motivo de cobiça na Europa. A localização das minas nunca ficou clara, mas acredita-se que estariam localizadas na Bahia, já que foi onde Álvares e mais tarde Muribeca passaram a viver no Brasil.
Exatamente por isso os bandeirantes que encontraram as estranhas construções desbravando o sertão baiano acreditavam estarem também próximos às lendárias minas de prata de Muribeca. O documento 512 procura, inclusive, detalhar a região onde foram encontradas as ruínas:
“Gastamos boas três horas na subida (...) e no cume do monte fizemos alto, do qual estendendo a vista, vimos em um campo raso maiores demonstrações para a nossa admiração. Divisamos cousa de légua e meia uma povoação grande, persuadindo-nos pelo dilatado da figura ser alguma cidade da corte do Brasil.(...) Vieram confirmando o referido depoimento de não haver povo, e assim nos determinamos todos a entrar com armas por esta povoação (...) cuja entrada é por três arcos de grande altura, o do meio é maior e os dois dos lados são mais pequenos; sobre o grande e principal divisamos letras que se não puderam copiar pela grande altura, sendo este um dos signaes evidentes das povoações. (...) Um nosso companheiro chamado João Antonio achou em as ruínas de uma casa um dinheiro de ouro, figura espherica, maior que as nossas moedas de seis mil e quatrocentos. (...) Estas notícias mando a Vm. deste sertão da Bahia e dos rios Paraoaçú, Uná, assentando não darmos parte à pessoa alguma, porque julgamos se despovoarão villas e arraiaes; mas eu a Vm. a dou das minas que temos descoberto, lembrado do muito que vos devo”. (1)
Como se lê, os exploradores não encontraram prata, mas apenas uma moeda de ouro; desses exploradores não mais se ouviu falar, mas o relato manuscrito está conservado na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Algumas expedições foram feitas para tentar encontrar esta cidade. A mais conhecida foi a chefiada pelo padre Benigno José de Carvalho, entre 1839 e 1842, justamente na região da Chapada Diamantina entre os rios Paraguaçu e Una. O padre afirma ter visto a cidade, mas suas descrições sobre a mesma são um tanto “turbinadas”, se é que entendem.Uma cidade perdida no sertão baiano e que demonstrava um grau de "civilização" superior ao dos índios que eram encontrados na região. O que já seria fascinante ganha contornos apaixonantes com a tese de que tal cidade teria sido uma colônia de refugiados incas que primeiro se estabeleceram na região Norte do Brasil. A moeda de ouro com a efígie de um guerreiro com arco e flecha e as estranhas inscrições encontradas no portal da entrada da cidade levam a crer nessa teoria, embora refutada por muitos arqueólogos e pesquisadores.
E hoje, com tanta tecnologia, satélites, GPS e parte considerável de nossas matas devastadas, como é que tal cidade nunca foi encontrada? Provavelmente as ruínas estejam cobertas pela mata que restou em algum ponto remoto e de difícil acesso da Chapada Diamantina. Ou até já tenha sido encontrada e pouco divulgada. As nossas matas, grutas e serras ainda escondem segredos que somente agora começam a ser explicados, como as recentes descobertas arqueológicas na Amazônia e na região do Xingu. ( o coronel Fawcett provavelmente estava no caminho certo e encontraria ruínas de uma avançada civilização pré-colombiana no Brasil)
É, sem dúvida, uma história e tanto, que nada fica a dever às tramas relatadas em best-sellers e blockbusters de Hollywood. E uma história pouco conhecida que o cinema se encarregará de divulgar para os brasileiros. Se por um lado é uma coisa muito boa, por outro é uma pena que tal história precise virar um filme estrelado por ator famoso para que seja conhecida. Mas é melhor assim do que pouco ou quase nada.
Só espero que durante a divulgação e exibição da película não haja uma “febre de exploradores” querendo se enfiar nas matas do Xingu, na floresta Amazônica ou na Chapada Diamantina atrás de restos mortais do coronel Fawcett, cidades perdidas e tesouros. A história em torno do britânico é realmente fantástica, mas nestas buscas muitas pessoas morreram – desde exploradores experientes a amadores – ou foram até mesmo sequestrados por tribos indígenas. Os mistérios ainda permanecem por lá, em pleno século XXI.
(1) ACQUAVIVA, Marcus Cláudio. Lendas e Tradições das Américas – Arqueologia, etnologia e folclore dos povos latino-americanos. Ed. Hemus.
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