quinta-feira, julho 05, 2012

A roça mudou


A conversa, mais uma vez, girava em torno das tradições juninas e sertanejas perdidas. Em lugar do Luís Gonzaga com uma sanfona e dois instrumentistas – na zabumba e no triângulo – agora é vez de bandas como Aviões do Forró, Calcinha Preta e tantas outras com um sem-número de instrumentistas e dançarinos que mal cabem no palco; no lugar de duplas como Tião Carreiro&Pardinho, Tonico & Tinoco, agora é a vez de  pop stars como Luan Santana, Paula Fernandes, Victor e Léo.

Saudosismo de um tempo em que tudo era mais simples e autêntico, claro. A discussão aqui não  seguirá o rumo sobre a qualidade dos artistas atuais ou se no passado a vida era melhor do que é hoje. São apenas breves considerações sobre um fato: a roça mudou.

No dia seguinte à fogueira de São Pedro – algumas tradições ainda se mantém – observei melhor a roça. Aparentemente nada mudou: as vacas continuam nos pastos; na maior parte do tempo o que se escuta é a cantoria dos pássaros e o barulho das folhas balançando com o vento, além de uma tranquilidade que à noite torna o sono de fato reconfortante – para quem não se incomoda com os grilos e com chuva caindo no telhado.

Não demorou muito e vi um motoqueiro na estradinha de terra carregando dois latões de leite. Durante o dia todo, aliás, o trânsito de motos na estradinha foi grande - são trabalhadores rurais que deixam a pequena cidade e “tomam o caminho da roça”. O sertanejo está motorizado e o velho jegue praticamente aposentado. Passo por um destes motoqueiros e ele está falando ao celular enquanto se equilibra na motocicleta. Agora todos têm um telefone celular - até os mais idosos que desconhecem a maioria das funções do aparelho ou o que seja bluetooth, MP3 e outras modernidades. Antigamente, para se dar um recado para alguém em outra fazenda, era preciso gritar ( a depender da distância) ou mandar um “moleque de recados” com um bilhete o que ele decorasse o recado – a chamada “tecnologia molecular”: corre, moleque!

Fui chegando a uma casa na roça, bem simples, mas com todos os eletrodomésticos que acostumamos a ver em uma residência na cidade grande: geladeira, fogão e as estrelas da companhia: um aparelho de som e uma televisão - tudo isso é possível graças à eletrificação rural. De longe eu já escutava o som do rádio tocando uma dessas músicas que estão na parada de sucessos da grandes cidades. A mulher na cozinha ouvia rádio e testava uma receita que viu em um programa culinário e o homem na sala relaxava assistindo na TV a final do campeonato europeu de seleções, a Eurocopa.

Mais tarde, já à noite, dei um pulo na pequena cidade típica do sertão. Nos bares o mesmo cenário que encontramos nas capitais: carros com o porta-malas aberto e som em altos decibéis enquanto algumas pessoas tomavam cerveja e tentavam conversar entre gritos e gargalhadas. Dei uma olhada no comércio da praça: além da velha igreja e dos tradicionais mercadinhos e dos bares, as lan-houses recebiam seus internautas – embora a internet já tenha chegado até para os celulares da região. Um garoto de seus 14 ou 15 anos, com um corte de cabelo à la Neymar, falava comigo sobre vídeos do youtube e jogos on-line com a mesma desenvoltura e segurança de qualquer garoto da mesma idade da cidade grande.

É uma roça diferente, com aparelhos eletrodomésticos que facilitam a vida e acesso a novos valores, padrões de consumo e informações através de mídias eletrônicas que aos poucos vão apagando a velha imagem do Jeca Tatu e do caipira ingênuo. Porém, mesmo com todas essas mudanças, minha avó ainda usa o velho fogão de lenha para cozinhar o feijão e passar um cafezinho. Perdeu, forno microondas e cafeteira elétrica!   

22 comentários:

  1. Eu tenho visto pela blogosfera muitos posts saudosistas, do tipo "como era melhor na minha época onde não havia e-mails, nos comunicávamos apenas por cartas, crianças brincavam(sei lá o nome de tantas brincadeiras mencionadas) e nem sabiam o que era Playstation, todos os vizinhos se conheciam, não havia celulares..."
    Bem, eu não sou desta geração e até posso compreender o saudosismo das pessoas que vivenciaram isto, por esta razão, não posso julgar, posso apenas imaginar e francamente não consigo me imaginar em um mundo onde, por vezes, não se tem como recorrer em casos emergenciais.
    Devia ser uma época muito bonita, na teoria, mas na prática, muito dificultosa (existe esta palavra?) também.
    Pessoas em locais isolados onde não havia comunicação, como será que agiam em caso de um enfarto ou um AVC? Quantas vidas não poderiam ter sido salvas se houvesse a tecnologia?
    O mais interessante destes posts saudosistas (e esclareço que bem sei não é o caso aqui, você ressaltou, apenas me fez lembrar tais escritos por isto estou divagando aqui) é que parece que não havia problemas na geração passada, todas as famílias eram de "comercial de margarina", todo filho era obediente (porque espancamento denotava respeito, exploração do trabalho infantil também e "ninguém morreu" e tem caráter hoje "exatamente" por isto) enquanto hoje nenhuma criança presta, todo adolescente é denominado pejorativamente de "aborrescente", a tecnologia é um problema, entre tantas outras coisas que já estão bem repetitivas.
    Adorei a charge com o trocadilho do @.

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    1. Christian, seu comentário foi muito perspicaz e chamou a atenção para a dificuldade de transportes nestes locais antigamente. Crianças que abandonavam os estudos, por exemplo, pois não tinham como chegar até a escola, muitas vezes distante.

      Obrigado! Um abraço.

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  2. Oi Jaime....
    Amei tua charge.....
    Bem interessante a sua cronica.
    Eu nasci em sitio. De parteira...
    O leite que tomava nem era fervido... lembro que mimha mãe colozava um achocolatado na caneca e eu ia la na teta da vaga..onde meu
    avo tirava o leite...
    Cresci forte e saudável...rs
    Fogão a lenha, pãozinho feito na hora, cafezinho de coador..céu estrelado..
    Da saudade sim...
    Mas a modernidade chegou a roça..
    Inevitável...

    Sempre bom te ler...

    beijos...

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    1. Ma, senti o cheirinho daqui: pãozinho feito na hora, um cafezinho de coador, tudo no fogão de lenha! Bom, né? rs

      Bjs! E obrigado.

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  3. Jaiminho, bichinho, tudo bem?

    Maravilhoso teu texto!
    Muito, muito bom!

    No momento em que lia, me veio à mente as campanhas do Uruguay, (a roça deles), mas que ainda hoje, em lugares mais afastados é roça mesmo: geladeira à bateria; a casa que não tem gerador é iluminada à lampião, e a comunicação em muitos desses lugares, porque celular não pega nem por decreto, é via rádio, e se comunica à rádio (a transmissora) da região no programa do meio dia algo do tipo:
    Sr. Javier avisa que o enterro de sua mãe será às 15h no cemitério tal..., Javier avisa: não se preocupem meus irmãos, Pablo e Florencia, agora está tudo bem! (hahaha, que horror!), mas era bem isso, pessoas sabiam das mortes, nascimentos, cirurgias, e ainda sabem dessa forma, na "Rádio Zonrilla de San Martin"! Lembro disso!
    Hummm... divaguei, amigo, mas minha experiência de roça é essa, lá no Uruguay.

    Parabéns, amigo!
    Muito orgulho de ti e do teus textos aqui no Groo, além das charges, enfim, a postagem toda.
    Impossível não pensar em mais e mais parcerias literárias contigo, viu tchê? :)

    Beijos e beijos!

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    1. Cissinha,

      obrigado! Você relatou essa experiência de roça em Uruguay e sabe uma coisa que eu lembro da roça e que realmente sinto saudades, apesar de nunca ter morado lá? Dos antigos Almanaques Fontoura, crê? rsrs Não sei se ainda existem, mas o fato é que a publicação era uma espécie de "Google" da época. Quando eu passava férias na fazenda do meu avô eu lia bastante aqueles almanaques, uma delícia!

      Beijinhos, Cissinha, e muitíssimo obrigado por tudo, viu?

      :)

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  4. Boa noite, Jaime.
    Sempre teremos saudade da infância, não importa qual idade tenhamos.
    É algo normal e irremediável que a tecnologia chegue a lugares mais distantes, alterando os hábitos e cotidianos das pessoas, mas ocorre que a simplicidade e a sabedoria de quem vive no campo jamais mudará, pois as pessoas dependem da natureza para viverem e sabem que sempre precisarão respeitá-la.
    Como dizem os franceses, "quanto mais as coisas mudam, mais permanecem as mesmas".
    Se a té o Corinthians consegue vencer a Libertadores, acho que não há nada que não mude, para melhor ou pior.
    Até a próxima, Jaime.

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    1. Jacques, depois que o Corinthians conquistou a Libertadores, agora tudo é possível - até mesmo eu acertar os números da mega sena rs

      Obrigado, Jacques! (que não é o Wagner, ainda bem!)

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  5. Hoje em dia,a "tecnologia" domina todos os espaços,inclusive,a roça(apesar de nada funcionar nesses locais).Telefone celular fora de área;sinal da TV que é péssimo;internet pode esquecer.Mas,eles estão lá,os aparelhos tecnológicos que no fim,de tecnológicos não têm nada, é só mais um jeito de ficarmos ainda mais pobres..A roça globalizou-se;essa imensa roça chamada Brasil..Beijão,Jaime!Dani.

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    1. Dani, eu adoro ficar "isolado" de todos estes meios por algum tempo. Eu acho que muitas pessoas bem que poderia passar um período assim :)

      Beijo, Dani!

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  6. Olá Jaime,

    obrigada por visitar o Inutilidades! Em primeiro lugar, parabéns pelo blog e pelo texto, muito bem escrito e leve. Realmente, as mudanças ocasionadas pelo desenvolvimento atingiram todos os setores de nossa sociedade. O problema é quando elas atingem negativamente as pessoas... Os cantores e instrumentistas de forró de raiz, por exemplo,têm perdido espaço nas festas juninas do Nordeste para grupos de forró como os citados por você no texto. É lamentável que artistas como Hermeto Pascoal, tão importantes na história da música brasileira tenham sido esquecidos pelo grande público. Parece que há uma inversão: hoje, a arte valorizada é uma arte pouco autêntica, pré-fabricada, padronizada. O autêntico, o inédito, está sendo renegado.

    Abraço!

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    1. Obrigado, Roseane.

      É, eu acho que a principal mudança é justamente a perda desta autenticidade em nome de um "modelo" engessado do que faça sucesso atualmente. Ainda há quem conserve as tradições, mas aos poucos elas vão se perdendo diante destes novos modelos - alguns muitos questionáveis.

      Abraço!

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  7. Amigo Jaime,
    Realmente tudo está aglutinado: tradições do campos vão para cidade grande (no caso das quadrilhas) e a tecnologia da selva de pedra vai para o sertão. Não há mais inocência nem ingenuidade por falta de informação nem tecnologia.
    O homem evolui, mas o planeta involui, pois tudo isso é o corolário do consumismo.
    Não se pode mais planejar respirar um ar puro em paisagem bucólica.
    Grande injustiça e ingratidão fazem o com jegue.
    Sou do campo também. Sofri muito com as secas e o jeque era quem nos auxiliava para levar comida para o gado bovino, caprino, ovino e, sobretudo, para a população sertaneja.

    Amigo, seu texto está bem escrito, ilustrado e repleto de sabedoria.

    Abraços e ótimo fim de semana para ti e família.

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    1. Muito obrigado, Bento.

      Li em algum lugar que a China estaria interessada em adquirir jegues do Brasil. Além de animal de carga, a carne deste animal é muito apreciada por lá, imagine. Creio que os sertanejos nem imaginavam que o bichinho seria tão cobiçado em um país tão distante.

      Abraço!

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  8. Fala mano Jaime,

    O fato é que a roça realmente mudou. A influência das cidades são cada vez maiores, e nessa transição, muita coisa boa se perde no meio do caminho.

    Uma questão interessante é saber até que ponto a cultura local deve ser preservada, e até que ponto a influência externa deve ser absorvida.

    No meu modo de ver, essa nossa sociedade consumista da cidade e seus produtos supérfluos não são recomendados pra ninguém.

    Grande abraço meu chapa.
    Almir Ferreira
    Rama na Vimana

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    1. Fala, grande Almir!

      É uma discussão muito interessante que está rolando em alguns meios culturais: como conciliar a tradição de um lugar com esses novos valores difundido pelas mídias? Lembrei da tentativa de resgate dos carnavais antigos no Rio e em Olinda sem deixar de lado o que lado "comercial" dos desfiles e das festas gigantescas.

      Grande abraço!

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  9. Oi Jaiminho,

    Tudo bem? Chegando aqui tarde, pois estava sem espaço para acessar o computador, pois estou com o meu garoto. Conheci a Cissinha e, claro, muito feliz com o encontro, Fiquei ansiosa, mas foi lindo. Quero conhecê-lo e estarei por aí no dia 01/08 e vamos tentar tomar o café.

    Quanto ao texto, muito bem escrito. Entendo bem esse tempo, pois sou do tempo do celular PT 550, da máquina de datilografia, telex, quadrilha com Luiz Gonzaga e sertanejo era sertanejo. Sou do tempo da lambada, mas não do forro eletrônico, sou do tempo do rock e não do pop.

    Enfim, sou da década perdida, mas a roça tinha tomate sem agrotóxico, agricultor que acordava as 04 horas e dormia as 19horas.

    Beijos lindão!

    Lu

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    1. Luluzinha,

      espero que possamos tomar um cafezinho no primeiro dia de Agosto. :)

      Você citou a máquina de datilografia e lembrei de alguns garotos maravilhados com o fato da máquina "imprimir instantaneamente" o que se escreve. :)

      Bjs!

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  10. Baixou um Antônio Candido e sunsê, cumpádi! O mundo caipira, da roça é a primeira manifestação, também, de globalização no Brasil. A identificação com o sertanejo! vja um documentário que vou te indicar no facebook.

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    1. Ieu vi, cumpádi! 'Brigado! :D

      Quem fazia essa "ponte" também era o grande e genial Câmara Cascudo!

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  11. Você me fez lembrar que não existe mais "interior". O mesmo relato que fez da roça, onde se ia para se esquecer do mundo, se aplica às pequenas cidades que, em outros tempos, nos permitiam reviver a infância. Bjs.

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  12. Me parece que esse post foi escrito pelo meu pai kkkkkk
    É o que escuto desde sempre lá em casa. Tb fui criada em outros moldes, apesar de não apreciar tanto a musica sertaneja raiz (porque essa outra eu detesto de verdade) tenho imenso respeito por se tratar de algo tão brasileiro.
    Hoje em dia as coisas parecem perder seu sentido! Mesmo não endo fã, sinto falta, pode isso?! kkkkkk

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