Por uma pedagogia da indignação


Em 1997 aconteceu um crime que chocou o Brasil: cinco jovens atearam fogo em um índio que dormia em um ponto de ônibus na capital federal, Brasília. O cacique Galdino dos Santos, da tribo Pataxó no Sul da Bahia, ainda foi levado ao hospital, porém não resistiu. Os assassinos, jovens de classe média entre 17 e 19 anos de idade, afirmaram que a intenção era “dar um susto” no índio e que tudo não passaria de uma “brincadeira”.

À época em que este crime aconteceu, eu tinha quase a mesma idade dos assassinos e lembro muito bem da repercussão e da revolta de boa parte das pessoas – e curiosamente o assassinato ocorreu um dia após a data escolhida para o “Dia do Índio” (19 de Abril). Na imprensa os especialistas em Psicologia, Educação e Sociologia, ao lado de jornalistas e opinião pública, tentavam entender o que se passava na cabeça de jovens de famílias de classe média com alto poder aquisitivo para que cometessem aquele ato bárbaro e cruel.

Naquele mesmo ano morreu Paulo Freire, um dos intelectuais mais celebrados do Brasil e grande referência em Educação. Um de seus últimos textos foi justamente sobre o assassinato do índio Pataxó, em forma de uma breve carta publicada alguns anos depois no livro “Pedagogia da Indignação – cartas pedagógicas e outros escritos”. (Editora Unesp)

Que coisa estranha, brincar de matar índio, de matar gente. Fico a pensar, aqui, mergulhado no abismo de uma profunda perplexidade, espantado diante da perversidade intolerável desses moços desgentificando-se, no ambiente em que decresceram em lugar de crescer.


DESGENTIFICAÇÃO

Eu lembrei de Pedagogia da Indignação e das palavras de Paulo Freire exatamente no momento em que o país passa por um choque diante de uma tragédia ocorrida em uma escola pública na cidade de Suzano, em São Paulo. Dois jovens entraram na escola Raul Brasil (de onde já foram alunos) e atiraram de modo aleatório, matando cinco estudantes, a coordenadora pedagógica e a inspetora da unidade. A tragédia seguiu o roteiro da Escola Columbine, nos Estados Unidos, onde dois jovens atiradores alvejaram 12 pessoas e se mataram ao final. A discussão nas redes sociais, imprensa e opinião pública tenta entender as motivações dos atiradores de 25 e 17 anos, respectivamente.

E como sempre acontece nestes casos, é preciso aparecer “um bode” para colocarem a culpa: em Columbine foi o rock star Marilyn Manson e nas escolas em Realengo (RJ) e Suzano o responsável foi o videogame, mais propriamente os jogos eletrônicos violentos. Os "bodes" são colocados na sala para desviarem o foco do que realmente importa discutir, afinal é muito mais cômodo e dá menos trabalho do que investigar profundamente e chegar a conclusões não muito agradáveis sobre padrões de formação familiar, educacional, política, etc.

Voltemos a uma palavrinha usada/criada por Paulo Freire no trecho acima: “desgentificando”, ou seja, a desumanização que ocorre com as pessoas ao longo dos processos de formação – familiar, educacional, ético, etc. Os jovens atiradores e assassinos de Suzano foram celebrados como heróis nos fóruns da deep web – também conhecida como esgoto da internet, onde encontramos pedófilos, racistas, misóginos, neonazistas, traficantes de armas e muito mais trocando mensagens livremente e sob anonimato. “Hoje é dia de vocês morrerem!”, gritava um dos atiradores na escola.

De onde vem tamanho ódio? O que se passou na vida destas pessoas desde a infância até a adolescência e vida adulta para que chegassem ao ponto de cometerem assassinato em massa e comemorarem este feito violento?

E A ESCOLA NISSO TUDO?

É muito difícil, em primeiro lugar, não pensar em como falhamos todos como sociedade ao insistir em modelos falidos e tratar como “normais” e tamanha indiferença diversas situações que acontecem ao nosso redor. Talvez estejamos cansados ou cedemos ao discurso de que as coisas são assim mesmo e nada adianta para que isso mude.

São discursos como estes que Paulo Freire tanto se opôs como educador. Para Freire, a escola não deveria ficar à margem destas discussões, principalmente quando tais situações ocorrem no entorno da instituição - ou seja, não dá para prosseguir apenas com "aula normal" diante de uma realidade cruel e perversa. Não é possível, por exemplo, acontecer um assassinato no caminho para a escola pela manhã com crianças e jovens passando ao lado de um corpo ensanguentado e sem vida e à tarde ter "aula normal" como se nada tivesse acontecido na região.

"Ah, mas isso é doutrinação e se for tratar destes assuntos não vai ter mais aula de Português, Matemática, etc.", alguém pode dizer. Não se trata de nada disso, mas sim em agregar ao processo de escolarização os valores morais, éticos e desenvolver empatia, sensibilidade e tentar entender o porquê essas coisas acontecem ao nosso lado. Enquanto perdurar uma visão meramente burocrática e reduzida ao tecnicismo da escola (a Educação bancária que Freire se referia) e, por extensão, da vida, prosseguiremos insensíveis e indiferentes às tragédias humanas - sobretudo com negros, indígenas, LGBTs, mulheres.


Voltando à carta que o educador escreveu sobre o índio Galdino, lê-se:

Urge que assumamos o dever de lutar pelos princípios éticos mais fundamentais como do respeito à vida dos seres humanos, à vida dos outros animais, à vida dos pássaros, à vida dos rios e das florestas. (...) Não é possível refazer este país, democratizá-lo, humanizá-lo, torná-lo sério, com adolescentes brincando de matar gente, ofendendo a vida, destruindo o sonho, inviabilizando o amor.

Obviamente não se trata de colocar toda a carga na instituição escola e na Educação de modo geral como “salvadores da pátria”, até porque é um fardo pesado para se carregar dado o histórico de desigualdades e injustiças ao longo da história e formação deste país, mas Freire deixa bem claro, na mesma carta, que “se a Educação não transforma a sociedade, sem ela tampouco nada muda”. Parte da mudança passa pela Educação, mas que qual Educação estamos falando e de fato precisamos? (Já abordei o assunto AQUI e AQUI)

NA CONTRAMÃO

Ao comentar sobre a escola em Suzano, ouvi de uma pessoa que “perdemos a sensibilidade e a vida não vale mais nada”. Como já ressaltado em relação ao papel da escola e dos educadores, é preciso mudar para transformar um sistema falido, mas é importante lembrar que a insensibilidade também é construída diariamente.


Um senador da República afirmou que se os professores na escola em Suzano estivessem armados, a tragédia poderia ser minimizada. Este tipo de mentalidade em achar que tudo se resolve na bala encontra muitos adeptos e isso não aconteceu do dia para a noite, mas foram construídos ao longo do tempo: são discursos fáceis e simplistas para problemas complexos e por isso mesmo sedutores para boa parte de uma população que assiste todos os dias na TV a programas jornalísticos sensacionalistas (ou mesmo os chamados “sérios”) que exploram o medo e a insegurança em suas pautas.

Se temos adolescentes cometendo crimes, basta reduzir a maioridade penal; se temos problemas de atiradores nas escolas, basta armar professores; para a violência urbana, o porte de armas para a população se defender dos bandidos. Obviamente temos um sério e gigantesco problema de Segurança Pública no país e isso gera insegurança nas pessoas, porém não é com populismos e argumentos apelando ao senso comum que iremos resolver – e muito menos nos isolando em bolhas virtuais ou mesmo em condomínios fechados. Sobre isso, aliás, o sociólogo Zygmunt Bauman nos oferece uma boa imagem:

Viver trancados dentro de um condomínio fechado a fim de afastar os medos é o mesmo que escoar a piscina para ter certeza de que as crianças vão aprender a nadar em completa segurança.

O medo é amplificado e alimenta a insegurança de onde emergem a intolerância, o ódio e a insensibilidade. As tragédias começam a tomar formas quando tais sentimentos são legitimados nas estruturas sociais e mesmo políticas (no sentido mais amplo) em que as crianças e os jovens compartilham. Retomo mais uma vez a leitura de Paulo Freire na sua carta quando faz referência aos assassinos do índio Galdino:

Penso em suas casas, em sua classe social, em sua vizinhança, em sua escola. Penso, entre coisas mais, no testemunho que lhes deram de pensar e de como pensar. A posição do pobre, do mendigo, do negro, da mulher, do camponês, do operário, do índio neste pensar.

Em artigo escrito no ano de 1900, o célebre escritor russo Tolstói registrou a dura realidade de trabalhadores de minas, quebradores de pedra, lavradores e do fato das pessoas não se surpreenderem e tampouco se comoverem com a miséria que os cercava e, com palavras que deixavam claras sua indignação, questionou: “Mas precisa ser mesmo assim?”. Tal pergunta receberia de Freire a resposta “nenhuma realidade social, histórica, econômica é assim porque assim tem que ser”. Embora a mudança seja difícil, ela é possível. A pedagogia freireana é basicamente dialógica, ou seja, não se trata apenas de ensinar a repetir palavras, mas também a fazer uso das palavras por meio do diálogo para o aprendizado, a emancipação do ser e a sua humanização. Não é com armas (principalmente na sala de aula) ou mais violência que vamos promover a mudança que queremos.

A pedagogia da indignação é necessária para que retomemos a capacidade de nos indignarmos diante de injustiças e violências diversas, afastando a perigosa apatia e conformismo que nos deixa vulneráveis a ideias extremistas e desprovidas de humanidade. Este é o primeiro passo para que possamos mudar e efetivamente construir uma sociedade melhor.

Referências:

  • FREIRE, Paulo. Pedagogia da Indignação: cartas pedagógicas e outros escritos. São Paulo: Editora UNESP, 2000.
  • BAUMAN, Zygmunt. 44 cartas do mundo líquido moderno. Rio de Janeiro: Zahar, 2011.
  • TOLSTÓI, Liev. Os últimos dias. São Paulo: Penguim Classics Companhia das Letras, 2011.


Charges: do autor.

4 comentários:

  1. Que possamos nos contagiar com a indignação e seguir na constante e incessante tarefa de nos refazer como pessoas e profissionais. Vamos fazer isso no que estiver ao nosso alcance! Sempre! Sem cessar.

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  2. Sim, é necessário que as crianças aprendam o sentido da vida para serem pessoas boas e felizes. Eu tive de aprender a longo prazo e com desespero o que poderia ter sido me ensinado logo na infância. Cristo é a verdade, o caminho e a vida. Fui ateu, aos 18 anos nem queria ter filhos para não transmitir "a outra criatura o legado de nossa miséria". Depois, estudei várias religiões, e só recebi o Crisma aos 32 anos de idade.
    Teu post me comoveu, e, como sempre, é uma verdadeira defesa de tese. Muito bem dito, Prof. Jaime.

    pax et bonum
    Marcos

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  3. Simplesmente ótimo texto! Aplaudindo aqui. Como sempre, Jaime, objetivo e tocando na ferida. Que nossa indignação deixe de ser indigna, como o grupo Skank cantava em uma conhecida música dos anos 90, e comece a ser realmente combustível para mudanças necessárias em nossas mentes e atos.

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  4. Obrigada pelas instruções passo a passo. Eu aprecio o conhecimento profundo seu, é o que eu precisava. Seu site é o melhor. Eu vou compartilhá-lo em todos os lugares, incluindo o meu site e blog. Mais uma vez obrigada 
    Deus te abençoe.

    Fonte : noticiasweb

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