sábado, novembro 27, 2010

Considerações sobre o Rio de Janeiro, tráfico e corrupção

Difícil não se impressionar e se horrorizar com a guerra civil que vem acontecendo no Rio de Janeiro há alguns anos e que esta semana chegou ao ápice nos conflitos entre policiais e traficantes.

Também custa acreditar que em Salvador crimes bárbaros como adolescentes decapitadas e “balas perdidas” que acertam crianças dentro de casa estejam ocorrendo. O que aconteceu com a cidade maravilhosa e a terra da alegria, da felicidade e do axé, e que serão cidades-sede para a Copa do Mundo em 2014?

Este é o problema: quase nada aconteceu em termos de políticas públicas e inclusão. As drogas estão ligadas à humanidade desde o inicio dos tempos e até a Bíblia traz relatos de patriarcas “mandando ver” no vinho. Nativos da América Central e do Norte já utilizavam peyote (espécie de cacto) para suas visões e eram imitados pelos seus irmãos sul-americanos com diversas ervas alucinógenas; na Ásia, a flor da papoula deu origem ao ópio e por aí segue a história e muitos livros, discos e filmes que você leu, ouviu e assistiu foram inspirados por “viagens”.

Portanto, a repressão pura e simples em relação às drogas vai adiantar pouco, pois se trata de uma reação a um problema criado pela ausência do poder público em várias comunidades. Não estou dizendo que o princípio da legalidade ( polícia, projetos, normas) tenha que ser desprezado, nada disso; apenas que o presente modelo não passa de mais um paliativo que serve bem a coberturas midiáticas que ajudarão eleger políticos e fomentar a indústria de armas e segurança privada.

Educação, eis a solução! Devagar: a educação de qualidade é rigorosamente necessária e condição sine qua non para que um país possa ser classificado como desenvolvido; contudo, apesar da necessidade de se investimento e maior atenção ao setor, a educação não fará milagres se o modelo de responsabilidade continuar o mesmo, ou seja, apenas a cargo escola.

A partir daí surgem fetiches como “escola em tempo integral” esperando que a mesma resolva todos os problemas da sociedade, e a sociedade é composta por atores que precisam entrar no jogo e assumir suas responsabilidades. Fácil se eximir das mesmas sob o argumento simplista de “pago meus impostos” e fim de papo. Apenas um exemplo: o dono daquele bar sabe que é proibido vender bebidas alcoólicas a menores, mas o faz sem o menor constrangimento. E desnecessário reforçar aqui o papel dos pais em todo o processo de formação da criança e adolescente.

E investir na escola sem investir em políticas públicas adequadas e que ofereçam perspectivas para crescimento pessoal e profissional para milhares de jovens estudantes também não será a salvação. Os modelos de ascensão social no Brasil raramente estão ligados ao estudo e isso precisa mudar. Em muitos casos os jovens entram no mundo do crime atraídos justamente pelas “benesses” que o narcotráfico e o crime organizado podem proporcionar: poder e sexo.

A gênese de toda essa violência que acontece no Rio, Salvador e no Brasil de modo geral é também relacionada ao tráfico de drogas - além de tantas outras causas como a desigualdade histórica deste país - que mantém uma fronteira muito tênue com a corrupção. Não vi Tropa de Elite II ( na verdade, nem o I ) mas não é preciso especificamente um filme - que no caso deste sucesso do cinema nacional tem méritos - para perceber o Estado corrupto que se apresenta diante de nossos olhos todos os dias e às vezes – ou na maioria – sem reação diante de notícias de armamento pesado do exército nas mãos de traficantes do morro ou da favela. Obviamente tais armas não chegam via sedex.

Corrupção, claro. E as notícias sobre este assunto são tantas que passam e caem no esquecimento. Mas é bom lembrar de uma bem recente: na Bahia a Polícia Federal prendeu 7 prefeitos acusados de desviar verbas da merenda escolar e de medicamentos. E são tantas irregularidades em mais 20 municípios que o prejuízo pode chegar a R$ 60 milhões. Vejam que as verbas existem e são liberadas para atender certa necessidade, mas parafraseando Drummond, "tinha um interceptador no meio do caminho". Vários interceptadores, melhor dizendo.

Dentro do princípio da legalidade, a aplicação severa das leis contra o tráfico de drogas e corrupção deve continuar acontecendo nos morros e nas comunidades onde o tráfico domina, mas também em diversos condomínios de luxo, fazendas, mansões, coberturas, gabinetes políticos. Urgem políticas públicas adequadas, investimentos sérios e bem distribuídos em setores importantes como educação, saúde, esporte/lazer e cultura.

E tudo isso deveria acontecer independente de uma Copa do Mundo e de Jogos Olímpicos.

Na paz, siga-me no twitter: www.twitter.com/jaimeguimaraess

10 comentários:

  1. Olá, grande Jaime!

    Pelo que me consta, o preço de maconha e cocaína é muito alto.

    Então creio que a esmagadora maioria dos consumidores está no meio de pessoas com um nível de renda mais elevado.

    A não ser que o trabalhador assalariado de baixa renda esteja trocando arroz e feijão por drogas. Morreria de inanição em uma semana, já que seu salário não dá nem para overdose.

    Então , os bem nascidos é que sustentam o tráfico e com a conivência ou através da corrupção dos poderes legislativo , judiciário e executivo. Mas isso não é levado em conta pela mídia, que não vai deixar manchar os colarinhos de gente graúda já que é muito mais fácil botar na conta da pobreza a responsabilidade pela própria pobreza.

    Eu estou meio desanimado dessa vida, Jaime. Não posso , mas estou. Meu abraço, meu amigo. Paz e bem.

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  2. Jaime,

    quando eu tinha 10 anos, tive de viver lá no Rio, e vi o governo do Brizola. o cara mandava a PM chamar bandido de senhor, tratar com por favor e por aqui, cidadão. é. vê se há 25 anos atrá havia AR-15 ou mesmo AK-47 em poder do crime. criminoso era tratado como criminoso, cidadão de bem andava com carteira de trabalho, mãe de família era valorizada, e puta não era mais respeitada do que as avós que cuidavam dos netos órfãos. vê hoje a merda que tá aquela cidade maravilhosa.
    por isso que aqui no interior de SP, o povo diz: São Paulo é aquele país da Europa em que carioca entra sem passaporte.
    mas a bandidagem vem de cima, os corruptos do colarinho branco é que dão o mau exemplo, e, pra político, a vida nossa não vale nem um copo de água mineral. eles bebem água Perier.

    =D
    Marcos

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  3. Pouco a comentar. Enalteço o problema da relação políticas públicas e da educação a cargo exclusivo das escolas. O pior despreparo do professor é o social, ou seja, ser flexível o suficiente para ver que existem conjunturas e circunstâncias variadas na história.

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  4. Concordo com o seu ponto de vista e também acredito que não haja uma solução imediata para o problema da violência (exceto mandar matar todo mundo envolvido nisso, mas isto além de ser pouco Cristão, seria um Atestado de Incompetência). A solução está na educação mas, como esta é uma solução a longo prazo, a população e os políticos preferem as "soluções" imediatistas que nunca vão resolver nada e que vão gastar mais dinheiro do que em um investimento decente para a educação.

    Enfim, está difícil de viver no Brasil e é fácil entender o porque de o Carnaval ser uma fuja desta realidade de violência, corrupção, impostos e serviços públicos extremamente ruins.

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  5. E aí, Jaimão? Beleza? Ainda tô vivo... hehehe!

    Na minha modesta opinião, a história não é tão simples quanto parece. Eu só tenho uma certeza - e que chovam as pedradas -: bandido é bandido e pronto. Não importa se estão nas luxuosas coberturas da Barra ou nalguma viela do subúrbio. É fato. Todos têm sua parcela de culpa no esquema. Inclusive, nós. É muito fácil culpar o tráfico que, com certeza, é o grande câncer nessa história toda. Mas não podemos nos esquecer dos políticos, responsáveis por anos e anos de uma política inficiente no setor e, claro, de nós que somos quem escolhemos os caras. Outra coisa: o sujeito que usa drogas "recreativamente" e se choca, diante da tv, vendo essa situação toda, tem culpa no cartório, sim! Aí entram várias discussões - legalização, discriminalização e o escambau a quatro -, mas é fato que, no momento atual,na atual conjuntura e na legislação vigente no país, sustenta o tráfico, sim, e ponto final!

    Quanto à educação... bom, concordo contigo. Trabalho, há anos, numa "comunidade" e me deixa péssimo vendo os meninos elegerem os traficantes como seus heróis. Nessas horas é que me lembro do finado Alborghetti. O cara é que tava certo: "Bandido bom é bandido morto!" E que venham os Direitos Humanos...

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  6. Olá, professor!

    Boa parte das pessoas (inclua aí as "otoridades") costuma colocar a culpa da violência nos usuários de drogas. Eu não os eximo da culpa, de fato quem sustenta o tráfico tem lá sua parcela de responsabilidade (tava lá no fim dos anos 90 o Planet com seu "não compre, plante" - não, não vou chegar ao "legalize já" aqui), mas a corrupção tem um peso incomensuravelmente maior nisso tudo, não só da polícia e do governo, e sim a corrupção da sociedade (longe de mim acreditar q a "culpa" pode ser colocada em meia dúzia de pontos).
    A sociedade tolera a politicagem q nos governa. Aqui no Rio, os CIEPs ofereciam oportunidade aos moradores dessas àreas carentes de tudo, mas foram abandonados simplesmente por motivos partidários (abandonadas pelo Estado, os bandidos continuaram do lado delas). Foi o projeto q mais integrou políticas públicas (educação, saúde, "formação profissional", lazer e nutrição) e o problema do Brasil é a falta de integração das políticas públicas. Enquanto não tivermos ação conjunta e sistemática das políticas públicas, o q muda de fato? Medidas isoladas não mudam nada.
    Mas a quem interessa q isso funcione? Como disse como disse Cristovam Buarque (estou parecendo pedetista? rs), as políticas públicas q funcionam aqui são as que atendem os mais ricos, o resto é apenas macumba pra turista.

    bjohnny!

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  7. Oi Jaime!!!

    Esse não é o dia "D", como muitos dizem, esse não é o fim enquanto o uso de drogas bancar o tráfico de drogas, enquanto o bandido que mora na Zona sul de terno e gravata não for preso, enquanto armas pesadas vão parar "misteriosamente" nas mãos de traficantes e começar uma política, a longo prazo, de educação e segurança. Mas só existe o IMEDIATISMO no dicionário dos nossos governantes.

    Não sou contra o combate as Drogas, sou contra o desrespeito a população que mora nas comunidades. Essa população não assiste pela TV o tiroteio, eles estão lá vendo ao vivo, impedidos de sair ou entrar. Achei que poderia ser uma ação mais bem planejada.
    Justiça tem que ser para todos! Não só para o pobre, preto e favelado. Matar a mão que aperta o gatinho não resolverá a situação no Rio de Janeiro. Morre um bandido e nasce três!!! Mas garanto que nosso governador falará disso até o fim de seus dias como " O HOMEM QUE SALVOU O RIO DE JANEIRO..." Não duvido que se candidate a presidente nas próximas eleições. Tsc, tsc, tsc...

    Beijos!!!

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  8. Jaime, eu sei que tenho muito para escrever aqui, mas gastei todas as minhas forças naquele post... Agora irei fazer outro... Então, por ora digo que concordo com tudo que disse. E é muito bom ouvir de quem sabe mesmo sobre educação falar o que realmente interessa.

    Fiz esse comentário horrivel, mas é a pressa. Preciso correr. rsrs

    Grande abraço e mais tarde falo contigo!

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  9. Good dispatch and this post helped me alot in my college assignement. Gratefulness you as your information.

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  10. Grande Jaimão!

    Não sei o que pensar sinceramente cara sobre tudo isso, confesso que sou super alienado, heheeh. Essa coisa das drogas, da corrupção, não sei, mas acho que começa com a gente msm, desde o esperto que fura fila ate o cara que compra votos.

    Mas a unica coisa que eu pensei msm, foi que tudo isso que ta acontecendo no Rio é armação, o Lula bateu um fio la pros manos arquitetou a parada, eles ficam um ano suave na cadeia comendo camarão e o governo paga tudo com juros depois da copa e das olimpiadas.

    Sei lá, acho que pra minha cabecinha a unica coisa que resta é criar teoricas toscas como essa! rs

    abçs

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