Crônica de uma eliminação

 


Segunda-feira cinzenta e chuvosa na cidade. Um clima que condiz com o dia seguinte à eliminação da seleção brasileira na Copa do Mundo de 2026. A vida segue em sua insana normalidade, mas sem a perspectiva de um feriadinho avulso em jogos do Brasil.

Na escola o assunto do dia não era outro. O pênalti que o craque do time não quis bater, o gol inacreditável perdido pela jovem promessa, a provocação do polêmico veterano ao goleiro norueguês. E o gigantesco centroavante adversário decidindo a partida em apenas dois lances.

Fim do sonho. Erros e mais erros, nomes apontados, há de se culpar alguém, o bode da história precisa ser servido e retalhado nas redes sociais, nos programas de TV, nas conversas nos bares e nas esquinas. E na sala de aula, antes da aula começar, alunos defendiam seus ídolos e outros culpavam seus desafetos. Em dado momento, numa turma de 1º ano do Ensino Médio, comentei:

— A vantagem de ser um idoso é que pude ver a seleção brasileira ser campeã da Copa do Mundo por duas vezes.

Os alunos olharam para mim com um misto de admiração e curiosidade. Tive a impressão de que eles estavam diante de um Neandertal. Um dos alunos tomou a palavra:

— O senhor viu, professor? Mas isso faz muito tempo, o senhor tem quantos anos?

Ah, Matusalém, você pediu! Antes de retomar a fala, observei os alunos daquela turma tomada por jovens entre 15 e 16 anos. Caiu a ficha da implacável passagem do tempo e das mudanças ocorridas desde 2002, última Copa em que fomos felizes.

Lá se vão 24 anos. O mundo mudou bastante com a era digital. Atravessamos guerras e pandemias, ouvimos o Habemus Papam três vezes, assistimos incrédulos ao ressurgimento de ideologias nefastas e recebemos imagens em tempo real de Marte. E o futebol também passou por transformações.

Copa do Mundo de 2014. Alemanha 7 x 1 Brasil. No dia seguinte à derrota mais humilhante do futebol brasileiro, jornalistas e comentaristas apresentavam as “lições que deveríamos aprender com a Alemanha”. Antes disso já havia o clamor para que o Brasil copiasse a “modernidade europeia” nos treinamentos, na formação de jogadores e no estilo de jogo. Nem os campeonatos escaparam, tudo deveria ser “padrão Europa” ou “padrão FIFA”, como nos acostumamos a ouvir. Em 2010, o ano em que muitos daqueles meus alunos nasceram, o encantamento era com a Espanha campeã mundial — era mais uma escola que deveríamos ter frequentado, diziam os especialistas.

Matriculados em escolas europeias, seguimos à risca as lições e colocamos em prática a organização tática pela manutenção da posse de bola, as transições defensivas e ofensivas, os treinamentos físicos cada vez mais intensos e o uso de tecnologia avançada. Sim, estávamos prontos para competir com os europeus e retomar o topo do mundo.

Bélgica, 2018. Croácia, 2022. Noruega, 2026. Três eliminações para seleções europeias da segunda prateleira. Bons tempos em que éramos eliminados por Itália, França e Alemanha. O que deu errado? Fomos maus alunos?

Nada disso, fomos alunos aplicados demais. E com isso deixamos de lado o que tínhamos de mais precioso no futebol: a nossa identidade, caracterizada pelos dribles, pela ousadia, pela inventividade para vencer as retrancas e a força física das seleções europeias. Os meninos que entram em escolinhas de futebol aprendem logo a disciplina tática e se um garoto habilidoso distribui dribles em campo, pobre coitado: não serve, é moleque atrevido, estamos criando um monstro! Quer ser atacante? Vai ser falso 9, o que me faz lembrar do Eduardo Galeano dizendo que os pandas e os atacantes estão em via de extinção.

No Brasil, a coisa é mais grave. Parece que os bons laterais já foram extintos e há quanto tempo não admiramos um gol de falta em cobrança perfeita?

— Meninos, eu vi. — respondi aos alunos, sem revelar a idade. — Eu vi atacante que faz gol, camisa 10 sinônimo de craque, lateral que marca e faz cruzamentos perfeitos; eu vi jogadores bailando em campo e entortando zagueiros brucutus para a festa da torcida que agitava as bandeiras e cantava o “olé”.

Os jovens me olharam sem entender muita coisa. Não os condeno, a idade nos deixa um tanto saudosistas. Infelizmente esta geração sente os efeitos de uma era onde a CBF é um balcão de negócios, os clubes viraram empresas, jogadores se tornaram marqueteiros influencers e torcedores reduzidos a consumidores gourmet.

Tive pena. Quando esses garotos e garotas terão a chance de ver o Brasil campeão de uma Copa do Mundo novamente? Espero que não demore muito, pois pior do que ver crianças e jovens torcendo pela Argentina, existe o risco de que as derrotas e eliminações vexatórias caiam definitivamente na indiferença. “Puxa, fomos eliminados pela Macedônia, fazer o que?”.

Pela TV, ainda vi imagens de uma garotada chorando. Apesar da cena triste, gostei de ver: são lágrimas que ajudam a sustentar a esperança, pois demonstra a existência de algum sentimento envolvido. Talvez a paixão. Tomara que seja, pois sem paixão, meus prezados leitores e distintas leitoras, sem um mínimo de paixão não se consegue chupar um Chicabon[1].  



[1] Frase de Nelson Rodrigues e se você sabe o que é um Chicabon, bem-vindo ao clube dos jurássicos!

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