segunda-feira, janeiro 11, 2010

Investigar e conhecer a história não é frescura


Neste período do ano Salvador se torna uma cidade muito interessante. Verão, céu azul e limpo, algumas pancadinhas de chuva rápida para refrescar, calor, festas para todos os cantos (e desencantos), garotas de biquíni e uma paisagem natural que, felizmente, o homem ainda não conseguiu destruir por completo, embora seu esforço para tal objetivo seja até comovente – um dia chegaremos lá.

O problema com o calor é que ele parece derreter alguns cérebros que já não tem os miolos assim tão consistentes – sei que o cérebro é composto quase por 80% de água, mas em certas cabecinhas eu arrisco a dizer que é 100% água, afogando todos os neurônios que um dia passaram por ali.

Como a estação do ano é propícia para a prática de exercícios físicos, faço minhas caminhadas matinais pela (mal cuidada e mal estruturada) orla de Salvador e ao final do exercício é hora de parar num quiosque e tomar uma água de coco bem gelada e apreciar os biquín...digo, a paisagem, a paisagem. Como se vê, é uma vida muito dura essa.

E num desses finais de semana, tomando minha água de coco e admirando a paisagem (isso!) escutei uma conversa bastante interessante entre três distintos cidadãos – e antes que alguém me chame de xereta ou curioso, saibam que “conversa em voz baixa” e “discrição” não combinam em nada com o típico soteropolitano.

Um dos sujeitos dizia o seguinte: “Agora ficam aí com essa frescura toda de investigar quem fez o que na ditadura, quem torturou, quem censurou, essas coisas; isso é coisa do passado, já passou, tem que olhar pro futuro, isso é coisa que mantém o país atrasado!”

Os outros dois cidadãos concordaram e eu, agora sim movido pela curiosidade, decidi prestar atenção aos sujeitos: eu diria que eram até bem sucedidos em suas profissões, com nível superior, idade acima dos 40 e integrantes da classe média, pelo o que se constatava a partir dos tênis e relógios utilizados. Elementar, caro blogueiro!

É uma pena que pessoas supostamente bem esclarecidas tenham esse tipo pensamento. Apurar os crimes e abusos cometidos durante o período da ditadura militar no Brasil não é frescura e nem bobagem: trata-se, além do direito à justiça, de conhecer em detalhes como situações que envolveram torturas, censuras, perseguições políticas, sequestros, desaparecimentos, estupros e mortes aconteceram e mais: como chegou-se àquele ponto de terror em que o país passou por 20 anos. E a discussão sobre a alteração de certos pontos sobre a Lei de Anistia incluída no Programa Nacional dos Direitos Humanos já está rolando e é bom ficar atento para que novas injustiças não sejam cometidas.

Conhecer o passado é fundamental para se planejar o futuro. É preciso conhecer as causas e consequências de um fato histórico para que os mesmos erros sejam evitados futuramente. E isso precisa ser feito, obviamente, no presente. Infelizmente neste Brasil varonil o estudo da história é sempre recebido com gracejos do tipo “quem vive de passado é museu” ou “isso é velho, do tempo da minha vó, eu quero é novidade”. E se no mundo virtual a notícia de ontem já é encarada como “old”, o que dirá se um fato histórico recente como a ditadura.

Lá no quiosque os três cidadãos continuavam discutindo outras ideias para lá de inteligentes - e isso porque estavam tomando água de coco, imagino aqueles caras com umas a mais na cabeça- e resolvi sair dali antes que eu me metesse na conversa e fosse acusado de comunista ou esquerdista xiita radical. Preferi prestar atenção ao belo cenário composto pelo céu azul, as palmeiras, o mar e algumas belíssimas paisagens ( você entende) que passavam por ali, embelezando mais ainda a manhã de verão. Saúde! ( e que saúde, minha nossa...)

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12 comentários:

  1. Aos meus queridos e às minhas queridas comentaristas: se acaso eu estiver em dívida de visitas com o seu blog, não se preocupem, vocês sabem como eu sou...tardo, falho, mas um dia chego lá! =D

    Me aguardem! Abraços!

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  2. Pois é, Jaimão. Conhecer a História não é frescura - e eu sou suspeito pra falar isso. Não faz nem trinta anos que a Ditadura chegou ao fim "oficialmente" nesse país e, no entanto, a gente esbarra com esse tipo de diálogo que você transcreveu. É triste, mas é verdade. Há aqueles que defendem a Ditadura, bradam aos quatro ventos que a criminalidade não era tão alta e que o país atravessou aquele que foi o seu melhor momento econômico; assim como há os neonazistas, os neofacistas,os pinochetistas. Mas como? Colocar tudo no mesmo saco?! Sim. Ditadura é ditadura... e ponto!

    Triste é o povo que não se recorda do seu passado. É um povo que insiste no erro...

    Abração, meu velho! O assunto rendia pano pra manga, mas eu tô indo dar um pulo ali, na praia... Sabe como é, né? ;)

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  3. Se bobear eles nem estão preocupados com o presente, nem com o futuro. E caso tu faça uma analise da população brasileira, em sua grande maioria (o que é lamentável)não está nem aí para nada. Vc disse certo, ao comentar que sabermos do passado é importante, mas acredito que é importante quando este passado de faz analisar o que acontece no presente e nesta mesma linha de pensamento te faz tomar atitudes mais "inteligentes ou diferentes". E os jovens? para mim são as maiores decepções.

    Aproveitando, o nosso 1° vídeo já está disponível em nosso blog. Agradecemos se nos der esta força.

    Abraços

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  4. É verdade, precisamos mesmo revirar o túmulo da ditadura militar para entender, e pra melhor : fazermos valer o senso de justiça. Descobrir coisas fechadas não é de maneira alguma abrir cicatrizes que já estão fechadas, é sim tirar os vermes que estão quietinhos na carne, mas que muitos ainda não querem que outros vejem!

    Ainda bom que eu posso falar isso agora, pq se fosse na época da ditadura já estava fu***o.hehe

    Gosto demais da sua ética de querer as coisas direito, Parabéns!!

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  5. Este comentário foi removido pelo autor.

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  6. Aff, que caras mais escrotos. ¬¬
    Bom... mesmo que tenham tido uma educação de alto nível, muita gente insiste em agir como se nunca tivesse ido para a escola estudar um pouco de história. Não sei o porque disso mas...

    Investigar o que houve durante o tempo da ditadura é uma questão de respeito com as famílias que tiveram seus parentes desaparecidos. Muita gente ainda sequer sabe o que realmente houve com quem desapareceu e saber a verdade vai deixá-los mais tranquilos. Deve ser angustiante ficar alimentando esperanças de reencontrar alguém que deve ter sido torturado e assassinado. Saber o que houve vai poupar de vez muita gente de uma dor que eles não precisavam ficar sentindo por décadas.

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  7. uau, visu novo!!! Gostei!
    *-*

    Tem gente que não tem noção das coisas, quer dar uma de entendido, dar sua opinião a qualquer custo e acaba falando merda!
    Acho que essas pessoas provavelmente não sabem o que foi a ditadura de verdade...

    Bjs
    Aninha !

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  8. Falando sem Salvador, ando triste e decepcionado com a violência absurda nesta cidade....e olhe que tenho que me permitir e viver imerso nessa insegurança, já que moro lá...abraço

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  9. Conhecer o que se passou durante os anos da ditadura - que não foi ditabranda como alguns membros do PIG querem fazer parecer - é fundamental para entendermos o que se passa no presente. Tem muita gente que posa de 'bonzinho' mas que fez parte da parte mais podre do regime militar e adoraria que essa coisa voltasse.
    Tem muito lobo em pele de cordeiro na mídia e na política. Revirar esse passado recente do Brasil faria muitas máscaras caírem.
    http://cloacanews.blogspot.com/2010/01/extra-surge-nova-versao-da-reportagem.html

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  10. Ah, Jaime... Isso é coisa de Brasil mesmo... Infelizmente o povo brasileiro não leva a sério o que precisa ser levado, e acabam se preocupando com coisas irrelevantes, como quem é o novo líder do BBBBBB nº tal, quem será a nova rainha de bateria da escola tal, ou coisas desse tipo. Afinal, isso é atual! rs
    Mas, em meio a isso tudo, tem o cenário de Salvador pra ser apreciado, não é mesmo? rs Pois então, aproveite! Vida dura essa, hein?

    Abraços!

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  11. Tem mesmo que investigar com isenção *todos os fatos* e preservar a integridade da história do país

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