sexta-feira, agosto 07, 2015

A curiosidade não matou o gato.

É sempre um belo espetáculo observar a lua em sua plenitude durante uma noite com poucas nuvens. Retorno à infância, um menino curioso repleto de perguntas sobre a lua, as estrelas, o espaço.

As perguntas, claro, mudaram um pouco ao longo dos anos: quando garoto, eu queria saber se alguém vivia na lua, se era feita de queijo e se São Jorge morava mesmo lá; adolescente, as dúvidas com base em teorias da conspiração sobre a suposta farsa do homem ter chegado à lua povoavam minha mente; atualmente, gostaria de saber se algum dia voltaremos ao satélite - e se construiremos bases lunares.

Ainda sobre o espaço, o módulo espacial New Horizons, após uma viagem de 9 anos e meio percorrendo o equivalente a 5 bilhões de quilômetros, passou pelos lados de Plutão e enviou fotos e dados sobre o planeta-anão -  que os astrônomos descobriram ser maior (não muita coisa) do que se imaginava. Não é incrível que imagens tão distantes cheguem até nós, terráqueos sedentos por novidades, com tamanha nitidez? E a New Horizons continuará viajando pelo espaço misterioso.    

Atentemos para esta palavrinha: misterioso. O mistério sempre fascinou a humanidade, curiosa do jeito que é e sempre em busca de respostas para tudo. A curiosidade movimenta o mundo e as perguntas são fundamentais para que possamos partir para a pesquisa e, consequentemente, a descoberta.

Lembrem-se das perguntas de crianças.  “Por que o céu é azul?”, “Por que a água é molhada?” e a clássica “Como eu nasci?”, além de outras 300 perguntas diárias – sim, as crianças são capazes de fazer 300 perguntas por dia! Há quem reclame que tantas perguntas são cansativas, mas expressam apenas a curiosidade em aprender coisas que a elas (e a muitos adultos) ainda são misteriosas.

Durante muitos séculos a curiosidade foi vista com maus olhos. Theodore Zeldin, em seu livro “Uma história íntima da humanidade”, lembra que “a mitologia está cheia de castigos divinos impostos aos que desejaram saber além da conta”. Claro que há curiosidades onde pouco ou nada se aproveitam e certamente contribuíram para o estigma negativo:

- E estamos aqui com a ex-Fazenda Big Shower Brazil Fulana Sicraninha. Sicraninha, você e o jogador Fabiano Monarca estão namorando?
- Somos apenas bons amigos, hihihi. 
- Mas vocês foram flagrados aos beijos no show do Juan Castanha. 
- Ah, ele é um querido! 
- O Fabiano Monarca?
- Não, o Juan Castanha. 
- Vocês estão namorando?
- Ai, quanta pergunta...! Chega, né? hihihi. 
- Temos que satisfazer a curiosidade do público!


É o tipo de curiosidade que não difere das atitudes bisbilhoteiras e intrometidas que vemos por aí em diversos ambientes e cada vez mais crescentes: “Em tempos recentes é na América que a demanda por contatos pessoais com artistas populares se mostrou mais forte, que a curiosidade sobre suas vidas íntimas se mostrou mais ávida”, afirmou Aldous Huxley, que escreveu isso na década de 30 do século passado e certamente ficaria impressionado com o admirável mundo novo da indústria da fofoca e seus paparazzi.

“Nada mais difícil do que ser curioso sobre um objeto ou uma pessoa sem a obstrução de ideias preconcebidas”, novamente citando Zeldin. Faz todo o sentido: o autor afirma que ideologias se tornam dogmas e com isso a natural curiosidade do ser humano pode ser tolhida. Mas é na liberdade curiosa (aquela que causa “coceirinhas nas ideias”, como se referiu Rubem Alves) e nas perguntas podemos encontrar o desejo e a liberdade para sair da zona de conforto e buscar as respostas e o conhecimento.

Foi assim que chegamos à Lua, hoje sabemos um pouco mais sobre Plutão e chegaremos a Marte no futuro. Ou podemos descobrir coisas mais simples e intrigantes do nosso dia a dia como o porquê da espuma dos sabonetes e detergentes coloridos ser sempre branca. Vai dizer que não ficou curioso? 


Referências
Uma história íntima da humanidade – Theodore Zeldin
Música na noite e outros ensaios – Aldous Huxley  
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