terça-feira, abril 19, 2011

Das burocracias


Na verdade ele é um cara quase legal. O "quase" nem é por culpa dele, mas da rotina estressante que é a vida moderna ou pós-moderna ou o nome que se queira chamar. Por isso às vezes o encontramos nervoso, sem paciência, mal humorado... mas, de resto, é um cara que poderia até reunir alguns pontos simpáticos em comum, sabe? Coisas como torcer pelo mesmo time, ter as mesmas ideias políticas, a marca de cerveja preferida e até mesmo hobbies interessantes como catalogar borboletas.

As tentativas de humanizá-lo, entretanto, terminam quando o sujeito ergue a voz em volume suficiente para que todos ouçam a reprimenda:

- Cadê o formulário da GARE preenchido? E cadê a segunda via da certidão de antecedentes criminais?

O "cadê" é emitido entre um tom desafiador e triunfante - "Peguei mais um!" - chamando a atenção daqueles que estão ao redor na fila ou aguardando os trâmites no guichê ao lado. "Essa gente enrolada que não traz a documentação", provavelmente estão a pensar enquanto olham para a cara do cidadão já afoito mexendo em uma pasta repleta de papéis onde tem de tudo - menos o tal formulário e a segunda via sabe-se lá para quê. O cidadão ainda tenta argumentar, mas não há espaço para negociações: ali está um agente da burocracia, funcionário público no cumprimento do seu dever. "O protocolo é esse", brada o funcionário-otoridade procurando em uma só tacada a autodefesa e a isenção de quaisquer responsabilidades. E chama a próxima senha, quer dizer, o próximo cidadão, sem espaços para comiseração com o sofrimento e dúvida dos outros, porque ali não se pode perder tempo - o cidadão ainda pede uma orientação e a recebe, de forma preguiçosa. Te vira, rapaz! E aproveite e pegue outra senha, mas para o dia seguinte.

O funcionário podia demonstrar ao menos alguma simpatia ou um gesto gentil, o que custa? "Brasileiro, né? Se abrir os dentes e der a mão, querem logo o braço e te chamam de amigo de infância". A não ser que o cidadão resolva... esqueçam, não é o que vocês estão pensando.

O barulho é infernal: as campainhas do painel de senha são quase abafadas pelo blablabla das pessoas que puxam conversa - e sempre tem aquele que sabe ou entende mais do que você desses papéis todos – e a TV ligada. Mas quem está interessado nas dicas de bem-estar que passa naquele canal de TV pela manhã? Mistério: em todos os consultórios, repartições e bares em que há uma TV ligada para “distrair” a longa espera, sempre o mesmo canal. "Me empresta uma caneta? Nem dá pra ouvir os ingredientes direito, será que puxo na internet?"

Ah, o a expressão de alívio daquele que resolveu seu problema! Um turno de trabalho perdido, senha número 97 chega finalmente ao guichê. O processo dura, se tanto, 5 minutos: duas carimbadas - o carimbo! - e pronto, o rosto do cidadão é radiante, pois resolveu o problema mais complicado, o que vier daqui pra frente é moleza! O funcionário burocrata não demonstra emoção, satisfação, nada: simplesmente grita "próximo!" porque o apito do painel da senha não foi ouvido e as pessoas se distraem facilmente! “Essa gente que não presta atenção!”

Falemos da varinha de condão do serviço público, da burocracia, dos cartórios: o carimbo. Onde há carimbo, há ouro. O carimbo mostra que o cidadão está "quites" com o governo ou com a lei. Como estamos em tempos da internet inventaram a "certificação digital", algo como uma versão on-line do carimbo. Aquele orgão do governo fez toda a propaganda de que estaria investindo na "informatização do setor", o que realmente aconteceu. O cidadão, ingênuo telespectador no intervalo do telejornal, pensa: "Vai facilitar o acesso, vai acabar com a burocracia". Coitado! No final, não tem certificação digital, certidão impressa da internet, nada disso: o carimbo é que resolve! O carimbo na xerox autenticada, o carimbo manuseado com tanta destreza pelo funcionário que sabe do poder que possui em mãos tal como Thor e seu martelo.

O cidadão quer descarregar sua frustração e revolta no funcionário. Não pode, primeiro pela lei: desacato a funcionário público no exercício do trabalho é crime. Segundo porque o cidadão sabe, no fundo, que a culpa não é do funcionário, que pode até mesmo ser um cara legal. Mas adoraria descobrir quem foi a mente engenhosa que criou todos esses mecanismos que convergem para a burocracia. Vai ver, foi algum russo que exagerou na vodka ou um português chafurdado em barril de vinho. Quer coisa mais estranha que “reconhecer firma”?

- Vou fazer o reconhecimento da firma.

- Boa sorte! Os cartórios e tabeliães vão te dar uma canseira!

- Não, não: vou ao IML. Minha firma faliu.

21 comentários:

  1. É incrível como, através de suas crônicas e charges, sou capaz de refletir e até de dar boas risadas de coisas horríveis como a tal da burocracia!...PS: Será que precisarei "reconhecer firma" do meu comentário??? Beijão, Lê

    ResponderExcluir
  2. Lê, você sabe que é liberada de qualquer burocracia, né? Você é da casa rs

    Obrigado por suas palavras sempre carinhosas e gentis. Bom que essas mal digitadas causem algum sentimento nas pessoas rs

    Bejão!

    ResponderExcluir
  3. Acho absurdo também o excesso de burocracia nos serviços de saúde pública. Não é só um turno inteiro de trabalho perdido, mas dois, três ou mais!

    ResponderExcluir
  4. Pois eh, essa burocracia que esta me impedindo de atingiras coisas... rsss
    ou a minha preguiça!
    (Q e tnta q ate fugindo daki eu tenho... rsss
    Mas adoro ler vc!!! msm aparecendo raramente... rs

    (Mas com o barrigao q eu to eu posso ter preguiça, neh??) rsss

    ResponderExcluir
  5. E eu tenho quase certeza que herdemos isto dos portugueses... ô povinho burocrático, hein!

    ResponderExcluir
  6. Olá, professor!

    Tem uma “charada” que escutei várias vezes: O que sai do cruzamento da burocracia com a má vontade? Um funcionário público!
    E escutei calada. Não posso culpar quem pensa assim, inúmeras vezes fui atendida por pessoas que pareciam estar me fazendo um doloroso favor ou que transpareciam que minha ida ao setor era um estorvo. Isso sem contar nas vezes em que cheguei num determinado balcão e fiquei esperando o fim do papo sobre alguma coisa que tinha passado na TV.
    Quando fui trabalhar com atendimento ao público, preferi tratar as pessoas como eu gostaria de ser tratada. Não sei qnto tempo isso dura, mas tem sido assim.
    É claro que não posso garantir satisfação total nem a pessoal amada de volta em sete dias porque aí entram muitos outros fatores, entre eles, claro, a burocracia. E ela está presente, gargalhando da sua cara, em tudo que é canto do setor público. E talvez esteja ali pra comprovar se vc é brasileiro e não desiste nunca ou para tentar te vencer pelo cansaço mesmo.
    Sobre a importância do carimbo, certa vez assisti uma reportagem sobre “autenticação digital” que mostrava a relutância de pessoas e entidades (comerciais) temendo o aumento de fraudes. Mas na verdade, creio que seja mais um “pra q facilitar?”.

    Bjohnny!

    ResponderExcluir
  7. Sei bem como é isso, porque convivo com a burocracia todos os dias no meu trabalho. E por mais que eu tente prestar um atendimento mais humano, existe também o preconceito de que somos "todos iguais", e antes que eu possa abrir a boca, as pessoas sentam-se à minha mesa com a ideia errada de que eu não gosto de trabalhar...
    O mundo já é complexo o bastante, por que não simplificar???
    Abraços...

    ResponderExcluir
  8. Peterson, realmente. E quando falta um documento, pronto, lá se vão 2 ou 3 dias... :(

    ResponderExcluir
  9. Aninha, você pode, tá liberada! hahaha! E nem é preguiça, é que só em pensar lidar com aquele monte de papéis e exigências dá é muito desânimo...rs

    ( e também porque agora não é só você, né? rsrs)

    Gosto muito quando você aparece por aqui! =)

    ResponderExcluir
  10. Cali, sei não...os russos também eram bem complicados, quiçá piores, viu? rs

    ResponderExcluir
  11. Olá, moça cabofriense!

    Tudo o que for feito para facilitar é, na verdade, desestimulado. Veja o Código Civil promulgado em 2002 desobrigaria a necessidade de autenticar documentos para matrículas em faculdades, por exemplo.

    " As reproduções fotográficas, cinematográficas, os registros fonográficos e, em geral, quaisquer outras reproduções mecânicas ou eletrônicas de fatos ou de coisas fazem prova plena destes, se a parte, contra quem forem exibidos, não lhes impugnar a exatidão."

    O problema ali é o "SE". E a faculdade ou universidade botou no edital a obrigatoriedade em apresentar a xerox autenticada, já era: vai a um cartório e paga uma nota por uma carimbada para provar que SEUS documentos ORIGINAIS são VERDADEIROS mesmo!

    Acho que o Kassab em SP promulgou lei desobrigando autenticação de documentos em algumas repartições, não sei bem como funciona.

    É incrível. E o pior é que não tem como deixar se derrotar pelo cansaço, tem que mostrar que não desiste nunca e que é um povo heróico, mas não pode soltar um brado retumbante senão o braço forte da lei tira a liberdade dos raios fúlgidos! =)

    Bjk!

    ResponderExcluir
  12. Pois é, Jenny, existe mesmo essa concepção... e o funcionário tá ali cumprindo aquilo que foi ordenado. Mas infelizmente há funcionários - como em todas as profissões e felizmente a minoria - que abusam deste "poder", digamos assim.

    Terrível!

    Abs!

    ResponderExcluir
  13. Oi, Jaime. O carimbo para certos burocratas têm um componente fálico, uma sensação de poder. Que substitui o dinheiro - que é outra sensação (real) de poder. Aliás, já repaorou que onde o dinheiro corre "por fora" o carimbo se faz desnecessário? hahaha! Para mim continua sendo sinal de que muita coisa precisa ser virada ao avesso se esse país está mesmo querendo chegar ao famigerado primeiro mundo. Abraço grande, meu amigo. Paz e bem.

    ResponderExcluir
  14. Excelente crônica vizinho, é com muito prazer que pago minhas dívidas vindo aqui para as deliciosas leituras que vc proporciona, que sem burocracias, meu tempo de inadimplência não atrapalha as admirações! ;) Beijão querido, boa páscoa.

    ResponderExcluir
  15. PS: Aqui não há nem a burocracia de aguardar a aprovação dos comentários, vc nem parece funcionário público vizinho! kkkkk

    ResponderExcluir
  16. Tenho até teorias de que Burocracia causa impotência sexual.

    ResponderExcluir
  17. Adorei a sua crônica. Muito boa. As suas charges são espetaculares também.
    Ri sozinha me imaginando e tentando contar em quantas vezes passei por essa situação.

    Beijocas

    ResponderExcluir
  18. Cacá, já reparei sim, principalmente na figura ilustre do DESPACHANTE! hahahaha! Claro, não estou generalizando, mas tem uns por aí que conseguem coisas que até eles duvidam, se pararem para pensar...rsrs! Abs!

    ResponderExcluir
  19. Vizinha,você tem passe livre por aqui, sou um funcionário público bonzinho kkkkkk :) Muito obrigado por sua visita e comentário, é sempre um prazer! Bj!

    ResponderExcluir
  20. Sanchez, a julgar pelo mau humor de alguns funcionários, acredito que sim...e o sexo deve ser bem burocrático hahaha! Abs e obrigado pela visita! :)

    ResponderExcluir
  21. Simone, muito obrigado pelas palavras. É, e quem não passa por essas situações, né? A gente ri depois, porque na hora...grrrrr! rs Bjks!

    ResponderExcluir

Agradeço sua visita e o seu comentário! É sempre bom receber o retorno dos leitores.

Todas as opiniões são livres, porém não serão aceitos comentários anônimos e tampouco comentários ofensivos, discriminatórios e que não prezam pelos princípios da boa convivência - o autor do blog reserva a si o direito de excluir comentários com tais temas.

Volte sempre! =)

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails