Pelé eterno e incomparável
Crianças e jovens: cheguem mais e deixem
o Tik Tok e as demais redes de lado
por alguns preciosos minutos: quero contar uma história, uma historia de
verdade sem IA e outros truques digitais. Acredito que vocês podem se
interessar e até mesmo alguns adultos precisam ouvir isso.
Quando o futebol moderno foi criado lá
na Inglaterra na segunda metade do século XIX, os uniformes dos jogadores eram
feitos de algodão grosso, de malha pesada e os jogadores utilizavam adereços
como cintos coloridos para que fossem identificados em campo. Não havia
numeração nas camisas: elas só apareceram na Austrália antes da I Guerra
Mundial (1914-1918) e em 1928 a numeração dos uniformes estreou de forma
oficial nos estádios ingleses. Para a Copa de 1938, a FIFA instituiu a regra
para que as seleções utilizassem camisas com os números de 1 a 11.
Até então, eram apenas numerações para identificar
as posições em campo: goleiro, zagueiros, atacantes. Aparentemente, ninguém dava tanta atenção para
isso, tanto que na Copa de 1958 a CBD (antiga CBF) fez uma relação de números
para os jogadores de maneira aleatória, despreocupada. A camisa 10 ficou para
um menino de 17 anos que entrou no time titular e não saiu mais: o garoto
marcou 6 gols durante o mundial, sendo 2 na final contra a Suécia. O Brasil sagrou-se campeão do mundo pela primeira vez e aquele garoto, que na temporada 1957/1958
havia marcado 75 gols em 53 jogos pelo Santos, começou a ser saudado como “rei”.
E ele assumiu a coroa e o trono. Com
Pelé, a camisa 10 se transformou na camisa dedicada aos craques. Maradona,
Ronaldinho Gaúcho, Zinedine Zidane, Roberto Baggio e Zico são alguns exemplos
de gênios com a 10. E agora todos nós
estamos assistindo a outro camisa 10 desfilar um futebol vistoso e eficiente
nos gramados: Lionel Messi, que dispensa maiores apresentações e aos 39 anos vem
fazendo história na Copa de 2026.
pe.lé: adjetivo
Mas ouçam bem, crianças, jovens e adultos: embora Messi seja extraordinário e seguramente um dos maiores da história do futebol, as comparações com Pelé não têm o menor cabimento. O argentino pode ultrapassar o rei em alguns números e estatísticas aqui e ali, mas nada se compara a Pelé, o jogador que criou a simbologia para uma camisa e até virou adjetivo para definir pessoas que são muito boas em suas áreas — o Pelé do basquete, o Pelé das artes, o Pelé das pistas. Está lá, no dicionário Michaelis:
pe.lé adj m + f sm+f Que ou aquele que é fora do comum, que ou quem em virtude de sua qualidade,valor ou superioridade não pode ser igualado a nada ou a ninguém.
Durante muitos anos a
identidade do brasileiro se confundia com o craque: “Brazil? Oh, Pelé!”, diziam
no estrangeiro em tempos sem internet.
E o que dizer das histórias deliciosas que contam sobre as inúmeras excursões do Santos de
Pelé por gramados do mundo inteiro? O Olympiacos da Grécia derrotou o lendário
time brasileiro em Atenas e a proeza, acreditem, foi parar no hino oficial do clube.
São feitos que valem muito mais do que qualquer
sofascore e não cabem em planilhas.
Eu não vi o Pelé jogar. Mas felizmente existem os registros em textos, em imagens e a
história contada por quem viu e por quem jogou. Todos nós precisamos ter referências e no futebol vi grandes
jogadores como Dener, Romário, Ronaldinho Gaúcho e Neymar, mas antes deles
tivemos outros craques e acima de todos, o rei Pelé. Conhecer a história do
futebol brasileiro é importante e ajuda até mesmo a entender o nosso país.
Caríssimos, eis um conselho: não caiam
em tolices que circulam diariamente nas redes sociais com ranking fajutos e formadores de opinião oportunistas em busca de
engajamento fácil. É perfeitamente compreensível e justo que vocês, jovens,
digam que Messi é o melhor jogador que vocês viram no futebol e isso faz todo o
sentido; mas nada justifica assumir posturas revisionistas e expressar bobagens
como “naquele tempo só se jogava contra pedreiros” e coisas do tipo. “Pelé foi
um grande jogador, mas....”. Desculpem: no dia que uma conjunção adversativa
definir toda a história do craque e suplantar seus feitos, é hora de jogar a
toalha e assumir de vez o nosso complexo de vira-latas.
Um dos maiores escritores brasileiros de
todos os tempos, o mineiro Carlos Drummond de Andrade, publicou em crônica uma
ótima definição sobre o gênio do futebol: “O difícil, o extraordinário, não é
fazer mil gols, como Pelé. É fazer um gol como Pelé”. Eu assumo o meu
pachequismo ao defender o legado do rei. Todos os brasileiros devemos fazer o
mesmo para evitar um imperdoável esquecimento como o que acontece com o
genial Mané Garrincha e outros craques, pois o brasileiro não é conhecido por
preservar a memória daqueles que outrora foram ídolos populares.
Portanto, meus queridos Enzos, ilustres
comentaristas, prezados influenciadores: admirem Messi, Mbappé, Haaland e
outros craques na Copa, se divirtam e torçam por quem quiser, mas com a realeza não se mexe!
Ah, sim, antes de finalizar, deixem-me
implicar mais um pouquinho, é coisa de velho mesmo: “hat-trick” nada, que mania de enfiar anglicismos em tudo quanto é
lugar, lá ele! Usem o bom e velho termo “goleador” para quem marca três ou mais
gols na partida. Daqui a pouco vocês vão substituir até o maravilhoso “mata-mata”
por “playoff”.
Aí eu desisto de vocês. Fiquem espertos,
meus jovens! E viva o rei Pelé, eterno!
***
No meu livro "Crônicas do Contador do Tempo" escrevi uma crônica em homenagem a Pelé quando do seu falecimento. Um texto que já chamava a atenção para a preservação do legado e da memória. E o livro contém muitas memórias que valem a pena ser lembradas e que ajudam a contar todas as transformações pelas quais a sociedade vem passando.
Quer saber mais? Envie mensagem por aqui ou via instagram (@jaimegbr). Acesse também o site da Camino Editorial AQUI.



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