sexta-feira, junho 14, 2013

Alguma coisa está acontecendo.



São Paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza, Brasília, Santiago, Istambul, Atenas, Nova Iorque.  Milhares de pessoas têm tomado as ruas das grandes cidades em protestos por diversas causas importantes – educação, política econômica, mobilidade urbana, direitos sociais, justiça. 

E muito mais. Logo, as manifestações do movimento “Passe Livre”, contra o aumento das passagens de ônibus nas grandes cidades brasileiras, assumem um caráter bem mais amplo do que o acréscimo de centavos no valor das tarifas. As pessoas protestam porque estão insatisfeitas com alguma situação (ou várias situações) e você até pode perguntar: “Ah, mas só agora? Por que não houve protestos contra os péssimos modelos de saúde, educação e segurança pública, corrupção?”.  Talvez a Copa do Mundo ajude a entender isso. 


Em 2007, quando foi anunciado que o Brasil seria o país sede para a Copa do Mundo de 2014 houve um clima de euforia muito grande sobretudo dos governantes, que logo se apressaram em falar das vantagens e do famoso “legado” da Copa em um país que prometia o “espetáculo do crescimento”.  Em quase 07 anos que separam o anúncio da FIFA à realização da Copa, os brasileiros continuaram consumindo – aparelhos eletrônicos, automóveis, imóveis - mas o “espetáculo do crescimento” não se confirmou: políticas eficazes para setores fundamentais como Educação, Saúde, Segurança Pública e Transportes estagnaram e, em alguns casos, até pioraram. Enquanto aquelas políticas públicas prosseguiam praticamente paralisadas, as obras para os estádios ( e só para as "modernas arenas") da Copa seguiam aceleradas e dinheiro nunca foi problema para os governos, empreiteiras e construtoras - os valores financeiros envolvidos com o mundial da FIFA são espantosos

Claro que o país experimentou avanços sociais na última década; no entanto, o sentimento de insatisfação parece ter chegado ao ápice quando estádios caríssimos foram inaugurados sem as decantadas obras de infra estrutura nas cidades e com promessas de melhorias nas cidades ( e no país) bem distantes da realidade - vejam o que aconteceu com a seleção do Uruguai em Recife para a Copa das Confederações. Não se trata, aqui, de superestimar um torneio de futebol e acusá-lo como responsável por todos os males: o exemplo da Copa demonstra que as pessoas sentiram-se desamparadas (mais do que normalmente acontece) pelos poderes públicos. O “tudo pela Copa” foi levado às últimas consequências pelos governos e com isso a rejeição do brasileiro ao evento é crescente: a Copa do Mundo no Brasil é uma espécie de “catalisador de emoções” em que as mais simples manifestações virtuais como “tem dinheiro para a Copa, mas não tem para a Educação” (ou Saúde, mobilidade urbana, segurança, etc) acabaram ganhando as ruas em um sentimento coletivo de indignação e frustração. 


Na África do Sul, durante a Copa de 2010, o país praticamente parou – não para assistir os jogos de futebol, mas por causa das greves e manifestações. No Brasil não seria diferente e os protestos já começaram às vésperas da Copa das Confederações, um evento-teste da FIFA para o campeonato mundial. Os protestos em São Paulo e Rio de Janeiro, as duas maiores cidades do país, foram destacados nos noticiários internacionais (inclusive com a truculência da polícia em São Paulo) e têm gerado discussões e questionamentos sobre o que acontece de fato no Brasil além da pujança consumista - e as diversas manifestações que têm acontecido, como a marcha das vadias  e passeatas contra a homofobia e violência no campo demonstram isso.  Para um país que passou anos de sua história recente em regime autoritário - e com um histórico onde movimentos populares de protesto sempre foram duramente repreendidos - estes movimentos são muito significativos. 


E “essa coisa que está acontecendo” no mundo, onde vai dar? Muito do que tem acontecido encontra origem no que é chamado de “cultura da convergência”, termo criado pelo professor Henry Jenkins. Segundo o acadêmico norte-americano, tal cultura “refere-se ao fluxo de imagens, ideias, histórias, sons, marcas e relacionamentos através do maior número de canais midiáticos possíveis”.  Estes canais midiáticos – celulares, redes sociais, vídeos – estão cada vez mais disponíveis e as pessoas têm compartilhado informações e arquivos diversos de forma colaborativa. A internet é o meio ( lembre-se de McLuhan com “o meio é a mensagem”) e a interação entre os espaços virtuais com os espaços públicos é essa “coisa que está acontecendo”.  


E vai dar certo, vai resolver alguma coisa? Como acontece em todas as revoluções – e este é um período revolucionário, pois estamos modificando formas de comunicação e até mesmo de comportamento -, talvez os resultados não sejam imediatos, mas na Islândia deu certo: com a crise econômica e com a falta de confiança da população nos partidos políticos (o que já começa a acontecer no Brasil, vide os elevados índices de abstenções de votos nas últimas eleições), os islandeses saíram às ruas e as mudanças aconteceram – desde a queda do primeiro ministro à elaboração de uma nova Constituição com participação popular via internet.  Evidente que a Islândia é um país pequeno, com história milenar e elevados índices de desenvolvimento humano (IDH), mas o exemplo pode servir de inspiração. 


Como escreveu Henry David Thoreau, “o direito à revolução é reconhecido por todos, isto é, o direito de negar lealdade e de oferecer resistência ao governo sempre que se tornem grandes e insuportáveis sua tirania e ineficiência”. O escritor norte-americano publicou “A desobediência civil” em 1849, mas certamente compreenderia o que é “essa coisa” acontecendo. 
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