segunda-feira, março 26, 2018

Escolarização e Educação



Quando eu digo que teremos muito trabalho pela frente pois os nossos problemas estão apenas começando e são mais sérios do que imaginamos, o exemplo de uma desembargadora no Rio de Janeiro deixa isso bem claro. Sobre a execução da vereadora Marielle Franco por motivos e autores ainda desconhecidos até a presente data, a desembargadora Marília Castro afirmou em uma rede social que a vereadora estava envolvida com bandidos e foi eleita graças a uma facção criminosa - além de insinuar que o ocorrido foi "acerto de contas". Mas esta opinião (sic) da desembargadora do TJ do Rio de Janeiro é também um ótimo exemplo de que ao mantra “Educação é a solução” é preciso acrescentar a pergunta “Que tipo de Educação?”. 

Vejam: a escolaridade da desembargadora certamente é de excelência - da Educação Básica ao Ensino Superior. É Mestre em Direito Processual pela UERJ, foi professora universitária e é Desembargadora desde 2007. Sem dúvida é uma profissional bem-sucedida e qualificada em relação à sua formação. Como uma pessoa com tal nível foi capaz de escrever palavras tão absurdas baseadas em “um texto que recebeu de uma amiga”? 

Duas coisas: a primeira é que ela caiu nas terríveis e perigosas “Fake News” disseminadas de forma irresponsável através de redes sociais como Facebook e aplicativos de comunicação como o WhatsApp. A própria desembargadora admitiu não conhecer a vereadora Marielle e com base em informações sem procedência emitiu juízo sobre uma pessoa da qual ela nada sabe – e que não está mais aqui para se defender destas acusações. “E se for verdade?”, podem questionar alguns. “E se...” entra no terreno das especulações, dos devaneios – e aí são moldados de acordo com o gosto e preferências do freguês. 

Segundo: notem que o elevado nível de escolarização não impediu que a desembargadora emitisse uma opinião desprovida de empatia, sensibilidade e sobretudo ética. Ela afirma que emitiu sua opinião não como desembargadora, mas como cidadã, o que piora as coisas. Aí retomo a questão e o prumo da prosa: que tipo de Educação precisamos? A escolarização faz a sua parte – os conteúdos de Inglês, Português, Matemática, Física, etc. são ministrados todos os dias nas escolas. E ninguém questiona a importância e a relevância de se aprender o verbo to be, as regras ortográficas, as leis de Newton, a hidrografia da Amazônia, etc. Educação, porém, vai além disso. Nas escolas devem ser construídos espaços e situações onde questões ligadas à ética, cidadania, discriminação racial, social e religiosa, Direitos Humanos, política, dor, emoções sejam pensadas, debatidas, dialogadas, trabalhadas e incorporadas ao cotidiano escolar. Já tratei um pouco sobre isso em outra ocasião e talvez seja até repetitivo, porém é necessário insistir, refletir e agir. 

Uma educação burocrática, estritamente conteudista e tecnicista não cabe mais em um mundo bastante diferente do que tínhamos há um século, por exemplo. De John Dewey e Maria Montessori a Paulo Freire, de Anísio Teixeira a Howard Gardner e Ken Robinson, diversos teóricos e estudiosos sobre Educação concordam ou concordaram que este modelo educacional arcaico (sob muitos aspectos) deve ser revisto. 

Se ainda há tempo? Talvez, se a escola não caminhar sozinha para esta mudança. Uma analogia perfeita é dada por Hermann Hesse, em Demian: “A ave sai do ovo. O ovo é o mundo. Quem quiser nascer tem que destruir um mundo”. E aqui encerra-se essa prosa com outra questão: temos coragem para destruir um mundo e disposição para reconstruí-lo?

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