Quando o tempo livre virou privilégio?
Sexta-feira, 15 horas. O sinal
anunciando o fim da última aula traz a alegria para os corredores da escola no
turno vespertino. E tanto os alunos quanto os professores passam a conjugar um
novo verbo para saudar o fim de semana: “Sextou! Sextou!”.
Na sala dos professores, cada um comentava os seus
planos para o fim de semana.
— Vou maratonar “Bridgerton”! — afirmou uma colega,
comprovando mais uma vez como a língua não é engessada e atua com seus
neologismos.
— Quem dera: amanhã é sábado letivo em outra
escola. — disse outro colega, se lamentando.
Alguém comentou que o sábado era o dia de resolver
coisas que durante a semana ficaram pendentes: ir ao supermercado, faxina,
organizar a bagunça das contas e das papeladas acumuladas nas gavetas, talvez
até fazer um exame — sim, várias clínicas realizam exames aos sábados.
E pensei nos trabalhadores do comércio e demais
serviços que cumprem a escala 6 x 1, ou seja, seis dias trabalhados e apenas um
de folga. O que se faz em apenas um dia para “descanso”?
Quem me respondeu foi um aluno da EJA do período
noturno, que trabalha num grande atacadista:
— Que descanso, professor? É só correria. Tem
professor que passa trabalho e dever de casa, mas quando é que vou fazer? É
tanta coisa pra correr atrás e resolver, tem tempo pra nada.
Esta e outras falas sobre o tempo trazem a
recordação do filósofo sul-coreano Byung-Chul Han. Ele chama de “sociedade do
desempenho” a pressão por produtividade e desempenho no hipercapitalismo:
“Hoje, não temos outro tempo que não seja tempo de trabalho”[1], afirmou. E ele tem razão: qual foi a última
vez em que simplesmente cultivamos o ócio ou atividade prazerosa e livre
durante um período de folga?
Ao que parece, “tempo livre” virou um privilégio. E
também marcador social. Pessoas que têm essa disponibilidade para estudar,
fazer cursos, atividades físicas ou viajar demonstram como as desigualdades
operam de muitas formas em nosso cotidiano. Há quem diga que tempo é o novo
luxo, a nova métrica da riqueza.
E pensar que em outras épocas houve a crença de que
o avanço tecnológico proporcionaria menos tempo de trabalho para as pessoas e
mais horas dedicadas ao lazer e atividades criativas. Mas vejam, em pleno
século XXI ainda há muita gente que deseja manter intactas velhas estruturas
sem limite de jornada, sem férias e demais direitos aos trabalhadores. É uma
turma que revogaria a Lei Áurea sem nenhum pudor e faria discursos sobre
“produtividade” e “eficiência”.
No subestimado romance “Memorial de Aires”, do
grande Machado de Assis, o conselheiro Aires afirma, ao finalmente ser aprovada
a lei da abolição dos escravos: “Ainda bem que acabámos com isso. Era tempo.”[2]. Em 2026, atrevo-me a tomar emprestadas as
palavras do nosso escritor maior: já é tempo de acabar com escalas desumanas de
trabalho e nos livrarmos da necessidade de produzir o tempo todo.
Voltando à escola, estávamos no portão para deixar
o local de trabalho e um colega me perguntou:
— E você, vai fazer o que amanhã?
Senti até vergonha de revelar meus planos diante de
colegas tão ocupados e produtivos:
— Vou escrever e ilustrar uma crônica.
[1] Han, Byung-Chul. Capitalismo e impulso
de morte: ensaios e entrevistas. 1ª ed.- Petrópolis, RJ: Vozes, 2021
[2] Assis, Machado de. Memorial de Aires. –
Belo Horizonte: Garnier, 2008.
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