sexta-feira, outubro 31, 2008

Notícias que "não importam"

Como agora nossa imprensa só tem olhos para dois assuntos ( crise apocalíptica e Obama X McCain), as notícias que vocês verão por aqui tiveram aquele box espremido lá no rodapé das páginas de jornais e não mereceram “análises minuciosas de especialistas econômicos”.

Vamos à primeira:




Governos vão ao STF para barrar piso do magistério
Os governadores de cinco Estados (Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Mato Grosso do Sul e Ceará) ajuizaram ontem, no Supremo Tribunal Federal, ação de inconstitucionalidade contra dispositivos da Lei 11.738/08, que estabelecem piso salarial de R$ 950 para os professores de escolas públicas e um terço da jornada de trabalho fora das salas de aula, para que aprimorem seus conhecimentos.

De acordo com os governadores do Ceará, Cid Gomes, e do Rio Grande do Sul, Yeda Crusius , que fizeram questão de protocolar a ação pessoalmente, a lei federal, na medida em que tratou de questão da competência dos Estados, constitui "atentado à autonomia constitucionalmente assegurada".

Além disso, alegam que o aumento dos custos em virtude da necessidade de contratação de novos docentes para suprir a diminuição da carga horária dos atuais professores é estimado em "milhões de reais anuais".



É. Pois é. É um crime pagar R$ 950 para professor. Mas não acabou ainda...olha só essa notícia:
Câmara de Salvador aprova aumento para prefeito reeleito
A Câmara de Vereadores de Salvador aprovou um aumento de salário para prefeito, vice e secretários municipais. O aumento de 29,8% foi concedido três dias após o segundo turno das eleições, em que João Henrique Carneiro (PMDB) foi reeleito na disputa contra Walter Pinheiro (PT).

Com o reajuste, Carneiro, que havia vetado a proposta às vésperas do primeiro turno, passará a receber R$ 11.145,66. O salário anterior do prefeito era de R$ 8.586.
Vice-prefeito e secretários municipais também foram beneficiados. Com os 29,8% de reajuste, eles tiveram seus salários aumentados de R$ 7.155 para R$ 9.288,05. Na votação da proposta, apenas dois vereadores dos 35 presentes foram contra o reajuste.



Este assunto do piso e dos governadores tentando barrá-lo já foi tratado aqui neste blog, mas é sempre bom voltar à tona, mesmo que para 3 ou 4 corajosos leitores. Talvez estes disseminem estas notícias por aí.


Não é impressionante a canalhice? Veja o prefeito reeleito de Salvador, João Henrique: por conta das eleições, o prefeito vetou o aumento considerável para ele e secretários. Até porque ele não saberia se iria continuar lá e também pelo desgaste na imagem do candidato perante a população.


Já estes governadores até que foram coerentes: estão tentando barrar este piso nacional para os professores há algum tempo. Mas durante as eleições todo mundo ficou quietinho.


Bastou o período eleitoral terminar e volta tudo ao que era antes: o prefeito que rapidinho e sem problemas reajusta o salário ( dele e de secretários aspones) e governadores que consideram um “atentado à autonomia estadual” um piso de R$ 950. Gozado que sempre há dinheiro para reajustes como estes em Salvador e as coisas são votadas tão rápidas, ao passo que para se conseguir um piso nacional para o magistério da bagatela de pouco mais de 900 reais é uma luta, uma demora, são ações aqui e ali, justificativas de todos os tipos (contra, é claro)...


Ora, nem 5% do PIB Nacional é destinado à educação. O próprio ministro Fernando Haddad já dissera em várias oportunidades que o mínimo exigido para a educação deveria ser 6% do PIB.


Na verdade o ideal que é feito do professor por estes políticos e burocratas de plantão é o “professor-sacerdote”, aquele que se doa por uma causa e não mede esforços pela educação. O ensino público brasileiro é composto por professores com má-formação acadêmica (os cursos de pedagogia e vários de licenciatura são coordenados por mestres e doutores que, em muitos casos mas sem generalizar, nunca pisaram os pés em uma escola pública na periferia e desconhecem totalmente o cotidiano do professor), com carga horária elevada (não são poucos os professores que trabalham 60 horas semanais nas escolas), com condições de infra-estrutura muito ruins (apesar de alguns acharem que ter água e luz na escola já está de bom tamanho) e péssima condição salarial.


Claro que existem maus profissionais que ganham até muito pelo o que fazem ( ou não fazem), mas estes constituem-se em exceções diante do quadro geral de magistério, onde vemos boa parte dos professores tentando ( muitas vezes às próprias custas) conferir qualidade à educação.


Como se não bastasse, o professor ainda tem que atuar em várias frentes, pois a “educação integral” da criança e do adolescente deve ser de responsabilidade total e única dos professores, quando na verdade “educador” é tanto o pai, a mãe, o professor, o vizinho, o dono da birosca que não deveria vender pinga pro aluno com a camisa da escola, do político que deveria tomar vergonha na cara, do policial, da sociedade em geral.


Estas notícias acabaram passando “batidas”. Inclusive por muitos professores. Não é de surpreender. A imprensa, quando não tem algum Big Brother em apartamentos por aí, está mais preocupada com a crise apocalíptica quem vem aí ( embora a dona Dalva que vende salgadinho ali na esquina se pergunte “que diabo de crise é essa?”) e com Democratas e Republicanos do que com notícias mais relevantes para a vida real dos pobres mortais que não especulam em bolsas, não tem bancos falidos e não viajam todo o final de ano para Miami ou New York.


Enquanto isso, os canalhas pintam e bordam. E dá-lhe Obama contra a crise!

sexta-feira, outubro 24, 2008

A crise econômica e o futuro da humanidade (salve-nos, Carla Bruni!)

O presidente da França, o atlético e simpático Nicolai Sarkozy, fez uma declaração para encher de esperança a humanidade aflita com a crise econômica:

“A crise financeira põe em perigo o próprio futuro da humanidade".

Ou o esbelto presidente francês anda assistindo muito a Miriam Big Pig ( a porta-voz do apocalipse financeiro) ou a Carla Bruni está dedicando mais tempo ao seu violão.

Este humilde e tosco blog lido pelos seus 3 ou 4 corajosos leitores terá a petulância em mostrar ao Sarkozy o que realmente coloca em perigo o futuro da humanidade. Duas notícias que passaram despercebidas ao longo destas semanas em que “o mundo” só anda preocupado com a crise.

O Fundo Mundial para a Natureza ( WWF em inglês) alerta: mudança climática é mais rápida e mais grave do que se temia.

Outra notícia que passou batida:

Pobreza extrema atinge 1,4 bilhões de pessoas. São pessoas que vivem em extrema condição de pobreza ou com pouco mais de US$ 1 por dia.

Estas notícias não foram publicadas em algum jornaleco de esquerda em uma república de bananas qualquer. Tiveram sua gênese na Europa, continente onde situa-se a França, que o lar doce lar de Sarkozy.

O que leva um presidente a fazer uma declaração tão infeliz e apocalíptica como esta? Seria “realismo” ou ignorância mesmo? Ou seria desespero pelos amiguinhos especuladores pedindo ao estado “pelo amor de Deus, um dinheiro aí”?

Não deveria o Sarkozy se comportar como o "analfabeto e sapo barbudo" Luís Inácio Lula da Silva, que aparentemente se porta com tranqüilidade e otimismo diante da crise ( para desespero da Miriam Big Pig, Arnaldo Jabor, Reinaldo Azevedo, Mainardi e demais reaças com PHD sem sei-lá-o-que)?

O mais interessante é que essas duas reais ameaças para a humanidade ( mudança climática e pobreza extrema) tem saídas para que sejam ao menos amenizadas, ao contrário da atual crise econômica.

O diretor da FAO (organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação), o senegalês Jacques Diouf, já deu a receita: com US$ 30 bilhões atuais daria para recuperar a agricultura nos países pobres e com US$ 40 bilhões daria para comprar 250 quilos de grãos para quase 1 bilhão de desnutridos no mundo.

É muito dinheiro? Quanto foi que os EUA e a União Européia injetaram nos bancos falidos mesmo?

Mas isso é fácil entender, de certo modo. Mike Davis, em seu “Planeta Favela”, escreve:

“É claro que este é um mundo no qual as reivindicações dos bancos e credores estrangeiros sempre tem precedência sobre as necessidades de sobrevivência dos pobres rurais e urbanos; é um mundo no qual é considerado ‘normal’ que um país pobre como Uganda gaste per capita doze vezes mais com o pagamento da dívida de todo ano do que com assistência médica em meio à crise do HIV e da AIDS”.

Durante as décadas de 80 e 90 as cartilhas do FMI ditavam as receitas para o “crescimento” em países subdesenvolvidos ou “em vias de desenvolvimento”. Os países se atolaram na miséria e em crises dramáticas com dívidas impagáveis enquanto os grandes banqueiros e especuladores riam à toa:

"Durante os anos 1980, para cada US$ 100 adicionados na economia global, cerca de US$ 2,20 eram repassados para aqueles que estavam abaixo da linha de pobreza. Durante a década de 1990, esse valor passou para US$ 0,60. Essa desigualdade significa que para que os pobres se tornem um pouco menos pobres, os ricos tem que ficar muito mais ricos".

Esta afirmação interessante sobre o sistema atual é de Andrew Simms, diretor da New Economics Foundation, com sede em Londres (leia o artigo, é bastante esclarecedor e herético ao "deus mercado"). Note: em Londres. Não é bravata de algum ditador maluco que estatiza bancos...epa! E não é que agora estão estatizando bancos por aí?

Mas o que aconteceu com “a mão invisível do mercado” e a “auto-regulamentação financeira sem intervenção estatal”? Pois é. Um dos papas do neoliberalismo, Alan Greenspan, ex-presidente do FED (Banco Central norte-americano) e possivelmente o ator principal dos sonhos eróticos de Miriam Big Pig, soltou essa:

''Eu cometi um equívoco ao presumir que os próprios interesses das organizações, especificamente os bancos, entre outras, eram de tal natureza que as tornavam mais capazes de proteger os seus próprios acionistas e a sua equidade''.

Ora, mas é o fracasso do neoliberalismo. Fracasso em termos, porque funcionou durante anos e cumpriu seu propósito: enriqueceu um bando de espertalhões e mafiosos ligados à jogatina das bolsas e corporações.

Por isso o Sarkozy está desesperado: acabou a farra. Um novo modelo econômico deve se impor. O atual sistema só fomenta desigualdades e deixa mercados vulneráveis a mais crises.

Carla Bruni deveria cantar uma musiquinha de ninar pro Sarkozy. Aliás, não é só pro Sarkozy não. Muita gente por aí ( incluindo "especialistas econômicos") anda precisando.

Enquanto isso, no Brasil
A adolescente Nayara confirmou que o maníaco Lindemberg só atirou nas garotas no momento em que a polícia invadiu o apartamento em Santo André.

A blindagem ao governo José Serra continua: por que os vetustos jornalistas não questionam de onde partiu a ordem para tal invasão? E por que nenhum dos admiráveis órgãos de imprensa paulistanos não trata da grave crise na segurança pública em SP com a mesma profundidade que tratou do “caos aéreo”?

O projeto é claro: Nosferatu 2010. E a partir de terça-feira ( porque segunda é dia de “análise” das eleições) tome crise, crise, crise e mais crise.

segunda-feira, outubro 20, 2008

A atuação da imprensa em Santo André ( Eloá) e a blindagem ao governo

Ninguém deve dar conta oficialmente do que pensa. Em troca, todos são encerrados, do começo ao fim, em um sistema de instituições e relações que forma um instrumento hipersensível de controle social. Quem não quiser soçobrar deve não se mostrar muito leve na balança do sistema. Adorno

Quem assistiu ao Fantástico neste domingo viu uma matéria com um brasileiro especialista em segurança responsável pelo treinamento de equipes da SWAT.


Uma afirmação forte do instrutor dizendo que “sentia vergonha de ser brasileiro” ao ver a ação desastrada da polícia mostrou a indignação do especialista com os métodos utilizados pelo GATE. E sugeriu algumas alternativas que poderiam ser utilizadas para solucionar um seqüestro que durou mais de 100 horas.

No entanto as alternativas sugeridas pelo instrutor para um resgate bem-sucedido esbarrariam em um detalhe: a cobertura irresponsável e circense da grande mídia/ imprensa.

Qualquer ação que fosse tomada pela polícia, lá estava uma câmera de TV mostrando “ao vivo para todo o Brasil”. Inclusive para o Lindemberg. Até emissoras de rádio detalhavam o que os policiais estavam fazendo e, principalmente, o estavam planejando fazer. Até um radinho de pilha ou um FM de celular já bastavam para informações.

Basta verificar a postagem anterior neste blog: a própria polícia ficou incomodada com a atuação da grande mídia. Lindemberg foi elevado à categoria de “astro” em alguns programas de entretenimento espalhados pela TV e apresentadores de fofocas e trivialidades agiam como negociadores da polícia. Algo deplorável que rendeu pontos no famigerado IBOPE. Certamente urubus do naipe de Sônia Abraão, Brito Jr, Datena e tantos outros comemoraram um ou outro pontinho a mais.

Esperava-se que Isabela Nardoni deixasse algumas lições. Deixou, mas diante dos pontinhos do IBOPE e da “exclusividade”, às favas qualquer bom senso!

A IMPRENSA
O depoimento da garota Nayara, sobrevivente do seqüestro, promete uma reviravolta neste caso. Aliás, Nayara é “peça-chave” para que se comece a apurar algumas responsabilidades que levaram à morte da garota Eloá.

Pra começar, o pai de Nayara reafirma categoricamente, para quem quiser ouvir, que não deu autorização para a garota retornar ao cativeiro e, pior, isso foi considerado pela polícia como “estratégia de negociação”. No entanto, o pai de Nayara não é ouvido. Ficamos com a “versão oficial” do coronel da PM falando sobre tal estratégia ( condenada por todos os especialistas ou pessoas ligadas à segurança).

Agora, Nayara afirma que Lindemberg só atirou nas duas garotas QUANDO a polícia invadiu o apartamento, contradizendo a “versão oficial” da polícia.

E o que a imprensa tem a ver com tudo isso? Muita coisa. Primeiro existe, sim, uma tentativa em poupar a polícia paulistana e os comandantes da operação de falhas grotescas ocorridas na ação.

Tudo aconteceu muito rápido: a crise entre polícia militar e polícia civil em SP com direito a uma das mais lamentáveis e chocantes manifestações já vistas e o terrível desfecho em Santo André.

Segundo, as questões se segurança pública, de alçada estadual. É blindagem total ao governo Serra, que acalenta o sonho de ser presidente da República e não esconde isso de ninguém. O desespero de José Serra durante a manifestação das polícias foi tão evidente que a primeira coisa que ele fez foi culpar o PT e o deputado Paulinho da Força Sindical pelo o que aconteceu.

Marta Suplicy, que cometeu uma cagada imensa com sua tática burra e preconceituosa em questionar a vida pessoal de Kassab (embora a VEJA também tenha feito suas perguntinhas capciosas para o candidato a prefeito), relaxou e gozou com o desequilíbrio do governador Serra.


Para a “crise mundial”, “especialistas” do porte de Miriam Big Pig se debruçam e tentam “analisar a fundo” os números da economia global e como isso vai quebrar o país. As frases do presidente Lula são esmiuçadas cuidadosamente, lidas e relidas para que se pegue “alguma besteira” (embora isso não seja difícil e o presidente solte lá suas pérolas de vez em quando).

Porém as graves crises nas áreas de segurança e educação que acontecem no governo José Serra não merecem “análises a fundo” e ninguém esmiuçou cuidadosamente a trapalhada que o governo de SP fez ao anunciar a morte da menina Eloá. Foi patético e cruel com a família e com os amigos: Eloá morreu. Eloá não morreu. Globo anuncia morte de Eloá; Globo anuncia que Eloá não morreu. Record News só aguarda confirmação da morte; Record News desmente.

Espera-se, agora, que Nayara não tenha sua opinião “mudada”. E que o pai da garota seja ouvido, também, mas não por urubus de entretenimento vespertino. Que não fiquemos apenas com a “versão oficial” da polícia e do governo. E que as eleições no próximo domingo não sejam empecilho para que as versões sejam confrontadas e chegue-se à verdade.

A ATUAÇÃO DOS BLOGS
Embora a população brasileira ainda não tenha acesso em larga escala à internet e muito do que é acessado na grande rede seja entretenimento e bate-papo, a atuação dos blogs é muito importante para que não exista apenas a “palavra oficial” da assessoria de imprensa governamental repetida pela grande mídia que joga com uma camisa e esta camisa não é a da informação com credibilidade, como gostam de propagar.

A partir da leitura de várias opiniões em blogs pode-se formar debates, discussões, obter pontos de vista diferentes, concordar, discordar, enfim, criar o primeiro passo para uma massa crítica com o vizinho, com os amigos...disseminar informações e questionar certos posicionamentos da grande imprensa.

E já está mais do que na hora.

INDICO
Há interessantes artigos na rede. Selecionei alguns que julgo valer a pena a leitura. Que algum tenho certo exagero ou seja contido, não importa. Leia, critique, concorde, discorde, repasse, dissemine. O importante é não ficar impassível diante do que vem acontecendo.

Crônica de uma tragédia anunciada :

A mídia e o seqüestro em Santo André

Nayara diz que Lindberg atirou após a invasão da polícia

Tragédias paulistas e paulistanas

O seqüestro: é você sob a mira de um revolver

Cidadania.com

O estatuto da criança e do adolescente e o seqüestro em Santo André

Sucesso, estilo, competência e um bom trabalho!


Matamos Eloá


Secretário de segurança: "É uma imensa infelicidade" (blog Josias de Souza)


Mídia foi criminosa e irresponsável"

sábado, outubro 18, 2008

Seqüestro em Santo André e a espetacularização entra em cena novamente

Não vou cair na armadilha fácil dos clichês que acusam a polícia paulista de negligente ou despreparada em relação ao desfecho lamentável do caso da garota Eloá, em Santo André, SP.

Até porque não sou especialista em táticas policiais e ainda há muitas perguntas sem uma boa resposta, como a volta da garota Naiara ao cativeiro com autorização da polícia ( algo inédito, segundo os próprios especialistas em segurança) e de onde partiu os tiros que acabaram atingindo as garotas ( até este momento, 18/10, 23:10, a garota Eloá ainda luta pela vida em um hospital, embora seu estado seja gravíssimo).

O máximo que eu posso dizer sobre a ação policial é que lembrou muito o caso do ônibus 174 no Rio de Janeiro.


A IMPRENSA E O ESPETÁCULO

"O espectador não deve trabalhar com a própria cabeça; o produto prescreve toda e qualquer reação(...) toda conexão lógica que exija alento intelectual é escrupulosamente evitada." Adorno

Há que se destacar a cobertura dada pela imprensa a este caso. Mais uma vez determinados setores da mídia seguiram o caminho fácil e questionável da espetacularização da notícia. O conjunto habitacional onde acontecia o “espetáculo” só foi esquecido momentaneamente por conta da manifestação da polícia civil e do choque destes com a polícia militar (aliás, que papelão do Serra. Se a Marta fala bobagem, Serra também não fica muito atrás).

Um programa matinal de “variedades” da Rede Record apresentou uma entrevista com o seqüestrador Lindemberg Alves onde o rapaz quase foi canonizado ali mesmo; o programa da fofoqueira sem escrúpulos ( há quem a chame de jornalista e pode ser que ela seja mesmo, inclusive com MTB) Sonia Abraão também trazia entrevista com o seqüestrador e este foi alçado à categoria de “coitadinho excluído da sociedade opressora”.

Então a imprensa é culpada por este terrível desfecho? Claro que não.É algo condenável quando a "grande imprensa" resolve criar circos para determinadas situações. E a polícia tem suas críticas em relação à atuação da mídia. Um capitão da PM declarou ao jornal Estado de S.Paulo:

“Para esse tipo de ocorrência existem pessoas treinadas, especializadas. Às vezes, uma palavra errada da apresentadora coloca tudo a perder.”

O resultado de tantos holofotes tornou o seqüestrador deslumbrado, como se fosse uma “vedete”, segundo o coronel José Félix, do Batalhão de Choque.

PREOCUPAÇÕES
Como o pior já está feito, este blogueiro só tem algumas preocupações:

1 – que a garota Eloá, de apenas 15 anos, consiga vencer a morte e que tenha uma longa e feliz vida;

2 – algumas besteiras que começam a aparecer por aí, além dos oportunistas dos direitos humanos. Que tal este título de matéria? “Mensagem no Orkut teria motivado seqüestro em São Paulo”.

O orkut já é responsabilizado pelos casos de pedofilia, brigas de torcida organizada e até assassinatos. Agora, é a vez do seqüestro. Interessante que tal site seja “a bola da vez” – na verdade, para alguns setores mais conservadores e desesperados da imprensa, a internet e suas redes sociais constituem-se em perigosas ameaças para a família e sociedade em geral. E olha que são os mesmos que saúdam a livre concorrência e o cassino especulativo na roda financeira! TFP, CCC, ah, que saudade!

3 – É só esperar: faltando 1 semana para as eleições do segundo turno para a prefeitura de SP, tá na cara que a questionável ( para não ser leviano) ação da polícia será utilizada com finalidades políticas, da mesma forma que o Serra acusou o PT e o deputado Paulinho da Força Sindical ( pelegão) de armarem tudo aquilo com a polícia civil em greve há 1 mês (Aliás, só um detalhe sobre aquela propaganda da Marta Suplicy insinuando que o Kassab é-ou-não-é: a “revista” VEJA também fez das suas. Olha só a pergunta pro Kassab: Não é muito comum um homem público de sua idade ser solteiro. Existe alguma cobrança sobre o senhor nesse sentido? Quem quiser conferir a entrevista, é só clicar AQUI. Detalhe: é do dia 18 de Junho!).

A impressão que se tem é que há torcida pra “quanto pior, melhor”. A baixaria promete correr solta.

quarta-feira, outubro 15, 2008

15 de Outubro - Dia do professor. Vale a pena?


Um velho amigo me perguntou:
- Groo, meu chapa, diz aí: vale a pena ser professor neste país?

É de se pensar um pouco antes de responder. Há colegas que respondem na bucha: não, não vale. Outros respondem que amam a profissão. E há os que dizem “ter lá suas vantagens”.

Como se vê, não há um consenso, embora cada um tenha seus motivos.

- Não enrola, Groo. Vou facilitar pra você: quais são os motivos que valem a pena para ser professor e quais os motivos que não valem a pena?

Ah, essa lei seca! Antes, com a cerveja correndo solta nas mesas, meu amigo falava sobre mulheres, futebol e rock n’roll, não necessariamente nesta ordem. Agora, com suco de uva e água de coco, é dado a filosofias e papos cabeça!

Bem, vamos lá. Por que não vale a pena ser professor? Poderia citar alguns motivos...péssimas condições de trabalho é apenas um destes motivos. Apesar de determinados "especialistas em educação" acharem que as escolas públicas brasileiras têm boa infra-estrutura, não é bem o que acontece. Não é raro que professores banquem do próprio bolso o material para o seu trabalho e ainda encontramos comunidades que dão aquela força em mutirões de limpeza e até reformas. Se depender dos governos, as escolas permanecem do jeito que estão.

O que mais? Baixo salário é um motivo clássico. Não são poucos os professores que possuem carga horária semanal de 60 horas ( isso: manhã, tarde e noite trabalhando. Às vezes as madrugadas, também). Ao contrário do que muitos “especialistas em educação” pensam, tal carga horária não é propriamente pelo prazer de ensinar: é o jeito que se tem para levar uma vida razoável e não deixar faltar nada em casa. Mas já reparou como há escassez de professores principalmente de matemática e química? E os cursos de licenciatura não têm lá grande procura...

Nossa, tem outros tantos motivos ruins...alguém falou em alunos. Há quem diga que os alunos são grandes "problemas", mas não é verdade. Conflitos em sala de aula sempre existiram, em maior ou menor escala e estes são resolvidos; infelizmente há pessoas problemáticas que agridem, humilham e desprezam os professores - e isso ocorre tanto na escola pública como na particular. Na escola particular, o cliente sempre tem razão; na rede pública "tudo pode". Agressões verbais a professores se constituem em problemas "comuns", infelizmente, nas escolas.





Problemão mesmo é o que temos nas secretarias de educação e governantes. A Educação não pode e nem deve ficar restrita a gabinetes e burocracias tolas e que não consideram as diversidades (e realidades) das escolas. O discurso de "educação é fundamental" precisa sair do verbal e do plano das ideias e chegar aos mais interessados: alunos, professores, gestores. E olha que eu ainda nem falei das doenças ocupacionais que...

- Groo, meu velho, você só fala em coisa ruim, cara! E como fala! Aposto que vai escrever aquele monte de palavra no blog pra ninguém ler! Blog com texto longo ninguém lê, rapaz!

- Mas...você perguntou sobre ser professor e se vale a pena, né?
- Pô, depois do que você descreveu, já sei a resposta: é um não bem grande.
- Eu ainda não terminei. Não falei dos bons motivos para ser professor.
- E tem? Não, né? Diante desse quadro de horror que você pintou...

Mas eu iria dar bons motivos para o sujeito ser professor. No entanto, prefiro citar apenas um motivo que eu acho emblemático. 

Leciono inglês em uma escola pública localizada na periferia de Salvador. À noite. O bairro é considerado “perigoso”, mas nunca me aconteceu nada além de um risco na porta do carro e um aluno bêbado que me chamou de “abestalhado”. Mas riscos em carros de professores são comuns. Carro de professor sem risco é porque é novo e está em férias escolares, assim costumam dizer.

Então, onde eu estava? Na escola, pra variar. Pois é. Leciono inglês para uma turma de EJA ( Educação de Jovens e Adultos). A maior parte dos alunos tem mais de 40 anos. Tem aluna com idade para ser minha avó, imaginem o esforço e a força de vontade destes alunos. 

São pessoas muito humildes e estavam todos receosos em aprender inglês. Os mais velhos eram categóricos: “Isso é coisa pra jovem que tem a cabeça boa ainda”, “não vou conseguir. Se nem português eu falo, que dirá ingreis ( É. é assim que a disciplina “Inglês” é conhecida...). As falas eram preocupantes, porém demonstravam insegurança e não falta de vontade - muitas vezes esta confusão é feita. 

Então meu primeiro trabalho foi mostrar a eles que a língua inglesa está presente em seu cotidiano. Shopping center, DVD, CD, Diet, Light...

“Professor, é verdade, tem muita coisa mesmo escrita em inglês e a gente compra ...”

...e após esta etapa, alguns greetings: “Good evening!”, “Good night”, música dos Beatles ( you say goodbye and I say hello), os alunos ávidos em aprender, mostrando muita curiosidade e vontade em estar na escola. Todas as aulas tinha alguma “novidade”. “Where are you from, teacher?” Sim, eles estavam aprendendo...devagar, com muita dificuldade, mas aprendendo.

Ora, foi numa dessas aulas, que dona M, 58 anos, levantou a voz na sala e disse:

- Professor, eu sempre tive vontade de aprender inglês porque eu gosto muito dessas músicas em inglês sabe? E eu digo que hoje, com muita dificuldade, estou realizando esse sonho. E eu agradeço primeiro a Deus e agora ao senhor por esta oportunidade.

Portanto, eis aí um único motivo que me faz dizer que ainda vale a pena ser professor...embora uma manifestação como esta seja cada vez mais rara. Mas é por ser rara, difícil de se ouvir é que torna especial. E certamente, meu caro, levarei essas palavras pelo resto da vida. Não enche barriga, não paga minhas contas e não compra minhas HQ’s do Tex Willer, mas faz um bem danado ao coração!

- Então, meu caro Groo, vamos nós brindar com mais suco de uva...que faz bem ao coração! Dizer “um feliz dia do professor” é forçar a barra?

De maneira nenhuma, meu velho...de maneira nenhuma. Saúde!

sexta-feira, outubro 10, 2008

E viva a hipocrisia e a cooperação global!

A língua lambe as pétalas vermelhas da rosa pluriaberta;
a língua lavra certo oculto botão,
e vai tecendo lépidas variações de leves ritmos.


E lambe, lambilonga, lambilenta,


a licorina gruta cabeluda,
e quando mais lambente, mais ativa, atinge o céu do céu, entre gemidos,
entre gemidos, balidos e rugidos
de leões na floresta, enfurecidos.

Quem escreveu este poema foi ninguém menos que Carlos Drummond de Andrade. Você já ouviu falar sobre ele. E provavelmente na escola. Deve ter lido poemas e crônicas deste fantástico escritor brasileiro.

Pois bem, vamos imaginar a seguinte situação: Drummond é professor de literatura em um colégio particular. O professor leva uma vida normal fora de suas atribuições profissionais: gosta de receber os amigos em sua casa para longas conversas, adora filmes do Chaplin e ultimamente vinha tomando gosto pela internet, chegando a criar um blog para publicar seus textos e poemas.

Um de seus alunos descobre o blog do professor Drummond, espalha para os colegas, os pais descobrem e lêem alguns poemas eróticos escritos pelo professor de literatura de seus filhos. Indignados, pedem a demissão do professor para a direção da escola. Imagine, um professor que escreve poemas indecentes em contato diário com as crianças e adolescentes! Vai ver o tal professor Drummond fosse um pedófilo...

O professor Drummond é demitido. Mesmo afirmando que jamais utilizou seus escritos nas aulas. Não adiantou. Sabem como é, o cliente sempre tem razão.

Se meus 4 ou 5 corajosos leitores acharam essa possibilidade um absurdo, saibam que isso aconteceu. Mas não foi com Carlos Drummond de Andrade, e sim com o professor de literatura Oswaldo Martins Teixeira, que lecionava literatura em um colégio particular (Escola Parque) no Rio de Janeiro. Ele foi demitido desta escola ( que é considerada “de vanguarda”, só para citar) por ter escrito e publicado poesia erótica na internet.

Quem quiser conferir a absurda história, é só clicar AQUI.

Hipocrisia? Falso moralismo? Conservadorismo? Pensem como quiserem. Existe um aspecto nojento que acontece em parte dos colégios particulares do Brasil: o professor é apenas um peão, sem autonomia e que pode ser demitido a qualquer momento só porque um pai ou mãe reclama de uma nota baixa do filho. É a lógica de agradar ao cliente: não contrariar a família para não perder a mensalidade.

A Escola Parque, que é tratada como “vanguardista”, deu um belo exemplo para atestar a tese acima. Além de não conceder nenhuma declaração sobre o fato, o argumento apresentado ao professor para justificar sua demissão foi mais absurda ainda: a “incompatibilidade entre as profissões de poeta e professor”.

Não é genial?

O professor Oswaldo foi vítima da lógica da “satisfação do cliente ou seu dinheiro de volta”. Não rezou pela cartilha do marketing e mercado educacional privado? Não tem problema: sempre tem “peça de reposição” por aí. E até por um preço mais baixo.

Outra coisa que vitimou o professor Oswaldo foi o patrulhamento da turminha politicamente correta. Ora, se ele publica seus textos – eróticos ou não - na internet, qual é o problema? Qual é o direito que esses pais tem para exigir a demissão de um profissional sério e bem quisto pelos alunos (segundo os comentários na própria página onde a notícia é reproduzida) com base no que ele faz em sua vida particular, fora do âmbito profissional?

Devemos, então, banir de nossas escolas e livros escolares figuras como Carlos Drummond de Andrade, Eça de Queirós, Jorge Amado, Nélson Rodrigues, Bocage e outros escritores que já publicaram poesias e textos repletos de erotismo?

Certamente o argumento desses pais foi “temos que proteger nossos filhos”.


São puros e castos aos 14 e 15 anos. Nunca deram uma espiadinha naquele site pornô. Mulher-Melancia? Imagine...!

Ei, o você realmente sabe o que seu filho ou filha faz trancado no quarto no MSN com uma webcam?

Interessante como os tempos passam e, no fundo, pouca coisa muda. Lá pela década de 50 as histórias em quadrinhos eram responsáveis pela “degradação das crianças e da juventude”; logo depois, foi a vez da televisão, acusada pela destruição da instituição familiar; já pela década de 90 o perigo era o jogo eletrônico, como “Doom”, “Quake” e “Street Fighter”, que tornaria jovens violentos e desajustados sociais ( registro pessoal: este blogueiro passava HORAS atirando em tudo quanto era monstro e soldado nazista no jogo DOOM. Minha “arma” preferida era a serra elétrica. Sangue para todo o lado. Não me tornei psicopata e nem entrei em uma escola armado com um rifle atirando em colegas e professores); hoje, a culpa de todos o mal, de toda a degradação juvenil, de todos os crimes sexuais – da pedofilia, da pornografia – é da internet.

E se o sujeito tem um site ou um blog onde publica seus textos eróticos este é um depravado, um maníaco sexual que se constitui em uma ameaça para nossas crianças e jovens, certo? E se o sujeito em questão é um professor, ele deve levar uma vida regrada, bem próxima ao sacerdócio que sua profissão exige, certo? De preferência enclausurado em um mosteiro, pois professor é um referencial na vida das crianças e adolescentes, certo?

Mas, felizmente, alguns pais e alunos foram pedir satisfações a tal Escola Parque.

Professor que escreve poesia erótica como um hobby em um blog é uma péssima referência, mas o funk carioca é uma referência válida para ensinar educação sexual nas escolas.

Como cantava Raul Seixas: quando acabar, o maluco sou eu!

CRISE! PÂNICO! TSUNAMI! DESGRAÇA!!!!CAOS! CHORO!!! RANGER DOS DENTES!!!

Qualquer um que assista na grande mídia as notícias sobre a crise financeira ( que não é mais dos EUA, e sim do mundo) provavelmente entra em pânico.

Miriam Big Pig tem orgasmos quando fala sobre a crise. E, convenhamos, Miriam Big Pig gozando deve ser mais feia do que já é, imagine gozando com a desgraça alheia;

O casal do Jornal Nacional traz as notícias da crise financeira em um tom de pânico. Fátima Bernardes deve fazer exercícios de expressão facial todos os dias para tentar deixar o rosto mais sério/assustado o possível; já Bonner só não chorou ainda porque não pediram.

Arnaldo Jabor é um anta. Ponto. Cineasta frustrado com papinho pseudo-intelectual de botequim.

O presidente Lula, doido e carismático que é, tirou uma com o FMI durante a semana (as receitinhas do FMI em países da América Latina e África deram tão certo que esses países já são mestres em crises). Aliás, os “especialistas” do naipe de Jaboranta e Miriam Big Pig queriam que o presidente demonstrasse pânico e preocupação. Se a coisa toda no Brasil já não está numa boa, imagine se o presidente da República e os ministros demonstrassem pânico.

Mas é isso o que a imprensa grande quer. Pânico. Correria. Desespero. Como em 1929.

A diferença para 2008 é que muitos resgates financeiros são feitos pela internet. Portanto, a crise, em muitos aspectos, ainda não é perceptível para o zé da esquina. Ainda. Quem tem financiamento a perder de vista (imóveis e carros, por exemplo) ou tem uma tonelada de débitos no cartão de crédito adquiridos depois daquela viagem internacional está com * na mão.

Aliás, a moda agora entre os líderes dos G7 e presidentes dos bancos dos países mais ricos e afetados pela crise financeira, é pedir pela “cooperação global”.

A África também espera pela cooperação global para lutar contra a proliferação da AIDS;

A América Latina também espera pela cooperação global para reduzir a miséria em seus países e o desmatamento das florestas.

E, para completar o quadro, algo que os “especialistas liberais” jamais imaginavam: o governo britânico estatizando bancos! Puxa, mas que coisa, não? Se um Hugo Chaves ou um Evo Morales tomasse tal medida, seriam chamados de “esquerdistas retrógrados e ditatoriais”.

Mas como é o Gordon Brown, isso é uma medida elogiável!É a "mão invisível do mercado" precisando de uma mão...do estado!

Marx estaria rolando de rir agora.

segunda-feira, outubro 06, 2008

ELEIÇÕES 2008

A “festa da democracia” é também a festa da boca de urna, dos milhares de santinhos espalhados nas ruas e entupindo os bueiros da cidade.

E é uma “festa” literalmente: ao lado dos colégios eleitorais, ao menos em Salvador e principalmente nas periferias, lá estava o pagodão rolando solto e as latinhas de cerveja sendo consumidas vorazmente. Epa! Mas não era proibida a venda de bebida alcoólica durante este dia de votação?

EXÉRCITO
A imagem mais chocante que eu vi sobre a “festa da democracia” foi no Rio de Janeiro, quando tropas do exército subiam as ruas de um morro para garantir a lisura do processo eleitoral. Interessante que o cidadão que é chamado para “exercer seu direito” com o voto precise das forças armadas para que tal direito seja de fato garantido. Como canta Caetano, “alguma coisa está fora da ordem”.


INSTITUTOS DE PESQUISAS, O SEPULTAMENTO DO CARLISMO E A REJEIÇÃO AOS CANDIDATOS LIGADOS A IURD
Apenas para variar os institutos de pesquisa erraram e erraram feio novamente nestas eleições. E não foi apenas em São Paulo com Marta e Kassab ( ele tem a voz do Patolino...).

Em Salvador os institutos de pesquisa mais afamados ( Ibope e Datafolha) colocavam, desde o inicio da campanha eleitoral, ACM Neto no segundo turno das eleições. A briga seria, então, pra ver quem iria ao segundo turno contra o neto do velho ACM.

E não é que o “menino” que representa a última tentativa do Carlismo ressuscitar tomou outra surra nas urnas e ficou fora do 2º turno? Os candidatos do PT e do PMDB ( o atual prefeito João Henrique tenta a reeleição) foram os dois primeiros com pouca diferença de votos entre eles em um empate de 30% dos votos. Os dois levaram 60% dos votos da população de Salvador. ACM Neto apenas 25%.

O Neto tem dois grandes fatores para rejeição tão grande: ser neto do velho Painho ACM ( que em Salvador sempre teve dificuldades em eleger seus candidatos – isso é histórico; e nos últimos anos o percentual de votos do carlismo em Salvador ficou sempre neste patamar entre 25 e 30%) e ter como vice o “bispo” Márcio Marinho, da Igreja Universal do Reino de Deus.

Até mesmo aqui no GROOELAND foi dito que candidatos ligados à IURD tem altíssima rejeição por parte dos eleitores ( até mesmo uma ala evangélica que não é adepta dos métodos da IURD – vide que os dois candidatos a prefeito em Salvador que vão pro 2º turno são evangélicos).

Ora, se até um humilde blogueiro sem pretensões com uns 3 ou 4 leitores fiéis SABE deste fator rejeição por candidatos apoiados ou ligados a IURD, como é que institutos de pesquisa e cientistas políticos não levam isso em conta?

Por isso algumas “surpresas” apontadas pelos institutos de pesquisa que não foram tão surpreendentes assim. Surpresa no Rio de Janeiro com Gabeira no 2º turno e o “bispo” Crivella fora? Não contaram esse fator da rejeição. Para eleger vereadores e deputados a igreja elege (os vereadores mais votados em Salvador estão ligados a IURD). Mas para cargos executivos ainda não tem vez. Ainda.

E o carlismo? Pelo jeitão, já era mesmo. ACM Neto tentou mostrar-se como “o novo para a cidade”, mas é difícil livrar-se rótulos e heranças. Nem adotando a tática “Netinho Paz e Amor” (apesar do “menino” ter afirmado que daria uma surra no presidente da República em pleno congresso) deu certo.

VELÓRIO
Hoje os telejornais da Rede Bahia ( de propriedade da família Magalhães, retransmissora da Globo) estavam em clima tão soturnos, tão carrancudos que assemelhavam-se às transmissões do dia da morte e ACM. Por que será, hein?

DEVE SER ENCOSTO...

E a TV Itapoan (retransmissora da Record na Bahia) também estava em um clima “assim-assim”. O “bispo” Márcio Marinho, vice na chapa de ACM Neto, derrotado nas eleições municipais seria a razão dessa tal tristeza? Ou seria a indefinição sobre o que fazer com o verdadeiro bonde que se transformou um apresentador populista, que batia na mesa “pelo povo e contra os poderosos” bradando por justiça e ordem e largou tudo para entrar “de corpo e alma” na campanha do “menino”?
Os telejornais da Record também disfarçaram um pouco, mas curiosamente a cidade do Rio de Janeiro não teve tanto destaque assim na emissora. Por que será, hein?
Sessão de descarrego nos corredores das emissoras! Já!

MEU VIZINHO

Meu vizinho não conseguiu ser eleito vereador. Teve 0 votos. Nem a mulher votou nele. Pior, nem ele. Deve ter votado "na legenda", vai saber. Mas sua plataforma era “pelo respeito à lei do silêncio”. A campanha naufragou quando ele contratou um desses carros de som com aparelhagem pra lá de fuleira trafegando pelas ruas do bairro pedindo votos...


04 ANOS É MUITO TEMPO
Não era esse o mote da campanha do TSE conclamando o povo a “votar com responsabilidade”? Olha aí quem foi o terceiro (ou a terceira) vereador mais votado em Salvador:




Como Leokret ficou famosa e de onde deve ter conseguido muitos votos:




Quase 13 mil votos. E o mais bizarro de tudo é que Leokret tem esses chamados “votos de zoeira” (muitos!) e também tem votos sérios. Leokret, pasmem, desenvolve trabalho social em uma comunidade carente ajudando creches e instituições que dão apoio a crianças, organizando eventos para arrecadar alimentos e materiais.

Que continuasse como líder comunitário(a) fazendo um trabalho que tem sua relevância. Não seria pouca coisa. Mas daí a ser eleito(a) vereador(a) pra levar R$ 9 mil de salários mais verbas de gabinete é um pouco demais, não?

RÁÁAÁÁ! RAAAAA! PEGADINHAS ( 04 ANOS É MUITO TEMPO)
Sérgio Mallandro não foi eleito vereador em SP, mas obteve espantosos 22 mil votos. Rááá!

Em Goiânia, o 3º mais votado foi ENTULHO, digo, TÚLIO MARAVILHA, veteraníssimo jogador, marqueteiro e cara de pau ( já fala até em disputar a PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA no futuro!).
Em Pernambuco, na cidade João Alfredo, ele está de volta: SEVERINO CAVALCANTI é o novo prefeito da cidade do interior.

Ainda em SP, NETINHO DE PAULA foi eleito e com expressiva votação. As sessões na câmara não serão mais as mesmas.

E, apesar de não ser extravagante ou engraçadinho, eu considero que GABRIEL CHALITA é um candidato tão bizarro quanto Leokret, Sérgio Mallandro, Túlio e Netinho. Foi eleito vereador também e em primeiro lugar. Chalita é ex-secretário de educação do estado de SP e escritor de tolices monumentais de auto-ajuda ( atenção! Nada a ver com pedagogia e educação!) como Pedagogia do Amor, Pedagogia da Amizade e Seis lições de solidariedade com Lu Alckmin.

Chalita é mais um daqueles picaretas de fala mansa, ligados à igreja (neste caso, da renovação carismática da Igreja Católica), encanta pela sua jovialidade, voz de veludo – em suma, faz o tipo de “genro que toda sogra queria ter”.

Certamente não é pra se levar a sério Leokret, Sérgio Mallandro, Túlio Maravilha, Netinho, Dinei e tantos outros bizarros por aí. Mas vejam se dá para levar a sério um sujeito que escreve isso:

"Aos velhos e jovens professores,aos mestres de todos os tempos que foram agraciados pelos céus por essa missão tão digna e feliz.Ser professor é um privilégio. Ser professor é semear em terreno sempre fértil e se encantar com a colheita. Ser professor é ser condutor de almas e de sonhos, é lapidar diamantes"

O magistério tratado como sacerdócio, algo divino. É um tolice tão grande quanto Túlio Maravilha dizer que pensa em se candidatar no futuro ao senado, à presidência da República ( tolice? Hmmm...sei não, viu?).

MAS POR QUE ESSE POVO É ELEITO?
Talvez estes diálogos (verídicos) expliquem:

QUALQUER UM
- Vota nele que ele vai dar uma festa pra galera se for eleito!
- Onde?
- Lá na associação! Tudo 0800!
- Rapaz, mas o que ele já fez pelo bairro?
- Oxe, o cara é brother, tá sempre com a gente, é humilde, é da galera. É melhor botar lá alguém que a gente conhece né?
- E se ele não for eleito?
- Tem que ser, porra! O cara é brother!
- Não, pô...se ele não for eleito ainda vai ter festa?

QUALQUER UM (II)
- Pois é, aí eu fui pra lá sem saber em que candidato votar, na verdade eu nem sabia nome de número de candidato nenhum, só pra prefeito que eu conheço, mas pra vereador não, mas tive que ir, né? Desempregada... precisa ter tudo certinho, né? Aí fui lá e votei.
- Mas como é que você votou sem saber nome e número de candidato?
- Eu peguei um papel lá do chão como, chama? Santinho, né? E votei...

quinta-feira, outubro 02, 2008

TAMOS COM RAIVA!

Leiam o último post que escrevemos sobre as eleições e apliquem as várias ferramentas disponíveis na internet para efetivamente conhecerem seus candidatos.

Votem com responsabilidade, mais do que com consciência.

Pensem que vocês, mais do que muitos, têm acesso a informações, sabem bem utilizar o que a web tem a nos oferecer de melhor.

Sabem ler e têm discernimento. Sua responsabilidade é, portanto, muito maior que a da maioria da população.

Alguns dados:

- Se você acessa a internet, você faz parte de um grupo de 19% da população brasileira com esse privilégio;

- Se tem nível superior, faz parte de um grupo de 15% da população brasileira com esse diploma;

- Ah sim, se você for negro, pardo ou indígena e com nível superior você se torna quatro vezes mais raro que os universitários brasileiros de cor branca.

Resumo da ópera: o Brasil ainda é inculto, não tem acesso a informações, é racista e machista. Afora isso, há uma discrepância entre Nordeste e Sudeste, ricos e pobres, há uma cratera entre homens-ricos-brancos-sulistas e mulheres-negras-pobres-nordestinas.

E o fato é um só: no regime em que vivemos, o voto é nossa única arma. Contra essas crateras, inclusive. Não podemos desperdiçá-lo.

Bom domingo a todos, porque falta pouco. Muito pouco...

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Esta postagem é um plágio descarado. Eu iria abordar desta vez algo sobre as eleições ( na verdade, uma conversa de boteco regada com copos de...suco de uva! A lei seca em favor dos flavonóides que farão bem a este coração santista - que tá precisando, com esse time atual), mas esse texto está absolutamente perfeito. Encontrei-o no blog TAMOS COM RAIVA.

Infelizmente, não encontraremos mais textos atualizados no TAMOS COM RAIVA. A Cris anunciou o fim das postagens no blog. Dela, Cristina de Castro, e do seu pai, José de Castro (que vai dedicar-se ao ócio criativo). Ambos, jornalistas. E de primeira.

É uma pena o fim do TAMOS COM RAIVA. Fará muita falta. Mesmo durante um período em que estive relativamente afastado da blogosfera e de atualizações, sempre dava um jeitinho de acompanhar os textos ou no TAMOS COM RAIVA ou no site NOVAE. Ao menos, um alento: ela já anunciou que não deixará de mandar suas contribuições ao NOVAE (que, aliás, é muito bom). São textos de excelente qualidade e com muita informação. É um texto jornalístico que não é chato ou enfadonho e que está muito em falta por aí.

O TAMOS COM RAIVA é um blog político, que expõe fatos que a “mídia grande” ou “grande mídia” prefere deixar pra lá. Se alguém quiser saber como irá funcionar a famigerada lei de CONTROLE ( é! controle mesmo) da Internet proposta pelo senador Azeredo, de Minas Gerais, é só procurar no TAMOS COM RAIVA e no NOVAE os fatos que aconteceram com o “Novo Jornal” lá na terra governada pelo Aecinho.

É isso. Acabou porque uma hora tem que acabar. Mas "apenas" o blog, porque os ideais continuam. A raiva, também. A raiva da censura, da perseguição, da corrupção, da roubalheira do dinheiro público, do caos em serviços essenciais como saúde e educação e tantas e tantas outras coisas que vocês, meus corajosos 4 ou 5 leitores, mesmo não conhecendo o blog, soltem um “tamos com raiva”!

"Com a esperança de que um pouco dessa raiva política que nos move tenha sido disseminada pelo mundo. Ou, ao menos, pela blogosfera".

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