quarta-feira, janeiro 27, 2010

O Manuscrito 512 e a cidade perdida na Bahia

O título é bem chamativo e evoca até um certo “ar de mistério”. E é justamente disso que se trata esse texto: uma história misteriosa e fascinante!

Desde criança sempre gostei muito de história geral e de várias lendas e mistérios que envolviam os egípcios, incas, maias, profecias, cavaleiros templários e tantos outros assuntos com um “pezinho” no sobrenatural e na teoria conspiratória, isso sem falar no folclore brasileiro.

Enquanto no mundo inteiro teorias e histórias como lidas em “O Código Da Vinci” e vistas em séries como “Arquivo X” (que em muitos casos misturam teorias conspiratórias, lendas e mistérios da história recheadas com enredos instigantes) fazem sucesso, aqui no Brasil temos um caso bastante interessante e que é pouco divulgado, ao menos por enquanto: o Manuscrito 512.

Antes de falar diretamente em tal documento que está na Biblioteca Nacional no Rio de Janeiro, devo recomendar a leitura de um livro que provavelmente em breve chegará às telas de cinema contando com o astro Brad Pitt – por isso, leiam o livro logo, antes que o filme seja lançado: “Z, a cidade perdida: a obsessão mortal do Coronel Fawcett em busca do Eldorado Brasileiro”, do jornalista norte-americano David Grann.





O Coronel britânico Percy Harrison Fawcett, tomado como inspirador do personagem Indiana Jones, embrenhou-se pelo território brasileiro em busca do famoso mito do “Eldorado”, uma cidade extraordinária perdida em algum lugar da Amazônia. Fawcett acreditava que tal construção poderia estar em território brasileiro graças a relatos de exploradores espanhóis e portugueses quando chegaram à América e também a relatos de índios que confirmariam a existência de tal paraíso, além de uma estatueta pré-colombiana encontrada em solo tupiniquim – um presente dado pelo escritor H. R. Haggard, autor de “As minas do Rei Salomão”. Aliás, gostou de “Jurassic Park” do Spielberg? Saiba que foi inspirado, em parte, no livro de Conan Doyle, “O Mundo Perdido” e muitas paisagens descritas nesta obra de autoria do “pai” de Sherlock Holmes nasceram por conta das conversas entre Doyle e Fawcett.

O Coronel Fawcett, experiente explorador, desapareceu sem deixar vestígios em 1925, próximo à Serra do Roncador, no Mato Grosso e nunca foi encontrado. Desde então inúmeras expedições foram realizadas para descobrir o que aconteceu com o coronel britânico – e muitos, igualmente a Fawcett, também jamais retornaram. Diversas teorias surgiram, embora provavelmente ele e sua pequena expedição tenham sido mortos por índios. (suyás ou xavantes)  Recomendo entusiasticamente a leitura do livro de Hermes Leal, “O enigma do Cel. Fawcett, o Verdadeiro Indiana Jones”, que é tão bom quanto o livro de Grann. (embora o brasileiro esteja processando o jornalista americano por suposto plágio. Na verdade creio que a obra de Leal seja em alguns pontos superior como biografia em relação ao livro do jornalista norte-americano, que tem como vantagem ter sido escrito em 2005, quando recentes descobertas arqueológicas podem confirmar se Fawcett estaria na pista certa)

Agora, voltemos ao manuscrito 512. Antes do Coronel concentrar suas buscas pela mitológica “Z” - como ele chamava o “Eldorado” que já havia despertado o interesse de centenas de exploradores, dentre eles Cabeza de Vaca - pela Serra do Roncador (MT) e Xingu, o britânico andou pelos sertões baianos, mais exatamente na Chapada Diamantina, em busca de outra cidade perdida. Desta vez, no entanto, o explorador britânico contava com uma informação bem mais confiável do que relatos fantásticos: um documento do século XVIII em que um grupo de bandeirantes conta a descoberta de uma cidade antiquíssima, abandonada e em ruínas, mas que demonstrava alto grau de "civilização". Este relato é conhecido como “Manuscrito 512” ou “Documento 512”.

A lenda em torno deste documento remete às famosas minas de prata de Muribeca. Nos primeiros anos do “descobrimento” do Brasil, a caravela de Diogo Álvares naufragou no litoral brasileiro. Álvares foi o único sobrevivente e resgatado pelos Tupinambás acabou se casando com uma índia chamada Paraguaçu - assim passou a viver entre os índios, sendo chamado de "Caramuru". Um sobrinho de Caramuru, também casado com uma índia ( irmã de Paraguaçu, por sinal), ficou conhecido pelos nativos como “Muribeca”. Este encontrou minas de prata, ouro e diversas pedras preciosas que se tornaram motivo de cobiça na Europa. A localização das minas nunca ficou clara, mas acredita-se que estariam localizadas na Bahia, já que foi onde Álvares e mais tarde Muribeca passaram a viver no Brasil.

Exatamente por isso os bandeirantes que encontraram as estranhas construções desbravando o sertão baiano acreditavam estarem também próximos às lendárias minas de prata de Muribeca. O documento 512 procura, inclusive, detalhar a região onde foram encontradas as ruínas:

“Gastamos boas três horas na subida (...) e no cume do monte fizemos alto, do qual estendendo a vista, vimos em um campo raso maiores demonstrações para a nossa admiração. Divisamos cousa de légua e meia uma povoação grande, persuadindo-nos pelo dilatado da figura ser alguma cidade da corte do Brasil.(...) Vieram confirmando o referido depoimento de não haver povo, e assim nos determinamos todos a entrar com armas por esta povoação (...) cuja entrada é por três arcos de grande altura, o do meio é maior e os dois dos lados são mais pequenos; sobre o grande e principal divisamos letras que se não puderam copiar pela grande altura, sendo este um dos signaes evidentes das povoações. (...) Um nosso companheiro chamado João Antonio achou em as ruínas de uma casa um dinheiro de ouro, figura espherica, maior que as nossas moedas de seis mil e quatrocentos. (...) Estas notícias mando a Vm. deste sertão da Bahia e dos rios Paraoaçú, Uná, assentando não darmos parte à pessoa alguma, porque julgamos se despovoarão villas e arraiaes; mas eu a Vm. a dou das minas que temos descoberto, lembrado do muito que vos devo”. (1)
Como se lê, os exploradores não encontraram prata, mas apenas uma moeda de ouro; desses exploradores não mais se ouviu falar, mas o relato manuscrito está conservado na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Algumas expedições foram feitas para tentar encontrar esta cidade. A mais conhecida foi a chefiada pelo padre Benigno José de Carvalho, entre 1839 e 1842, justamente na região da Chapada Diamantina entre os rios Paraguaçu e Una. O padre afirma ter visto a cidade, mas suas descrições sobre a mesma são um tanto “exageradas”, se é que entendem.

Uma cidade perdida no sertão baiano e que demonstrava um grau de "civilização" superior ao dos índios que eram encontrados na região. O que já seria fascinante ganha contornos apaixonantes com a tese de que tal cidade teria sido uma colônia de refugiados incas que primeiro se estabeleceram na região Norte do Brasil. A moeda de ouro com a efígie de um guerreiro com arco e flecha e as estranhas inscrições encontradas no portal da entrada da cidade levam a crer nessa teoria, embora refutada por muitos arqueólogos e pesquisadores.

E hoje, com tanta tecnologia, satélites, GPS e parte considerável de nossas matas devastadas, como é que tal cidade nunca foi encontrada? Provavelmente as ruínas estejam cobertas pela mata que restou em algum ponto remoto e de difícil acesso da Chapada Diamantina. Ou até já tenha sido encontrada e pouco divulgada.  As nossas matas, grutas e serras ainda escondem segredos que somente agora começam a ser explicados, como as recentes descobertas arqueológicas na Amazônia e na região do Xingu. ( o coronel Fawcett provavelmente estava no caminho certo e encontraria ruínas de uma avançada civilização pré-colombiana no Brasil)

Esta é, sem dúvida, uma história e tanto que nada fica a dever às melhores tramas relatadas em best-sellers literários e blockbusters de Hollywood. E trata-se de uma história pouco conhecida que o cinema se encarregará de divulgar para os brasileiros. Se por um lado é uma coisa muito boa, por outro é uma pena que tal história precise virar um filme estrelado por ator famoso para que seja conhecida e divulgada. Mas é melhor assim do que pouco ou quase nada.

Só espero que durante a divulgação e exibição da película não haja uma “febre de exploradores” querendo se enfiar nas matas do Xingu, na floresta Amazônica ou na Chapada Diamantina atrás de restos mortais do coronel Fawcett, cidades perdidas e tesouros. A história em torno do britânico é realmente fantástica, mas nestas buscas muitas pessoas morreram – desde exploradores experientes a amadores – ou foram até mesmo sequestrados por tribos indígenas. Os mistérios ainda permanecem por lá, em pleno século XXI.

(1) ACQUAVIVA, Marcus Cláudio. Lendas e Tradições das Américas – Arqueologia, etnologia e folclore dos povos latino-americanos. Ed. Hemus.

Explore o twitter: www.twitter.com/jaimeguimaraess

16 comentários:

  1. Olá, Estou montando uma comunidade nova para divulgar o maior número
    possivel de blogueiros no orkut, estou te convidando:
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    abraços!

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  2. Eae cara!!!

    =D não esquece de amanha pegar seu exemplar do book digital do #lingerieday !!! =D

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  3. Jaime

    Muito interessante essa história e nunca tinha ouvido falar. Não duvido de nada vindo daquela região, pois só de passar por lá dá um frio na espinha e a atmosfera de mistérios é fantástica!
    Não sei se você conhece a Chapada Diamantina. Se não, precisa conhecer. A beleza daquele lugar é de tirar o fôlego, literalmente!
    Vou me encarregar de divulgar essa história entre amigos que conhecem e são da região e para minha irmã que está morando por lá.
    Muito bom você nos trazer essa história.

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  4. Eu ja tinha ouvido falar nessa história!!!

    Bem, levando tudo isso por um lado "humorista" que tal enviarmos uma equipe de expedição para lá, para procurar o britânico doidão?

    Essa equipe seria composta por : Lula, José Serra, Fernando Color, o Arruda e claro, Pelé.

    Assim poderíamos explorar à vontade sem ter medo de perder algo valioso!


    Rs, agora pensando um pouco pro lado sério, pq o brasileiro não tem consciência da própria história?

    Não vou destrinchar essa parte pq eu choveria no molhado.

    Cara! Esse foi um dos melhores (se não o melhor) posts que eu li aqui no Grooeland!!! Agora eu virei fã número 00. ;D

    Ah sim!!! Vamos reformular a seção de humor da Sunshine, conto com o seu talento Jaimão.

    o/ abs.

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  5. Meu grande Jaime, eu como historiador, não poderia perder uma fonte preciosa destas. Vou dar uma confirmada, mas acho que já vi referência a esse coronel na obra de Claude Levi Strauss (que também esteve por aqui no início do sec XX). Me parece que é na obra "Tristes Tròpicos. De qualquer forma é um artigo de grande importância e valor histórico. Eu lhe retorno se encontrar esta passagem. Valeu, como sempre! Abração. Paz e bem.

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  6. OI James, eu não conhecia esta história tão bem, eu sabia só do Diogo Cabral pq tinha assistido ao filme. Se vai ser estreado no cinema, vou preferir assistir ao filme do que os livros que indicou, apesar que acho que ler é bem melhor, todavia vou olhar a história por cima primeiro pra entender melhor seu contexto. Quer dizer que o Fawcett morreu tentando descobrir essa pista de sociedade no interior da Mata Amazônica, que interessante, e foi o que inspirou o personagem Indiana Jones, bem curioso.

    Mandou bem, como sempre!
    Abraço

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  7. Grande Jaime,

    Gostei da matéria, muito instigante. No mesmo molde recetemente vi um documentario produzido lá fora sobre uma cidade que Henry Ford fundou no meio da Amazônia, creio que esta abandonada. Poraqui eu não tinha ouvido falar.... de ambas !!!

    Muito por ter vindo tamar um café comigo, sou sempre grato pela sua visita....

    Valeus..... Abs.

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  8. Nunca tinha ouviso falar nesse hábito. Gostei, amigo.
    Vim dar uma espiada nas novidades e desejar um bom final de semana.
    Beijo grande.

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  9. Uau! Q hist fascinante! Confesso q nunca havia ouvido falar, mas vou procurar esses livros p me inteirar melhor do assunto (antes q vire filme! Rss)

    AI seu moço... Antes eu jah teria perguntado p ele sabe... A muito tempo... N gosto de enrolação.. Ou é ou não é!
    Mas n consigo perguntar p ele, rsss... Mas vc tem razão a dúvida é pior!
    Deixa as chuvas pararem e eu ter oportunidade de estar com ele de novo, pq ultimamente e so tel e msn... =//

    Saudades de vc!!!

    Bjao

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  10. Olá, a amiga Alcione indicou seu blog. Realmente ela tem toda razão: é de ótima qualidade.

    Sobre o tema, muito interessante, eu já ouvi a respeito, mas nunca tive curiosidade de aprofundar.

    Sempre é bom aprender mais, ainda mais se tratando do país em que vivemos.

    Bjs

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  11. Olá grande mestre Veiga, me senti em meio a uma dessas fantásticas aventuras de desbravamento, e inclusive tenho alguma teoria pra vc... rsrs olha, da proximidade de terras, que inclusive já foram em tempos remotos unificadas, encontra-se em Sergipe, nosso menor estado sergipano, uma cidadezinha pouco esquecida, chamada Muribeca... Será ela o esconderijo do desbravador homônimo? Acho que vou preparar um kit exploratório, topas?! kkkk Brincadeiras a parte, muito bom o texto, com todo o requinte de informativo de sempre. Impressão minha ou encontro nele traços do Jaiminho deslumbrado pelas histórias e estórias mirabolantes dos mistérios territoriais?! rsrs Abraços moço e parabéns,talento notoriamente reconhecido por quem o visita por aqui.

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  12. Oi Jaime!
    Você sempre dando a nós,caros blogueiros, informações interessantes. Eu,sinceramente, não sabia dessa cidade abandonada, e muito menos desse manuscrito. Posso dizer que me senti uma SEM cultura agora, mas, como você mesmo disse, essa história nunca foi diretamente mostrada aos brasileiros. E acho interessantíssima a idéia de fazer um filme para melhor entendimento, por mais que não seja propriamente nacional.

    Por um lado foi bom essa cidade 'desconhecida' não ter sido divulgada. Pelo menos vamos ter alguma riqueza natural não disputada materialmente, como um produto qualquer. Mas por outro, a curiosidade bate, não é mesmo?

    Ótimo texto Jaime, Parabéns!
    Beijos

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  13. Jaime!!! Bem, consegui ler agora. Que história maneira!!! Adorei isso. Não vou nem fala sobre o fato de existir esse documento ou falar sobre cidades perdidas, mas tenho que dizer uma coisa. O teu texto está cheio de citações de personagens famosos e outros acontecimentos, recheado de crítica. Tenho que concordar com você, meu amigo... As pessoas só dão valor às nossas histórias, aos nossos acontecimentos quando vira filme. É que as imagens atraem mais que as palavras. É fato. Vivemos a era das imagens interativas e em movimento. Ou seja, se não é jogo de videogame ou filme, não é tão interessante assim. É porque a nossa sociedade aprendeu a gostar apenas do que pode ver e não do que pode imaginar... lendo.

    Dou os parabéns a você Jaime por esse texto. Ele está no melhor estilo jornalístico da revista Super Interessante (que eu gosto rsr). Dou maior força para virem textos assim. E nem falei, mas gostei da sua forma de passar a informação usando ícones da cultura pop... Grande, Jaime! Sabe mesmo como prender alguém a um texto!

    Abração!!!!!!!!!

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  14. Jaimão, meu Rei, demorei, mas cheguei! Uahahahhaha!!!

    O nobre colega está se saindo um grande historiador. Achando seriamente que seguiu a carreira errada...

    Então, é como eu te falei naquele dia, no MSN. Por incrível que pareça, desconhecia essa história. E olha que eu também curto essas coisas! Aqui no Rio, tem um historiador, o Milton Teixeira, que é craque nessas histórias meio lendas, sabe? Inclusive, uma época, se especializou na história dos cemitérios da cidade...

    Agora, esse documento 512 (é 512, né?) que me aguarde... Vou levantar tudo ao seu respeito! Fiquei super curioso...

    Bom, Jaimão, deixa ir... E foi mal pelo comentário "nas coxas"...

    Abração!

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  15. olá,
    recentemente li um americano que diz o seguinte: por volta do ano de 400 a.c. egipcios, persas, fenícios já navegavam com desenvoltura por todo o globo terrestre. conheciam a costa brasileira e tal cidade pode ter sido uma grande mina de prata e ouro, a tal moeda de ouro encontrada corresponde pela descrição ao Dárico, moeda da época de Dario I, rei da Pérsia, se não me engano.
    Abraços.
    Carlos

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  16. Olá, conheço o assunto, sou o mais antigo pesquisador do tema,tenho artigos publicados na Net e B.Nacional sobre o assunto, algum dia esta cidade vai ser redescoberta e ai saberemos a verdade.

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