Salvador, Paradise City do rock
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| "Slash", tela 40 x 50, acrílica. Do autor |
A estação do Acesso Norte estava
diferente naquela tarde de quarta-feira. O figurino dos passageiros do metrô de
Salvador destoava do cotidiano: a camiseta preta predominava em meio a outros acessórios
como botas, bandanas e jeans cuidadosamente rasgados.
“Hoje é dia de rock, bebê!”. A frase que
revelava a faixa etária e também explicava toda aquela movimentação se fazia
ouvir o tempo todo. O que víamos na plataforma de embarque era uma curiosa
mistura envolvendo quarentões com suas barrigas proeminentes, mulheres em suas
delicadas e elegantes negociações com a passagem do tempo e jovens com cabelos
tingidos, piercings e pulseiras.
O responsável por isso tem um nome: Guns
n´ Roses, a veterana banda de hard rock
que se apresentou pela primeira vez em terras baianas.
Enquanto o metrô nos transportava até o local
do show na Arena Fonte Nova, eu observava a tudo enquanto a memória percorria o
caminho até o ano de 1992, em São Paulo, mais propriamente no estacionamento do
Anhembi. Foi ali que o Guns n´ Roses, no auge de um sucesso avassalador no
mundo, se apresentou de forma caótica no famoso “show que não terminou”. Reza a
lenda que só a boa e falecida MTV possuía as imagens daquela apresentação — talvez
assim descobríssemos o que arremessaram em Axl Rose para que ele ficasse tão
irritado e encerrasse a apresentação com um sonoro “Good night and fuck you!”.
Mas o Axl Rose do Novo Testamento é um
senhor de 64 anos bem diferente. Simpático e muito mais tranquilo,
aparentemente seus tempos de fúria incontrolável ficaram para trás. O carismático
vocalista continua com a mesma energia durante as apresentações pelos palcos.
Ah, sim, a voz é que não continua a mesma, mas quem liga?
Se alguém ligasse, as filas para o
acesso ao estádio não estariam gigantescas. Os muros e imediações da Fonte Nova
lembravam os corredores da Galeria do Rock, em São Paulo: camisetas da banda
com todos os tipos de estampas e modelos, acessórios e até looks completos para quem quisesse uma produção ao estilo rocker. O
que explica uma banda que não lança um álbum oficial há 18 anos e lota estádios
ao redor do mundo para públicos de gerações tão diferentes?
Alguém pode falar que a nostalgia está
na moda. Pode ser, afinal o passado muitas vezes idealizado e romantizado
possui grande carga afetiva para os mais velhos. Mas e os jovens? No caso do
Guns n´Roses, a paixão pela música passou dos pais para filhos, tal como a
torcida por um clube de futebol. E
também o Tik Tok, claro, com o resgate de grandes hits das décadas de 1980 e 1990, dentre estes a clássica “Sweet child o´mine”.
E falando em nostalgia, a abertura ficou
a cargo dos brasileiros Raimundos, que explodiu nos anos 1990 e após várias
mudanças em sua formação, continua na ativa e canções como “Mulher de Fases” me
levaram aos tempos do saudoso Disk MTV. Um show competente e honesto, agradando
a galera que chegava.
A galera que chegou juntou 40 mil
pessoas no meio da semana e ingressos a preços pouco simpáticos, mas o cartão
de crédito que lute e as horas extras compensem. E como compensam: após um
pequeno atraso de 25 minutos, os primeiros acordes de “Welcome to the jungle” e a sequência de quase três horas com uma
banda executando com perfeição seus hits,
lados B e covers, trazem a certeza de
que cada centavo foi muito bem aproveitado e valorizado — e de quebra recebemos um show
extra do fenomenal Slash com suas mãos habilidosas expressando os sentimentos da alma através das notas e cordas de sua inseparável Gibson Les Paul.
“Salvador não recebe shows assim porque
não tem público”. Ah, São Raul Seixas, perdoai, eles não sabem o que dizem. Tem
sim, e como tem. Os empresários e produtores que se virem, pois um show como
este eleva o patamar de exigência do público e demonstrou que Salvador pode
receber grandes atrações internacionais e a cidade deseja sair da mesmice dos
eventos ocorridos por aqui.
Quem duvidar bastava verificar na saída
do show. Sorrisos e comentários superlativos, pessoas emocionadas e extasiadas
com a incrível apresentação dos gunners.
Atrás de mim, uma mulher comentava com suas filhas, de maneira eufórica para
todo mundo ouvir: “Foi o meu primeiro show de rock e adorei!”.
É... pelo visto vai ter mais dias de
rock em Salvador, bebê.
***
Crônicas são feitas de observações e
memórias, como estas do show do Guns n´ Roses. No meu livro “Crônicas do
Contador do Tempo” apresento textos com estes ingredientes e muito mais.
Obrigado por sua leitura! Nos vemos na
Paradise City!



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