sexta-feira, setembro 08, 2017

"As viagens são parteiras de pensamentos".


Li em algum lugar que “a melhor parte de uma viagem é o caminho, não o destino”. Claro que isso é bastante relativo, afinal uma viagem para encontrar o seu amor, por exemplo, tem o destino como a melhor parte. Mas entendo o significado desta frase. Ousadamente tomo a liberdade de parafrasear: “a melhor parte de uma viagem é o caminho que fazemos para dentro de nós mesmos”. Por isso tomei emprestada a definição do filósofo e escritor Alain de Botton como título para estas reflexões. 

Não sou um grande entusiasta por viagens, confesso. Aprendi a lidar bem com a rotina e a gostar e fazer bom proveito dos tempos livres. Há algum tempo, porém, tenho feito viagens constantes (em que o destino é a melhor parte) e estas são feitas na maioria das vezes através de ônibus, com tempo estimado entre 6 a 8 horas de estrada. Nestes tempos imediatistas onde esperar um download de arquivo por 2 ou 3 minutos já causa ansiedade em muita gente, imagine passar 8 horas em uma poltrona de ônibus e, pior, sem conexão wi-fi: para muitos é o tédio absoluto e a “salvação” chega através da rede de dados móveis nas cidades onde o sinal é bom o suficiente.

Cada um passa o tempo de viagem como quiser, não tenho nada com isso. No entanto eu sempre achei que essas viagens longas são ótimas oportunidades para mergulharmos onde muitos de nós não conseguimos fazer no dia a dia ou até mesmo evitamos: o nosso interior, nossos pensamentos. Gosto de “viajar na janela” justamente para contemplar as paisagens, as cidadezinhas e povoados ao longo do caminho. É mais ou menos o que o historiador inglês Roman Krznaric nos recomenda, baseado nas peregrinações do poeta japonês Bashô: “Deveríamos despender tempo viajando, deixando espaço livre em nossa mente para a contemplação e seguindo num ritmo lento o bastante para apreciar as belezas e torpezas da paisagem”. Nestes espaços para a contemplação faço uma viagem dentro da viagem. 


Temos muita pressa em chegar aos nossos destinos. A ansiedade em conhecer determinado lugar ou a saudade em rever as pessoas queridas e amadas é compreensível, mas nem sempre é possível conseguir aquela passagem de avião por um preço acessível e encurtando em boas horas a viagem; quem pode viajar de carro às vezes imprime velocidades elevadas e até perigosas para “não perder tempo”. Uma parada a fim de apreciar um rio ou uma queda d´água é impensável para muitos motoristas. De modo geral, devido à pressa e à ansiedade, deixamos de lado a contemplação e a reflexão – e em nosso dia a dia rotineiro e repleto de atividades não abrimos espaço para estas práticas. Até mesmo a leitura de um livro é tarefa constantemente adiada devido a tantos estímulos sonoros e visuais de aparelhinhos eletrônicos nos alertando de compromissos (ou futilidades) o tempo todo.


Por isso aprendi a apreciar aquelas 6, 8 horas de viagem em um ônibus. É um momento para leitura sem interrupções do celular ou distrações com TV ou rádio – embora sempre exista a possibilidade do passageiro ao lado ser um tagarela inconveniente ou usar o celular sem fone de ouvido. No caso da leitura, o texto flui melhor e o mergulho na história também; mas a “estrela” da viagem é a contemplação das paisagens e os pensamentos que voam. 


Aquela casinha isolada no meio do nada, quem será que mora lá? Como se vira (ou se viram) para sobreviver? Será que eu conseguiria viver em tal condição? O sertão após um período de chuvas fica bonito com essa vegetação – que flores são aquelas? Parecem margaridas. A grama verdinha com as chuvas e as flores amarelas constituem uma linda paisagem! O passageiro que viaja ao meu lado me conta que são flores de malva e que atraem as abelhas. Lembro da tragédia ambiental em curso que poucos têm conhecimento: o desaparecimento das abelhas e como isso afeta terrivelmente o equilíbrio ecológico e até mesmo a produção de alimentos. E essa cidadezinha? Simpática, o prédio mais alto ainda é uma igrejinha: hoje construímos prédios sem graça com sei lá quantos metros de altura. Lembo das disputas sobre os maiores prédios do mundo? Tem algo a ver com topo, estar mais alto, posição de destaque, poder. Acho tudo uma grande bobagem. Mas isso deve estar ligado ao meu medo de altura, penso. Ou talvez por não apreciar disputas inócuas, sem sentido. Pensando bem, qual disputa faz sentido, afinal? 

Deixo os pensamentos fluírem juntamente com as paisagens em movimento, relembro fatos e coisas que aparentemente são banais e revelam-se complexos, intercalo com trechos do livro que estou lendo e que merecem maiores reflexões, observo vida e vidas, placas (isso pode ser divertido) e casas, árvores e pastagens, torço por rios cheios e colheitas fartas para aquele agricultor solitário trabalhando a terra. Pela janela do ônibus abro outras janelas e desta forma sigo um conselho de Thoreau: “seja o Colombo de novos continentes e mundos inteiros dentro de si mesmo, abrindo novos canais, não de comércio, mas de pensamento”. 

E ao final desta jornada, quando questionado se fiz boa viagem, a resposta é positiva tanto para a viagem propriamente dita quanto para meus devaneios. É hora de celebrar os encontros e reencontros - com os familiares, amigos, a amada e, claro, com si mesmo. 

Referências: 
A arte de viajar - Alain de Botton. Editora Intrinseca
Sobre a arte de viver - Roman Krznaric. Zahar Editora
Walden - Henry David Thoreau. Editora LePM


Fotos: do autor. 

2 comentários:

  1. Sim, a introspecção faz muito bem. Boa viagem.

    :)

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  2. Quando viajo de ônibus, gosto sempre de "viajar na janela". Justamente para contemplar a natureza e tudo que encontro pelo meio do caminho. Confesso que prefiro viajar de carro. Porém, esse período entre o partir e o chegar é um ótimo momento para viajar nos pensamentos também. Refletir é ir de encontro a ti mesmo. Gosto de fazer isso uma vez ou outra. Inclusive quando viajo. Bela postagem, amigo! Beijinhos.

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