sexta-feira, agosto 26, 2016

Os "derrotados" e "fracassados" nos Jogos Olímpicos Rio 2016.

Os Jogos Olímpicos Rio 2016 chegaram ao fim e foi tudo (ou quase tudo) muito bonito: as cerimônias de abertura e encerramento (com direito a Santos Dumont revoltando os norte-americanos, vejam só), os feitos históricos de grandes atletas como Usain Bolt, Michael Phelps e Simone Biles, a “descoberta” de Isaquias Queiroz ( porque a pequena Ubaitaba, às margens do rio de Contas, já o conhecia e sabia de seu potencial) e tantas histórias de superação no esporte - e que vão além

Fácil é falar dos vencedores, dos atletas que subiram ao pódio e conquistaram medalhas. Difícil para estes atletas é saltar, correr, nadar para bem longe dos oportunistas que sempre aparecem nestes momentos, demonstrando na prática o que diz o velho ditado “quando o filho é bonito, todo mundo quer ser o pai”. É fácil amar e orgulhar-se deles agora, mas quem lembrará da Rafaela, do Robson, do Isaquias, do Thiago, do Maicon daqui a algumas semanas? 

Os “programas esportivos” estarão muito ocupados com suas mesas redondas debatendo por horas um gol mal anulado pela arbitragem ou dedicando-se a matérias relevantes e essenciais para o esporte como o prato preferido, as tatuagens e o estilo fashion dos jogadores de futebol. (Sabemos que o futebol - masculino e de times da 1ª divisão do campeonato brasileiro -  movimenta grandes quantias financeiras em marketing, direitos de transmissão, audiência, etc., mas o Brasil não é o país apenas do futebol e outras modalidades esportivas atraem bastante interesse.)



Os atletas ganhadores de medalhas ainda têm chances e seus (poucos) momentos de glória no Olimpo midiático. Já aqueles atletas que não foram dignos dos deuses das mídias e do público por não conquistarem medalhas durante os Jogos amargarão as águas do rio Lete, o rio do esquecimento segundo a mitologia grega. Quem liga para o vice-campeão, para o quarto colocado ou para aqueles que foram desclassificados, terminaram em 59º lugar ou em último lugar?
  
Fabiana Murer fracassa”. 
As manchetes dos jornais não perdoam e nem os críticos das redes sociais com suas opiniões abalizadas de quem pratica esportes de alto desempenho com ótimos resultados. “Fracasso” é um termo muito duro para quem chegou a uma edição de Jogos Olímpicos após anos de treinamentos, privações, competições e seletivas classificatórias – e, no caso do Brasil, um verdadeiro feito, pois 06 em cada 10 escolas públicas não possuem quadra, diversas modalidades esportivas não têm visibilidade,  há toda uma série de dificuldades para os atletas treinarem e falta uma política de Estado para o desenvolvimento do esporte de modo geral, não apenas em termos de competição e profissionalização.


Louvamos os heróis, os exemplos dos quais podemos nos inspirar e usar como modelos e somos cruéis com aqueles que disputam uma competição e não alcançam os louros da vitória – a História, afinal, é contada pelos heroicos vencedores e por quem se destaca em seus campos de atuação. Apesar da derrota ser amarga, ela também pode ser reveladora, como demonstra o depoimento do atleta Luiz Felipe Outerelo, do Salto ornamental:

Eu me lembro muito de uma cena que aconteceu logo depois, e que só eu vi. As pessoas foram esvaziando o estádio, e eu ali, parado, sem acreditar no que tinha acontecido. E aí vi que só tinham quatro pessoas na arquibancada: eram quatro amigos meus de infância, que ficaram até o final para falar comigo. E de repente éramos só eu e meus melhores amigos lá, onde eu tinha acabado de cometer o erro mais grave da minha vida. 


O erro, a última colocação e o sentimento de frustração são terríveis, mas o atleta certamente sabe com quais pessoas poderá contar verdadeiramente em termos de motivação e apoio para prosseguir a sua trajetória no esporte. É importante também saber lidar com as frustrações – e não apenas no esporte, mas na vida: todos nós passamos por reveses, perdas, derrotas e com os atletas não é diferente. 

Muitos dos “heróis olímpicos” que louvamos hoje foram os “fracassados” de ontem e souberam trabalhar bem os seus insucessos, pontos fracos, dúvidas e o aspecto psicológico: habilidade, força, treinamento, resistência, concentração, precisão são fatores essenciais para um atleta, mas o lado emocional também é de suma importância, tanto quanto uma base para apoio e sustentação – interessante notar que até mesmo os atletas de esportes individuais contam com um treinador, nem sempre lembrado pela imprensa e grande público.

Daqui a 04 anos teremos os Jogos Olímpicos de Tóquio (Japão) e claro que os holofotes estarão voltados para os deuses atletas com seus recordes, medalhas e vitórias olímpicas. Mas certamente teremos ótimas histórias sobre os atletas esquecidos e longe do pódio em suas modalidades, como o halterofilista David Katoatau, de Kiribati, um conjunto de 33 pequenas ilhas que está prestes a desaparecer do mapa devido ao aquecimento global. Sem chances de conquistar medalha e nem um pouco preocupado com isso, David usou seu carisma e uma divertida dança para chamar a atenção para o terrível problema que o seu país enfrenta e alertar o mundo sobre as mudanças climáticas provocadas pela ação humana. 

As conquistas nem sempre se revestem de ouro, prata ou bronze.  

Um comentário:

  1. A gente pode contar com poucas pessoas na vida. Principalmente, quando atravessamos uma fase difícil, quando somos últimos colocados. E fracassar faz parte da vida, mas as pessoas não perdoam. Afinal, a moda de hoje é criticar. Belíssima reflexão. Belíssima postagem, Jaime. Beijinhos.

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