quarta-feira, abril 18, 2018

Dessacralizar a literatura.



“Zeus é o Mr. Catra do além!”. A expressão divertida foi dita por uma de minhas alunas após um bate papo sobre Thor, personagem de HQ que ganhou as telas de cinema. Outros alunos também participaram deste bate papo informal e falaram sobre Hércules, Afrodite, Poseidon e outros deuses e semideuses. A pergunta que fiz a eles pode parecer meio ridícula, mas segui em frente: “onde vocês aprenderam todas essas coisas sobre mitologia grega?”.  Por que a pergunta pode parecer ridícula? Porque estou em uma escola, então seria óbvia a resposta, não é? Que nada: “A gente leu nos livros do Percy Jackson!”.

Confessei minha ignorância em admitir que não conhecia Percy Jackson, mas logo fiquei sabendo que trata-se de personagem criado pelo norte-americano Rick Riordan que já vendeu mais de 50 milhões de cópias de seus livros com a série “Percy Jackson e os Olimpianos”. Riordan traz a mitologia grega para o século XXI quando o jovem Jackson descobre que é filho de Poseidon e passa por diversas aventuras envolvendo todo o panteão dos deuses, semideuses e heróis mitológicos. Não é difícil entender este fenômeno literário entre a turminha: é o tipo de livro que eu adoraria ter lido na adolescência. E hoje, também.  

Livros como os da série Percy Jackson, Harry Potter, Divergente e autores como John Green, Kiera Cass e Jojo Moyes são aguardados e lidos com entusiasmo pelo público jovem, que formam grupos de debates sobre as obras, produzem vídeos no Youtube, postagens em redes sociais, etc. Não é maravilhoso ver jovens entusiasmados com livros e falando sobre suas impressões de leitura? Tudo isso é muito salutar para o incentivo à leitura. Infelizmente, nem todos pensam assim.

Clássicos e modismos

Não são poucos os literatos e acadêmicos que classificam estas leituras como “superficiais” ou simples modismos literários e mercadológicos que logo serão esquecidos.  Imediatamente são feitas comparações com os clássicos da literatura universal, mas precisamos mesmo deste tipo de comparação? Autores como Shakespeare, Tolstoi, Dostoiévski, Poe, Kafka e tantos outros têm o seu lugar garantido no sacrossanto cânone literário e continuarão sendo referência para muita gente. Se um jovem leitor chegar até eles, que bom; e se nunca alcançá-los ou não gostar da leitura de alguns destes clássicos, não vejo problema nenhum: os escritores contemporâneos também têm seu valor literário e há muita gente talentosa por aí. 

Quanto aos modismos literários e questões ligadas ao mercado, eles sempre existiram. Os romances e novelas de cavalaria eram extremamente populares na Europa da Idade Média, principalmente na Espanha, Inglaterra, Portugal, Itália e França. Podemos dizer que entre os séculos XV e XVII, graças à invenção da prensa de Gutenberg, os romances de cavalaria eram “moda”, sobretudo em histórias envolvendo o Rei Arthur e o Santo Graal. Um grande clássico surgiu neste período: O engenhoso fidalgo Dom Quixote, de Cervantes. Lembro de uma entrevista de Umberto Eco falando que “os gêneros literários e pictóricos são criados por imitação e influência. (...) Se descubro que escrevendo um romance de amor posso ganhar dinheiro, não vou me privar de tentar por minha vez”. O escritor francês Daniel Pennac chama isso de literatura industrial, ou seja, uma literatura que explora o filão do momento. O sucesso de um livro como “Cinquenta tons de cinza” despejou no mercado uma enxurrada de livros com a mesma temática. As editoras precisam sobreviver. Em consequência encontramos também várias matérias nas mídias trazendo referências sobre literatura erótica: lá estavam os clássicos “O amante de Lady Chaterlley”, “Lolita” e autores como Sade, Anaïs Nin, Bocaccio e até o "Kamasutra". Tem espaço para todos. 

É bom lembrar que muitos destes gigantes da literatura em seus tempos não alcançaram sucesso absoluto ou imediato: Scott Fitzgerald, autor do clássico “O grande Gatsby”, mantinha em seu escritório 120 bilhetes de recusa para seus contos; “Moby Dick”, de Melville, também foi recusado por não ser “interessante” para jovens ingleses; um dos casos mais impressionantes aconteceu com Rudyard Kipling, autor de “O livro da selva” (onde o menino Mowgli tornou-se personagem imortal da literatura): despedido do jornal onde trabalhava, Kipling leu na carta de demissão um “Lamento, sr. Kipling, mas o senhor não sabe escrever em inglês”. E a lista de recusas é imensa, passando por George Orwell, R.R Tolkien e J. K. Rowling, somente para citar alguns. No caso das mulheres a coisa era pior, como no caso das irmãs Brontë: tiveram que adotar pseudônimos masculinos ou seria muito difícil a publicação de obras como “Morro dos ventos uivantes” e “Jane Eyre”. Muitos dos livros hoje clássicos foram considerados como modismos, superficiais ou mesmo ousados para suas épocas.

Dessacralização

“Oh, mas como alguém pode não gostar de Shakespeare, que absurdo!”, dirão os acadêmicos. Bem, Tolstoi detestava Shakespeare, apenas para dar um exemplo sobre como os clássicos não são absolutos em termos de preferências literárias. Vejo algumas pessoas envergonhadas em admitir que leram obras consideradas clássicas e não gostaram ou não entenderam nada. Ora, não há nenhum problema: tem muito livro e autor clássico por aí que realmente é muito chato; além disso, certos estilos podem não cair no gosto do leitor. O já citado Daniel Pennac, autor do ótimo “Como um romance”, chama a atenção sobre este aspecto: “Bem, temos a nossa escolha: ou vamos pensar que é nossa culpa, que temos uma telha de menos, que abrigamos uma porção irredutível de burrice, ou vamos bisbilhotar do lado da noção tão controvertida do gosto e buscar estabelecer o mapa dos nossos gostos cuidadosamente”. Ele recomenda a segunda opção e é um bom conselho que vale tanto para os jovens e também para os adultos.

O que precisamos na verdade é dessacralizar a literatura. Desmitificar o senso comum de que livros e leitura “é coisa só pra gente inteligente” e retirar o livro de um pedestal inalcançável para boa parte da população. Dessacralizar a literatura é também deixar de lado a vaidade intelectual e academicismo quando falamos de determinados gêneros textuais e literários. Durante muito tempo gêneros e estilos literários como ficção científica, policial, romântico, cordel e tantos outros foram considerados “literatura menor” (também chamado de paraliteratura) e desprezados tanto pela crítica, escolas e academia de modo geral. Tais posturas não contribuem para ações de incentivo à leitura principalmente entre os mais jovens, pois estigmatizam de forma pejorativa estes gêneros e seus leitores. É extremamente frustrante para um leitor que gosta de determinado autor ou obra ouvir que aquele livro é “uma bobagem” ou, pior, não é literatura. Uma crítica literária embasada e criteriosa sempre é bem vinda e desejável (menos para os fãs clubes, claro), mas o pedantismo em classificar a literatura como “alta” ou “menor” por associação a um autor ou estilo literário é bobagem.  


É interessante lembrarmos que vivemos em um país onde 44% da população não lê e as políticas para incentivo à leitura esbarram em dificuldades. Sem dúvida há outros fatores que também contribuem para índices baixos em relação à leitura, porém gosto de lembrar do caso das Histórias em Quadrinhos: a própria escola tratava a leitura de gibis como prejudiciais ao desenvolvimento cognitivo, pois havia a “concepção errônea de que os quadrinhos são ingênuos, infantis” (SANTOS); hoje, no entanto, a escola acolhe as HQs como recursos didáticos importantes na formação de leitores. Eu formei meu hábito de leitura a partir dos gibis do Pato Donald e Tio Patinhas. Daí para outros estilos e textos foi um pulo. Com muitas pessoas, creio, também funcionou assim.

Dessacralizar a literatura é admitir que a leitura pode e deve ser uma agradável diversão. Quem também pensa assim é o escritor Italo Calvino, na apresentação do sua novela O visconde partido ao meio: “creio que divertir seja uma função social, corresponde à minha moral; penso sempre no leitor que deve absorver todas estas páginas, é preciso que ele se divirta, é preciso que ele tenha também uma gratificação”.  Quer gratificação melhor do que ler um livro e se divertir com sua leitura?

Por falar em Calvino, ele é também autor do livro “Por que ler os clássicos”, onde ele enumera diversos pontos sobre o que é um clássico literário e sua leitura. Vale a pena. Em um de seus ensaios, ele afirma que “as razões do fascínio de um livro (...) são feitas de tantos elementos imponderáveis”.  Não nos importemos tanto com as famosas (e polêmicas) listas que trazem uma relação de livros que DEVEMOS ler: o que vai estimular a leitura de um livro são os “elementos imponderáveis” que farão a pessoa amar uma obra de Rick Riordan e seus Olimpianos ou Machado de Assis com seus contos, por exemplo.

Apenas leia, independente dos rótulos. E divirta-se com as aventuras de bruxos, viaje com alienígenas em naves espaciais, vibre com os heróis, passe raiva com vilões, encante-se com a poesia e suas imagens: você é o leitor e cabe a você o veredito da obra. Boa leitura! 

Referências:
Carrière, Jean-Claude. Não contem com o fim do livro / Jean-Claude Carrière, Umberto Eco. Rio de Janeiro: Record, 2010.
Sant´Anna, Afonso Romano de. A cegueira e o saber. Rio de Janeiro: Rocco, 2006.
Santos, Roberto Elísio dos. Para reler os quadrinhos Disney: linguagem, evolução e análise de HQs. São Paulo: Paulinas, 2002. 
Pennac, Daniel. Como um romance. Rio de Janeiro: Rocco, 1993. 

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