segunda-feira, março 27, 2017

Greve de professores e o discurso "prejudicando os alunos".


O roteiro é o mesmo de sempre: basta que os professores façam uma paralisação ou greve e repentinamente parte da imprensa SE INTERESSA pelas escolas e pelos estudantes – e o discurso também não muda: “os alunos estão sendo prejudicados”, “os alunos que se preparam para o ENEM estão sendo prejudicados”.
Acho lindo que essa narrativa “os alunos estão sendo prejudicados” só apareça nestes momentos. Experimente colocar no Google “telhado de escola desaba” e você encontrará sabe-se lá quantos resultados colocando a culpa dos desabamentos na chuva, nos fortes ventos, em Odin, no El Niño, nos ETs. Quase não se encontra uma palavra sobre a infraestrutura decadente da escola em que os alunos estudam – é que isso “não prejudica os alunos”, claro.
Também “não prejudica os alunos” a falta de merenda, falta de materiais básicos para que professores possam trabalhar, falta de segurança no entorno e na própria escola, políticas desastradas como fechamento de escolas e enturmações com salas de aula lotadas, etc e mais dezenas de etceteras. Nada, nada disso “prejudica os alunos”.
E então, no final do ano, quando são divulgados os resultados das avaliações externas como o PISA e tantos outros, surge o discurso: “É preciso investir em Educação e valorizar os professores”. Parece até um lance bipolar, não?
Antes fosse, mas a gente sabe muito bem que não é. Há 40 anos Darcy Ribeiro já dizia que “a crise na Educação não é crise, é projeto”. O mantra “os alunos estão sendo prejudicados” repetido ad nauseam pelos chamados formadores de opinião de parte da imprensa durante períodos de greve e paralisações também insere-se neste projeto: desqualificar e esvaziar as reivindicações dos professores perante a opinião pública é apenas mais um dos capítulos deste roteiro já conhecido.
                                                                          ***
O texto acima é uma postagem feita por mim no Facebook no dia 17 de Março de 2016. No dia 22 de Março de 2016, apenas 5 dias depois, surge a notícia: "Muro e telhado de colégio desabam no Corredor da Vitória", em Salvador. O texto no site do jornal A TARDE inicia assim: "A chuva que atinge a capital baiana na manhã desta quarta-feira, 22, provocou o desabamento do muro e destelhamento do Colégio Estadual Odorico Tavares".
Fui chamado de "profeta" por causa desta notícia e do texto que escrevi em tão pouco espaço de tempo. Não se trata de "profetizar": basta prestar atenção a certos discursos e práticas, além de vivenciar o cotidiano da área educacional. É muito cômodo responsabilizar a chuva ou demais fenômenos da natureza pela falta de manutenção, investimentos e cuidado com as escolas, alunos, professores e funcionários. (Em tempo: felizmente não houve feridos no desabamento do telhado e muro do colégio citado na notícia) 


2 comentários:

  1. “a crise na Educação não é crise, é projeto”. Melhor descrição sobre o abismo educacional brasileiro já feita. É bom pros nossos governantes ter uma massa inculta que saiba usar a urna eletrônica.

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