
Ricardo Pitombo*, 38 anos, saiu cedinho de casa para pegar a estrada junto com a família e curtir as delícias de um feriadão prolongado. “Vou relaxar na fazendinha dos sogros”, pensava ele enquanto estava parado na estrada há 2 horas por causa de um enoooorme congestionamento. As informações eram confusas: primeiro, um caminhão que capotou na pista; depois, uma batida envolvendo um ônibus e três carros ... ou seriam dois ônibus e três carros? Quando finalmente o trânsito começou a fluir, os primeiros 50 km da viagem levaram 4 horas para serem percorridos; agora, só faltavam 250 km para que Pitombo pudesse relaxar no interior. Mas antes, um novo congestionamento próximo à praça do pedágio, um pneu furado, duas paradas e uma das crianças com dor de barriga. 300 km percorridos em pouco mais de 7 horas com um calor brabo, o carro sem ar condicionado e Pitombo, com um sorriso inabalável no rosto, dizia “vale a pena esse sacrifício” antes de cair na cama e só acordar na manhã seguinte.
Margarete Apolinária*, 29 aos, esperava este feriadão com ansiedade, pois fazia 6 meses que não via os familiares no interior. O melhor caminho era utilizar o sistema de balsas, também conhecido como Ferry-Boat ou popularmente “o Férri”, para chegar à ilha e, assim, com mais meia horinha de ônibus chegar à casa dos pais. Apolinária arrumou tudo na noite de quarta-feira mesmo e na quinta, bem cedinho, já estava na fila enooooorme – não, você não tem dimensão do tamanho da fila, então é assim: enoooooooooooooooooooooooooooooooorme – e enfrentou chuva e sol, sol e chuva e música ruim na fila até que, 4 horas depois, finalmente conseguiu embarcar no “Férri”, que demora em média 1 hora para fazer a travessia até a ilha e ao chegar lá não encontrava ônibus, só vans clandestinas e era o jeito: apertando aqui e ali e dividindo o espaço com as mochilas, sacos e aquela senhora gorda que parecia um gêiser. Margarete chegou à casa dos pais quase 2 horas depois com aquele sorriso inabalável e afirmando “vale a pena esse sacrifício”, caiu na cama e só acordou na manhã seguinte.
Aurelino Prazeres*, 56 anos, acordou cedo e tomou café sozinho enquanto a família dormia até mais tarde, afinal era feriado e não havia aulas na faculdade para os filhos – se é que dormiram em casa esta noite, ele nem sabia. Pegou o celular e chamou o motorista, que o levou até a pista onde seu jatinho particular o aguardava. Em pouco mais de uma hora, estava instalado em um luxuoso resort localizado em paradisíaca praia nordestina para o encontro com empresários e o governador do estado. Na pauta o reajuste das tarifas de pedágios e transportes marítimos, além da concessão para a exploração de outras rodovias no estado. Como liderança dos empresários, dotô Aurelino queria 10% de aumento nas tarifas, enquanto o governador queria evitar desgaste político e fechar em 5%. Depois de meia hora de conversa séria e umas doses de Ballantine´s 30 anos fecharam em 8%. Durante o animado almoço, Aurelino efetuou várias ligações com o celular e, à tarde, encontrava-se em seu bangalô com a deslumbrante scort girl que a agência enviou. À boquinha da noite dotô Aurelino retornou para sua cidade e para o conforto do lar, onde foi recebido pela esposa e um dos filhos – os outros se mandaram pra curtir o feriadão por aí - para jantar e tinha no rosto aquele inabalável sorriso expressando “vale a pena esse sacrifício”.
*Obviamente os nomes são obras ficcionais. No entanto, qualquer semelhança com nomes, datas e acontecimentos reais NÂO é mera coincidência.



