As listas de livros e seus excessos
Querido diário, feliz ano novo! Que
todos nós tenhamos um ano repleto de paz, harmonia e conquistas!
03 de janeiro de 2026
Querido diário, hoje os Estados Unidos
invadiram a Venezuela, bombardearam Caracas, 40 pessoas morreram e o Nicolas
Maduro foi preso.
Os senhores da guerra e demais
entusiastas deste tipo de ação vão achar que o ano começou bem e o Trump levou
a sério o lema “um ano de conquistas”. Mas não é sobre geopolítica que eu quero
falar.
Quero falar sobre uns dias em que andei
passeando por outra rede social, aquela que outrora funcionava como álbum de
fotos quando a internet não era um www.comprecomprecompre.com.
Como acontece em todo período e fim de ano, as famosas listas de resoluções e
feitos surgem e são compartilhadas nos mais diversos perfis.
O povo gosta mesmo de listas. Umberto
Eco percebeu isso e escreveu um livro interessantíssimo chamado “A vertigem das
listas”, no qual reflete sobre os métodos de catalogação desde o início da
escrita e a nossa tentativa de organizar o mundo ao redor.
E listas de livros sempre são bacanas. No
entanto, percebi algo diferente: se no final de 2025 o pessoal postou a lista
sobre os livros lidos no ano, o ano novo já começou com as listas dos livros
que VOCÊ PRECISA LER. Assim mesmo, bem enfático. E também há aqueles que
estabeleceram as metas de leitura para este ano. Se você leu 56 livros no ano passado,
sua meta para este é de 95 livros. Ou 253 livros. Ou que tal deixar a modéstia
de lado: o céu é o limite! Só não se esqueça de tomar água e comer alguma
coisa.
Vamos fazer uma viagem no tempo até a
velha Roma, no século I, onde encontraremos um filósofo chamado Lúcio Anneo
Sêneca, representante da corrente filosófica conhecida como “estoicismo”.
Sêneca redigiu os seus tratados morais até o ano de 62 dC e em um deles,
encontramos a seguinte passagem sobre livros:
“Uma
infinidade de livros sobrecarrega, mas não instrui. Melhor ater-se a poucos
autores do que errar por muitos. (...) Assim, juntem-se apenas os livros que
forem suficientes, nenhum por ostentação”. [1]
O recado do filósofo aqui é bem claro:
moderação. Boas leituras se fazem não em quantidade, mas em qualidade. Sêneca
não poupa críticas aos que ostentam objetos (livros, obras de arte, ornamentos)
apenas em busca de notoriedade. “Sempre é vicioso o que está em excesso”,
escreveu.
A leitura de livros tem se aproximado do modelo de "maratonar séries"?
“Deixe ele/ela com seus 842 livros lidos
em um ano”. Oh, não estou condenando: quanto mais leitura, melhor. É muito
salutar perceber o gosto pela leitura principalmente entre os mais jovens em um
país que pouco se lê.
Ocorre que vivemos tempos de excessos.
Excesso de telas. De informações. De exposição. E talvez o excesso mais
problemático de todos: produtividade. Tudo é transformado em “conteúdo” para as
redes e já existe uma expressão para o exibicionismo com livros nesses espaços:
“Performative reading”, algo como
“Leitura performática”, em tradução livre. Será que estamos entrando na mesma
lógica dos streamings e “maratonando livros” um atrás do outro?
A literatura não deveria estar
condicionada a uma espécie de maratona com metas quantitativas — isso,
inclusive, é algo estranho para a leitura de livros, que pede ritmos mais
lentos e calmos para reflexão e apreciação. O francês Daniel Pennac, em seu delicioso
“Como um romance”, chama a atenção para a diferença marcante entre a leitura
como uma descoberta deliciosa a cada página e a leitura obrigatória semelhante
às “fichas de leitura”, como aquelas que fazíamos na escola.
Mas são outros tempos. Parece que não há
mais espaço para pequenas realizações ou atos modestos: é preciso transbordar,
o exagero é norma e é isso o que chama a tão disputada atenção no concorrido
espaço virtual. No que tudo isso vai dar, ainda não temos respostas, embora as
consequências da saturação estejam à vista de todos através de níveis
alarmantes de ansiedade e cansaço, inclusive emocional e digital.
No fim, cada qual em seu ritmo e com
metas reais. Isso vale para a leitura e para a vida, de modo geral. Afinal,
somos leitores, e não empresas para “cumprir metas”.
08 de janeiro de 2026
Querido diário, infelizmente o ritmo e
as metas dos senhores da guerra e do caos também continuam acelerados com seus
delírios de poder e destruição. Que ano, hein, capitão? (mas estamos apenas em
janeiro, senhor!)
10 de janeiro de 2026
Querido diário, a mania de fazer listas
é mesmo irresistível. A minha listinha de leitura do ano passado é bastante
modesta perto de vorazes leitores com seus 849 livros lidos. E ainda há algumas releituras, pois certas obras
entram no rol daquelas que “Valem a Pena Ler de Novo”. Ei-la:
- A louca da casa, de Rosa Montero;
- A vegetariana, de Han Kang;
- Escrever é muito perigoso, de Olga Tokarczuck;
- O pequeno Zacarias chamado Cinábrio, de E.T.A Hoffmann;
- História do inferno, de George Minois;
- Juventude sem Deus, de Ödon von Hórvan;
- Memorial de Aires, do mestre Machado;
- O poder transformador da leitura, de Leandro de Assis;
- Caminhos do destino e outros contos, de O. Henry (releitura);
- As histórias de Pat Hooby, de F. Scott Fitzgerald;
- Porque não há mais escolas como a Escola da Ponte?, de José Pacheco;
- Por trás da barriga, de Emanuelle Tínel;
- Oxóssi (HQ) de Pedro Ribeiro e Chao Gizan;
- Noites Brancas, de Dostô (releitura);
- Cadeira Movediça, de Ana Cecília Romeu;
- É possível dissociar a obra do autor?, de Gisèle Sapiro.
Leiam
também os autores iniciantes e independentes, e não deixem de conferir as
pequenas editoras. A literatura é muito mais ampla do que aquelas listas de
livros badalados do mercado editorial e seus conglomerados.
O meu novo livro “Crônicas do Contador do Tempo” apresenta crônicas e ilustrações para quem é amante da literatura e do universo dos livros. Reflexões sobre literatura nos tempos de IA, as filas de livros que temos para ler, como o nosso modo de leitura mudou bastante na era digital... estes e muitos outros temas você encontra na obra.
Para saber mais, acesse os seguintes canais:
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E boa leitura!
[1] Da
tranquilidade da alma; Da felicidade / Lucio Anneo Sêneca; tradução de Lúcia Sá
Rebello e Elle Itanajara Neves Vranas. — Porto Alegre, RS: L&PM, 2009.



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