
São Tomé, aquele famoso apóstolo que duvidou das chagas de Jesus Cristo e precisou ver para crer, adoraria os telejornais da TV aberta: têm coisas que só vendo para acreditar.
Ao assistir o telejornal local, de Salvador, eu prestei atenção a uma notícia que era destaque: a volta das blitzes ( por ser palavra de origem alemã, o correto seria blitzen, mas vou utilizar a forma aportuguesada “blitzes”) da chamada “Lei Seca”, aquela que supostamente deveria punir rigorosamente gente que consome bebida alcoólica e sai por aí dirigindo.
A reportagem flagrou um veículo capotando em uma das avenidas mais movimentadas da capital baiana porque o motorista, segundo as testemunhas, estava com sinais de embriaguez – o motorista, aliás, fugiu do local do acidente. Mas a grande pérola da reportagem aconteceu logo depois, quando a repórter entrevistou uma jovem advogada – ou estudante de direito – que bebia cerveja sem moderação e não estava nem um pouco preocupada com a blitze policial. E a jovem deu a receita para não ir em cana:
“Passa a mão por cima e a blitze libera, porque eu já fui pega por uma blitze e fui liberada porque papai tem dinheiro.” ( para quem é devoto de São Tomé, o vídeo pode ser conferido AQUI, a 2:02)
Talvez sem querer a moça explicou, em curtas e objetivas palavras, os motivos porque a Lei Seca não dá certo no Brasil: uma sociedade hierarquizada, onde prevalece – embora de maneira mais ou menos velada hoje – o “você sabe com quem está falando?” e a corrupção que é entranhada em diversos setores do cotidiano brasileiro, e não apenas dentro dos governos, como muitos pensam.
De acordo com estatísticas, o trânsito brasileiro mata cerca de 35 mil pessoas por ano – e estes acidentes custam R$ 105 milhões para os cofres do governo. E todos sabem - ou deveriam saber – que a combinação álcool + direção é responsável por parte considerável destes acidentes. Mesmo com as blitzes e as chamadas publicitárias na TV as pessoas insistem em tomar sua cerveja – a inocente cervejinha socialmente aceita e consumo estimulado por propagandas diárias seja na TV, no rádio, nas revistas e jornais e, pior, com jogadores de futebol e artistas famosos – e desprezar o senso coletivo, pois uma pessoa embriagada ao volante coloca em risco a vida dela mesma e de várias pessoas nas ruas, dirigindo ou não. Não se trata de proibir ninguém de consumir a bebida alcoólica, e sim proibir de beber e logo depois dirigir.
Aí entra em cena a mentalidade hierárquica, onde o poder e o dinheiro fazem a diferença. Não é raro acompanharmos casos de motoristas embriagados que pertencem a um estrato social elevado – magistrados, políticos, empresários - envolvidos em acidentes de trânsito e liberados após pagamento de fiança, isso quando não são “liberados” na hora, no ato. Pessoas famosas, como jogadores de futebol e celebridades, também são “liberadas”. Brechas na lei, advogados, fiança, a famosa “cervejinha ao agente de trânsito”: o arsenal de dispositivos que contribuem para a impunidade é vasto.
Diante do “papai tem dinheiro” e da corrupção enraizada em diversos setores da sociedade, o que resta ao cidadão comum fazer? Talvez rezar para São Cristóvão, padroeiro dos motoristas. Ou São Judas Tadeu, o santo das causas impossíveis, pois está cada vez mais difícil encontrar o mínimo de civilidade e bom senso no trânsito.



