Escola não é empresa competitiva


A partir da redemocratização o Brasil avançou em um aspecto na área da Educação: garantir o acesso de crianças na escola. Parece algo simples, mas a expansão e consolidação do acesso ao Ensino Fundamental trata-se de um grande passo: chegamos a ter 98% de crianças em idade escolar matriculadas, algo histórico e bastante significativo, o que proporcionou consequências positivas como a redução do número de crianças analfabetas na faixa dos 10 aos14 anos. Obviamente temos muito a fazer e melhorar principalmente em relação à qualidade da educação formal, mas o ponto abordado aqui será outro.

É sobre inclusão de uma parcela mais vulnerável e carente da população no mundo escolar. E é também sua permanência, um grande desafio. Os números sobre evasão e abandono escolar ainda são alarmantes ao final do ensino fundamental e ao longo do ensino médio. Políticas públicas integradas como Bolsa-Família (que unificou outros programas como o Bolsa Escola), merenda escolar, criação do FUNDEF (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Fundamental, logo ampliado para todo o ensino básico com o FUNDEB) e programas de erradicação do trabalho infantil (como o PETI) ajudaram a promover a significativa ampliação escolar.

Por que estou escrevendo isso que vai se transformando em um “textão” que poucas pessoas irão ler em tempos de youtube, whatsapp e memes? Porque o sr. Ministro da Educação do Brasil, Abraham Weintraub, em cerimônia de premiação a estudantes do ensino fundamental, deu declarações exaltando a competitividade e a meritocracia: “O país não tem espaço para todos, só para os melhores. (...) Quem tem mérito merece ser premiado. (...) Tem que haver uma dinâmica para aumentar a competição e mostrar que quem vai melhor recebe mais, que quem melhora mais recebe mais. É um critério de gestão”.

Escola não deve(ria) ser palco de competitividade

Não faz muito tempo que eu li uma notícia interessante e que pouco destaque recebeu pelos lados de cá: Cingapura, um dos líderes nos chamados “rankings educacionais”, está fazendo reformas em seu sistema educacional para reduzir o estresse, a ansiedade e até mesmo a taxa de suicídio de seus estudantes, pois o sistema de ensino “linha-dura” daquela cidade-estado estimula a alta competitividade e concorrência entre alunos e escolas. Cingapura pretende reduzir os testes e valorizar, vejam só, as aulas de Artes, Música e Educação Física para promover o bem-estar de seus estudantes.

O que há de errado na fala do sr. Ministro da Educação do Brasil? Muita coisa. A começar que a escola não é (ou não deveria ser) lugar de competição e tampouco de “cultura empresarial”. A pressão por resultados em testes e a competitividade no ambiente escolar afeta até mesmo a aprendizagem, bem como a saúde. As declarações de Weintraub exaltando e estimulando a meritocracia, além de afirmar que “o Brasil só tem espaço para os melhores” em um país terrivelmente desigual com enorme concentração de renda e exclusão social constituem-se em tremenda irresponsabilidade não apenas considerando os aspectos citados, mas sobretudo no desprezo aos esforços e políticas públicas implementadas nas últimas décadas para a universalização e democratização do acesso à escola.

Em um país minimamente sério tais declarações mereceriam amplo repúdio de toda a sociedade. Quem está no chão da escola pública sabe que não bastam discursos de tecnocratas e coaching com retóricas superficiais de autoajuda: isso pode funcionar em uma empresa ou em cursos e palestras voltados para empreendedorismo, mas não em Educação, pois as condições de vida dos alunos refletem decisivamente em seu desempenho escolar, uma obviedade que infelizmente é necessário ressaltar o tempo todo. É muito bonito ver histórias de superação na imprensa exaltando a força de vontade de alguém que não desistiu dos estudos, venceu todas as dificuldades e "chegou lá", mas tais histórias constituem exceções, e não regras, afinal a exclusão escolar engloba múltiplos fatores que precisam de abordagens mais efetivas do que a mera força de vontade, como demonstra o documento sobre o cenário da exclusão realizado pela UNICEF.

A escola não pode reproduzir os modelos de exclusão

Os modelos de exclusão já presentes em uma sociedade cujo modelo de sucesso está fortemente ligado a padrões de consumo e status não devem ser replicados na escola. Um ministro da Educação comprometido com a sua área deveria trabalhar para o cumprimento das metas do PNE (Plano Nacional de Educação), das quais incluem tanto a garantia de acesso e matrícula quanto da permanência e conclusão de crianças e jovens na escola. Os valores, habilidades e competências que a escola também devem (ou deveriam) ajudar a desenvolver são outros, bem diferentes daqueles que o atual ministro prega: criatividade, empatia, ética, cooperação, exercício da cidadania, criticidade, autonomia, etc., sem deixar de lado o esforço em estudar as matérias das áreas do conhecimento e ter bons conceitos de avaliação, e tampouco desprezar a formação para o mercado de trabalho. Essa é a formação integral que tanto é falada e que não deve ser compreendida como o estímulo à cultura de “vencedores” e “perdedores”, “melhores” e “piores”.

Weintraub é uma figura peculiar no governo (sic) Bolsonaro: com postura incompatível para um ministro de estado, não perde a chance de tripudiar, debochar e ofender seus críticos, opositores e a imprensa em sua conta na rede social Twitter, o que faz a alegria de seus seguidores e apoiadores. Performático e dado a questionáveis intervenções “artísticas” em suas postagens, Weintraub talvez fosse bem sucedido com um canal no Youtube voltado para esse tipo de entretenimento sofrível. No Ministério da Educação, porém, se seguíssemos ao pé da letra a sua afirmação de que no Brasil só tem espaço para os melhores, ele e toda a "corte bolsonarista" já deveriam ter saído das esferas do poder há muito tempo.

2 comentários:

  1. Maravilhoso este artigo.
    O retrocesso pelo qual passamos, terá fim. Não pela retirada meritocratica dos ruins, mas pela dialética. Ação-reação. Por uma questão de pulsão de vida.

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  2. Prof. Jaime,

    Sim, tens razão. E precisamos ensinar aos jovens o real sentido da vida, que não é só este mundo material.
    Percebo também que uma imensa quantidade de alunos perde o interesse pelos estudos porque grande parte dos professores não ensina nada e faz da aula um suplício de 50 minutos.

    abraço
    Satoru

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