sexta-feira, setembro 26, 2008

US$ 700 bilhões do PROER do Bush

A “revista” VEJA parece finalmente ter encontrado um rumo: o humor. A revista MAD (sim, ainda existe algumas nas bancas) agora tem uma séria concorrente, que é a ex-revista semanal com alguma credibilidade até algum tempo atrás.

A capa da MAD, digo, VEJA desta semana traz o Tio Sam em sua pose clássica, com o dedo em riste, segurando um punhado de dólares e em letras garrafais “EU SALVEI VOCÊ!”

Claro que tal capa e matéria principal fazem referência à crise nos EUA e como o governo foi “hábil” em socorrer instituições bancárias falidas. Isso, um PROER (programa do governo FHC que usou dinheiro público para fazer a festa de banqueiros e mega-especuladores que estavam literalmente na merda) de US$ 700 bilhões para salvar a pele dos milionários que estão numa pior. Dinheiro do orçamento público norte-americano.

Não é curioso que esse “livre mercado”, o qual não aceita a interferência estatal em seus negócios, tenha que recorrer justamente ao Estado para sanar suas perdas nas roletas especulativas das bolsas de valores?

E o mais interessante de tudo: enquanto a grande imprensa brasileira tenta “informar” aos brasileiros os efeitos da crise de lá em nossos vazios bolsos de cá e glorificam o PROER do Bush com opiniões “abalizadas de especialistas econômicos”, deixam de lado quem realmente tem algo importante a dizer: a opinião pública norte-americana.

O blog do Azenha publicou a mensagem de um leitor do Texas no jornal “The New York Times”. Apenas um trechinho para vocês, bravos e raros leitores desta Grooeland:

Quem vai me salvar? Tenho dois filhos que vão se formar no ensino médio e nos perguntamos onde vamos conseguir dinheiro para pagar a faculdade. Empregos? Não conseguem encontrar. Nossos pequenos investimentos sumiram. Os Estados Unidos não têm dinheiro para a infraestrutura decadente, educação, saúde, mas encontraram dinheiro para salvar os bancos?

O texano deveria perguntar aos editores da revista VEJA, já que Tio Sam salvou eu, você, o texano, todo o mundo.

E outra coisa que a Miriam Sabe-Tudo Leitão, a anta do Mainardi e o Tio Boris CCC não dizem: os norte-americanos “normais”, que não são especialistas em economia ou mercados financeiros não estão nada satisfeitos com o PROER do Bush. Os blogs e vídeos no youtube com opiniões nada favoráveis ao PROER estão fervendo. Cerca de 1000 postagens por dia sobre a crise e com críticas ao programa estão surgindo na blogosfera. Um blogueiro norte-americano calculou o que daria pra fazer com US$ 700 bilhões em algumas áreas. Daria pra manter 23 milhões de universitários norte-americanos em uma universidade pública, por exemplo.
Vou além. Já foi citado aqui neste blog o livro “Planeta Favela”, de Mike Davis, que faz duras críticas justamente a esse modelo que fez a fortuna de especuladores e elevou-os ao status de “empresários bem-sucedidos”. Pois bem, preste atenção neste pequeno trecho que Davis, com base em relatórios do próprio Banco Mundial, demonstra o que dá pra fazer com bem menos que US$ 700 bilhões:

“Especificamente, a África subsaariana é o lar de mais de 25 milhões de pessoas que sofrem com o HIV e a aids.[...] todos os dias, na África, mais de 5 mil pessoas morrem de aids. Os especialistas estimaram que a comunidade mundial precisa investir 7 – 10 bilhões de dólares anualmente para combater o HIV e a aids, assim como outras doenças como tuberculose e malária. No entanto [...]os países africanos continuam a pagar 13,5 bilhões de dólares por ano de serviço da divida externa a países e instituições credoras”.
DAVIS, Mike. Planeta Favela.


Reparem que algo em torno de 7 a 10 bilhões de dólares anualmente ajudariam milhares de pessoas. E 77 milhões de crianças no mundo inteiro estão fora da escola por “n” motivos – e um desses motivos é que essas crianças têm que trabalhar para complementar a renda doméstica.

Retomamos, então, à capa da “revista” VEJA: “EU SALVEI VOCÊ!”. As pessoas na África subsaariana estão aguardando. Milhares de crianças, também. Os próprios norte-americanos. Os brasileiros? Talvez uma parcela da classe média que vive de créditos de 20, 30 anos para pagar viagens a Miami e Nova Iorque, trocar de carro todos os anos e financiar apartamentos (já notaram como estão cada vez menores, mas tem “área de lazer”?) esteja aliviada com a (até agora) solidez da economia brasileira – embora seja uma economia de farra de créditos e juros. Tomara que a bomba não estoure por aqui também, afinal não é só a chamada classe média que vem se beneficiando de linhas de crédito para financiamento de bens ( casa própria, por exemplo). Seria catastrófico para quem tem dívidas a perder de vista.

Sinceramente, estou curioso para saber qual será a próxima capa da VEJA e o seu conteúdo. Deve ser algum tema relacionado a fitness ou os novos gadgets e brinquedinhos tecnológicos que fazem a cabeça da galera. Afinal, como dizia o Coringa, estamos em um mundo capitalista... e precisamos continuar nele.


A salvos, de preferência sob as bençãos do Tio Sam.

segunda-feira, setembro 15, 2008

Stay and help me to end the day...

Manhã de segunda-feira. Não muito cedo, afinal nunca fui madrugador. Mas tinha que estar de pé e “disposto” para as atividades cotidianas. Estas manhãs de segunda sempre me fazem lembrar de Bukowski:

"Como, diabos, pode um homem gostar de ser acordado às 6h30 da manhã por um despertador, sair da cama,vestir-se, alimentar-se à força,cagar, mijar, escovar os dentes e os cabelos, enfrentar o tráfego para chegar a um lugar onde essencialmente o que fará é encher de dinheiro os bolsos de outro sujeito e ainda por cima ser obrigado a mostrar gratidão por receber essa oportunidade?"

Mas lá vou eu para outro desses dias, então nada melhor do que começar com uma música, no carro, a caminho do trabalho. Penso logo em acordar meus neurônios de vez com um “Welcome to the Jungle” ou um “Wholla Lotta Rosie”... mas estranhamente fui de Pink Floyd, com Time:

Ticking away the moments that make up a dull day
You fritter and waste the hours in an offhand way.
(Vão-se os tiques-taques os momentos que formam um dia monótono
Você enrola e desperdiça as horas de um jeito qualquer)

The Dark Side of the Moon é um álbum perfeito, fantástico. Impossível ficar indiferente a músicas como Time, The Great Gig on the sky, Eclipse e Brain Damage, minhas preferidas do álbum. Mas a seqüência do álbum, suas letras, as experimentações e toda a estrutura sonora o torna único, sem seguidores (Radiohead? Flaming Lips? Menos, bem menos) e até mesmo quem não entende inglês sabe que está ouvindo algo especial, diferente.



O conceito do album é psicológico. As pressões da vida moderna, insanidade, consumismo, existencialismo...e como tudo isso afeta as pessoas e suas relações, marcadas hoje pelo individualismo e indiferença, em uma sociedade da qual os sociólogos e intelectuais gostam de chamar como "sociedade pós-moderna" ou até mesmo "sociedade do conhecimento"( embora eu discorde um pouco deste último termo, mas é outra história, deixemos de lado).

Um dos gênios que auxiliaram na feitura desta obra-prima da música de todos os tempos ( sim, quem está escrevendo aqui é um fã incondicional da banda, para quem as letras sobretudo de Roger Waters possuem uma carga significativa enorme!) morreu hoje, dia 15 de Setembro de 2008, aos 65 anos, vítima desse flagelo que é o câncer.

Richard Wright era mais que um tecladista. Era o "lado suave" de um Pink Floyd marcado pelo amargor das letras de Roger Waters, da guitarra por vezes viril de David Gilmour e da marcação certeira da bateria de Nick Mason.


Wright era também um dos membros mais queridos pelos fãs do Pink Floyd e sua contribuição nos teclados é extraordinária. Impossível imaginar "Shine on Crazy Diamond", "Alan's Psychedelic Breakfast" e “The Great Gig in the sky” sem suas notas.






THE GREAT GIG IN THE SKY – PROCESSO DE CRIAÇÃO

Rick Wright, em contraste, passou muitas horas aperfeiçoando o interlúdio instrumental que ainda era conhecido alternadamente como “mortality sequence” ou “religious theme”. A parte tocada no órgão nos shows iniciais de Eclipse, porém, foi colocada de lado: em vez disso, Wright surgiu com uma peça tocada no piano que era um pouco mais convencionalmente floydiana, com espaço para bateria, baixo e órgão. Como forma de juntá-la à musica que a cercava, a passagem mais longa ecoava Breathe. (...)

Por sua vez, aquela parte assumia um crescendo tumultuoso e depois cedia para sua passagem mais impressionante: o período de calma portentosa que chegava depois de dois minutos e meio. Se inicialmente tencionava evocar a morte, Wright sugeriu depois que tal idéia estava longe de seu pensamento: “Quando a compus, não pensei ‘isso é sobre a morte’. {Se o tivesse feito] não creio que teria composto aquela estrutura de acordes.”

Segundo Alan Parsons, Rick Wright gravou a sua parte isolado do restante dos colegas. “Rick estava no estúdio no 1, tocando num daqueles pianos de cauda, e a banda estava no estúdio no 2. Nós o enganamos: em vez de a banda tocar de verdade, tocamos a gravação em fita de uma tomada anterior. Não havia meios de Rick notar a diferença. Então botamos a fita para rolar e ficamos à espreita atrás da porta. Quando ele ergueu os olhos depois de terminada a tomada, todo mundo estava parado lá, olhando para ele. Pareceu um bocado surpreso. Éramos realmente um bando de garotos, e fazendo travessuras”. Àquela altura, a peça foi considerada um sucesso – “uma das melhores coisas que Rick já fez”, na estimativa de Roger Waters.
The Dark Side of The Moon – os bastidores da obra-prima do Pink Floyd. John Harris. Jorge Zahar Editor

Interessante eu ter escutado “Time” logo pela manhã e ter a notícia da morte de Rick Wright à tarde. Uma das passagens da música diz o seguinte:

The sun is the same in a relative way, but you're older

Shorter of breath and one day closer to death.
( O sol é relativamente o mesmo, mas você está mais velho,
Com o fôlego mais curto e a cada dia mais próximo da morte)


O mais interessante ainda foi ter conversado, à mesa, durante o almoço, sobre a fugacidade do tempo. Estamos na metade de Setembro e em breve será Dezembro. Os anos passam e mal “vemos”. Parece que o dia nunca é suficiente para a quantidade de tarefas e afazeres. Bate perfeitamente com o que Waters escreveu e Rick cantou neste trecho:

Every year is getting shorter, never seem to find the time

Plans that either come to naught or half a page of scribbled lines
(Cada ano está ficando menor, nunca parece encontrar tempo
Planos que também não deram em nada ou meia página de linhas rabiscadas)

Perdemos ( digo em relação aos fãs, talvez para quem não goste da banda a morte de Wright não tenha nenhum significado e até haverá quem diga “antes ele do que eu”) não apenas um grande instrumentista, um grande músico, mas também o sonho de rever, nem que fosse em uma esporádica apresentação como no LIVE 8, David Gilmour, Roger Waters, Nick Mason e Richard Wright juntos executando alguma peça maravilhosa de “The Dark Side of the Moon” ou “Wish you here”.

Shine on, Richard Wright!

Mais um pouco de Richard Wright, ao vivo com David Gilmour em 2006:

quinta-feira, setembro 11, 2008

Eleições, demagogias e maluquices

É simplesmente relaxante assistir ao horário político com os candidatos a vereador nestes eleições. Quando penso que o candidato com um baita bigodão e sem dentes é o mais bizarro e o vencedor da noite, eis que aparece outro candidato com um terno azul claro e gravata verde lendo sofrivelmente que vai trabalhar pela educação. Muito bom! Deveriam fazer um documentário com esse povo.

Aliás, falando em eleições e educação, falta menos de 1 mês para conhecermos nossos nobres representantes municipais. E a educação é a menina dos olhos nas eleições. Só nas eleições e propostas, é claro. Como este GROOELAND já tratou, alguns governadores estão chiando com o tal “piso de R$ 950” para os professores e a gritaria só não é maior porque é ano eleitoral.

Mas voltemos às eleições. Aqui em Salvador tem candidato herdeiro do Coronel Grampo Chicote prometendo “educação em tempo integral”. A molecada passando o tempo inteiro na escola, afastando-se, assim, das drogas (uhauhauha!) e aprendendo o tempo todo (sei).

Educação em tempo integral é um fetiche eleitoral. O tal candidato – e sei que muitos outros candidatos pelo Brasil têm a mesma proposta – diz que vai fazer o seguinte: aproveitar não só a escola como também espaços como teatros, praças, associações. Seria assim: pela manhã, o aluno estuda o “clássico”... à tarde, terá lazer, cultura, curso profissionalizante, música, esportes, internet, céu, paraíso.

Muitos pais também vão adorar a novidade. Vão se livrar de um fardo imenso, que é educar os filhos. Não, não sou preconceituoso e sei das dificuldades das famílias em que o pai e a mãe precisam trabalhar fora. Aliás, a quantidade de mulheres que são chefes de família aumentou bastante no Brasil. Entre 1996 e 2006 houve um crescimento de 79%.

E a partir disso entramos em um dilema: até onde vai a responsabilidade dos professores e o papel dos pais? Pois muitos pais esperam que professores ensinem as crianças a limpar o bumbum, tomar banho e atravessar a rua.Isso faz parte da educação, mas e os laços criados com os pais? A chamada “educação doméstica”, como ficaria?

Ou será que passou da hora das faculdades de pedagogia largarem mão de Piaget, Paulo Freire e outros grandes teóricos da educação para darem espaço à Amélia, Marie Claire e Cláudia, mulheres fantásticas, prendadas e, uau, sabem tuuuudo de sexo, o que motiva a galera a freqüentar a escola?

Ora, vamos deixar de balela. Se os candidatos A, C, M ou N quiserem mesmo implantar educação integral em qualquer cidade, terão que investir. E muito. Vamos pensar em apenas um setor, a educação infantil, de responsabilidade municipal, para ilustrar. Será que os candidatos sabem que uma escola de educação infantil deve ter espaços bem característicos como uma brinquedoteca, por exemplo? É. Brincar também educa, ora pois! Talvez a brinquedoteca funcione nas praças detonadas da cidade. Como não pensei nisso?

Aliás, a própria LDB (lei de Diretrizes e Bases) manda um recado interessante para os candidatos pensarem: a relação entre quantidade de alunos por sala e professores. Será que não precisaremos de novos prédios escolares? Ou as crianças vão se espremer em salas que caberiam no máximo 30 pequeninos, mas estão lá uns 40?

E será que as escolas públicas, do jeito que estão, oferecem o que está previsto nas Diretrizes Operacionais de Educação Infantil (caça no Google que você acha)? A saber:
localização, acesso, segurança, meio ambiente, salubridade, saneamento, higiene, tamanho, luminosidade, ventilação e temperatura, de acordo com a diversidade climática regional.

Embora pra Gustavinho Mauricinho Ioschpe as escolas do Brasil tenham boa infra-estrutura ( mais de 90% dos prédios escolares possuem energia elétrica e água encanada!), falta muita coisa ainda para que a educação tenha um mínimo de qualidade. E é só visitar uma escola na periferia ou mesmo no centro da cidade e verificar que muitas estão de pé por conta a)da ajuda da comunidade b) por conta de alguns professores que tiram "do próprio bolso" pra ajudar com material c) obras "me engana que eu gosto" neste período eleitoreiro.

Podia ter eleição todos os anos. Ao menos assim o Casseta & Planeta sairia do ar e daria lugar ao horário político.

Educação integral é uma boa? Educação, em geral, com projetos sérios e investimentos certos, é uma boa sempre. O que tem que acabar é com as demagogias (lucrativas para certas "consultorias educacionais") e aparelhamentos partidários. E aí entram sindicatos e aquela balela toda que nem vou comentar mais porque só de pensar já dá uma dor de cabeça terrível.

But...Who cares?Vez em quando algum doido cai aqui no grooeland graças ao Google e até lê um pouco ( tenho que aprender a ‘resume ae mano!!!’). Ou até algum mais ou menos lúcido conversa sobre essas coisas no ponto de ônibus ou na fila do banco ( "Baheeeeea minha poorra!").Mudar o mundo? Mudar o pensamento das pessoas? Mobilizar? Criar massa crítica? Mas nem...! Este blog não tem pretensão nenhuma. Só tentar ser um pouquinho inteligente e informativo. E não muito chato.



Olha aí o Ed Sonesto de volta...

Ed Sonesto é fichinha perto da galera:

Leokret? Estão apresentados:

segunda-feira, setembro 01, 2008

Sobre o trânsito de Salvador

Sou paulistano e moro em Salvador há quase 10 anos. Tenho dito que o marketing em torno de Salvador é muito maior do que realmente a cidade é e oferece de fato. Mas compreensível, afinal a cidade tem vocação turística e a propaganda é a arma do negócio.

A primeiríssima coisa que notei quando cheguei à capital baiana, pelos idos de 2000, foi a agressividade dos motoristas daqui. Você não leu errado: agressividade é o termo (imprudência é lugar comum para referir-se ao trânsito brasileiro em geral, seja em grandes ou médias cidades). Bastante contraditório ao marketing do “soteropolitano alegre, receptivo e gentil”, não acham?

Quase sempre quando falo do trânsito daqui, sou bombardeado com observações do tipo “ah, em São Paulo é que o trânsito é tranqüilo, né? “ou “isso é coisa desse pessoal do Sul-Maravilha que tem inveja do nosso estilo de vida”. Claro que em SP o trânsito é um porcaria e é claro que um lugar com tantas belezas naturais causa inveja a qualquer mortal, mas uma coisa é ter espírito crítico, outra é ser bairrista exagerado e ufanista sem querer enxergar os próprios defeitos até mesmo para melhorar.

Este editorial do jornal A TARDE traz uma excelente reflexão sobre o que eu penso do comportamento do soteropolitano no trânsito. Assino embaixo. Note: não sou eu, o “do Sul-Maravilha invejoso” ou “preconceituoso” que assina este texto:

GUERRA NO TRÂNSITO
O título acima vai sem aspas mesmo porque a impressão que qualquer observador tem, em relação ao comportamento de motoristas nas ruas de Salvador, é que uma guerra está em pleno andamento em meio aos semáforos e sinais de trânsito.

O tema surgiu como resultado da observação de um motorista de táxi durante uma corrida em dia de trânsito quase parado.Ele estava ainda impressionado com o que lhe acontecera poucos momentos antes. Ao entrar numa rua do bairro da Pituba, teria ultrapassado um veículo, um importado de alto luxo, e tomou um grande susto quando, alguns metros adiante, o mesmo carro o fechou bruscamente e apenas por puro reflexo ele conseguiu evitar a colisão.Sua indignação era maior porque a motorista, uma mulher bem-vestida e de meia-idade, ainda o olhou de lado e, depois de falar algo - que deduziu, pelo gestual, se tratar de palavrões -, deu uma risada irônica antes de acelerar e seguir em frente. O susto o deixou paralisado e com raiva, mas pensou nos seus filhos e preferiu não responder da mesma forma.

O crescente congestionamento que toma conta das ruas da capital baiana, mercê do aumento do número de veículos, mas também da falta de planejamento das autoridades municipais das últimas décadas, apenas tem elevado a sensação de que dirigir passou a ser uma questão de como sobreviver.

E olhe que não falo do comportamento de motoristas que desobedecem à lei seca e insistem em dirigir seus veículos cheios de goró. Refiro-me a pessoas que são equilibradas, sensatas e bem-educadas no seu dia-a-dia... até que se postam atrás do volante (ou seria na frente?) e viram gladiadores modernos, disputando centímetros de asfalto com os demais motoristas e acelerando forte para sair antes dos outros no semáforo ou para passar antes que a luz vermelha acenda.

São aqueles que procuram decorar onde estão os radares móveis nas avenidas e rodovias de modo que possam, entre um equipamento e outro, cometer o crime de acelerar no ritmo de Felipe Massa sem o risco de punição. Que dão "fechadas" nos "adversários" para evitar que eles os ultrapassem ou para se "vingar" de uma ultrapassagem, assumindo o risco de provocar acidentes.

Como esta não é uma situação específica de Salvador, mas de todas as cidades onde o trânsito é mais intenso, sugiro que os candidatos às prefeituras incluam nos seus programas não apenas soluções para facilitar a circulação dos veículos. É fundamental fazer campanhas de educação no trânsito, que possam conscientizar os motoristas da necessidade da boa convivência e de que ceder alguns centímetros de asfalto ou deixar de ganhar alguns segundos pode ser melhor para todos.

E este comportamento civilizado se torna mais importante ainda quando o tráfego piora e os engarrafamentos passam a fazer parte da rotina diária. Afinal, carros não são imprudentes, irresponsáveis ou violentos. As pessoas, sim, podem ser isto tudo. Mas também podem mudar e melhorar.

http://www.atarde.com.br/jornalatarde/opiniao/noticia.jsf?id=946854

E de onde vem esse comportamento tão agressivo, que transforma cidadãos pacatos e tranqüilos no trato social em verdadeiros monstros ao dirigir?

Novamente o livro “Apocalipse Motorizado”, já citado por aqui, dá uma pista:

“O carro é também o falo onde se masturba autonomia, independência, onde se goza ilusioriamente aquilo que se faz ausente, de forma autentica na vida cotidiana. O volante permite isso.
O motor, a combustão, o acelerador...eles por sua vez permitem a ilusão de a potência orgânica do indivíduo se multiplicar por mil. Sendo ele constantemente reduzido, limitado, humilhado, diminuído, constrangido pelas relações de poder, pelas hierarquias e autoridades instituídas ( pai, professor, patrão, polícia, juiz, coronel, deputado, etc) [...] é o motor a combustão e o acelerador – quando não o cano e o gatilho do revólver – que, sob um impulso neurótico, são postos em funcionamento para uma auto-afirmação na tentativa de se sentir o que de fato não se é na sociedade burguesa e hierárquica: um ser humano e não uma coisa. [...]Em última análise, trata-se da busca do orgasmo perdido”.

Apesar de um certo "caráter revolucionário", o texto tem toda a lógica. E não apenas para Salvador.

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