terça-feira, setembro 27, 2011

Porque a "Lei Seca" não funciona

São Tomé, aquele famoso apóstolo que duvidou das chagas de Jesus Cristo e precisou ver para crer, adoraria os telejornais da TV aberta: têm coisas que só vendo para acreditar.

Ao assistir o telejornal local, de Salvador, eu prestei atenção a uma notícia que era destaque: a volta das blitzes ( por ser palavra de origem alemã, o correto seria blitzen, mas vou utilizar a forma aportuguesada “blitzes”) da chamada “Lei Seca”, aquela que supostamente deveria punir rigorosamente gente que consome bebida alcoólica e sai por aí dirigindo.

A reportagem flagrou um veículo capotando em uma das avenidas mais movimentadas da capital baiana porque o motorista, segundo as testemunhas, estava com sinais de embriaguez – o motorista, aliás, fugiu do local do acidente. Mas a grande pérola da reportagem aconteceu logo depois, quando a repórter entrevistou uma jovem advogada – ou estudante de direito – que bebia cerveja sem moderação e não estava nem um pouco preocupada com a blitze policial. E a jovem deu a receita para não ir em cana:

“Passa a mão por cima e a blitze libera, porque eu já fui pega por uma blitze e fui liberada porque papai tem dinheiro.” ( para quem é devoto de São Tomé, o vídeo pode ser conferido AQUI, a 2:02)

Talvez sem querer a moça explicou, em curtas e objetivas palavras, os motivos porque a Lei Seca não dá certo no Brasil: uma sociedade hierarquizada, onde prevalece – embora de maneira mais ou menos velada hoje – o “você sabe com quem está falando?” e a corrupção que é entranhada em diversos setores do cotidiano brasileiro, e não apenas dentro dos governos, como muitos pensam.

De acordo com estatísticas, o trânsito brasileiro mata cerca de 35 mil pessoas por ano – e estes acidentes custam R$ 105 milhões para os cofres do governo. E todos sabem - ou deveriam saber – que a combinação álcool + direção é responsável por parte considerável destes acidentes. Mesmo com as blitzes e as chamadas publicitárias na TV as pessoas insistem em tomar sua cerveja – a inocente cervejinha socialmente aceita e consumo estimulado por propagandas diárias seja na TV, no rádio, nas revistas e jornais e, pior, com jogadores de futebol e artistas famosos – e desprezar o senso coletivo, pois uma pessoa embriagada ao volante coloca em risco a vida dela mesma e de várias pessoas nas ruas, dirigindo ou não. Não se trata de proibir ninguém de consumir a bebida alcoólica, e sim proibir de beber e logo depois dirigir.

Aí entra em cena a mentalidade hierárquica, onde o poder e o dinheiro fazem a diferença. Não é raro acompanharmos casos de motoristas embriagados que pertencem a um estrato social elevado – magistrados, políticos, empresários - envolvidos em acidentes de trânsito e liberados após pagamento de fiança, isso quando não são “liberados” na hora, no ato. Pessoas famosas, como jogadores de futebol e celebridades, também são “liberadas”. Brechas na lei, advogados, fiança, a famosa “cervejinha ao agente de trânsito”: o arsenal de dispositivos que contribuem para a impunidade é vasto.

Diante do “papai tem dinheiro” e da corrupção enraizada em diversos setores da sociedade, o que resta ao cidadão comum fazer? Talvez rezar para São Cristóvão, padroeiro dos motoristas. Ou São Judas Tadeu, o santo das causas impossíveis, pois está cada vez mais difícil encontrar o mínimo de civilidade e bom senso no trânsito.

quarta-feira, setembro 21, 2011

Sensualizando na net

(para visualizar melhor a charge, clique)

U-lá-lá! Caiu na net: fotos da beldade Scarlett Johanson mostrando seu cobiçado derrière como veio ao mundo. E por falar em mundo, as fotos tiradas pela própria atriz em seu celular rodaram o planeta, sendo destaque até naqueles telejornais chatos.

- Alberto, tô te estranhando: geralmente você dorme aí no sofá quando passa o jornal; e hoje está tão concentrado, prestando toda a atenção...

- Psiu, querida! Tô preocupado com a situação econômica na Grécia, tem que prestar atenção!

Inegavelmente as tecnologias digitais trouxeram avanços e facilitaram a vida de muita gente. E facilitaram até mesmo as fantasias sexuais: não é difícil encontrarmos álbuns, blogs e vídeos eróticos com imagens de pessoas famosas e anônimas que “caíram na net” – ou não necessariamente, pois há muitas pessoas que postam suas fantasias na grande rede - graças aos modernos celulares, webcams e as facilidades para tais conteúdos serem publicados.

Cada um tem suas fantasias sexuais e faz o que bem entende para o seu prazer, não tenho nada com isso – ou contra isso, afinal quem sou eu para julgar? - e tampouco vou adotar discurso moralista. Exibicionismo e voyeurismo já existem há tempos, da mesma forma que ménage-a-tróis, swing e tantos outros fetiches e fantasias. A internet facilitou o acesso a essas práticas que já estavam presentes nos velhos "catecismos" de Carlos Zéfiro e dos filmes pornôs em VHS que a molecada alugava escondido na locadora. Antes muitas pessoas tinham vergonha em chegar no balcão com títulos como “Deep Throat - Garganta Profunda” e até “Emanuelle”, mas hoje tudo está disponível a um www e alguns cliques. Tem tudo na grande rede, é só procurar: em 2007 eram 4,2 milhões de sites pornográficos ativos (ui!); e muito em breve já teremos o domínio .xxx pra delírio da galera.

Se por um lado a internet facilita o lado de muita gente que quer colocar em prática suas fantasias sexuais, por outro há alguns problemas. É muito comum encontrar adolescentes - garotos e garotas - nas redes sociais “sensualizando” em álbuns de fotos pra lá de “provocantes”, em trajes do tipo quanto menor, melhor. Um prato cheio para pedófilos e aliciadores. Há algum tempo acompanhei pela internet uma troca de opiniões interessante, em que alguns adolescentes diziam não conseguir entender como Marilyn Monroe e Brigitte Bardot podiam ser “sensuais”. O conceito de “sensualidade”, obviamente, era outro há 40, 50 anos – hoje, o que se chama de sensual é algo explícito e por demais banalizado, para não dizer apelativo. E a trilha sonora para um “clima” é o rala-na-tchaca qualquer. Se comparado há décadas, temos hoje uma maior liberdade sexual, mas ao mesmo tempo ainda perduram comportamentos repressivos, preconceitos e muita desinformação.

E nesta sociedade líquida que estimula a relação consumo/descarte quase imediatos, até sites voltados para pessoas casadas que queiram “pular a cerca” no maior sigilo – e com grandes vantagens por um precinho camarada - já existem. Com tantas possibilidades por aí – como citou Bauman, a sociedade de consumo é uma sociedade de excesso e fartura - esse negócio de “fiel até a morte” só mesmo para a torcida do Corinthians, pelo jeito.

- Ah, então era isso que você queria ver no jornal com toda a atenção, né, seu velho descarado?

- Eu??? Não, querida! Só vi por acaso, tava esperando os gols da rodada...

- E eu não vi? Só faltou babar quando a foto daquela atriz loira apareceu na tela!

- Qué sabê, mulé? O que que tem? Ela só mostrou peito e bunda, vá! Qual é o macho que não percebe? Ah, me deixa, quer arrumar confusão por causa disso...

- Seu descarado...devasso....safado...

- O que é isso, mulhé? Me solta!

- Seu velho descarado...sacana...machão...vem tirar umas fotos lá no quarto, vem...vamos sensualizar num vídeo caseiro...seu safadinho!

sexta-feira, setembro 16, 2011

Faltam 1000 dias

(clique na charge para visualizar em tamanho maior)

Daqui a 1000 dias teremos, finalmente, a Copa do Mundo no Brasil. Relógios com a "contagem regressiva" foram instalados em algumas capitais que sediarão as partidas da Copa 2014 - e posicionados próximos aos estádios que estão em construção ou reformas.

E para provar que "com brasileiro, não há quem possa", os custos da Copa não serão nada modestos em relação aos estádios: o estádio Nacional de Brasília, o Mané Garrincha, custará R$ 676 milhões e em Manaus o estádio Vivaldo Lima, o Vivaldão, sairá por R$ 533 milhões. Na cidade de São Paulo, que já tem dois grandes estádios, será construído um novinho em folha ao custo de R$ 850 milhões e quem vai se dar bem nessa história é o Corinthians: terá seu estádio através de incentivos fiscais na ordem de R$ 420 milhões - na Itália, em crise, a Juventus de Turim inaugurou uma nova arena ao custo de R$ 280 milhões.

Há quem se lembre do legado que a Copa deixará: obras de mobilidade ( transportes), rede hoteleira ( turismo), qualificação para quem vai trabalhar durante a Copa ( educação), dentre outros progressos para o país. A mesma história foi contada em 2007 quando o Rio de Janeiro recebeu os Jogos Pan Americanos. Será que este evento, ocorrido há apenas 4 anos e com o custo de R$ 3,5 bilhões, deixou algum legado positivo para a cidade? Talvez os amigos cariocas possam falar melhor sobre isso.

O que vimos durante este anúncio do "faltam 1000 dias para a Copa do Mundo" foi muito discurso demagógico de políticos e outras personalidades, além de algumas matérias superficiais na TV. Claro, afinal tudo é festa e a grande preocupação, além do atraso nas obras nos estádios, é se a Seleção Brasileira vai conseguir vencer a Copa.

Mais produtivo seria um relógio com a contagem regressiva para alguns setores:

Faltam 1000 dias para uma educação de qualidade no Brasil - e é curioso reparar certos detalhes: em Minas Gerais estipula-se que a reforma do estádio do Mineirão custará R$ 665 milhões; os professores de MG estão em greve há 100 dias porque o governador se recusa a pagar um mísero piso salarial de pouco mais de R$ 1.100 e insiste em pagar R$ 712 para professores de todos os níveis com carga horária de 24 horas. Este é apenas um de inúmeros exemplos de como a Educação e o magistério é desvalorizado no Brasil - e é bom que se preparem para o pior, pois o "apagão de professores" já é realidade e o magistério não é nada atraente.

Faltam 1000 dias para o fim da corrupção no Brasil - a corrupção em nossa "Pátria amada/salve salve" não começou agora, nem semana passada, tampouco em governos anteriores. A corrupção também não é exclusividade dos meios políticos entre ministros, deputados, senadores, etc, embora a visibilidade seja maior por conta da cobertura midiática. A prática é comum em nosso dia a dia em atos considerados banais, como o famoso "jeitinho", definido pelo professor Roberto DaMatta como um modo de "navegação social" entre ambientes onde existem regras - às vezes burocráticas demais, é verdade - e como este "não pode" torna-se "possível" com uma boa conversa, uma cervejinha: a esperteza impera.

Faltam 1000 dias para um sistema de saúde decente no Brasil - a coisa funcionava assim: se a pessoa tem plano de saúde particular, ganha uma sobrevida; quem não tem, morre na fila do SUS. Hoje, nem com plano de saúde particular o sujeito tem a garantia de (bom) atendimento. E mesmo os médicos se queixam dos valores pagos pelos planos. Pelo Sistema Único de Saúde basta a referência à sigla SUS para a lembrança de corredores lotados de doentes, filas quilométricas para consultas e exames marcados para daqui a 6 meses, 1 ano. Até mesmo o Barack Obama sabe o quão complexo é gerenciar um sistema de saúde público, mas falta de dinheiro não deveria ser problema - tivemos até um imposto (CPMF) para "ajudar a saúde", lembram?

E faltam 1000 dias para...tanta coisa que talvez apenas sejam resolvidas ou melhoradas daqui a 1000 anos. No país que tem verdadeira adoração pelo número 1000 - de Pelé, de Romário, do automóvel Gol - a Copa do Mundo no parece muito com alguns contos das "1001 noites": cheios de mistérios, intrigas e, claro, Ali Babá e os 40 ladrões.

domingo, setembro 11, 2011

Reflexões

( a charge não é tão antiga, mas apenas relembra o quanto Bush e Osaminha eram – ou são – muito amigos. Sim, teoria conspiratória: adoro! Clique para ver em tamanho maior)

A coisa funciona assim: antes de escrever faço uma reflexão sobre o tema do qual escolhi. Repasso as informações para verificar se não esqueci algo importante – é um desafio, pois condensar um texto em um “tamanho” adequado para que não pareça uma tese de mestrado não é coisa tão simples para quem costuma “gastar os dedos” quando resolve escrever.

“Escrever é a arte de cortar palavras”, já dizia... Carlos Drummond de Andrade? Não sei. É preciso tomar cuidado com essas citações atribuídas a grandes imortais. Talvez tenha sido Clarice Lispector, autora de 9 em 10 citações “profundas” que surgem na internet. Há quem diga que tal afirmação tenha partido de Voltaire. Eu apostaria em Tchekhov. Não importa, vamos prosseguir.

A função de quem escreve é “ser testemunha deste mundo”. Isso quem citou foi Lygia Fagundes Telles e esta citação vocês podem utilizar sem medo porque está em um livrinho bem ao lado de Eduardo Galeano na minha pequena e humilde biblioteca. E é o que faço: quando aqui escrevo o faço na condição de testemunha deste mundo, deste tempo.

E o que escrever, afinal? Tantas coisas! Hoje é dia 11 de Setembro de 2011. Há 10 anos dois aviões colidiram contra as Torres Gêmeas em Nova Iorque, nos EUA. O que mais vou escrever sobre isso? Todos estão falando e escrevendo sobre o assunto que transformou o mundo e ainda hoje é envolto em teorias conspiratórias diversas e (algumas) divertidas. Onde é que eu estava no dia quando ocorreu o ataque? Estava trabalhando, na escola. De repente todos estavam acompanhando as notícias pela TV na sala dos professores: acidente? Ataque? Filme? O Pentágono também? Quem foi? “Professor, foi o Zezinho!”. Foram os ET´s? Um professor de história afirmou que estávamos “assistindo ao vivo um fato histórico”.

Na verdade escrevi bastante nos últimos dias. Um texto sobre o 11/09; um texto sobre o ativismo via redes sociais que conseguiria o incrível efeito de desagradar partidários do PT, PSDB e entusiastas de redes sociais como o twitter – que acreditam na revolução via @ e RT. Não subestimo o poder destas redes, mas também não superestimo – falta foco, tudo se torna “causa” e as pessoas aderem às mesmas sem muita convicção, um tanto automáticas, afinal clicar no botão “curtir” e dar “RT” é fácil. Existe até um termo chamado “slacktivism”, algo que seria compreendido como “ativismo pelo mínimo esforço”, mas deixa pra lá por enquanto. Por que esse texto desagradaria a tantas pessoas? Pelo caráter satírico principalmente quanto ao maniqueísmo nojento de "nós do partido X somos bonzinhos e vocês do partido Y são malvadinhos". De vez em quando leio o grande Stanislaw Ponte Preta, sabem? Será que ele escaparia ileso da patrulha do politicamente correto que vigora atualmente? Ah, tia Zulmira e primo Altamirando... fazem falta!

Escrevi também um texto sobre biografias nas redes sociais (!) e outro texto ridículo sobre a guerra. Guerra? Guerra ao terror, guerra do golfo, Guerra do dia a dia, Guerra do trânsito, carrocerias “Guerra é paz na estrada”: estas bobagens todas ficarão muito tempo na pasta “Meus Documentos” ou em algum HD externo. Será que um dia alguém terá acesso a estes escritos? O que será destas palavras perdidas e esquecidas? Viu, Kafka, como é legal esse tempo? Hoje basta apertar a tecla DEL, não precisa encher o saco dos amigos pedindo para queimar os escritos – valeu, Brod-er! (trocadilho infame e sem graça)

Afinal, do que se trata tudo isso que escrevi? Não se preocupe em buscar um foco na leitura: eu não o procurei na hora de escrever. Apenas deixei que as palavras surgissem na tela e assim fui complementando. Muitos escritores condenam isso, mas apenas estou agindo como testemunha deste mundo. E saio escrevendo por aqui e por aí - e compartilho algumas coisas para reflexões, mesmo que aleatórias.

segunda-feira, setembro 05, 2011

Independência do Brasil - nova versão *



*Essa é uma história de ficção. Se você chegou a este blog fazendo uma pesquisa de escola sobre a Independência do Brasil, procure AQUI ou AQUI. Não entregue esse texto para a professora – a não ser que você queira tirar zero no trabalho!


Na busca incessante pela verdade, nossos proctologistas investigam de forma periódica os anais da história a fim de encontrarem evidências que se aproximem dos fatos como eles realmente aconteceram.

Como o Brasil não tem jeito, foi preciso que uma equipe da Universidade de Oh,Raio ( especialistas em pesquisas relevantes) desvendasse o mistério que há muito tempo intriga historiadores e curiosos em geral: por que D.Pedro I, vulgo Pedrinho, proclamou a independência do Brasil em 7 de Setembro de 1822?

Eis o que os documentos revelam.

NA CASA DE DOMITILA

Encontrava-se Pedro de Alcântara Francisco António João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e Bourbon, mais conhecido como Pedrinho, na casa da bela Domitila de Castro e Canto Melo, mais conhecida como Titila.

- Mas Titila, seja razoável...
- Chega, Pedro! Você promete, promete e nada cumpre!
- O que você quer que eu faça? Eu sou apenas o príncipe real do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, não tenho esse poder todo que você pensa... a não ser que você se refira a outro tipo de poder, minha querida Titilinha, hum, vem cá!
- Afastai, Pedro! Sai pra lá, aquieta este fogo, homem, que eu não sou dessas bailarinas francesas que se encantam com um “príncipe de Algas”, ora!
- Algarves! É uma rica região de Portugal conquistada com muita luta contra os árabes e...
- Não mude de assunto, Pedro! Eu quero resolver este assunto do qual você me enrola há tempos: um título de nobreza! Pelo menos isso eu quero, já que você não larga aquela lambisgóia que chamam de “princesa”, a Leopoldina, ah, que mulher irritante!
- Titila, já falamos sobre isso: eu não posso largar a princesa! Isso causaria um grande mal-estar na família Habsburgo e a Áustria poderia romper relações com Portugal e até, quem sabe, declarar guerra! E não queremos fugir novamente, ô, pá!
- Tá, tá! Sabe qual é o seu problema, Pedro? Não é ambicioso! Você se conforma com pouco, em ser um reles príncipe de Alfarje!
- Algarves! E do que você está falando?
- Ah, você só quer saber de andar por aí com aquele seu amigo, o Chalaça, não gosto dele! Vivem bebendo, contando piadas, jogando e correndo atrás de bailarinas francesas e qualquer rabo de saia! Você pensa que eu não sei, mas eu não sou boba! Você deveria almejar muito mais, aposto que isso te daria prestígio e assim você mudaria seu comportamento!
- Domitila, do que está falando? Seja clara!
- Seu idiota! Estou falando que já está na hora de ser rei! Imperador do Brasil!
- Mulher, você ficou doida? Meu pai ainda é vivo e já estou meio brigado com ele, pois anunciei que fico no Brasil! E ainda tem as cortes, elas não aceitariam e...
- As cortes, as cortes, ah, Pedro, seja homem uma vez! Proclame a independência, seja imperador, mande nessa roça que é o Brasil, livre-se de Leopoldina e me faça rainha!
- É...bem, vou ter que conversar com Bonifácio...
- Ah, Pedro, chega! E vai conversar com quem mais? Com Chalaça? Chega! Só me procure novamente quando virar rei!
- Mas Titila...isso pode demorar! Até lá, como viverei sem tua beleza e toda essa abundância que tens?
- Te vira, Pedro! Está avisado: ou vira rei ou nada de cama, mesa, banho e foguinho aqui em Santos!

NAS MARGENS DO RIACHO IPIRANGA

Irritado com essa discussão com a bela Domitila de Castro, Pedro seguiu viagem de volta para São Paulo acompanhado de seu inseparável amigo, o Chalaça.

- Aê, príncipe, tenho umas ideias legais pra gente descolar uma grana!
- Hum?
- Seguinte: a gente podia cobrar a passagem aqui neste trecho entre Santos e São Paulo. Poderíamos chamar este trecho de “Via Anchieta” e prometer umas melhorias na pista, mas mediante um pagamento de quem a utiliza. Claro que não gastaremos um tostão, só contaremos os lucros! Não é uma boa?
- Chalaça, que ideia mais imbecil! Quem iria fazer isso? Ah, me deixa em paz que preciso tomar umas decisões.
- O que tá pegando, Pedrão? Eu tô dizendo, essa mulher tá colocando umas minhocas na tua cabeça, daqui a pouco coloca outra coisa...
- Sabe o que é, Chalaça? A mulher cismou que eu tenho que ser rei, imperador do Brasil! E quer ser rainha, quer que eu dê um chute em Leopoldina, essa mulher quer tudo, que diabos!
- Ué, é simples: dá no pé, deixa essa Domitila pra lá. Semana que vem chegam novas bailarinas da França e...
- Não, Chalaça, estou apaixonado. O que eu faço? Não dá pra dispensar aqueles quadris, aquele busto, aquela rara beleza...
- É, Pedrão, agora complicou. Bora sentar às margens daquele riacho ali pra relaxar e pensar no que fazer.

Naquele momento chega um mensageiro trazendo cartas de José Bonifácio e da princesa Leopoldina. Essas teriam enfurecido Pedro de Alcântara.

“... e a madame Marie-Louise Bardot manda avisar que precisa comprar leite para as crianças e que a ajuda que vossa excelência envia não dá para comprar nada e se isso não melhorar vai contar pra todo mundo que o filho é teu.
Respeitosamente, José Bonifácio”

“...pois chegou uma louca aqui dizendo que os quatro filhos dela estavam passando fome e disse que todos esses meninos são teus! Volte imediatamente, ou melhor, não volte, seu desgraçado mulherengo! Vou contar tudo pro meu pai e ele vai declarar guerra e você vai ver! E que história é essa de " Fogo-Foguinho"???
da tua enfurecida Leopoldina"

Ao ler estas cartas Pedro de Alcântara levantou-se em um salto, subiu no jumento que era sua montaria e gritou para a comitiva:

- Chega!!! Não aguento mais! É muita coisa para uma pessoa só, muita pressão! Tudo o que eu quero é liberdade, independência! É INDEPENDÊNCIA OU MORTE!!!

E assim aconteceu a independência do Brasil em 7 de Setembro de 1822. O restante da história todos conhecem.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...