sábado, abril 19, 2008

What, me worry?

Dois fatos que muito provavelmente tenham passado despercebido pela maioria das pessoas, já que a overdose midiática em torno do caso Isabella fez com que o Brasil “parasse” em alguns aspectos.

O primeiro fato foi a paralisação dos professores da rede municipal de Salvador por 5 dias, em uma tentativa de pressionar a prefeitura a conceder um aumento maior do que os 5% divididos em 2 vezes sem juros e sem correção monetária. Os professores não conseguiram um percentual maior, mas ao menos conseguiram que essa fortuna de 5% fosse paga integralmente já a partir de Maio. Uma vitória! Tem professor que nem sabe o que fazer com todo esse dinheiro!

O segundo fato foi o assassinato do estudante Ruan Sérgio, de 16 anos, por um adolescente de 13 anos de idade, quando saía da escola. Ruan foi morto com 2 tiros disparados de uma arma de fogo em poder do jovem de 13 anos. Os dois estudavam em escolas particulares.

O que uma coisa tem a ver com a outra?

Bastante. Segundo a sempre correta imprensa, 150 mil alunos da rede municipal de ensino foram prejudicados com a paralisação dos professores. Interessante a constatação da imprensa. Os alunos são prejudicados apenas quando há greve ou paralisação – e é claro que uma greve é prejudicial, sem dúvida. O problema é que muito raramente encontram-se reportagens do tipo “150 mil alunos da rede municipal de ensino são prejudicados pelas péssimas condições estruturais das escolas, falta de recursos e carga horária excessiva dos professores”.

Muitos pais sabem das condições estruturais e da falta de recursos de grande parte das escolas públicas ( apesar de certos “especialistas e mestres” em educação desprezarem tais condições preferindo culpabilizar o docente – afinal, mais de 90% das escolas brasileiras tem “água e luz”) e colocam os filhos em escolas particulares, onde acreditam que o ensino e a disciplina são melhores, deixando-os imunes à violência.

Este é mais um daqueles mitos propagados em cima do marketing de muitas escolas “de grife”. Geralmente vemos casos relacionados a drogas e violências como “exclusivos” de escola pública, de periferia, esquecida até por Deus. Como se escolas particulares fossem ilhas isoladas de todos os problemas, até mesmo os relacionados com drogas.

Em várias dessas escolas consideradas “de grife”, que fazem propaganda incessante em TV, revistas e jornais sobre “ensino de qualidade”, as orientadoras pedagógicas e diretores precisam fazer, e não apenas de vez em quando, a operação “abafa o caso”, com alunos que são pegos com drogas escondidos nas mochilas ou criam problemas na escola porque são usuários. Episódios de violência também são comuns. Imagem é tudo, e a imagem negativa deve ficar lá com a periferia, com a escola do governo.

Para muitos pais é bem mais cômodo largar (infelizmente, em muitos casos, é isso o que acaba acontecendo) o filho numa dessas escolas e deixar toda a responsabilidade para professores e coordenadores do que acompanhar o desenvolvimento dos filhos e passar mais tempo com eles. Claro, afinal é preciso trabalhar para trocar de carro ( zero, evidente) todos os anos só pra matar o vizinho de inveja, pagar a TV a cabo e viajar de preferência para Miami ou Nova Iorque, afinal isso é ser feliz.

Este adolescente que matou o Ruan simplesmente fez uma cópia da chave do armário onde estava guardada uma arma (que pertencera ao pai do garoto, morto há 10 anos), escondeu essa arma embaixo da cama e ainda tirou fotos para colocar em seu álbum no orkut. E matou o outro adolescente por conta de motivo fútil ( segundo testemunhas, uma discussão sobre futebol).

Será que esse jovem não tinha noção do que estava fazendo? Matar a sangue frio um rapaz apenas 3 anos mais velho do que ele não se configura apenas em um mais crime que engrossarão as estatísticas dos boletins da sempre eficiente e comprometida secretaria de segurança pública, e sim na triste constatação de o quanto a vida é banalizada. Mata-se por qualquer motivo porque é muito fácil conseguir uma arma. Mata-se sem remorsos porque isso já é comum. Tudo é facilitado. Não há limites. Lembra até propaganda de TV: tudo fácil, sem limites e sem enrolação!

As pessoas andam muito melindradas. Quem tenta orientar quanto aos limites é logo agredido, verbal ou fisicamente. Não se toleram restrições, fracassos, deveres. Nas escolas – públicas e particulares - vemos tudo isso sob a justificativa de “não desestimular o aluno e aumentar sua auto-estima”. Junte este quadro à super proteção de pais com discursos do tipo “estou pagando o salário de vocês pra que meu filho seja educado e não para que ele fique para recuperação! Vai estragar nossos planos de viagem!” e as famigeradas “aprovações automáticas” que teremos, enfim, cidadãos despreparados para lidar com frustrações, fracassos e alguns insucessos ao longo de sua vida. Sobram o consumismo e o conceito de "ser alguém na vida" ligado aos bens materiais que conseguiu, de forma lícita ou ílicita - não se faz mais essa distinção, o que importa é sustentar essa imagem.

Que tem a ver com o poder. O poder de humilhar, ostentar, de causar medo ( nunca se perguntou porque tantos magricelas passeando com seus pitt bulls por aí?), de superar o outro, de tirar uma vida quando bem quiser.

Educação constitui-se de três pilares fundamentais: família, escola e estado. A partir do momento em que família e estado eximem-se de suas responsabilidades, deixando a cargo apenas da escola a função de educar a criança e adolescente, não adianta pais procurarem escolas particulares sejam elas de grife ou não e nem a imprensa querer simplificar uma paralisação de professores com um viés populista ao estilo “o povo, como sempre, paga o pato”. Há questões bem mais sérias envolvidas e todas exigem responsabilidades. Responsabilidades por parte de pais, professores, governantes, sociedade. A escola fracassa. Claro. Está sozinha no processo.

Bom se essas coisas fossem mais simples. Acontece que não são. Não dá para resolver tudo com um cartãozinho de crédito.

Apesar de quererem fazer-nos crer que sim.

CONSEGUIRAM...

O caso da menina Isabella Nardoni já foi tema de dois posts aqui no Grooeland ( veja os dois últimos posts). Muitos blogs ( também de jornalistas) e sites só agora estão falando do que virou um “circo” ou um Big Brother. Bem, antes tarde do que nunca para perceberem, não?
Evidente que isso não é exclusividade de brasileiros. Basta lembrar dos terríveis tablóides ingleses, especializados em publicar notícias interessantíssimas que irão mudar o mundo, como se o príncipe comeu ou não a empregada no palácio. Na verdade, nem precisa ir tão longe, assim: que tal o Notícias Populares, Aqui Agora e o "povo na TV"?

Porém todo esse festival, essa histeria, pessoas que saem de cidades do interior só pra manter vigilância na frente da casa dos acusados ou da delegacia de polícia ( com celulares tirando fotos para depois mostrar aos vizinhos “olha aqui ó! ó o cara que matou a menina! Olha, olha eu tava lá” ) só pode ser resumida em uma palavra: ridículo.

Mas a imprensa deve estar feliz da vida. Estes links não deixam dúvidas que os objetivos foram alcançados:

Isso não é só apenas ridículo. É nojento. Que os imbecis façam bom proveito de suas câmeras digitais e celulares idiotas e registrem tudo para montar um álbum e dizer que “ao menos fizeram alguma coisa”. As escolas estão aí, com muito trabalho a ser feito; os asilos de idosos, os lares de crianças com câncer, os orfanatos.

Mas já há um avanço: até agora, não apareceu ninguém com um cartaz “FILMA EU GALVÃO”. Isso é que é um povo civilizado!

sexta-feira, abril 11, 2008

Holofotes, histerias e tudo como d'antes...

"Não existe mais muita diferença entre o jornalismo e a ficção, entre a novela e o jornal das 20h. O tratamento dado a um fato verdadeiro é o mesmo dado a um fato novelesco."
Roberto Albergaria, antropólogo*

Os holofotes, o desejo de aparecer em rede nacional, a fofoca, as apostas, os juízes, os palpiteiros, o circo, o espetáculo. Tudo isso continua envolvendo o caso da menina Isabela Nardoni na mídia.

O caso é sério, mas já se transformou em novela, em espetáculo. E a polícia colabora... a alimentar a central de apostas em que se transformou a imprensa deste país. Delegados, promotores, legistas, todos querendo seu minuto de fama com jornalistas ávidos pela “exclusividade”.

O povo consome tudo com o maior interesse. Ao fim do Big Brother, é preciso uma nova “diversão”, uma nova distração aos moldes de uma famosa novela em que o grande mistério era “quem matou Odete Roitman?”. Não é à toa que Adorno falava sobre uma indústria do divertimento, onde “o espectador não deve trabalhar com a própria cabeça”.

Divertimento? Pode um caso tão chocante destes ter alguma relação com diversão? Infelizmente, conseguiram. O crime continua sem solução. Não se encontra o culpado ou os culpados. Para boa parte da opinião pública, a culpa é do pai e da madrasta; para outros, o culpado é pedreiro; há quem aposte no porteiro; aprendizes de Sherlock Holmes juram que a mãe da menina tem culpa no cartório. Virou uma bolsa de apostas com certos apresentadores fazendo o papel de crupiês da mesa, mas de forma bem direcionada:

- Se você acha que SIM, que o pai da menina é o culpado, e as evidências todas demonstram que ele é o culpado, o sangue, a roupa, a irmã, tudo demonstra que ele matou a própria filha num crime bárbaro, então você liga para tal-tal-tal; mas se você acha que não...bom, se você acha que não, mesmo com todas as evidências que comprovam a culpa do pai da Isabela, então você liga tal-tal-tal. Cadê as imagem??? Cadê as imagem!!! Eu quero as imagem!!!

O espetáculo do Habeas Corpus do casal parecia a chegada do U2 ou dos Rolling Stones. Histeria, correria, flashes, câmeras...o Woodstock da imprensa foi a delegacia e agora será a casa do pai do Alexandre Nardoni.

Que pode ser culpado. Junto com a madrasta. Ou não. Ninguém sabe. Nem a polícia, que outrora julgou o caso “99% resolvido”, depois passou para “70%”, tampouco o promotou que sugeriu quem eram os culpados, depois disse que não sugeriu nada.

É lamentável a dimensão novelesca que o fato chocante da morte da menina Isabela alcançou e como chegou a esse ponto. Que, pelo visto, parece não ter mais volta pelos estragos deixados ao longo dos capítulos anteriores. Só falta chamarem o Horatio.


*Leia a excelente entrevista do antrópologo baiano Roberto Albergaria clicando AQUI ( e depois volte pra expor sua opinião).

SÓ PARA CONSTAR...
A dengue continua matando crianças no Rio de Janeiro.

BAZAR DO ABADIA! PROMOÇÃO!

Outro momento de histeria foi a mega-liquidação Abadia ( rimou) Produtos importados abaixo do preço e com grande desconto! Saldão bota-fora do Abadia!

Mais de 5 mil pessoas apareceram no Jockey Club de São Paulo para conferir as novidades do bazar. Canetas Hello Kit, camisetas de grife internacional, MP3, óculos de grife, bolsas, meias e cuecas usadas a preço de ocasião: entre 15 e 25 reais!

Como em toda a liquidação que se preze, houve tumulto e a polícia entrou em ação com spray de pimenta. Filas, empurra-empurra, protestos - a liquidação foi um sucesso! Promoção boa é a que tem tumulto na porta da loja!

A velha senhora decadente do high society ( que subornou o vigia do Jockey, lugar que freqüentara muito em sua distante juventude rica) comemorou o par de meias usadas e furadas adquiridas por R$ 1:

- Serve direitinho no pé do meu neto! Vou mandar a empregada fazer uma costurazinha boba aqui e tá novinha em folha. Agora quero ver se pego aquele sutiã por 2 reais pra minha amiga Dorinha Vieira do Amaral Cavalcanti e Lins, que tá passando por uma situação tão difícil, coitada...ainda não foi pra Paris este ano! Fico com tanta pena dela!

O mauricinho alien arrecadou por R$ 2 uma cueca Calvin Klein e não se importou com o tecido gasto da roupa íntima do traficante Abadia:

- O que importa é tirar onda com uma cueca que custa a mesada de 1 semana! Vou falar pros cara: essa é a cueca do Abadia! Comprei a cueca do Abadia por 2 real!
- Mas tá meio gasta...e suja, né? Tem um fiozinho marrom ali...
- Tem nada não brother...lavô tá nova!

Já o motorista que encarou uma fila durante 3 horas para entrar no bazar do Abadia agora tentava fazer uma troca:

- Peguei essa caneta importada da Relou Quíti por 5 reais e vi uma igualzinha lá na lojinha do bairro por 2 reais. Sem falar que a caneta aqui do bazar veio sem tinta! Queria ver se podia trocar a caneta por outra coisa, tipo um par de meia, uma tigela, um garfo, sei lá.

Até a perua de-classe-média-falida-metida-a-rica saiu satisfeita com o saldão bota-fora do Abadia:

- Comprei estes óculos Dior por 120 reais! E o melhor é que pude dividir em 3 vezes no cartão. Eles até financiavam caso eu levasse uma bolsa Louis Vitton, mas tenho uns cheques pra cobrir e uns empréstimos a pagar. Mas um Dior por 120 reais é irresistível! Todo mundo vai morrer de inveja!

Segundo a justiça, todo o dinheiro arrecadado no bazar do Abadia será revertido para instituição de caridade. Emocionadas, as crianças de uma das instituições dão o seu “muito obrigado”:

- Muito obrigado a todos os que compraram e ajudaram a gente e muito obrigado ao titio Abadia e...

Oooops! Corta!

sábado, abril 05, 2008

SENSACIONALISMO E HIPOCRISIA - A IMPRENSA NO CASO ISABELLA NARDONI E A QUESTÃO DO "EXISTIR"

Acabou a dengue no Brasil! A agonia de quem depende do serviço público de saúde na cidade do Rio de Janeiro e as mortes, sobretudo de crianças por conta de uma picada de mosquito, já não têm mais espaço na grande imprensa. Atualmente o grande “filão” do jornalismo - notadamente o telejornalismo - é montar acampamento defronte ao prédio onde a menina Isabella Nardoni, de 5 anos, que poderia ter sido arremessada do 6º andar ou mesmo deixada quase morta no jardim do prédio onde morava junto com o pai e a madrasta e transformar essa trágica história em verdadeiro circo.

Antes de continuar a leitura, é bom deixar claro: não se trata de um insensível escrevendo aqui. Claro que a morte da garotinha é um caso triste, trágico e que ganhou dimensão de interesse nacional e até internacional. Também não vou entrar na armadilha de opinar sobre quem matou ou como a Isabella morreu. Este texto procura abordar o sensacionalismo a hipocrisia por parte da imprensa e mesmo da opinião pública.


Trabalho em escolas situadas nas periferias de Salvador. Sim, Salvador também tem periferia, ao contrário do que propaga o marketing da “cidade da alegria, da festa e de praia o ano inteiro”. E nestas periferias acontecem verdadeiras tragédias que passam batido ou, quando muito, recebem pequeninas notas nos jornais.


Em 2007 um aluno perdeu parte da família para as drogas: dois irmãos (um que era usuário de drogas e um menino com 8 anos) e a mãe foram assassinados friamente no barraco onde moravam. A mãe chegou a implorar que poupassem a vida dos filhos mas não foi atendida e ainda teve a própria vida tirada pelos “cobradores”.

Há muitas outras histórias, desde a aluna que perdeu o bebê de poucos meses de nascimento por falta de assistência médica decente até o aluno adolescente que, sem antecedentes criminais e sem nada que o comprometesse, levou um balaço na barriga (disparado por supostos PM’s) e sobreviveu por milagre. Ou da menina que era violentada pelo próprio pai e não freqüentava a escola porque o homem não deixava ou mesmo da senhora que, viúva aos 60 anos, volta a realizar seu sonho: estudar, pois o marido não permitia que a mulher fosse para a escola e a agredia quando falava no assunto.

Quem lê estas mal digitadas linhas ( além dos meus 4 ou 5 leitores corajosos) pode argumentar que tais situações são decorrentes da “situação em que o Brasil se encontra”; há até quem diga que se a pessoa “morre por causa das drogas é porque procurou por isso”.

O tratamento dado pela imprensa e pela opinião pública a tais fatos citados acima, quando existe, é algo frio e distante. Estas notas simplesmente passam batidas, não merecem atenção, não causam “indignação nacional”, são tratadas como coisas comuns de periferia, de gente pobre e miserável. São apenas números que engrossam as estatísticas da violência cada vez mais assustadora e crescente em Salvador.


Tampouco acontece o nascimento de famigeradas “ONG’s” que fazem passeatas ridículas pedindo “paz” com todo mundo vestindo branco achando que tal ato irá ajudar alguma coisa contra a violência. Estes mesmos que estão ali pedindo “paz” vestidos de branco serão os primeiros a xingar de todos os nomes possíveis um motorista que deu uma “fechada” no seu veículo em trânsito. Infelizmente a CPI das ONG's arrasta-se a passo de tartaruga. O que tem de ONG picareta por aí levando (muito) dinheiro não tá no gibi. Taí um assunto que a imprensa deveria investigar com maior interesse.

E vamos deixar de rodeios: mortes como a da menina Isabella e do João Hélio, arrastado por bandidos no RJ, viram “destaque” e “comoção nacional” porque são vítimas brancas, de classe média e crianças bonitas. São episódios que chocam, sem dúvida, mas isso não é conversa de ressentido marxista ou de xiita esquerdista - o Brasil conserva suas formas de preconceitos sob o mito da igualdade racial. Basta verificar qual a preferência de crianças para a adoção no país: a maioria dos pais adotivos quer criança branca ou branca até moreninha.

A “revista” VEJA, guardiã da classe média que “sustenta esse país com seus impostos” já estampa em sua capa (toda preta, como se em “luto”) uma “investigação filosófica, psicológica, religiosa e histórica sobre a perversidade humana”.

Matar crianças é uma perversidade, sem dúvida, mas e quando uma mulher mata o marido, corta-o em pedaços, frita-os em óleo e depois são colocados em sacos plásticos não se configura em uma perversidade que merece também uma ampla discussão filosófica, psicológica, histórica e até religiosa?

Quando um menor de idade mata um bonito casal de namorados surgem imediatamente debates sobre a redução da maioridade penal para 16 anos, passeatas hipócritas “pela paz” e todo um sentimento de indignação. Só que tal sentimento e mobilização não acontece quando um grupo de jovens de classe média queima índio em praça pública, agride a socos e pontapés empregadas domésticas em pontos de ônibus e mata um policial para roubar um celular.

Aí acontece justamente o contrário: há alguma exposição dos fatos, mas logo notícias sobre a lenga-lenga da votação de uma emenda qualquer em Brasília viram destaque e o foco é o governo Lula, o futebol o noticiário internacional... ou o vencedor do Big Brother, a nova onda dos adolescentes, etc. O negócio é desviar o foco dos habeas corpus e dos advogados que entram em cena para livrar os filhos que “tiveram tudo na vida” da cadeia. Uma rápida visita a várias dessas escolinhas particulares sobretudo de “grife” é o suficiente para perceber que muitas crianças não “tem de tudo na vida”. Brinquedos e joguinhos eletrônicos não são o mais importante na formação de uma criança, mas isso é outra história.

E veja que interessante o tratamento da imprensa às manifestações: quando uma dessas ONG’s picaretas fecha o trânsito das avenidas nas grandes cidades para realizar suas “passeatas pela paz”, isso vira uma mobilização bonita e é algo positivo, pois trata-se de manifestação pela paz, pela ordem, pela justiça. Senhoras com seus óculos escuros gigantescos ( máscaras que escondem o espelho d'alma), com a cara retocada por meia dúzia de plásticas, botox, quilos de maquiagem e um poodle a tiracolo dão entrevistas profundas e relevantes que certamente farão os bandidos seguirem o sacerdócio e abandonarem o crime e o tráfico de drogas.

Em contrapartida, quando um grupo da periferia fecha o trânsito em uma rua ou avenida a fim de reivindicar justiça ou melhorias no bairro, tal ação é tratada como “tumulto” ou manifestação com “manobras políticas”.


E o pior de tudo: uma equipe de TV ou jornal cobre a manifestação e foca justamente no congestionamento causado pela passeata e o supra-sumo: entrevistas com motoristas revoltados que saem-se com o clássico “quer fazer manifestação tudo bem, mas não atrapalhe a vida dos outros” mas sobre os problemas do bairro, ou seja, o que deu origem ao manifesto, NENHUMA LINHA no jornal, nenhuma matéria mais apurada na TV. No máximo um frio e seco “os moradores protestam por segurança no bairro”. Pronto.

Tudo o que está escrito aí são chavões? Configura-se em “senso comum”? Soa simplista demais? Pode ser tudo isso. Não importa. Não há aqui nenhuma pretensão em acirrar uma ‘guerra de classes’ (quanta ingenuidade, Miriam Leitão!) ou posar de “porta-voz dos excluídos”.


Nada disso. É apenas a constatação: uma realidade ou um fato, para "existir", é preciso ser explorado pela TV e de preferência numa espécie de Big Brother jornalístico para indignar, comover a opinião pública, explorar o assunto exaustivamente - e agir até como "juiz", julgando e condenando quem é suspeito de um crime - para tornar-se "líder de audiência". E acontece o pior: o desejo de vingança por parte desta mesma opinião pública.


Neste caso da Isabella Nardoni, basta dar uma circulada pela internet para verificar os comentários que já julgaram e condenaram o pai e a madrasta como culpados pelo assassinato, embora a Justiça não tenha chegado a uma conclusão ainda.

A leviandade está em alta e em evidência. A mãe da Isabella, Ana Carolina, é acusada de "insensível" por não se descabelar em lágrimas ao dar entrevista; há até quem consiga imaginar que Ana Carolina vá, num futuro não muito distante, posar nua, pois ela é a "mãe do momento, bonita e serena". Ao menos no Brasil não existe a tradição de se transformar em séries ou filmes tais situações. Pensando bem, não é necessário. O tempo dedicado a este assunto nos telejornais ( de todos os gêneros, dos mais "elitizados", digamos assim, aos mais "popularescos") já é suficiente para uma película e continuação.


Quantas "Isabellas" não perdem a vida todos os dias em circunstâncias tão ou mais trágicas? Estas "Isabellas", se negras e moradoras de periferias, jamais existiram. Serão contabilizadas em estatísticas frias. Suas histórias não serão conhecidas. Não haverá missa. Não haverá indignação. Não haverá ONG. Não haverá pressão de grupos de direitos humanos. Não haverá reportagem de capa nas principais revistas do país. Não haverá novela ou Big Brother jornalístico.


Em suma, o visível nos aprisiona no visível. Para o homem diante da televisão é suficiente o que vê, e aquilo que não é visto não existe. Tal amputação é colossal. E se torna ainda pior pelo motivo e pela forma com que a televisão escolhe aquele detalhe visível, entre centenas ou milhares de outros eventos igualmente dignos de consideração.
SARTORI, Giovanni. Homo Videns - Televisão e pós-pensamento. p.71. Bauru-SP: Edusc,2001

terça-feira, abril 01, 2008

ALELUIA, MANO!

Antes de qualquer coisa: xíitas bitolados, autômatos cristãos e politicamente corretos, não encham a paciência com comentários moralistas ou repletos de passagens bíblicas. Leiam todo o texto antes de fazer qualquer julgamento. Trata-se um texto de ficção ( mas baseado em fatos reais...hauauhauhauhauha!).

E quem gostou, claro, deixa um comentário. Estava na pauta um texto sobre o trânsito ( tá rascunhado) e tem outro sobre a dengue. Mas estes ficam para a outra semana ou quem sabe, ainda no final desta corrente semana ( falei bonito).

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- Bom dia, irmão! Como vai? Tudo bem?
- Olha, tô meio ocupado agora, tá?
- Ocupado para ouvir as palavras de Djesus?
- Jesus pode me falar outra hora, não?
- Ah, sim, mas quando Djesus vem a nosso encontro nós não devemos deixar passar!
- E ele veio?
- DJesus está sempre em nosso coração, está sempre conosco! Essa foi a palavra que ele nos deixou em Mateus capítulo tal versículo tal, mesmo que estejamos dormindo ele não nos abandona! E nós o abandonamos toda a vez que ele vem à nossa porta e não o atendemos.
- Vai ver, ele vem muito cedo e eu ainda esteja dormindo. Trabalho muito e...olha, passa outra hora, tá?
- Mas mesmo que o homem trabalhe muito sempre há de encontrar tempo para Djesus! Em Efésios capítulo tal e versículo tal está escrito que sempre precisamos usar nosso tempo a favor de Djesus sem esquecer as obrigações do dia-a-dia, embora estas não sejam importantes diante daquilo que Djesus promete!
- Ah, tá bom...explica isso pro meu chefe!
- Ele ainda não descobriu a palavra de Deus! E quando o homem descrente encontra as palavras de Deus através de Djesus uma grande transformação acontece em sua vida, como a palavra diz em Lucas capítulo...
- Escuta...vocês não conseguem dizer nada sem olhar na Bíblia?
- É a palavra de Djesus que seguimos e por isso...
- Olha, acho que vocês deveriam ser mais originais, sei lá. Vocês falam desse mesmo jeito para todo mundo que encontram por aí?
- Sim, porque a palavra de Djesus é única e...
- Mas tão erradas. A sua igreja tem departamento de marketing?
- Não. Djesus não é marketing, ele é o filho de Deus que...
- Sei, sei. Olha, queridas, admiro o trabalho de vocês indo de porta em porta e fazendo sua pregação e tal. Mas vocês tem que atingir a massa, sabe? Tem que estar antenada com esses tempos modernos!
- Mas a palavra de Djesus é eterna!
- E quem liga pra eternidade? O negócio hoje é consumir! Tudo quanto é produto tem vida útil de no máximo 4 anos justamente para que o consumidor volte e compre o mesmo produto em pouco espaço de tempo! Jesus prometeu voltar há 2 mil anos e ainda não apareceu. Isso é uma falta de respeito ao consumidor!
- Djesus deixou escrito na Bíblia os sinais que vão acontecer e estão acontecendo agora...
- O povo quer saber mesmo é de comprar um carro zero, uma casa na praia, festa, botar pose de óculos escuros e andar vestido como bacana, entende?
- Djesus dá tudo isso pra quem tem fé!
- E pra quem não tem? Nós temos que pensar nessa classe E..de "Excluídos da fé"! Temos que levá-los para o reino dos céus e assim torná-los consumidores! E um grande filão é essa massa de adolescente que tá por aí, à toa, mas doida pra consumir!
- Irmão, acho que já está confundindo tudo, deixe-me explicar...
- Tá, peraí, tô terminando. Então, vocês falam do mesmo jeito sobre as mesmas coisas...vocês assistem novela?
- De vez em quando só as novelas da Record, irmão!
- Não, pô...tem que ver as novelas da Globo! Olha só como o povo fala: “E ae galera tudo em cima?” ou “caraca que manero!” Então...me desculpem a sua preferência, mas a Globo ainda manda e define comportamentos no Brasil! Então vocês tem que usar o linguajar global para atingir novos rebanhos, pegou?
- Hã?
- Aff...deixa eu dar um exemplo: “Ae galera se liga só na história maneira que vou contar pra vocês! Jesus tava numa balada muito irada, mas aí o vinho acabou. Galera, que mico! Mas aí o Jesus falou: ‘Calma galera! Deixa a parada comigo!’. Pôôôô...então o cara pediu água mineral lá pro dono e quando chegou...galeeeeeraaaa!! Jesus transformou a água em vinho! Show!! Muito irado! Aí a galera que seguia ele falou: ‘Caraca! Sinistro! Ae Jesus, mandou bem!’. E aí galera história massa né? “ Entenderam o espírito da coisa?
- Hã...irmão, temos que ir agora. Tenha um bom dia e que Djesus o abençoe e...
- Não vão embora ainda não! Ei! Com essa estratégia que expliquei a vocês dá pra pregar numa lan house numa boa! Ei, peraí! Cadê meu folhetinho ou aquela revistinha com uns desenhos bacanas? Quanta pressa! E eu ainda ia mostrar esse vídeo pra elas...esses caras, sim, tão no caminho certo:


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