sexta-feira, março 04, 2011

Sobre carnaval, abadás, cordas e povo

Houve um tempo em que eu caí na armadilha de bradar aos montes, além dos montes e trás-os- montes sobre o quanto carnaval e futebol eram “instrumentos de alienação do povo” e aquele papinho todo radical que certamente você já leu e ouviu por aí.

Bobagem, é claro. Nada como a maturidade para que possamos refletir algumas idéias e expressões. Não me envergonho do fato de ter dito tais coisas, talvez de forma até ingênua, mas sim de ter embarcado numa espécie de preconceito ao que costumava ser uma manifestação popular e espontânea. O carnaval, segundo Roberto DaMatta, é “um movimento numa sociedade que tem horror à sociabilidade, sobretudo a mobilidade que permite trocar efetivamente de posição social”.

Se não podem vencê-los, juntem-se a eles – ou melhor, tome o lugar deles e criem suas próprias regras. Notem que falei do carnaval como manifestação que costumava ser popular e espontânea. Hoje, o jogo virou e não tenho lido ou escutado com tanta freqüência sobre a “alienação do carnaval”. Quando algo – seja material ou imaterial – deixa de ser exclusivamente de domínio popular, é possível falar-se até na beleza que nasceu das classes populares e hoje “frequenta as mesas dos restaurantes mais requintados da cidade”. Lembrei-me da boa e velha cachaça.

Estaria exagerando ou caindo no discurso “a culpa é das elites que tornaram o carnaval mais uma fonte de lucro”? Ora, apenas presto atenção a alguns detalhes. Vejamos o que acontece em Salvador, quando aquela multidão invade as ruas da capital baiana para sair atrás dos trios elétricos. Surpreenda-se com este dado: 60% da população de Salvador passa o carnaval em casa, assistindo filmes, ouvindo música ou acessando a internet. Tal informação motivou até uma brincadeira sem graça feita por Marcelo Tas – e, se me permitem, Tas é um excelente comunicador e jornalista, mas um sofrível humorista, caso ele insista em perseguir tal rótulo.

O que acontece neste carnaval de Salvador é bastante emblemático: pessoas uniformizadas com o que se chama “abadá” – os blocos mais famosos custam uma pequena fortuna – separadas do resto do povão por uma corda. Neste espaço entram apenas aqueles que pagaram, uma espécie de ingresso. Para quem procura um pouco mais de conforto existem os camarotes, também alguns com preços cujos valores são quase surreais. A estrutura dos camarotes toma o espaço que antes era ocupado pelo povo que não pagava para brincar o carnaval, o chamado “folião pipoca”. Este prefere ficar em casa ou viajar com a família a pagar cerca de 800 reais pelo abadá do Chiclete com Banana – preço válido para um único dia.

E o supra-sumo acontece quando as músicas de duplo sentido ou conotação sexual - que sempre existiram, é bom ressaltar - condenadas veemente por “serem grotescas, de baixo nível e denegrirem a imagem da mulher” recebem até coreografia daqueles que, fora deste espaço, condenam o cantor e banda por “promoverem a baixaria”. É curioso observar como no carnaval o “pode tudo” legitima o que normalmente se condena. Novamente, quem explica é o professor DaMatta: "Sabemos que o carnaval é definido como 'liberdade' e como possibilidade de viver uma ausência fantasiosa de utópica de miséria, trabalho, obrigações, pecados e deveres. (...) Sensação de liberdade que que me parece fundamental numa sociedade cuja rotina é dominada pelas hierarquias que sujeitam a todos a uma escala complexa de direitos e deveres vindos de cima para baixo".

Por isso mesmo vejo com bastante simpatia a tentativa de resgate dos tradicionais blocos carnavalescos de rua, como já acontece em algumas cidades do Brasil e até mesmo em boas iniciativas que há neste sentido na capital baiana. Não faço pregação pelo fim das escolas de samba no Rio ou mesmo dos abadás em Salvador – são fontes de emprego e renda para muita gente. Apenas espero que o caráter popular do carnaval seja efetivamente resgatado ou que continue firme nos lugares onde isso ainda não se perdeu.

Mais feio do que aquela segregação explícita da corda que acontece no carnaval de Salvador só mesmo Bell Marques raspando a barba e ganhando, segundo se comenta por aí, R$ 2 milhões para tal ato. Isso, sim, é uma injustiça: sou tão desafinado quanto ele, sei rimar "amor" com "ô ô ô" e sou menos feio. E minha barba não encrava!

12 comentários:

  1. Olá, professor!

    Tive um professor q defende que o carnaval perdeu seus status de festa popular, se reduzindo a produto comercial para alimentar o que ele chama de "carnaval-empresa". De acordo com dados colhidos por ele, a maioria das pessoas que frequentam o carnaval no Rio (blocos de arrastão + Sapucaí + quadra das escolas de samba) é composta por turistas. A maior parte dos "nativos" prefere fugir da folia, ficando em casa ou viajando para algum lugar mais calmo.

    bjohnny!

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  2. Antes de comentar, recomendo este vídeo que descobri pelo Facebook: http://www.youtube.com/watch?v=oLmFQxsMbN4.

    Gosto do carnaval, apesar de ficar em casa, em especial dos desfiles porque tem a parte cultural, onde as escolas fazem uma pesquisa para criar o enredos, as fantasias e vão contando uma história. Olhando por esse ângulo pode ser até instrutivo.

    Bem, eu não teria coragem de pagar os tais 800 reais num camarote da Ivete, Cláudia Leite, Chiclete com Banana ou seja lá quem for. Acho até que o axé já teve umas músicas e umas bandas boas, mas isso ficou no começo dos anos 90. O objetivo final qual é? Dançar, beijar, fornicar? Isso eu poderia ter num prostíbulo por muito menos! :D

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  3. Oi, Jaime! Tem uma noção de apoderamento, de pertencimento que está mexendo com os brios de quem realmente quer manter a tradição popular das festas (em geral). Aqui em MG, por exemplo, já há uns bons anos, as cidades tem investido pesadamente no carnaval de rua com marchinhas, a volta dos carnavais de clubes com matinês infantis em detrimento dos famigerados trios elétricos e o luxo desmedido das escolas de samba. Afinal, acho que aquilo é mais uma demonstração de glamour do que festa popular. As mudanças boas acontecem bem devagar. As avalanches do dinheiro atrás de dinheiro são sempre um freio a tudo o que é identitário, no meu entender. Abração e ótima folia (mesmo qeu seja só como um excelente observador). paz e bem.

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  4. Graças a Deus nem sei quem é Chiclete com banana. Parabéns pelo post.

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  5. Li seu post e como baiana que participa do carnaval de Salvador tenho que comentar: Se não existissem os blocos de corda, a prefeitura de Salvador não ia colocar atrações como Chiclete com Banana e Ivete pro povão. Aconteceria o seguinte: Tais bandas com festas particulares longe da cidade (ou em clubes) e as ruas tomadas pelo povo a ver navios. Os bloquinhos de rua e de fantasiados existem, até hoje. Todos os dias saem grupos fantasiados em seus "próprios blocos" e que ficam na pipoca. O carnaval de Salvador tem "3 circuitos" que abrigam toda essa diversidade. Tem pra todo mundo. E, quando os trios de corda passam, quem pagou para eles estarem lá ficam dentro da corda sim. Pulando mais tranquilos. E quem não pagou, ouve o bloco do mesmo jeito. A Ivete mesmo sempre dá atenção à pipoca*. Por isso ela é tão amada.

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  6. Olá Jaime!
    Como sempre, achei muito pertinente o seu texto.
    Aqui no interior, felizmente o carnaval ainda é popular. Mas não sei até que ponto, porque você paga o dobro do preço por um refrigerante ou um simples copo de água... E cada vez mais a folia na rua está perdendo espaço para os bailes de carnaval nos salões, que custam um absurdo! Tem ainda o problema da segurança, porque nessa época do ano as pessoas acham que "pode tudo" e tendem a exagerar na bebida, no sexo e nas drogas.
    Apesar de tudo isso, ainda adoro o carnaval!
    Abraços...

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  7. Nossa, tenho verdadeiro horror de axé e gente que gasta mil reais num abadá!!!
    Só de ver na televisão aquele povo se debatendo, muitos se socando sem motivo algum, e aquelas filas de homens beijando as filas de mulheres, com aquela trilha sonora deplorável, me dá náuseasss!!!

    Também acho bacana os blocos tradicionais, mas mesmo assim não é a minha praia.
    Na minha cidade, saíram vários bloquinhos bem animados, foi legal e engraçado observar as fantasias.
    mas a música... continua me desagradando porque sou chata mesmo.

    Beijos e tenha uma ótima semana!

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  8. Achei muito interessante o texto!
    Eu sou do tempo em que o carnaval antigo era espontâneo e as famílias participavam das festas. Saiam em carros enfeitados, os corsos, ou então brincavam nos blocos, grupos compostos por moradores vizinhos. Nada de multidão. Todos se distraiam nas ruas e nos clubes. E os desfiles? Frevos, ranchos, escolas de samba e carros alegóricos: (Fenianos, Democratas, etc). Mas, na década de 70, tudo isso acabou. O regime era duro. Não se permitiam aglomerações. E aí surgiu o carnaval produzido, programado à priori. E deu no que deu. É por isso que a minha geração tem muita saudade dos antigos carnavais. É isso aí!
    Aproveito também para agradecer a sua visita ao Saiba História. Grande abraço! :-)

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  9. Muito bom o texto! Penso que esse papo de que Carnaval (e futebol) alienam o povo é uma forma pequena de enxergar o problema real...
    O povo é alienado por que não se investe em educação, grande parte não sabe ler se quer. Mas é evidente que não se dá espaço para outras modalidades de entretenimento que não carnaval e futebol. Torço para que o carnaval volte a ser menos comercial, e se democratize cada vez mais com os blocos de rua, como você mencionou...Abraço!

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  10. Oi Jaime!

    Aqui no Rio de Janeiro, os bloquinhos foram ressuscitados tornando o carnaval de rua bem popular, espontâneo e para todas as classes. Lógico que ainda existe o carnaval das elites,isso sempre vai existir, mas o carnaval de rua aqui no Rio é bem interessante.

    Olha, não tenho nada contra a Bahia, nem o carnaval daí, mas eu não acho legal esse tipo de carnaval, que separa o povo por cordas e abadás de R$1000,00 reais, isso é coisa de loucoooo!!! Rs...

    Beijinhos!!!

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  11. Eu não curto este tipo de Carnaval e não manifesto desejo de ir a ele, muito menos pagando o que pagam para ficar na rua. O que foge da lógica do trio-elétrico, pois, seguramente, ele não começou a andar pelas ruas como se elas fossem privadas (particulares), pois privadas são as do Rio. Mas tem que goste e se amarre aí fica a cidade bem dividida, jogando na cara do povo o que eles jamais terão, um Chiclete com Banana cantando só para os escolhidos.

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  12. Texto interessante, mas o mundo gira. O tempo muda. Surgem novas tecnologias. E exigencias do mundo moderno... Ou será que a festa carnavalesca deveria ter parado no tempo??

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