sexta-feira, abril 12, 2013

Violência contra professores



A professora de filosofia já se preparava para encerrar mais uma aula na noite de segunda-feira quando as luzes da escola em Franco da Rocha, São Paulo, foram apagadas – e a professora foi atingida no olho esquerdo por uma lixeira arremessada por um aluno

A diretora de uma escola no Rio de Janeiro passava pelo corredor quando viu dois adolescentes simulando uma briga. Um dos adolescentes, de 15 anos, não gostou de ser repreendido e espancou a diretora, que ficou bastante ferida; 

O professor fazia a chamada de sua turma em uma escola em Aracaju quando foi interrompido por uma discussão entre dois alunos. O professor, no entanto, não teve tempo de fazer nada: um dos alunos sacou o revólver e atirou. A bala atingiu o professor, que foi socorrido às pressas. 

Estes são alguns relatos de violência contra professores em seu ambiente de trabalho, a sala de aula - o ambiente onde o professor deveria encontrar condições para realizar suas funções pedagógicas e cumprir o papel que se espera deste profissional quanto à aprendizagem e formação crítica dos estudantes. 

No entanto os professores têm encontrado dificuldades para gerenciar os conflitos na sala de aula – conflitos que sempre existiram na relação entre professores e alunos; mas atualmente os docentes lidam com situações em que se deparam até mesmo com estudantes armados e não raramente envolvidos com tráfico de drogas, além de agressões físicas, verbais e vários tipos de ameaças. A situação está tão crítica que existe um projeto de lei que visa combater a violência sofrida pelos professores tramitando pelo senado para ser aprovado. 

Que o atual sistema educacional é burocrático, arcaico e desmotivador para alunos com uma dinâmica bem diferente de anos atrás é verdade; que fazer da escola um lugar “de estacionamento de crianças e adolescentes é perigoso”, nas palavras de Yves de La Taille, também é verdade; mas é verdade também que a escola ( e o professor) está sobrecarregada com o “excesso de missões”, para utilizar uma expressão do professor português António Nóvoa.   

E é com o professor Nóvoa que encontramos uma ótima pista para entender o que vem acontecendo: “as escolas valem o que vale a sociedade. Não podemos imaginar escolas extraordinárias, espantosas, onde tudo funciona bem numa sociedade onde nada funciona.” No caso do Brasil, temos uma sociedade onde vários direitos são negados aos cidadãos – ou “conquistados” após árduas “batalhas” contra burocracias -, muitos deveres são desprezados e as políticas públicas em áreas como esporte, lazer e cultura principalmente nas áreas mais carentes das cidades não merecem a devida atenção dos governantes; além disso, vivemos em uma sociedade bastante violenta, o que é facilmente constatado através de dados fornecidos pelas Secretarias de Segurança Pública estaduais. Espera-se, assim, que a escola (e os professores) sob o mantra de “Educação é a solução para todos os problemas” assuma funções além daquelas que a instituição pode suportar – o excesso de missões.  A escola tenta dar conta com planos e projetos ligados à cidadania e cultura da paz, por exemplo; os professores realizam cursos de prevenção às drogas, Direitos Humanos, diversidade, tecnologias educacionais, relações étnico-raciais e tantos outros. A escola não permanece alheia e tampouco se omite, mas sendo instituição isolada dentro de um contexto onde a violência é tratada como espetáculo – programas sensacionalistas da TV explorando e “coisificando” a vida/morte humana sob a justificativa de “mostrar a realidade”, por exemplo – e onde simples medidas disciplinares são consideradas autoritárias, ela continuará enfrentando os mesmos problemas. 

Lembremo-nos do que o inesquecível educador Paulo Freire dizia: “Não é possível refazer este país, democratizá-lo, humanizá-lo, torná-lo sério, com adolescentes brincando de matar gente, ofendendo a vida, destruindo o sonho,inviabilizando o amor. Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda”. Educação é fundamental para a construção de uma sociedade melhor, mas é um processo conjunto, não isolado. A própria Constituição Federal diz, em seu artigo 205, que “educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade”. A violência contra professores nas escolas não é um problema apenas do âmbito pedagógico, mas também de governantes e sociedade que aparentemente preferem fugir de suas responsabilidades. 

21 comentários:

  1. Jaime,

    O problema está cada vez mais crítico devido às questões que você tão bem pontuou, mas complemento com o seguinte: a própria sociedade está andando às cegas e dando um tiro no próprio pé quando delega TUDO em relação a seus filhos à instituição escolar. Quando eu falo TUDO, é TUDO mesmo. Na educação infantil, que julgo ser a base da educação de todo sujeito, nem a reunião de pais conta com uma quantidade significativa de representantes, quem dirá uma assembleia geral. Existe toda uma estrutura pedagógica que não é reconhecida e respeitada pelas famílias (é claro que existem muitas exceções e as admiro por isso!!!), pois o que realmente importa é onde deixarão os filhos. Fora isso, tanto faz. E os professores se preparam muito para conduzir o trabalho, se dedicam, pesquisam e até perdem noites de sono buscando alternativas para questões preocupantes(também existem exceções quanto a este perfil, é claro!). E para que? Muitos pais não estão nem aí e deixam isso bem claro com suas atitudes e com a forma pela qual tratam seus filhos. Volto a frisar que não estou me referindo a todos, obviamente, mas a parcela que se comporta desta forma é muito grande. Lembrando que a educação deve vir do berço e que as crianças estão ingressando nas escolas cada vez mais cedo (friso a questão que você pontuou quanto às missões excessivas da escola), fica evidente que o que está acontecendo agora é apenas a ponta do iceberg. Existe muito desinteresse da família em educar seus filhos, infelizmente. Está difícil perceber a questão dos limites até em crianças pequenas. E isso faz toda diferença no perfil dos sujeitos sociais que vem por aí. Bom, é assunto "pra mais de metro"... Abraços!

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    1. Muito obrigado pela excelente contribuição, Viviane - e é um assunto do qual você também conhece. Grato! Abs!

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  2. Jaime, texto perfeito! A escola não pode, embora muitos acreditem nisso, dar conta de tantas funções. Além da violência, há muitas atitudes e burocracia que engessam o trabalho dos professores, deixando-os muitas vezes sem autonomia em seu espaço de trabalho. A escola sozinha não conseguirá construir cidadãos melhores, é preciso um trabalho conjunto entre todas as instituições.

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    1. Obrigado, Marina! E bem lembrado sobre a burocracia que engessa o trabalho dos professores!

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  3. Maravilhosa, postagem Jaiminho!
    Pensei que poderia comentar agora, mas minha filhota chegou antes...
    retorno, se não for hoje, será ao longo do fim de semana.
    Parabéns!
    Beijos!

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  4. Olá, Jaime.
    Excelente texto; de uns tempos pra cá a violência contra os professores vem aumentando, seja pelo descaso dos pais (que não cumprem seu papel de educar e deixam que a escola que tente fazer isso) ou pela dificuldade que muitos jovens de hoje possuem em dar valor aos estudos, já que os exemplos que lhes são mostrados de pessoas (teoricamente) bem sucedidas muitas vezes nada tem a ver com estudo e trabalho duro.
    Os professores tem de lidar ainda com sobrecarga trabalhista, falta de recursos e o descaso do governo, que teima em fingir que os problemas não existem; nesse ritmo, as coisa só tendem a piorar.
    É por causa de problemas como este que se cogita uma diminuição da maioridade penal para 16 anos, o que somente sobrecarregaria o sistema judiciário, o que poderia, ao invés de resolver, aumentar ainda mais o problema.
    Abraço e bom final de semana pra ti, Jaime.

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    1. Obrigado, Jacques, sempre muito gentil e inteligente em suas palavras. Sobre essa redução da maioridade penal para 16 anos, sou contra - mas isso eu deixo para depois, talvez uma postagem. Grato.

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  5. Dar liberdade a quem ainda não esta em total condições de exercê-la, para diminuir o trabalho da sua orientação é dar o direito de um sujeito que irá limitar o direito da toda uma sociedade.

    Ótima postagem, precisamos nos mobilizar e nos fazer ouvir. A acomodação não gera movimento e por consequencia, não gera mudança.

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    1. Muito obrigado, Márcia Inocência, por sua contribuição. E é isso, façamos a nossa "gritaria". Abraço!

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  6. Professor Jaime,

    É verdade, quando eu lecionava em Dumont, periferia de Ribeirão Preto, havia de tudo, até pai de aluno assassino cumprindo pena em penitenciária. Um aluno era o terror da escola, agredia fisicamente os professores; o estranho é que eu caí nas graças desse aluno, é, eu é que caí nas graças do aluno, não o aluno que caiu nas graças do professor, eis a inversão de valores deflagrada por Nietzsche; o aluno, de bicicleta, ia a pé, conduzindo a bicicleta, a me acompanhar desde a saída da escola até a minha casa conversando com animação e gírias como se eu fosse amigo de turma dele; na aula, ele impunha respeito aos outros colegas dele quando havia bagunça, dizendo: "Vamos parar com a putaria, aí!".

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    1. Nobre poeta Satoru, isso já aconteceu comigo - de um aluno dito "problemático" ir com a minha cara e da minha aula também: comigo, era ótimo; já os outros professores reclamavam e tinha medo. Acontece, às vezes. Abraço e obrigado! :)

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  7. A educação deveria ser dada pela família. Mas ( olhando todos os lados ) onde está a família? Que família pode educar se não teve educação? ( chuva no molhado )

    Ótimo fim de semana!

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    1. É verdade, Vanessa, a chamada "educação doméstica" não pode ser delegada apenas à escola. Obrigado! :)

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  8. Dias atrás teve um debate em sala de aula sobre a situação das escolas nos dias atuais.A professora que ministra a disciplina Psicologia Escolar está trabalhando conosco a problematização da escola inserida hoje na sociedade de controle,mas que ainda se encontra com sua arquitetura e metodologia da sociedade disciplinar.A escola não consegue acompanhar a dinâmica do mundo atual e vai perdendo seu lugar central,ficando perdida no tempo,e com isso,tudo se perde.O professor perde sua autoridade em sala de aula por não saber lidar com isso,até porque são atribuídas à instituição responsabilidades que não lhe são inerentes .A escola privilegia uma lógica individualista reforçando a competição e a ascensão pessoal. Atualmente é muito forte a ideologia de que “a escola é o caminho para o sucesso”. Cria-se assim a ilusão de que o capitalismo da às mesmas chances a todos, ocultando as altas taxas de desemprego, a diferenças sociais existentes entre outras. A escola se torna assim segregadora, adestradora o que explica os altos índices de evasão das escolas na atualidade, culpabilizando o aluno pelo seu fracasso escolar (o famoso aluno problema).E claro que isso leva ao caminho da perda da autoridade do professor e,consequentemente,abre espaço para a violência;professores sendo espancados,brigas entre alunos sendo filmadas e colocadas no youtube..Como encontrar novos dispositivos para resolver(ou pelo menos,amenizar)tais situações que se agravam a cada dia?Todos(pais,alunos,professores,governo..)devem dialogar,olhar de forma mais abrangente para tais fatos.Mas tudo se complica quando temos que mexer no macro,naquilo que não atende aos interesses da elite.Para eles,quanto mais caos,melhor.

    Beijão,Jaime!Dani.

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    1. Perfeito, Dani! Sua contribuição é valiosa e complementa brilhantemente o texto. Muitíssimo obrigado! Beijo pra você!

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  9. Jaiminho, retornei!
    Belo texto! Na verdade, como não sou professora e sempre fui aluna, difícil dar uma opinião mais embasada, mas tendo em vista a observação apenas, desde meus tempos, e antes deles, pois minha mãe foi professora primária do estado aqui do RS a vida toda. Sempre me disse que na época dela, se aposentou nos anos 80, ela pegou a 'violência' velada da ditadura, que colocava uma 'ouvinte' em sala de aula sentada na última fila quietinha só escrevendo tudo que observava da aula... Fora isso, a mãe contava que não era rara as vezes em que se tinha problema com os pais dos "alunos-problema" que invertiam o discurso ao dizer que a escola que não estava educando, como se só a escola tivesse uma responsabilidade...
    Já, minha experiência como aluna, nunca presenciei maus tratos vindo de alunos, estudei toda minha vida em escola pública, conclui o segundo grau, ou ensino médio como dizem hoje em 1986. Mas havia a questão das drogas muito presente, colegas usuários, mas que não cometiam diretamente violência contra os professores, mas faziam facções e lutavam uns contra os outros com horário marcado no estilo: "te pego na saída".
    E a faculdade, estudei na pública e privada. A questão da droga super presente, e discussões contra professores era bastante frequente (discussões contra; e não entre professor e aluno, a que se diz saudável).
    Presenciei muito assédio moral de professores sobre alunos, isso sim.

    Hoje a coisa está bem mudada. E penso que esses jovens "naif" e suas atitudes são culpa de pais naif, ora selvagens e primitivos; ora indiferentes; mas também creio que exista um despreparo nos professores na questão psicológica de como lidar com esses seres..., mas também de didática. Não estou aqui dizendo que algo mudaria em relação a esses alunos-criatura; mas não podemos desconsiderar os que querem e precisam aprender as coisas.

    Beijos muitos e ótima semana!

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    1. Cissinha, ótimo comentário. Na verdade os professores estão buscando esse apoio psicológico dentro da psicopedagogia - que felizmente tem a sua importância reconhecida gradativamente. Mas insisto: é preciso haver a integração da escola-família-sociedade e os governos cumprirem o que se espera deles. Beijos e muito grato! :)

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  10. Tema bastante polêmico esse. Na verdade ser professor não é uma tarefa fácil, ser docente na rede pública é pior ainda. Acho que os educadores são muito mal remunerados e sim. Enfrentam muitos riscos !
    Mas o mal deve ser cortado pela raiz e só dá aos professores um salário mais digno não adiantaria muita coisa. Falta educação domestica, qualidade de vida, estrutura familiar e comida na mesa dessas crianças e adolescentes !
    Acabo de criar um blog com um tema polêmico: "Como arranjar um bom partido"! Acho que não existe mal algum em querer ter uma vida mais digna! Sou da cidade de Arapiraca e sofro com a desigaldade social que vejo em minha volta !

    http://comoencontrarumbompartido.blogspot.com.br/

    abraços

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    1. Obrigado, Zazzle, por sua contribuição e comentário - e você tem razão, é preciso haver toda essa integração para que a Educação realmente passe pelas mudanças que todos queremos. Em breve passarei em seu blog. :) Abraço

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  11. Oi Jaime!

    Amei seu comentário em meu blog e virei tua fã. Até passei o link de seu blog para alguns amigos. Gosto de abrir a net e ler conteúdo assim, inteligentes! Não sei como tem gente que aguenta ficar o dia todinho na INTERNET só acessando o Facebook, aí é muita alienação ! Por isso que esse país não vai pra frente !

    Abraços!

    Vou estar sempre por aqui !

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