segunda-feira, abril 25, 2011

Feriadão: vale a pena!



Ricardo Pitombo*, 38 anos, saiu cedinho de casa para pegar a estrada junto com a família e curtir as delícias de um feriadão prolongado. “Vou relaxar na fazendinha dos sogros”, pensava ele enquanto estava parado na estrada há 2 horas por causa de um enoooorme congestionamento. As informações eram confusas: primeiro, um caminhão que capotou na pista; depois, uma batida envolvendo um ônibus e três carros ... ou seriam dois ônibus e três carros? Quando finalmente o trânsito começou a fluir, os primeiros 50 km da viagem levaram 4 horas para serem percorridos; agora, só faltavam 250 km para que Pitombo pudesse relaxar no interior. Mas antes, um novo congestionamento próximo à praça do pedágio, um pneu furado, duas paradas e uma das crianças com dor de barriga. 300 km percorridos em pouco mais de 7 horas com um calor brabo, o carro sem ar condicionado e Pitombo, com um sorriso inabalável no rosto, dizia “vale a pena esse sacrifício” antes de cair na cama e só acordar na manhã seguinte.

Margarete Apolinária*, 29 aos, esperava este feriadão com ansiedade, pois fazia 6 meses que não via os familiares no interior. O melhor caminho era utilizar o sistema de balsas, também conhecido como Ferry-Boat ou popularmente “o Férri”, para chegar à ilha e, assim, com mais meia horinha de ônibus chegar à casa dos pais. Apolinária arrumou tudo na noite de quarta-feira mesmo e na quinta, bem cedinho, já estava na fila enooooorme – não, você não tem dimensão do tamanho da fila, então é assim: enoooooooooooooooooooooooooooooooorme – e enfrentou chuva e sol, sol e chuva e música ruim na fila até que, 4 horas depois, finalmente conseguiu embarcar no “Férri”, que demora em média 1 hora para fazer a travessia até a ilha e ao chegar lá não encontrava ônibus, só vans clandestinas e era o jeito: apertando aqui e ali e dividindo o espaço com as mochilas, sacos e aquela senhora gorda que parecia um gêiser. Margarete chegou à casa dos pais quase 2 horas depois com aquele sorriso inabalável e afirmando “vale a pena esse sacrifício”, caiu na cama e só acordou na manhã seguinte.

Aurelino Prazeres*, 56 anos, acordou cedo e tomou café sozinho enquanto a família dormia até mais tarde, afinal era feriado e não havia aulas na faculdade para os filhos – se é que dormiram em casa esta noite, ele nem sabia. Pegou o celular e chamou o motorista, que o levou até a pista onde seu jatinho particular o aguardava. Em pouco mais de uma hora, estava instalado em um luxuoso resort localizado em paradisíaca praia nordestina para o encontro com empresários e o governador do estado. Na pauta o reajuste das tarifas de pedágios e transportes marítimos, além da concessão para a exploração de outras rodovias no estado. Como liderança dos empresários, dotô Aurelino queria 10% de aumento nas tarifas, enquanto o governador queria evitar desgaste político e fechar em 5%. Depois de meia hora de conversa séria e umas doses de Ballantine´s 30 anos fecharam em 8%. Durante o animado almoço, Aurelino efetuou várias ligações com o celular e, à tarde, encontrava-se em seu bangalô com a deslumbrante scort girl que a agência enviou. À boquinha da noite dotô Aurelino retornou para sua cidade e para o conforto do lar, onde foi recebido pela esposa e um dos filhos – os outros se mandaram pra curtir o feriadão por aí - para jantar e tinha no rosto aquele inabalável sorriso expressando “vale a pena esse sacrifício”.

*Obviamente os nomes são obras ficcionais. No entanto, qualquer semelhança com nomes, datas e acontecimentos reais NÂO é mera coincidência.

terça-feira, abril 19, 2011

Das burocracias


Na verdade ele é um cara quase legal. O "quase" nem é por culpa dele, mas da rotina estressante que é a vida moderna ou pós-moderna ou o nome que se queira chamar. Por isso às vezes o encontramos nervoso, sem paciência, mal humorado... mas, de resto, é um cara que poderia até reunir alguns pontos simpáticos em comum, sabe? Coisas como torcer pelo mesmo time, ter as mesmas ideias políticas, a marca de cerveja preferida e até mesmo hobbies interessantes como catalogar borboletas.

As tentativas de humanizá-lo, entretanto, terminam quando o sujeito ergue a voz em volume suficiente para que todos ouçam a reprimenda:

- Cadê o formulário da GARE preenchido? E cadê a segunda via da certidão de antecedentes criminais?

O "cadê" é emitido entre um tom desafiador e triunfante - "Peguei mais um!" - chamando a atenção daqueles que estão ao redor na fila ou aguardando os trâmites no guichê ao lado. "Essa gente enrolada que não traz a documentação", provavelmente estão a pensar enquanto olham para a cara do cidadão já afoito mexendo em uma pasta repleta de papéis onde tem de tudo - menos o tal formulário e a segunda via sabe-se lá para quê. O cidadão ainda tenta argumentar, mas não há espaço para negociações: ali está um agente da burocracia, funcionário público no cumprimento do seu dever. "O protocolo é esse", brada o funcionário-otoridade procurando em uma só tacada a autodefesa e a isenção de quaisquer responsabilidades. E chama a próxima senha, quer dizer, o próximo cidadão, sem espaços para comiseração com o sofrimento e dúvida dos outros, porque ali não se pode perder tempo - o cidadão ainda pede uma orientação e a recebe, de forma preguiçosa. Te vira, rapaz! E aproveite e pegue outra senha, mas para o dia seguinte.

O funcionário podia demonstrar ao menos alguma simpatia ou um gesto gentil, o que custa? "Brasileiro, né? Se abrir os dentes e der a mão, querem logo o braço e te chamam de amigo de infância". A não ser que o cidadão resolva... esqueçam, não é o que vocês estão pensando.

O barulho é infernal: as campainhas do painel de senha são quase abafadas pelo blablabla das pessoas que puxam conversa - e sempre tem aquele que sabe ou entende mais do que você desses papéis todos – e a TV ligada. Mas quem está interessado nas dicas de bem-estar que passa naquele canal de TV pela manhã? Mistério: em todos os consultórios, repartições e bares em que há uma TV ligada para “distrair” a longa espera, sempre o mesmo canal. "Me empresta uma caneta? Nem dá pra ouvir os ingredientes direito, será que puxo na internet?"

Ah, o a expressão de alívio daquele que resolveu seu problema! Um turno de trabalho perdido, senha número 97 chega finalmente ao guichê. O processo dura, se tanto, 5 minutos: duas carimbadas - o carimbo! - e pronto, o rosto do cidadão é radiante, pois resolveu o problema mais complicado, o que vier daqui pra frente é moleza! O funcionário burocrata não demonstra emoção, satisfação, nada: simplesmente grita "próximo!" porque o apito do painel da senha não foi ouvido e as pessoas se distraem facilmente! “Essa gente que não presta atenção!”

Falemos da varinha de condão do serviço público, da burocracia, dos cartórios: o carimbo. Onde há carimbo, há ouro. O carimbo mostra que o cidadão está "quites" com o governo ou com a lei. Como estamos em tempos da internet inventaram a "certificação digital", algo como uma versão on-line do carimbo. Aquele orgão do governo fez toda a propaganda de que estaria investindo na "informatização do setor", o que realmente aconteceu. O cidadão, ingênuo telespectador no intervalo do telejornal, pensa: "Vai facilitar o acesso, vai acabar com a burocracia". Coitado! No final, não tem certificação digital, certidão impressa da internet, nada disso: o carimbo é que resolve! O carimbo na xerox autenticada, o carimbo manuseado com tanta destreza pelo funcionário que sabe do poder que possui em mãos tal como Thor e seu martelo.

O cidadão quer descarregar sua frustração e revolta no funcionário. Não pode, primeiro pela lei: desacato a funcionário público no exercício do trabalho é crime. Segundo porque o cidadão sabe, no fundo, que a culpa não é do funcionário, que pode até mesmo ser um cara legal. Mas adoraria descobrir quem foi a mente engenhosa que criou todos esses mecanismos que convergem para a burocracia. Vai ver, foi algum russo que exagerou na vodka ou um português chafurdado em barril de vinho. Quer coisa mais estranha que “reconhecer firma”?

- Vou fazer o reconhecimento da firma.

- Boa sorte! Os cartórios e tabeliães vão te dar uma canseira!

- Não, não: vou ao IML. Minha firma faliu.

terça-feira, abril 12, 2011

Em busca dos bodes

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Atenção: se o seu vizinho ou colega de escritório for uma pessoa tímida, calada, reservada, com poucos amigos, sem namorada e que adora jogos de computador além de navegar pela internet, tome cuidado, pois você está próximo de um terrível psicopata! Alerte as autoridades, mas nada de pânico!

Quem assistiu a programação de TV durante a cobertura do terrível acontecimento na escola municipal Tasso da Silveira, no Rio de Janeiro, certamente deparou com inúmeros estereótipos e opiniões desencontradas de diversos especialistas e – principalmente – de “não especialistas” procurando enteder a motivação do atirador Wellington Menezes. Faz parte do show: espetacularização da notícia e a busca pelos chamados “bodes expiatórios”.

E na busca dos bodes, encontram-se as toupeiras. Primeiro a tentativa em relacionar o Islamismo ao ato trágico. Não colou. Então fica claro que a culpa é da internet, essa ferramenta demoníaca que leva as pessoas à perdição e estimula aberrações como pedofilia. Com isso, o palco para o tirarem do fundo do baú o famigerado projeto do senador Eduardo Azeredo está armado, afinal é preciso controlar o que se faz na internet, não é verdade?

Discorda que a culpa seja da internet? Sem problema: os jogos eletrônicos violentos são os culpados. Eles estimulam a violência e agressividade dos jovens jogadores, que sairão por aí atirando nas pessoas em cinemas, shopping centres e escolas.

Essa questão dos games violentos costuma dividir opiniões. Para o professor Waldemar Setzer, da USP, em seu livro “Meios Eletrônicos e Educação", “o jogo eletrônico [...] força ações nas situações que ele cria, também gravando tudo no subconsciente, pois, como vimos, o pensamento do jogador está obliterado. [...] Vemos aí o terrível dos jogos: eles não são condicionam ações, como o faz a TV, mas treinam o jogador a executá-las sem refletir nas consequências do seu ato”.

Já a professora Lynn Alves, da Uinversidade Federal da Bahia, em seu livro “Game Over – jogos eletrônicos e violência”, traz a seguinte consideração: “A aprendizagem que é construída em interação com os games não é mera cópia mecânica das situações vivenciadas [nos games], mas uma ressignificação que os jogadores fazem das imagens e ações presentes nos conteúdos dos jogos eletrônicos mediante seus modelos de aprendizagem construídos ao longo de sua estruturação como sujeito”.

Tecla SAP: não é o jogo eletrônico em si que vai determinar ou estimular o comportamento violento do sujeito. Trata-se de analisar as questões afetivas – eis o afeto aqui citado novamente! – e mesmo socioeconômicas pelas quais a pessoa passou em sua trajetória de vida. Este escriba que tão mal digita essas linhas é um bom exemplo: o fato de ter jogado o sangrento e violento game DOOM por horas na adolescência não o fez pegar em armas e sair atirando por aí.

Se a culpa não é da internet, dos jogos eletrônicos ou dos muçulmanos, o que resta? Bullying, escola, professores, família, governo... o rebanho de potenciais culpados é farto, é só escolher. Procuramos por culpados e não reparamos em algumas de nossas atitudes no dia a dia. E a TV – e parte da imprensa - precisa continuar seu show por alguns dias até explorar o máximo que puder do ocorrido, de forma superficial na maior parte do tempo e atirando para todos os lados, reforçando estereótipos na busca pelos bodes.

sexta-feira, abril 08, 2011

Procurando respostas / Afeto

Dostoiévski, minucioso observador da condição humana, além de obras magníficas como “Crime e Castigo” e “O jogador” deixou-nos a seguinte pergunta em suas “Notas do Subsolo”: “O que se pode esperar do homem, sendo ele um ser dotado de características tão estranhas?”

Talvez por isso demos voltas e mais voltas tentando entender o que se passou no Rio de Janeiro, na escola Tasso da Silveira. No afã de encontrar respostas logo no primeiro momento, tentou-se de tudo: da psicologia às estatísticas, mais uma vez a espetacularização da violência fez-se presente e até a lamentável intolerância religiosa surgiu em meio ao turbilhão de informações desencontradas e especulativas.

E nenhuma resposta. O atirador era psicopata? Era um fanático religioso? Por que ele fez isso? Que motivos levaram um rapaz tímido e reservado a abrir fogo contra crianças dentro de uma escola? Teria sido mais um caso de Bullying? Novas – e tolas - especulações: a culpa é da internet, cuidado com os reservados e calados, são psicopatas!

“Onde estavam os professores e a direção da escola”, alguém ousou perguntar. Salvando a vida é uma boa resposta? Há anos, aliás, os professores denunciam a falta de segurança nas escolas – e o assunto é tratado sempre com desdém pelos governos. Quem está no magistério provavelmente já se deparou com alunos e não-alunos nas dependências da escola portando drogas e até armas. Enquanto “drogados e desordeiros” têm acesso à escola, tudo bem, ninguém se importa, afinal os professores que se virem para contê-los e educá-los; mas quando um potencial sociopata – ou portador de alguma psicopatologia - entra no prédio atirando para todos os lados, aí surge a ideia de “levantar o debate sobre a segurança nas escolas”.

(Que os meus colegas professores da escola Tasso da Silveira, ao retornarem às aulas, recebam todo o apoio psicológico e estrutural necessário para prosseguirem. Não esqueçamos que eles lidarão com alunos emocionalmente abalados – e eles mesmos, os professores, certamente estão abalados)

Foi em uma escola, poderia ter sido em um cinema – como já aconteceu – ou em um teatro, shopping, supermercado, outro local. E nenhuma resposta. Na verdade talvez encontremos respostas procurando no último lugar em que pensaríamos em investigar: dentro de nós mesmos, de nossa já citada condição humana.

Pensemos: onde foi parar o afeto nas nossas relações cotidianas? Escrevi este texto em outra ocasião e não o publiquei. Sei que ficará um tanto extenso, mas o publicarei assim mesmo, talvez seja válido neste momento – e mesmo que aparentemente não se encaixe no caso de Realengo, acredito que possa ser um complemento.


Afeto

Sem grandes rodeios, apresento as duas situações que motivaram escrever estas mal digitadas e ilustrarão melhor minhas pobres e quase desprezíveis ideias. Acompanhem.

1 – O professor estava dando sua aula em uma turma de ensino médio da rede pública quando, sem cerimônia, dois alunos adolescentes entram na sala e passam a conversar, em elevado tom de voz, com um colega que até então assistia tranquilamente à aula. Mesmo sem conhecer os dois alunos que invadiram sua aula – eram de outra turma – o professor chamou a atenção da dupla, sem rispidez ou sarcasmo. Como não “deram bola”, o professor foi até um deles e disse: “Meu jovem, por favor, depois você conversa com seu amigo, estamos em aula agora”. O professor terminou de falar e deu um leve toque no ombro do aluno, que esquivou em um gesto rápido, parou na frente do mestre, lançou-lhe um olhar raivoso e, imperativo, determinou: “Qualé, tira a mão de mim, fique na sua!”.

2 – Já ao final daquele turno, o professor, cansado, caminha pelo corredor da escola quase vazia. Havia apenas uma 5ª série, com crianças na faixa etária entre 10 e 12 anos. O professor passa em frente à sala e apenas observa a correria dos meninos e meninas e alguns acenam para o mestre, que retribui. Mas uma aluna, pequenina criança, se aproxima e dá um abraço no professor, que fica surpreso mas não se esquiva e tampouco repele a criança. “Tchau, teacher, bye bye!” e assim ela se despede.

Tenho reparado no dia a dia de uma cidade grande como a paupérrima e desigual Salvador de seus quase 3 milhões de habitantes uma agressividade crescente. Se você mora em uma capital ou cidade de grande porte provavelmente perceberá isso em um olhar mais atento. A impressão que se tem é que as pessoas andam armadas – não me refiro apenas às armas de fogo, mas um simples toque, um contato físico casual é recebido quase como uma ofensa ou pior: uma agressão. O que é muito estranho, pois em nossa formação histórica há marcantes influências indígenas e africanas, povos que cultivavam a coletividade, os gestos efusivos e a informalidade.

Não sou adepto de teorias que assemelham a auto-ajuda simplória como “terapia do abraço” e tantas outras; mas vale refletir onde estamos errando e como estamos caminhando para a impessoalidade e indiferença que destoam de nossa formação. Estamos vivenciando uma revolução na comunicação através de aparelhos e redes sociais absolutamente fantásticos, mas as tentativas de se comunicar com as pessoas através de olhares, gestos e até mesmo palavras fora de uma esfera virtual soam cada vez mais infrutíferas.

A afetuosidade nas relações vem sendo substituída pela frieza e pelo distanciamento entre as pessoas e, com isso, encontramos a carência que os adolescentes demonstram nas situações expostas aqui. Claro que estou falando de uma fase da vida em que a rebeldia e a inconstância são comuns, mas é assustadora a reação gerada por conta de um simples gesto. Se tal reação fosse restrita a uma fase como a adolescência, seria até compreensível; o problema é quando tal cenário é encontrado com muita frequência em faixas etárias ou classes sociais diversas.

O que fazer? Quem dera se eu tivesse uma boa resposta para tal pergunta neste contexto. Mas uma sugestão eu tenho: enquanto ainda não é tarde, cuidemos da afetividade e dos gestos com as nossas crianças. Não deixemos que se percam os gestos puros e simples como o de uma aluna de 10, 11 anos de idade que ainda abraça seus professores.


***

Virtudes – para mim, são – como afeto, tolerância, amor e humor estão em falta. Frei Beto, em um artigo publicado na Revista Caros Amigos ( perdoem-me, não lembrarei do título e da edição), falou sobre como estamos mais preocupados com os valores finitos ( bens de consumo como carros, computadores, celulares, etc) e desprezamos os chamados valores infinitos ( solidariedade, respeito, gentileza, etc).

Não sei se isso é uma resposta, mas não escrevi tudo isso com tal intenção. Apenas segui o conselho do nosso Dostoiévski, que foi citado na abertura desse texto e agora é citado no final: “ Escrevendo, talvez eu sinta de fato alívio”.

Ilustração: Dr.Fausto em seu gabinete, de Eugène Delacroix

quarta-feira, abril 06, 2011

O empresário

Eu sou um homem justo. Que ninguém venha recriminar a minha personalidade e tampouco minhas opiniões, porque estamos em uma democracia e a liberdade de expressão está aí para isso, apesar de que um pouco de censura vai bem. Tenho saudades, sim, do tempo da gloriosa, que baniu do país o perigo vermelho e a bagunça. Pena que foi por pouco tempo e agora estamos às voltas com todos aqueles problemas que os generais tentaram resolver. E temos um país que não cresce e que fica aí dando esmola pra pobre ao invés de gerar riqueza!

Faço minha parte. Hoje sou um bem sucedido empresário no setor químico e tenho negócios espalhados pelo Brasil e América Latina; além disso, já estamos negociando com chineses, não tem jeito, esses malditos vermelhos vão dominar o planeta. Como disse, sou um homem justo, porém há quem me acuse de poluidor, de destruidor de ecossistemas, essas bobagens... me acusam de corrupto, de racista, de violador dos direitos humanos, esse monte de calúnia típico de gente invejosa e incomodada com o meu sucesso.

Felizmente hoje temos a melhor invenção do homem depois da roda: o marketing. Fizeram uma denúncia sobre a minha empresa de não cumprir as normas de segurança num desses litorais aí do Nordeste só porque vazou um pouco de dióxido de titânio no mar. Aquele bando de pescadores reclama que matamos os peixes e o sustento deles, quanta besteira! Os órgãos ambientais multaram a minha empresa, mas logo contornamos a situação com uma campanha de marketing eficiente na TV, jornais e outdoors: “Use sacolas retornáveis. É a Ilmenita Química S/A ajudando a proteger o meio ambiente”. E distribuímos umas sacolinhas! Esses publicitários são geniais, bastaram umas mensagens bonitinhas, umas imagens de natureza, a cor verde na logomarca e pronto, agora somos conhecidos como “amigos do meio ambiente”! Quanto à denúncia, bem, o processo tá lá, parado, temos advogados muito eficientes.

Dia desses, me disseram que eu deveria entrar para a política em algum cargo, como senador ou deputado ou até mesmo governador. Eu entrei para a política de outro modo: financiando a candidatura de um deputado que me foi bastante útil quanto às licenças ambientais e no lobby para a aprovação de leis interessantes para a indústria. Mas quando explodiu o escândalo da propina e que acusava o meu parlamentar como mentor intelectual e chefe da quadrilha, a primeira coisa que fiz foi negar qualquer envolvimento além do financiamento de campanha e logo depois minha equipe de relações públicas e marketing entrou no jogo: fui parar na capa de algumas revistas posando ao lado da família e em uma delas a chamada de capa era “o defensor dos valores familiares”. Logo o meu nome -e da empresa - foi esquecido, apesar do processo estar sei lá em que pé, temos advogados são muito eficientes.

Por isso que é bom manter uma família, mesmo que apenas sob aparência. Ora, eu já estou com 65 anos, mas estou bem conservado, tenho minhas vaidades, tenho dinheiro e poder. Quer combinação melhor para seduzir? Minha mais recente conquista é aquela modelo que faz uns trabalhos de atriz para a TV de vez em quando. Jovem, linda e muito gostosa, faz de tudo na cama. É sempre melhor experimentar a carne fresca, quando enjoar é só ir atrás de outra. Minha mulher é 10 anos mais jovem do que eu, tem lá seus amantes, mas eu nem me preocupo, desde que seja tudo discreto. Aos meus filhos já falei mais de mil vezes para não se meterem em confusão. Da última vez o mais velho estava bêbado, saiu pra balada e atropelou umas pessoas na calçada de um bar. Teve uma moça que precisou amputar a perna e deu muito trabalho para limpar a imagem do garoto, tivemos que botar a equipe de relações públicas, assessoria de imprensa e publicitários para trabalhar bastante. Ele foi fazer a social em orfanatos e creches, eu estampei uma campanha no outdoor ao lado de uns neguinhos órfãos sobre o tema “responsabilidade social” ou coisa parecida. Foi muito bom porque limpamos a barra do meu filho e a empresa conseguiu uns incentivos fiscais também, afinal o nome da empresa foi envolvido na estratégia. A menina da perna amputada? E eu sei lá, fatalidades, essas coisas acontecem. O processo tá rolando, temos advogados muito eficientes.

Eu me orgulho em dizer que coloco a cabeça no travesseiro e durmo tranquilo, de consciência limpa. Não canso de repetir que sou um homem justo e, se esqueci de mencionar, também sou temente a Deus! Agradeço a Ele todas as graças que obtive até hoje. Agora, se me dão licença, tenho umas coisas a fazer...esses malditos ambientalistas vagabundos não pedem por esperar! Passar bem.

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