quinta-feira, janeiro 08, 2015

Livros de 2014: retrospectiva.


Como já se tornou tradição aqui no blog, a minha listinha dos livros mais legais do ano que passou não poderia faltar. Desta vez farei um pouco diferente: a resenha será brevíssima, com poucas linhas para apresentação geral do livro e complementarei com algum trecho da obra.

Alguns livros relacionados são difíceis de serem encontrados – como Henry Miller e Stephen Nachmanovitch – e os interessados na leitura terão melhores chances procurando em sebos pela internet ou da cidade.

Vamos à lista:

- Pesadelo Refrigerado, de Henry Miller. O autor de “Trópico de Câncer” e da trilogia “Crucificação encarnada” apresenta nesta obra relatos de viagem pelos cafundós dos Estados Unidos e reflexões sobre a sociedade americana, valores de vida, artes, carros e mecânicos. 
“O homem gordo, pretensioso, de cara amarrada, de quarenta e cinco anos, que ficou assexuado, é o maior monumento da futilidade que a América criou. Ele é um ninfomaníaco que não realiza nada. É uma alucinação do homem paleolítico. É um feixe estatístico de gordura e nervos abalados para o corretor de seguros transformar em uma tese assustadora”. 

 - Deuses sem homens, de Hari Kunzru. O cenário é o deserto da Califórnia, onde encontrarmos um casal em busca do filho autista de 4 anos desaparecido, um rock star entediado, uma seita alienígena, um engenheiro de aviação da 2ª Guerra mundial... e tudo isso se passa em capítulos com histórias divididas em estrutura não-linear – saltamos de 1958, 1970 para 2008 sem perder o fio da meada.
“Na cidade todos reclamavam. Nas rochas, as moças se empoleiravam a 10 metros do chão, os seios nus balançando para frente e para trás enquanto elas batiam com os martelos em alguma porca ou parafuso. ‘Nosso trabalho’, confidenciou Montanha um dia, ‘é reconectar a Terra à corrente de impressões espirituais’. ‘Por que?’ ‘Porque estamos cercados de energia negativa, e ela está começando a alterar o eixo da Terra’.” 

- O complexo de Portnoy, de Phillip Roth. Sem papas na língua e principalmente sem nenhum pudor, “O complexo de Portnoy” nos apresenta Alexander Portnoy, um judeu americano que descreve sua relação com a mãe, neuroses e sobretudo seus impulsos e vícios sexuais de forma muito aberta a um psicanalista. Divertido, insano, provocador. 
“Pare de ficar ruborizado, pare de se envergonhar, você não é mais um filhinho da mamãe levado da breca! No que diz respeito a seus apetites, um homem de mais de trinta anos só presta contas a si próprio! Essa é que é a grande vantagem de ser adulto! Você quer pegar? Então pegue! Seja um pouco transviado, pelo amor de Deus! PARE DE SE PRIVAR DO QUE VOCÊ DESEJA! PARE DE NEGAR A VERDADE!”  

- Dez mulheres, de Marcela Serrano. De leitura fluida e em tom confessional, o livro da escritora chilena Marcela Serrano apresenta histórias de noves mulheres de idades e personalidades diferentes relatando experiências de vida em temas ligados ao amor, luto, separações, política, solidão, identidade. 
Muito humilhada, resolvi parar de beber. Essa época foi um pesadelo. Eu enganava a mim mesma. Jurava intenções que não cumpria. Escondia garrafas. Tudo o que os filmes dizem sobre alcoólatras é verdade. O problema era como enfrentar minha maternidade estando sóbria. Ou melhor, como aceitar que tinha sido estuprada por três soldados em guerra no meu país de origem. E que o resultado desse ato era um filho.” 

- A irmandade da uva, de John Fante. Sou suspeito para falar sobre Fante, pois sou fã do estilo rápido e objetivo do autor que, segundo Bukowski, “não tem medo da emoção”. Este livro não ombreia com os fantásticos “Pergunte ao Pó” e “Sonhos de Bunker Hill”, mas é John Fante puro, trazendo a história de Henry Molise voltando à cidade natal para uma convivência difícil com o pai Nick – alcoólatra, jogador compulsivo, temperamental. 
Tal pai, tal filho. Ah, Dostoiévski! Fiodor poderia ter surgido entre a neblina e colocado a mão em meu ombro e aquilo nada significaria. Como era possível um homem viver sem seu pai? Como poderia acordar pela manhã e dizer a si mesmo: meu pai se foi para sempre?” 


-
Este lado do paraíso, de Scott Fitzgerald. É sempre um prazer ler Fitzgerald! Embora este primeiro romance do autor (com toques autobiográficos) não se compare ao magistral “O grande Gatsby” ou “Os belos e malditos”, já encontramos elementos típicos da literatura de Fitzgerald: personagens nascidos em berço de ouro e sempre em busca do prestígio social. 
As pessoas, atualmente, se empenham tanto em acreditar em líderes, mas assim que dispomos de um reformador popular, um político, um soldado, escritor ou filósofo – um Roosevelt, um Tolstói, um Wood, um Shaw, um Nietszche -, a contracorrente da crítica procura destruí-lo. Meu Deus, nos dias de hoje nenhum homem pode manter-se numa situação de destaque. É o caminho mais seguro para a obscuridade. As pessoas enjoam de ouvir o mesmo nome repetidas vezes.” 

- Diários de Adão e Eva, de Mark Twain. Samuel Langhorne Clemens, mais conhecido como Mark Twain, é um dos escritores presentes em minha formação literária. O título diz tudo: a vida de Adão e Eva em forma de diário escrito pelos próprios – e bem ao estilo do sr. Clemens: satírico, bem humorado e muito criativo. 
“Passei a semana na cola dele, para nos conhecermos melhor. Eu é que tinha que ficar puxando conversa porque ele era tímido, mas não me importei. (...) Ele fala bem pouco. Talvez seja porque não é muito inteligente e, como é muito sensível em relação a isso, tenta disfarçar.” 

- A elegância do ouriço, de Muriel Barbery. Em um prédio de bairro elegante e chique de Paris, encontramos uma zeladora filosófica, uma adolescente reflexiva e uma gama de personagens peculiares. O romance, bem escrito, é recheado de filosofia, literatura e bom humor. 
“Quando me angustio, vou para o refúgio. Nenhuma necessidade de viajar; ir juntar-me às esferas de minha memória literária é suficiente. Pois existe distração mais nobre, existe mais distraída companhia, existe mais delicioso transe do que a literatura?” 

- O país dos cegos e outras histórias, de H.G. Wells. Herbert George Wells dispensa maiores apresentações: se você já leu ou assistiu filmes como “A máquina do tempo”, “o homem invisível” e “A guerra dos mundos”, já foi apresentado ao mundo fantástico de Wells. Este volume compreende 18 contos do imaginativo autor britânico.
Durante catorze gerações aquelas pessoas tinham vivido na cegueira, isoladas do resto do mundo que era capaz de ver; os nomes de todas as coisas relativas à visão tinham se esmaecido e mudado.” 

- Ser criativo – o poder da improvisação na vida e na arte, de Stephen Nachmanovitch.
Trata-se de uma leitura acadêmica, mas o livro é delicioso: Nachmanovitch entrelaça elementos da música, arte, psicologia, filosofia oriental e literatura para trazer ótimas reflexões sobre o processo criativo e como ele brota em cada um de nós. O que temos que expressar já existe em nós, é nós, de forma que trabalhar a criatividade não é uma questão de fazer surgir o material, mas de desbloquear os obstáculos que impedem seu fluxo natural.”

- Amar ou depender, de Walter Riso. À primeira vista parece um livro de autoajuda; no entanto vai além disso: é sobre inteligência emocional, relações humanas e equilíbrio. Confira a resenha que escrevi AQUI
O amor é que o somos. Se você for irresponsável, sua relação amorosa será irresponsável. Se for desonesto, se unirá à outra pessoa com mentiras. Se for inseguro, seu vínculo afetivo terá ansiedade. Mas se você for livre e mentalmente saudável, sua vida afetiva será plena, saudável e transcendente.”

-Elvis economiza gasolina em cinco marchas, de Ana Cecília Romeu. Primeiro livro da escritora gaúcha, Ana Cecília nos brinda com a leveza de crônicas primorosas sobre diversos temas do cotidiano. Confira a resenha que escrevi AQUI.
Se estamos vivos é para vivermos, reserva em excesso pode não ser recomendando, e nossos dias, ainda que protagonizados por única personagem, exigem mais atores para o roteiro. O ser humano não sobrevive de monólogo, e nunca, jamais, um vinho é bom com a garrafa fechada. Não interessa a safra ou procedência: vinho é para ser bebido.” 

- Demian, de Hermann Hesse.
Há livros que a cada releitura sempre descobrimos algo novo, diferente. E “Demian” é um livro que merece a(s) releitura(s) porque parece dialogar com nosso “eu” em busca do autoconhecimento através da história de Emil Sinclair e Max Demian.
Que consigamos, tu, eu e alguns outros, renovar ou não o mundo é coisa que em breve se verá. Mas, dentro de nós mesmos, temos que renová-lo a cada dia.”


E você? Quais foram as suas leituras preferidas de 2014?   

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