quarta-feira, dezembro 17, 2008

"Voluntários" e soldados do exército em Santa Catarina roubam doações: fato isolado ou algo comum?

O vídeo que mostra alguns “voluntários” ( atenção: tomemos o cuidado para não rotular os voluntários que trabalham em Santa Catarina) e alguns soldados do exército simplesmente roubando roupas e mantimentos doados para as pessoas desabrigadas em Santa Catarina já está “rodando” pela internet e vem sendo destaque em algumas emissoras de TV.

Para quem ainda não viu:



É revoltante, é antiético, é desonesto e tudo o mais. Na verdade é apenas mais um pouco do tanto de aproveitadores que tentam se dar bem com uma tragédia ( leia também o post "Aproveitadores da Tragédia em Santa Catarina").

Mas estive por aqui refletindo: seria um fato isolado ou algo que já faz parte da vida de muitas pessoas?

- É proibido retornar aqui, olha a placa!
- Ah, ninguém tá vendo mesmo e o próximo retorno é lá na casa do chapéu!

- Ih, a moça do caixa deu troco a mais.
- Já era, problema dela.

- Ô, o final da fila é lá atrás!
- É só um minutinho, amigo, só vou perguntar uma coisa pra moça...

- ‘Bora ali na feira do rolo!
- Mas lá só tem coisa roubada!
- E daí?

- Pô, meu velho, não jogue a latinha no chão, não...
- Fique na sua, mermão...tu não é minha mãe!

- Deixa eu provar desse iogurte aqui...ahhh! É ruim! Credo!
- É, mas agora abriu e tem que levar.
- Que nada! É só fechar aqui, ó...pronto! Volta lá pro lugar, nem parece que mexeram.

- O farol tá queimado e o licenciamento tá atrasado.
- Olha, seu guarda, estou ciente disso e juro que vou resolver tudo...é que a situação ta difícil e tal...tem como liberar não, seu guarda?
- Bom, vê um agradozinho aí que a gente dá um jeito.

Pois é. No dia a dia vemos uma série de situações em que prevalece a famosa “Lei de Gérson”, onde o que importa é levar vantagem em tudo, seja lá de que jeito for. Mas isso não é novo no Brasil.

Desde as bajulações de Pero Vaz de Caminha a el-rei de Portugal na carta de "descobrimento" do Brasil, passando pela vinda (leia-se fuga) de D. João VI, com romances como “Memórias de um Sargento de Milícias” ( recomendadíssimo) retratando o cotidiano carioca e por contos de Machado de Assis e Lima Barreto (geniais), verificamos que o “arranjei-me” já está entranhado na formação do país.

É o “jeitinho brasileiro”, que Roberto Da Matta define: “nos países igualitários, não há muita discussão: ou se pode fazer ou não se pode. No Brasil, porém, entre o ‘pode’ e o ‘não pode’, encontramos um ‘jeito’. Na forma clássica do ‘jeitinho’, solicita-se precisamente isso: um jeitinho que possa conciliar todos os interesses, criando uma relação aceitável entre o solicitante, o funcionário-autoridade e a lei universal”.

Quem aqui já não utilizou um “jeitinho” diante de algumas situações onde não raro a burocracia impera?

O problema é quando esse já famoso jeitinho torna-se um hábito recorrente, passando a reger todas as situações. Como o jeitinho, o “aproveitar” já é comum em muitas pessoas e normalmente elas cometem desvios como esses em Santa Catarina. Talvez até tenham consciência de que estejam fazendo algo errado, mas a tentação em "aproveitar porque ninguém está vendo mesmo" é maior.

E daí para desvios maiores é uma tênue barreira. É do “jeitinho” ao “aproveitar”, do “aproveitar” ao “desvio”, do “desvio” à “fraude”, e por aí segue. Basicamente estas pessoas estão ao mesmo nível de políticos, empresários e especuladores que desviam milhares de reais dos cofres públicos.

A diferença, aí, é apenas na questão de valores (bens) e posição social.

Visite também: GROOELAND 2.0!

E, pra encerrar a semana...ele, RONALDO, O FENÔMENO...de marketing ( e que segundo fontes ligadas ao jornalismo esportivo, poderia ter ido pro Santos. O problema é que o time da Vila já tem a Baleia como mascote).

sábado, dezembro 13, 2008

21 minutos que valem a pena

Com esta correria típica de final de ano no ramo da educação sobra pouco tempo para atualizar o blog. Assunto não falta, falta tempo, na verdade.

Então recorrerei a uma estratégia muito comum entre muitos blogueiros: adicionar um vídeo.
Mas não é um vídeo qualquer, tampouco uma pegadinha de 1 minuto feita pra dar risada e render comentários profundos do tipo "ae moh legau".

O vídeo postado aqui tem longos e quase inimagináveis 21 minutos - para internet e para um blog isso é uma eternidade. "Quem vai parar para ver um vídeo com mais de 20 minutos hoje em dia e ainda mais no seu blog???"

Talvez algum desavisado ou um e outro que não tenha muito o que fazer. Mas este vídeo eu recomendo que "gaste" preciosos 21 minutos de seu tempo para vê-lo. É daqueles que valem realmente a pena e nos deixa com um "ponto de interrogação" na mente...ou uma certeza: fomos e estamos, como humanidade, indo longe demais.

Caso o vídeo não carregue aqui no blog, assista-o diretamente no youtube.



RONALDO
Como o assunto da semana foi o Ronaldo e o Corinthians, meu alter-ego Ministro Veiga também foi no embalo e pegou carona no oba-oba da mídia...com o sarcasmo característico do Veiga:
GROOELAND2.0
O wordpress não tem uma interface muito amigável, mas confira também o post "máscaras" no Grooeland 2.0.

quarta-feira, dezembro 03, 2008

Aproveitadores da tragédia em Santa Catarina

O telefone toca e do outro lado da linha uma pessoa identifica-se como representante da Defesa Civil de Santa Catarina e pede doação em dinheiro para ajudar as vítimas das chuvas e desabamentos no estado. A pessoa fornece o número de uma conta para depósito ou manda um motoqueiro buscar o dinheiro no endereço que o doador fornecer.

Este é apenas um dos vários golpes que vem sendo usados em nome da tragédia em Santa Catarina por aproveitadores que enxergam uma oportunidade de lucrar alguns trocados com a boa vontade da população.

Estou falando em golpe e de aproveitadores porque deparei com uma notícia que precisa ser mais apurada e merece maiores detalhes. Vou reproduzir um trecho aqui:

O Ministério Público do Estado de São Paulo (MP-SP) negou que esteja fiscalizando a campanha de arrecadação de dinheiro promovida pela Record para reconstruir casas afetadas pela chuva em Santa Catarina, diferentemente do que a emissora vem divulgando.

A informação é do jornal Folha de S.Paulo, que continua:

Desde a última sexta-feira (28), a emissora divulga o número de uma conta bancária do Instituto Ressoar (ONG que pertence à TV) para que os telespectadores façam doações. Para dar credibilidade à campanha, a rede informou durante a programação que os gastos seriam auditados pelo Ministério Público.

O próprio MP, no entanto, esclareceu que não cabe à entidade fiscalizar esse tipo de campanha.

Seria esse outro trambique da IURD? O jornal estaria mentindo? No site do Instituto Ressoar não há nenhum esclarecimento (até agora, 02/12) sobre a nota divulgada pela Folha de S.Paulo. Há uma espécie de “prestação de contas” com o montante arrecadado e de quantas casas populares serão construídas (ao custo de R$ 15 mil cada uma).

Há quem possa pensar o seguinte: o que importa é que a igreja e a emissora estão ajudando as pessoas em Santa Catarina.
Toda a ajuda às pessoas será muito bem-vinda. Mas precisa divulgar uma informação que não é verdadeira apenas para conferir credibilidade ao movimento? Se não havia o que desconfiar da ação da IURD através do instituto dirigido pelo pastor Ivanildo Lourenço, o comunicado do Ministério Público termina por “queimar o filme” da emissora, do instituto e da igreja.

Não é a primeira vez que a emissora tenta manipular dados e informações. Neste ano a emissora já manipulou grosseiramente gráficos do IBOPE para induzir os telespectadores que estava “encostado” e “ultrapassado” a emissora líder, no caso a Rede Globo.

Mas vamos ser sinceros: não achem que a emissora e a IURD estão fazendo isso por puro altruísmo e movidos pelo espírito cristão. Quem conhece as práticas da igreja sabe que os métodos empresariais e financeiros dão o tom entre os pastores e bispos. E o “SOS Santa Catarina” cheira sim a oportunismo de uma bem tramada estratégia de marketing social ( e nisso há semelhanças com o “Criança Esperança” da Rede Globo). Faz bem para a imagem tanto da emissora quanto da igreja, que tem dois alvos: a emissora concorrente e a Igreja Católica.

“A Globo e a Igreja Católica não fazem nada, pelo menos eles da Universal fazem alguma coisa, seja lá o modo como fazem”. Se você pensa assim significa que a estratégia da Record e IURD funcionou. E vem funcionando.

Em Salvador a TV Itapoan, emissora que é afiliada da Record, vem fazendo campanha maciça para arrecadar roupas, alimentos e dinheiro para o SOS Santa Catarina. E é grande a quantidade de doações.

Repito: não há mal nenhum em ajudar. Há vários modos de se ajudar as vítimas em Santa Catarina. O problema é que a pouco mais de 100 km de Salvador há pessoas que sofrem com a seca e não tem TV Itapoan, não tem Record, não tem Ressoar de trombetas, não tem IURD, não tem nada. Só a bolsa-família para aliviar um pouco o sofrimento de quem vive no semi-árido. E é na Bahia e no Nordeste: só em Pernambuco já são 390 mil pessoas sofrendo com a seca. É uma catástrofe natural, mas pouco lembrada.

E, quando chove forte, desaba quase tudo. Já ouviu falar do município de Coração de Maria, a 104 km de Salvador? Pois é. Clique AQUI para saber o que aconteceu com a cidade.

QUEM QUISER AJUDAR
Como mais uma vez a IURD demonstra não ser muito confiável, o portal TERRA divulgou uma lista de entidades e canais pelos quais as pessoas podem fazer suas doações para Santa Catarina. Além disso, há o próprio site da DEFESA CIVIL DE SANTA CATARINA que disponibiliza informações para os doadores.

RECOMENDAÇÃO
Recomendo entusiasticamente a leitura do blog “Antes que a Natureza Morra”, que traz informações bastante interessantes e pouco divulgadas na “grande imprensa” sobre os descasos ambientais em Santa Catarina. Leia com atenção a postagem “o outro lado do drama em Santa Catarina”. Obrigatório. Luís Nassif também abordou o assunto e também o site O ECO traz uma matéria reveladora sobre Santa Catarina.


Aos poucos vamos pinçando informações aqui e ali apenas para comprovar o óbvio: as políticas ambientais no Brasil são tratadas como lixo. O terreno é fértil para ONG's picaretas ( e como tem ONG picareta no Brasil principalmente pelos lados da Amazônia) e aproveitadores de todos os tipos.

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