Resistência à ignorância


Era para ser uma fantasia infantil para a festa de Halloween da escola, mas acabou virando notícia e repercutiu nas redes sociais: a mãe caracterizou o seu filho como escravo e para dar maior realismo à fantasia, a maquiagem simulava cicatrizes, ferimentos pelo corpo e o menino ainda trazia correntes e grilhões utilizados para torturar e aprisionar escravos. A imagem gerou críticas à mãe, que em uma rede social respondeu: “Não leiam livros de história do Brasil. Eles dizem que existiu escravidão no País, mas isso é mentira

A história acima é surpreendentemente real e aconteceu em 2018, durante o período das eleições brasileiras para presidente. Parece incrível que tenhamos esse tipo de pensamento em pleno século XXI, mas basta passearmos por alguns minutos em sites e redes sociais para nos depararmos com inúmeras afirmações do mesmo nível.

A internet tem méritos inegáveis: democratizou o acesso à informação, mudou o modo como consumimos notícias e até mesmo o nosso aprendizado – é impensável um estudante atualmente não utilizar a internet para pesquisas e atividades didáticas, sem falar nos cursos EAD (Educação a Distância). Essa mesma internet, no entanto, também é ambiente fértil para a circulação de milhares de teorias e mensagens inacreditavelmente absurdas que em outros tempos soariam “apenas” como piadas de mau gosto; no entanto, a rápida disseminação de tais mensagens afeta a vida das pessoas em diversas atividades e setores do dia a dia, como saúde, educação, segurança e política.

Obviamente não se trata de culpabilizar o meio (a internet) por essas loucuras (que sempre existiram e circularam em vários espaços não-virtuais), embora empresas como Facebook e Twitter tenham suas responsabilidades; o fato é que temos um problema quanto ao uso por parte de muitas pessoas que fazem questão de ostentar a ignorância com orgulho e arrogância, sobretudo nas redes sociais.

A era do “achismo”

Quando uma pessoa afirma que a escravidão no Brasil não existiu, ela está desprezando um fato histórico e comprovado não apenas nos livros de História, mas também em documentos e vários registros incluindo manifestações artísticas como a literatura, pintura, etc. Esta pessoa, porém, não está sozinha, pois muita gente pensa como ela. Grupos fortalecem crenças e ajudam a “legitimar” tais ideias. Freud (1921) afirmou que “quando indivíduos se reúnem num grupo, todas as suas inibições individuais caem e todos os instintos cruéis, brutais e destrutivos, que neles jaziam adormecidos, como relíquias de uma época primitiva, são despertados para encontrar gratificação livre”. Tal gratificação tem a ver com pertencimento, aceitação e assim encontramos comunidades virtuais com grande número de participantes que acreditam piamente que a Terra é plana ou que vacinas causam autismo nas crianças, apenas para citar dois exemplos. Saem de cena os fatos, registros, a História e os estudos científicos para darem lugar aos achismos.

O “achismo” das redes sociais consolidado no bordão “essa é a minha opinião” sempre existiu no cotidiano, muito antes da popularização do acesso à internet. Basta lembrar das rodas de conversa sobre futebol no barzinho da esquina ou mesmo das vizinhas que gostavam de palpitar sobre a vida de todo mundo. Ter opinião é salutar, é um exercício democrático e o contraditório faz parte do debate; o problema é quando “minha opinião” despreza os fatos, não possui embasamento e tenta se impor como uma verdade – e tal “verdade” não passa de um emaranhado de teorias conspiratórias e manipulações de fatos históricos, um espécie de revisionismo que George Orwell, no livro “1984”, explicou muito bem como tudo isso funciona a serviço de governos autoritários.

A ignorância saiu das redes

Alguém pode até dizer que esse tipo de ação está restrita ao ambiente virtual e suas bolhas, mas não é bem assim. Tomemos como exemplo a onda de denuncismo a perseguição a professores rotulados como “doutrinadores comunistas” e como isso tem interferido na autonomia docente e na relação professores-pais-alunos. Uma escola particular do Rio de Janeiro retirou da lista de leitura um livro publicado em 1981 e considerado “comunista” pelos pais dos alunos – tal “descoberta” deveu-se a postagens em um fórum na internet “alertando” para o conteúdo da obra. A ignorância saiu das redes e ganhou espaço no mundo real, até mesmo nas mais elevadas esferas do poder, como o chanceler do Brasil insistindo em rotular o nazismo como uma ideologia “de esquerda” – o que é amplamente rejeitado por estudiosos e historiadores alemães.

Geralmente tais posturas partem de pessoas que se deixam levar por formadores de opinião que usam as redes sociais e vídeos para espalharem teses que não resistem aos fatos e argumentações sérias. Como crianças mimadas que querem ganhar coisas através dos gritos, essas pessoas insistem (até com certo nível de agressividade e arrogância) em reproduzir tais como robôs o que leram ou assistiram na internet – sem grandes reflexões ou desprezando e desqualificando o que dizem especialistas e estudiosos. É assim que as Fake News e teorias conspiratórias das mais absurdas e inacreditáveis viralizam praticamente sem controle. O estrago pode ser irreparável, principalmente quando oriundas da dark web, fóruns chans e outras plataformas onde o ódio a determinados grupos e pessoas é estimulado.

Resistindo à ignorância

“Se adotarmos uma postura de seriedade na busca dos fatos”, afirma o historiador Timothy Snyder, “cada um de nós pode fazer uma pequena revolução na forma como a internet funciona. Se procurar por fatos comprovados, você não enviará informações falsas a outras pessoas”. Este é um ótimo conselho para iniciarmos a resistência à ignorância que espalha rapidamente via aplicativos, sites e redes sociais e faz a cabeça de muitas pessoas.

Não à toa que adeptos da chamada pós-verdade e revisionismo histórico promovem perseguições e linchamentos de reputações a professores, jornalistas e artistas: são as primeiras vozes a serem caladas principalmente quando um regime autoritário de governo se instala em um país. As categorias citadas são agentes e transmissores do conhecimento e gozam de credibilidade perante a opinião pública. Desqualificar estes profissionais é o primeiro passo para atingir o objetivo de impor uma visão ideológica sobre a História – vejamos o emblemático caso do Brasil e do atual presidente insistindo em negar que passamos por um período de ditadura entre 1964 a 1985, mesmo diante de todos os fatos e atitudes que caracterizam um regime ditatorial.


Fala-se até em reescrever os livros de História sobre o período. Neste caso, tomemos como exemplo o bibliotecário Crispino, do conto “Um general na biblioteca”, de Italo Calvino: na fictícia nação da Panduria, uma comissão militar foi formada para examinar todos os livros da Biblioteca Nacional, pois havia a suspeita de que os livros continham “opiniões contrárias ao prestígio” dos militares. Oficiais e soldados ocuparam o prédio, proibiram o acesso dos civis e todos os funcionários da biblioteca foram dispensados, menos o bibliotecário Crispino, um velhinho cuja missão seria auxiliar os militares com a organização dos volumes.

Tenentes e o general Fedina, líder da operação, no início eram severos e implacáveis ao apontar problemas nos livros e no preenchimento de relatórios condenando-os, mas o velho bibliotecário, de forma habilidosa, soube sugerir obras que traziam contrapontos às duras convicções dos militares; e aos soldados no pátio, entediados, sempre indicava livros. Logo estavam todos envolvidos nas leituras, nos estudos, nos debates referenciados e os relatórios para o Tribunal Militar eram cada vez mais raros até finalmente cessarem. As ideias que motivaram as suspeitas dos militares mudaram e os livros e a biblioteca estavam a salvo – na verdade o relatório final do general criou um problemão para o Estado-Maior, mas fica a curiosidade e a dica para buscarem pelo conto.

É uma história de ficção com a marca de um grande escritor criativo como Calvino, mas é bastante atual e podemos usá-la como inspiração juntamente ao conselho de Snyder como exemplo de resistência à ignorância que avança principalmente a partir de cliques, likes e views. Nesta época em que assistimos o renascimento de velhos radicalismos, a ascensão de gurus charlatões e o espírito de manada parece prevalecer, soa como ingenuidade falar em resistência através do conhecimento, dos livros, da arte, da Educação. Não é: provavelmente seja a maior revolução que alguém pode fazer nestes tempos.

Referências:

  • CALVINO, Italo. Um general na biblioteca. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
  • FREUD, Sigmund. Psicologia das massas e análise do eu e outros textos. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
  • SNYDER, Timothy. Sobre a tirania: vinte lições tiradas do século XX para o presente. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

6 comentários:

  1. Que lindo, Jaime! Em tempos de ignorância, o conhecimento é a nossa arma mais poderosa.

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  2. Grata Jaime,por colocar de maneira tão sensível e referendada a triste realidade que hj nos cerca.

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  3. Suas reflexões sempre nos chamando... ACORDA, GENTE! Pesquisa... Pesquisa... Pesquisa... e tudo o que a envolve!
    Gratidão, Jaimão!

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  4. Excelente texto meu amor!Suas palavras como sempre,bem colocadas e que traz um choque de realidade.❤

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  5. Prof. Jaime,

    E, está havendo radicalismo para tudo quanto é lado, coisa estranha para nós que conhecemos um Brasil mais harmônico. Muito achismo também, tem até nazistóides adolescentes no pedaço. O Brasil tem de voltar a ser mais fraterno.

    pax et bonum
    Marcos

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  6. Texto objetivo e maravilhoso, Jaime! É de chorar ver a ignorância sendo praticamente institucionalizada no Brasil.. uma ignorância orgulhosa, com ideias espúrias sendo replicadas como se fôssemos um bando de papagaios. Falta leitura, falta interpretação de texto, falta vontade de conferir os fatos!
    Perfeitas as suas colocações, Jaime. Passou da hora do nosso país se unir em nome de um bem comum, passou muito da hora dos nossos verdadeiros valores se revelarem,da flor do bom senso emergir do esgoto.
    Abraços!

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