quinta-feira, junho 23, 2016

Parece que foi ontem.

Há 30 anos acontecia a tragédia de Chernobyl, na Ucrânia – então União Soviética. A explosão de um reator nuclear trouxe consequências terríveis para as pessoas e ao meio ambiente não apenas em Chernobyl, mas ao longo de diversas áreas da Rússia, Bielorrússia e Ucrânia. É considerado o pior desastre nuclear da história.

Eu era criança à época e vivíamos todos sob a tensão da Guerra Fria e de uma possível guerra nuclear entre Estados Unidos e União Soviética. O uso de armas nucleares estava presente no imaginário das pessoas e também na literatura, nas histórias em quadrinhos, nas teorias conspiratórias, no cinema – o filme “The day after” é um bom exemplo.

Curioso é que passaram 30 anos e parece que foi ontem, pois ainda consigo recordar vivamente muitos eventos relacionados ao fato naquela época. E tenho repetido muito a expressão “parece que foi ontem”.

Não faz muito tempo que eu vi a foto de uma garota chamada Francis Bean Cobain. O sobrenome já entrega: é a filha de Kurt Cobain, líder da banda Nirvana, que causou uma revolução no rock nos anos 90 - ouvir o álbum “Nevermind” proporciona uma sensação de frescor e empolgação típicas da juventude. E a filha do casal Kurt Cobain e Courtney Love já tem 23 anos de idade! Realmente, notícias que causaram grande impacto não são facilmente esquecidas, como Chernobyl, a morte de Tancredo Neves, o suicídio de Kurt Cobain, o ataque às torres gêmeas em Nova York. Não apenas notícias: o primeiro beijo, aquele dia especial na praia, uma viagem inesquecível.

As pessoas costumam assustar com a passagem do tempo. Dizem que o tempo está “passando mais rápido” e a impressão geral é essa, mas prefiro acreditar que é o nosso ritmo de vida e a relação com o tempo que está mudando. Hoje fazemos (muito) mais coisas, temos acesso a grandes volumes de informações e as notícias surgem tão rapidamente o quanto desaparecem ou são substituídas. Se por um lado tudo isso é interessante, pois nunca antes na História tivemos acesso tão fácil e imediato às informações, por outro parece que a nossa memória vai encurtando. Para o jornalista Nicholas Carr, “o influxo de mensagens competindo entre si, que recebemos sempre que estamos on-line, não apenas sobrecarrega a nossa memória de trabalho; torna muito mais difícil para os lobos frontais concentrarem nossa atenção em apenas uma coisa. E o processo de consolidação de memória sequer pode ser iniciado”. Isso é tão sério que alguns especialistas falam em “efeito Google”: não precisamos aprofundar ou sustentar atenção e concentração para memorizar um assunto, pois está tudo em São Google.  

Talvez isso possa ajudar a explicar o motivo pelo qual “eternizamos” alguns fatos, o que pode causar a impressão de que estes aconteceram recentemente, não importa quantos anos passem. Há quem chame de “memória seletiva”, porém sabemos que nosso cérebro registra ao menos 3 tipos de memórias: as de curto prazo, longo prazo e a ultrarrápida. E um componente fundamental para que certas memórias fiquem registradas por longo tempo é a emoção – tanto positivas quanto negativas. Como os mecanismos de memória são muito complexos, é o escritor uruguaio Eduardo Galeano que nos conta uma história vivida pelo fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado ao chegar à mina de Saint Elie, na Guiana Francesa. Um velho mineiro mostra uma fotografia trincada e borrada e diz: “Minha mulher é muito linda”. A conclusão da história, nas palavras de Galeano: “Ela tem vinte anos. Faz meio século que ela tem vinte anos, em algum lugar do mundo”. 

Quais serão minhas lembranças daqui a 30 anos se os ventos do tempo, como diz Galeano, não apagarem completamente suas pegadas? É claro que espero estar vivo (viver e sobreviver) para responder a esta pergunta, mas creio que a resposta vá além das milhares de fotografias que tirei com o celular nas viagens, shows e eventos especiais. Registros fotográficos são importantes e sempre serão, porém ainda prefiro guardar na memória aqueles momentos em que “parece que foram ontem” para ter histórias a contar sem recorrer a um meio digital. Resta saber se alguém vai querer ouvir, mas este é outro capítulo... 

Referências: 
CARR, Nicholas: A geração superficial - o que a internet está fazendo com os nossos cérebros. Editora Agir, 2011. 
GALEANO, Eduardo: Bocas do Tempo. L&PM, 2010.

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