sexta-feira, junho 11, 2010

Agora é só Copa do Mundo! E viva o futebol!

Charge antiga, mas vale...recordar é viver! =)

E começa mais uma Copa do Mundo, desta vez na África do Sul. Serão 32 países que disputarão o título de futebol mais cobiçado do planeta. Os favoritos de sempre, como Brasil, Argentina, Itália, Alemanha estarão lá, bem como os “quase favoritos” como Espanha, Holanda, França e Inglaterra, além de seleções que pelo visto serão verdadeiros sacos de pancada como Coréia do Norte, Argélia e Nova Zelândia.

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Futebol hoje é um negócio da... FIFA. A Federação Internacional de Futebol vai lucrar cerca de US$ 4 bilhões com esta Copa do Mundo na África. A grana vem dos direitos de transmissão – para se ter uma ideia a Festa de abertura da Copa foi transmitida para 215 países por diversas emissoras de TV- e patrocinadores. Para sediar a Copa do Mundo, a África do Sul estourou o orçamento previsto para a construção de novos estádios: de US$ 2,15 bilhões para US$ 4,15 bilhões. Percebam que os números não são nada humildes, afinal tratam-se de “bilhões”. Os números também não são tão modestos quando nos referimos aos salários de jogadores “de elite” como Robinho, Ronaldinho, Kaká e Luís Fabiano. Um garoto com 18 anos de idade como Neymar já ganha seguramente seus R$ 100 mil. Para milhares de garotos, é o sonho da ascensão social: carros importados, mansões, mulheres, jóias, tudo o que o dinheiro pode proporcionar. E muitos garotos desprezam o estudo atrás do sonho de ser um jogador de futebol profissional.

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De posse de tais informações, algumas pessoas atacam o futebol – sobretudo no Brasil: “ Com esse dinheiro todo era possível construir escolas, hospitais, equipar a polícia, mas o brasileiro é alienado, só pensa em futebol, Copa do Mundo, é um absurdo!”

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É verdade que com essa dinheirama toda é possível construir muitas coisas, mas vamos com calma. O futebol não é causa de “alienação” nenhuma e tampouco tem a ver com “desenvolvimento e subdesenvolvimento”. Os ingleses são loucos por futebol e não consta que a Ilha da Rainha seja subdesenvolvida e nem que os súditos sejam, espera-se, “alienados” – da mesma forma a Alemanha, Holanda e Espanha, entre outros. O que é digno de cartão vermelho por aqui é a educação pública praticamente falida e o desconhecimento do que seja cidadania. Cidadania que seria útil, por exemplo, para cobrar onde a grana do seu imposto é aplicada. Nestes pontos – e tantos outros – o Brasil ainda ocupa a 3ª divisão e precisa melhorar muito caso queria chegar à divisão de elite.

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Como nesta época em cada canto do Brasil se “respira” futebol e envolve até mesmo quem não gosta do esporte, o fato do evento acontecer na África do Sul serviu para uma coisa muito importante: as pessoas vão conhecer a história de Nelson Mandela.

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Espantei-me quando perguntava aos meus alunos em diversas turmas – e põe diversas nisso! – se eles conheciam ou já ouviram falar em “Nelson Mandela” e a resposta era negativa, seguido de um “quem?”. Poucos, pouquíssimos alunos ( de Ensino Médio e EJA- Educação de Jovens e Adultos)conheciam o líder sul-africano que lutou contra um dos regimes mais nojentos do século XX: o apartheid.

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Foi bom: falei para estas turmas sobre Nelson Mandela e o regime conhecido como apartheid e alguns alunos relataram exemplos de discriminação racial aqui em Salvador, a Terra da Alegria e da Felicidade. E como a África do Sul e a capital baiana possuem semelhanças nesta questão racial! - o que lá era explícito, aqui continua velado e muitos não tem consciência que são vítimas de preconceito. É verdade que esse tipo de discussão funcionou bem melhor nas salas de EJA – Educação de Jovens e Adultos do que nas salas de Ensino Médio lotadas de adolescentes mais preocupados com outras coisas – do tipo: quanto tempo o professor iria ficar naquele blá-blá-blá?

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Mas como nos conta uma fábula russa, “ ciscando num monte de esterco o galo encontrou uma pérola”, a discussão rendeu observação muito interessante de uma aluna:
- Então o guerreiro de verdade é Nelson Mandela, que ficou esse tempo todo na cadeia e lutou por uma causa boa, e não esses jogadores que aparecem na TV dizendo que são guerreiros e ganhando dinheiro pra beber cerveja!

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O futebol pode nos contar muitas coisas sobre os costumes e comportamentos de uma época. Como escreveu Nélson Rodrigues, “em futebol, o pior cego é o que só vê a bola”. E acrescento: no cotidiano também. Como já dito, além de uma ferramenta para ascensão social, o futebol também funciona como uma espécie de “identidade nacional”: quantos brasileiros que viajam ao exterior nunca ouviram um “ Brazil? Pelé! Ronaldinho!”? E é interessante notar como o futebol foi, de certa forma, uma espécie de “democracia racial” conquistada gradativamente. No ínicio do século XX no Brasil os negros eram proibidos de jogarem futebol – era um esporte aristocrático; aos poucos os negros e mestiços conquistaram espaço e venceram o preconceito – embora ainda exista.

Deixo uma indicação literária para quem não gosta de futebol mas também não nega que o Brasil vive um período de euforia/esperança (a esperança em tornar-se protagonista, deixando o "complexo de vira-lata" em outro plano) em Copas do Mundo: “Futebol ao sol e à sombra”, do escritor uruguaio Eduardo Galeano. O livro traz histórias curtas e deliciosas – algumas nem tanto, como a chegada de João Havelange ao poder na FIFA – e o melhor: é baratinho. Recomendado para quem é fanático e para quem não gosta de futebol. Eduardo Galeano é um excelente escritor.

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E vamos todos juntos, pra frente Brasil, salve a seleção! Apesar do Dunga e seus 11 perebas, fica difícil não torcer pelas arrancadas de Kaká, as pedaladas de Robinho, os gols de Luís Fabiano e a técnica invejável de Felipe Melo, Josué, Júlio Batista...er...bem, deixa pra lá. E conselho final para quem vai assistir à Copa pela TV: no controle remoto existe uma tecla chamada “MUTE”: ela será muito necessária, pois pior do que as Vuvuzelas, só mesmo a narração do Galvão Bueno.

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6 comentários:

  1. 10 x 0 prá você, Jaime! Eu já era da sua torcida, agora vou chamar essa galara de seguidores seus aqui para a gente fazer tipo uma "fiel" do Grooeland. rsrs. Abração, meu amigo! Paz e bem.

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  2. Muito bom. Sempre gostei dos seus escritos na comunidade oficial do Santos no orkut e não me admira que nesse blog, seja ainda melhor. Parabéns. Goleada pra você!!

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  3. Não raro escuto de vez em quando:
    - Se gasta tanto dinheiro com futebol e não sobra dinheiro para nada!
    As cifras que vemos em relação ao nosso futebol são gigantescas sim, mas os impostos que pagamos são altos e quase secretos. Muita gente não tem noção da dinheirama que rola de impostos pagos por tudo que fazemos e usamos. Como diria uma amiga:
    -É tudo uma máfia!

    Muito bem lembrado e comparado por você a questão dos Ingleses e a paixão por futebol, sem comentários e comparações, não precisa!
    Então não ache que a culpa do caos é do futebol, a culpa é nossa! Que não sabemos votar, não sabemos para onde vai o dinheiro dos impostos e reclamamos que o jogador que não estudou, ganha em um mês tudo que você ganha o resto da sua vida. Não a culpa não é do futebol...

    Muito fácil culpar alguma coisa ou alguém pelo desastre educacional que vivemos, a "bola" da vez é o futebol, antes era os professores, a Globo, a televisão... Enfim...
    O povo esquece que educação começa dentro de casa e depois nas urnas.

    Agora e torcer pelos "perebas", apertar a tecla MUTE e relaxar(relaxar? Putz... Eu não consigo!)

    Beijinhos Jaime!!!

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  4. Cara, infelizmente tudo pára em função do futebol. Andar nas ruas no horário dos jogos é o mesmo que chegar na ilha de Lost sozinho... E claro, o dinheiro corre solto para os caras tirarem onda e depois sairem para depor dizendo que não sabem de nada... Ê meu Brasil.
    Outra: to notando que o número de visitas no meu blog cresceu assutadoramente, tá explicado porque, vc! Você com esse blog cabeça super bem escrito que citou o meu como blog da sua lista! Sabia que tinha uma explicação razoável rsss obrigada, beijão e parabéns!

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  5. Muito bom, um texto que mostra as diversas facetas desse período e suas consequências, gostei da sua colocação sobra a abordagem a respeito do Nelson Mandela, me espanta que tantos não tenham sequer ouvido falar nele e que bom que com a sua intervenção, com certeza alguma coisa mudou na visão desses alunos.
    A grande verdade é que todo mundo reclama sobre a má distribuição do $ público, porém raríssimos têm condições de questionar e cobrar devolutivas sobre o destino desse dinheiro, é fato, falta cidadania, consciência, melhorias na educação visando tambem desenvolver essa consciência, e sabemos bem que é necessário mexer em muita coisa além (beeem além) da metologia e didática dos professores, nesse sentido. As pessoas, de um modo geral, têm mania de atribur a alienação do povo a causas isoladas, como os jogos da copa, a exemplo, quando na verdade, a política do pão e circo acontece durante diversas épocas todos os anos, e de diversas formas, muito bem camufladas, se considerarmos o estado de ignorância e 'acessos negados' na qual vive a imensa maioria dos brasileiros.

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  6. Olá, professor.

    Alguns comuni... (ops! desculpe o erro) Algumas pessoas gostam de limitar as diversões populares (Copa, as Olimpíadas, o Carnaval e Cia. Ltda.) à alienação, como se as pessoas não tivessem direito de se divertir, de encontrar algo onde possam descontrair por alguns momentos. Geralmente uma tentativa de valorizar algo que elas apreciam, ou irão tirar algum proveito, depreciando o gosto dos outros. Mas tbm não dá pra negar que certas (erradas?) pessoas aproveitam determinados eventos para alienar ainda mais o povão-misterioso-pássaro-formoso (tá. essa foi péssima). E é claro tbm que quem aceita isso tem lá sua parcela de culpa (respeitando-se suas devidas proporções). É certo q dá pra se aprender muito com tudo, mas quantos vão se interessar pelos desvaires de Leopoldo II ao assistir um jogo da Bélgica? Meia dúzia, entre 190 milhões em ação. Sério que já ouvi gente que ainda acha que a África é um país.
    Pra constar eu ainda estou p da vida com a mãe de um aluno que retirou o filho da melhor escola pública da cidade para colocar o garoto onde eu trabalho só para ele poder treinar pela manhã pq havia passado na peneira da Cabofriense (!!!). Eu mesma fiz a matrícula e perguntei três vezes: a senhora tem certeza que vai fazer isso? Então a inspetora me chamou e falou baixinho: Silvana, vc não tem nada com isso. É, ela tem razão, eu não tenho nada a ver com o papel social do futebol. E poderia citar aqui um programa exemplar da prefeitura que "melhorou" o desempenho escolar de no mínimo 50% dos alunos de toda a rede municipal de ensino através do futsal pra não parecer que sou xiíta (só permanece no programa quem tem notas acima da média, logo o índice de aprovação aumentou), mas essa dona ainda está entalada na garganta.
    Exageros à parte, salvam-se todos.

    bjohnny!

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