terça-feira, fevereiro 21, 2017

De volta ao passado


Uma das cenas mais surreais e fascinantes da história do cinema pode ser vista no filme Super-Homem, com Christopher Reeve no final dos anos 70: inconformado ao ver Lois Lane soterrada após um terremoto, o homem de aço voa ao redor da Terra em sentido anti-horário e simplesmente muda a rotação do planeta (!). Com isso, o tempo “voltou para trás” e assim ele conseguiu salvar sua amada.

Às vezes penso que estamos neste movimento “de volta ao passado” quando deparo com algumas teorias que caberiam bem à Idade Média ou tempos anteriores. É até engraçado ler as teorias conspiratórias sobre a chegada (ou não) do homem à Lua, mas quando leio em pleno ano de 2017 algumas teses (sic) sobre “a Terra é plana” defendidas e compartilhadas por muita gente (entenda que é muita gente MESMO: joguem no Google o termo “flat Earth” ou “Terra plana” e vejam a quantidade de resultados), a coisa perde a graça.

Perde a graça porque se há quem acredite em uma teoria refutada há séculos e com todo embasamento científico, o que impede que grupos e pessoas acreditem também em outras ideias ultrapassadas, absurdas e inverossímeis? Ainda hoje encontramos por aí quem utilize como "argumentação" conceitos oriundos do racismo científico que eram muito comuns no século XIX e parte do século XX.  E o que dizer do “movimento antivacina”? Outrora sustentado por adeptos de teorias conspiratórias envolvendo a indústria farmacêutica, hoje encontra apoio de muitos pais que recusam vacinar seus filhos por medo de efeitos colaterais nas crianças – experimentem uma pesquisa rápida no Google sobre “autismo e vacinação” e vejam os resultados. Vocês encontrarão de tudo, até uma celebração (!) chamada “Festa da catapora”. Impossível não lembrar da Revolta da Vacina ocorrida em 1904 no Rio de Janeiro.

E isso é só um pequenino exemplo do que encontramos por aí. O que preocupa é que tais ideias são compartilhadas e ostentadas com orgulho pela internet, sobretudo nas redes sociais.  Neste ponto Umberto Eco estava correto quando falou em “idiotas da aldeia” que ganharam voz, embora Aldous Huxley também chamasse a atenção lá nos longínquos anos 1930 para os esnobismos (crescentes) da ignorância. Não é algo novo, no entanto é mais rápido e tem maior alcance: algumas dessas teorias espalham com velocidade impressionante (tão rápidas quanto o Superman) e encontram adeptos dispostos a darem créditos a elas, mesmo com toda a informação científica e acadêmica disponível na palma da mão, literalmente. 

Fica a sensação de que se o Super-Homem fosse real talvez ele desprezasse a ordem de seu pai Jor-El (“é proibido interferir na História humana”) e faria voltas com maior tempo de duração ao redor do planeta, voltando uns 4 milhões de anos. A humanidade poderia recomeçar e assim fazer as coisas direito. 

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