terça-feira, janeiro 10, 2012

Brevíssimo histórico dos índios nas Américas


“Quem vive de passado é museu”, dizem. Bem, desta vez darei voz ao passado antes de chegar ao nosso incrível e evoluído século XXI.

Ilha Espanhola, atual República Dominicana, 1511

Na ilha Espanhola que foi a primeira, como se disse, a que chegaram os espanhóis, começaram as grandes matanças e perdas de gente, tendo os espanhóis começado a tomar as mulheres e filhos dos índios para deles servir-se e usar mal e a comer seus víveres (...) Os espanhóis, com seus cavalos, suas espadas e lanças começaram a praticar crueldades estranhas: entravam nas vilas, burgos e aldeias, não poupando nem as crianças e os homens velhos, nem as mulheres grávidas e parturientes e lhes abriam o ventre e as faziam em pedaços como se estivessem golpeando cordeiros (...) sempre matando, incendiando, queimando, torrando índios e lançando-os aos cães (...) faziam certos gradis sobre garfos com um pequeno fogo por baixo a fim de que, lentamente, dando gritos em tormentos infinitos, rendessem o espírito ao Criador. (...) A causa pela qual os espanhóis tal infinidade de almas foi unicamente não terem outra finalidade única senão o ouro. Frei Bartolomé de Las Casas – O Paraíso Destruído: a sangrenta história da Conquista da América

Sicuani/ Cusco, Peru, 1782

Diego Cristobal, primo-irmão de Túpac Amaru e continuador de sua guerra no Peru, firmou acordo de paz. As autoridades coloniais prometeram perdão e indulto geral. Deitado no chão, Diego Cristobal jura fidelidade ao rei. Multidões de índios descem dos montes e entregam as armas. (...) Dentro de um ano e meio, em Cusco, na Praça da Alegria, o carrasco arrancará aos pedaços a carne deste primo de Túpac Amaru, com tenazes em brasa, antes de pendurá-lo na forca. Também a mãe dele será enforcada e esquartejada. O juiz, Francisco Díez de Medina, tinha sentenciado que "nem ao Rei nem ao Estado convém que sobre semente ou raça deste e todo Túpac Amaru, pelo muito barulho e impressão que este maldito nome causou aos naturais". Eduardo Galeano –Memória do Fogo vol.2: as caras e as máscaras

Brasília, Brasil, 1997

O índio pataxó Galdino Jesus dos Santos morreu nesta madrugada no Hospital da Asa Norte de Brasília. Na madrugada de sábado para domingo, cinco rapazes atearam fogo em Santos com um líquido inflamável. O índio teve 95% do corpo queimado. Os jovens colocaram fogo em Santos quando ele dormia em um ponto de ônibus depois de uma festa do Dia do Índio. Eles alegaram não saber que se tratava de um índio, mas de um mendigo. Folha/UOL

Maranhão, Brasil, 2012

A Fundação Nacional do Índio (Funai) no Maranhão abriu investigação para apurar uma denúncia do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) sobre o assassinato de uma criança indígena de 8 anos de idade da etnia Awá-Guajá na cidade de Arame, distante 469 quilômetros de São Luís. Depois de morta, a criança foi queimada e jogada em uma cova. A execução ocorreu no ano passado e os indígenas acreditam que madeireiros que cortavam árvores de forma ilegal em Arame estejam envolvidos no assassinato. Último Segundo – Portal IG

Embora a notícia da criança indígena carbonizada pareça ser boato, os assassinatos e torturas aos povos indígenas continuam a acontecer, bem como os alarmantes índices de suicídio - e boato ou não, isso não muda a situação das comunidades indígenas no Brasil, especificamente. Quem precisa do passado se alguns fatos que aconteceram há 500, 200 anos – coisa de museu – continuam praticamente iguais? No entanto em tempos futuros não teremos mais assassinatos e torturas contra os indígenas, pois o que restar deles estará em museus. Se alguém ainda se importar com museus e a História, é claro.


Complemento: algumas horas após a publicação deste texto no blog a FUNAI divulgou um longo relatório (que em alguns momentos parece mais um "desabafo") do qual informa que a notícia sobre o assassinato de uma criança indígena que foi carbonizada não passa de um boato; já o CIMI - Conselho Indigenista Missionário, ligada à CNBB - em nota pública afirma que acredita na denúncia feita por indígenas Tenetehara e pede maiores investigações. O Ministério Público do Maranhão decidiu acompanhar o caso.

13 comentários:

  1. Jaime,

    A gente se misturou, ao contrário dos EUA que se mataram-se uns aos outros mutuamente em reciprocidade fraterna.
    Aqui na minha cidade mesmo, é cidade de italiano e árabe, mas eu olho em volta, e volta e meia reconheço feição de índio muita. Nas fotos de meus bisavós do meu avô materno: um casal de índio botocudo. Minha avó não, tinha olho azul.


    A LENDA DA PIROGA DE CRISTAL

    Como era grande a piroga dele
    Descendo o rio, correndo pro mar
    Como era grande a piroga dele
    Descendo o rio, correndo pro mar

    Falado: "Essa é a lenda da Piroga de Cristal. Uma história escrita num tempo muito remoto, quando o Brasil nem era Brasil: era Pindorama. As pirogas, como vocês sabem, são as canoas dos índios. E tem índio com piroga pequena, piroga grande, depende do tamanho das árvores que eles derrubam para esculpir no seu tronco a piroga. Essa lenda conta o caso do índio Boi Xavante que derrubou um enorme Jequitibá e fez uma piroga imensa que ele mantinha sempre envernizada com óleo de carnaúba. Ele era muito repeitado na tribo toda por causa disso, porque ele alimentava toda a tribo com aquela piroga. Voltava sempre da pesca com a piroga cheia de peixe, e de vez em quando vinha até um siri preso na piroga. Era uma loucura! Até que um dia…"

    Como era grande a piroga dele
    Descendo o rio, correndo pro mar
    Como era grande a piroga dele
    Descendo o rio, correndo pro mar

    Boi Xavante, índio bravo
    Com um enorme pirogão
    Raptou a índia filha
    Do cacique Gavião

    Seu marido, Cão do Norte
    Aliou-se ao Pajé
    Procurando vingar com a morte
    A desonra da mulher

    Destruam a piroga dele
    Botem fogo na piroga dele
    Pulverizem a piroga dele
    Acabem com a piroga dele

    Mas, Jaci ouviu
    As preces do casal
    E transformou a embarcação do Boi Xavante
    Numa bela piroga de cristal

    Mas a índia estabanada
    Foi dançar de empolgação
    Deu com o pé na bola errada
    E quebrou o pirogão

    Como era grande a piroga dele
    Descendo o rio, correndo pro mar
    Como era grande a piroga dele
    Descendo o rio, correndo pro mar

    Destruam a piroga dele
    Botem fogo na piroga dele
    Pulverizem a piroga dele
    Acabem com a piroga dele

    Destruam a piroga dele
    Botem fogo na piroga dele
    Pulverizem a piroga dele
    Acabem com a piroga dele

    Mas, Jaci ouviu
    As preces do casal
    E transformou a embarcação do Boi Xavante
    Numa bela piroga de cristal

    Mas a índia estabanada
    Foi dançar de empolgação
    Deu com o pé na bola errada
    E quebrou o pirogão

    Como era grande a piroga dele
    Descendo o rio, correndo pro mar
    Como era grande a piroga dele
    Descendo o rio, correndo pro mar

    Paulo Silvino


    .

    =D
    Satoru

    ResponderExcluir
  2. Querido professor, a falta de tempo tem me impedido de deixar meus rastros boçais entre os comentários decentes do seu blog. E olha q eu teria o q comentar nuns posts anteriores (foram todos lidos, aliás). Mas sacumé... tenho me metido nuns programas de índio por aí.
    E falando neles, é curioso ver como como são tratados desde q o homem branco chegou. E isso é o q chamam de ~civilização~.

    Quando der volto com mais tempo.

    bjohnny!

    ResponderExcluir
  3. Oi Jaime!
    É cruel constatarmos que o preconceito étnico e racial exista até mesmo agora, quando os humanos gabam-se de serem tão evoluidos e superiores. Porém, acho que o preconceito e a ânsia de praticar atos cruéis faça parte do ser humano Não há nenhum povo que não tenha glorificado a violência em sua história.
    Somos e sempre seremos animais. A única espécie que comete mortes por prazer.

    Ah valeu por ter curtido meus humildes cosplays ^^.
    Ah vou te confessar que meu cosplay do Alex é um que eu gosto demais..não porque foi o primeiro mas por ser o que eu mais me identifiquei..sem falar que meio que lancei moda com ele rs.
    Olha Laranja Mecânica é um filme que eu assisto pelo menos uma vez por ano..e nas vezes que usei o cosplay, revi o filme antes para tentar absorver um pouco da essência do Malcom Mc Dowell!. Sou fã de LM e no blog tenho artigo sobre o livro e o filme...
    Com relaçãp á Misa do Death Note, irei repetir o cosplay no evento desse final de semana. mudando um pouco o visual..afinal, o visual nela que é realmente legal. Agora, teve um que a maioriado pessoal concorda, que eu absorvi melhor a essência; foi justamernte o último, Johann Liebert. E devo confessar..eu até me surpreendi com meu próprio resultado! 0.o Parece meio estranho isso mas é verdade!
    Esper oque em 2012 continuemos trocando idéias, pois gosta de ler e responder aos seus comments!
    bjs

    ResponderExcluir
  4. Bem acompanhando as investigaçoes..as madeireiras aprontam o que elas querem, lá em cima, nem a policia federal da jeito, existe um outro sistema, uma sociedade paralela.

    Um dia iremos lembrar disso com amargor !

    ResponderExcluir
  5. Jaiminho,
    querido amigo, tudo bem?

    Pois é, complicada a situação... ou não fosse a morte de Chico Mendes, e eu ousaria dizer, de muitos padres católicas da linha da Teologia da Libertação, pelo sertão à fora, perseguidos, muitas vezes, pelas questões da terra, tidos como "subversivos" pelo coronelismo, ainda existente.

    O que parece não ter ligação com a questão indígena, está intimamente ligado, na minha opinião.
    Disputa de terras, entre outros interesses, não só o do preconceito.

    Muito bem embasado, Jaime, e eu quis pegar esse outro aspecto. Gostei de citares do Galeano.

    Beijinhos, amigo!
    Depois volto para ler de novo e ver se faltou algo mais a comentar. Do jeito que está, sinceramente, não tinha muito mais a contribuir, está bastante completo!

    Te cuida! Inté!

    ResponderExcluir
  6. Ainda existe o mito e o preconceito de que o índio é um vagabundo sustentado pela Funai. Se a notícia da morte da criança proceder, não acredito em revolta e comoção nacional como no caso das crianças João Hélio e Isabela. Uma criança pobre e dentro de um grupo que sofre preconceito não comove. Agora se for branca e rica, a história já é outra.

    Só nos resta esperar que este caso seja investigado e que os índios deixem de serem vistos como fósseis e mendigos e passem a ser reconhecidos e respeitados como um brasileiro de bem mais de 512 anos...

    ResponderExcluir
  7. Nestas "idas e vindas" no caso do (suposto) assassinato da criança indígena e caçando notícias sobre o assunto, encontrei um editorial bem interessante trazendo perguntas que devem ser respondidas:

    -Então, nesta confusão toda, quem está mentido?
    - Quem está sendo bobo ou se fazendo de bobo? A FUNAI? O CIMI? A Caros Amigos? O índio Clovis Tenetehara? Os outros setores da imprensa e da Sociedade Civil?
    - Teria Clóvis dado um depoimento para o CIMI e outro para a FUNAI?
    -Ele mudou de depoimento? E se mudou, o que teria lhe motivado?

    O link do editorial é http://www.viasdefato.jor.br/index.php?option=com_content&view=article&id=987:editorial-

    Vamos ver no que isso vai dar...

    ResponderExcluir
  8. Onde há fumaça há fogo, essa história pode até não ser verdade, mas algo está acontecendo, sim.
    E não é nada recente.
    Seu post foi ótimo!

    Ah, em resposta ao comentário que deixastes no meu blog, sobre o politicamente correto: já viste esse vídeo? http://awe.sm/5dHZC

    ResponderExcluir
  9. Penso como a Mari, "onde há fumaça há fogo"
    ...O ser humano é capaz de tantas atrocidades, nossa! Dá medo assistir ou ler um jornal; essa questão indígena então, rende.
    No Sudeste nem ouço nada sobre...já tentei saber mais, mas as informações às vezes não batem, eles omitem (?). É cruel; espero que tenha havido um engano mesmo.
    Beijo.

    ResponderExcluir
  10. O excerto do Las Casas é quase igual ao que utilizei em minha dissertação. Memoria del Fuego é outro livro fantástico! E agora tentam esconder, deturpar um massacre ou outro desses "espertinhos indígenas".

    ResponderExcluir
  11. Olá, Jaime!
    Muito obrigada por visitar o CQ&Sherlock. Deixei uma resposta nos comentários da postagem do Dick, depois confira lá!

    Então, sobre os índios. Fiquei chocada com o primeiro relato. Lembrei-me do filme que assisti há pouco tempo - 1942 - A Conquista do Paraíso [R. Scott]. As imagens da devastação, tomada e violência são muito duras. Engraçado, invadem as terras e querem ser os donos de tudo - odeio a história da colonização!
    Sobre o Maranhão - nasci em um lugar onde 75% é reserva indígena - convivi com os índios. Trabalhei em um local, na adolescência, que ficava ao lado do CIMI e conversava diariamente com os funcionários da mesma. Alguns índios ainda mantêm as tradições, porém muitos já as deixaram e o poder e o dinheiro andam soltos. É complicado, pois muitos usam a Lei para favorecimento e ficarem impunes em muitas coisas, porém os fazendeiros são inescrupulosos e gananciosos e fazem muito mal aos índios e as pessoas que lutam por eles - vide a Dorothy Stang [esse caso me revolta tanto!].

    Inté breve!
    Se permitir, posso colocar seu blog no link dos hipercafeinados?

    T.S. Frank
    www.cafequenteesherlock.blogspot.com

    ResponderExcluir
  12. Olá, querido Jaime!
    Já coloquei o Crooeland na sessão dos Hiper Cafeinados!

    Cê conhece o blog do Almir? [estou vendo a querida miga Cissa, Tsu... Pode ser que você também leia o blog dele.]. Mas se não, vale a pena conferir, ele é professor, formado e História [cê também é da área de História? - A minha é Contábeis e agora tentando me graduar em Física - Bacharelado]. Ele é 'mó' legal e o blog é ótimo, assim como o seus - cês podem trocar umas ideias e tal. Aqui está o endereço - http://ramanavimana.blogspot.com.

    P.S. - Poxa, desculpa por mão ter entendido a ironia! Meu Deus! Bola fora =(

    ResponderExcluir
  13. Jaime, um ótimo texto teu, mas ao mesmo tempo triste pelo fato de que uma etnia está sendo gradativamente extinta, a situação de nossos índios realmente é de fazer chorar, foram os primeiros habitantes de nossa nação, mas covardemente foram sendo dizimados. Jaime, não sei qual será o futuro de nossos índios, mas o presente é cruel. Parabéns pelo texto, muito bom.

    ResponderExcluir

Agradeço sua visita e o seu comentário! É sempre bom receber o retorno dos leitores.

Todas as opiniões são livres, porém não serão aceitos comentários anônimos e tampouco comentários ofensivos, discriminatórios e que não prezam pelos princípios da boa convivência - o autor do blog reserva a si o direito de excluir comentários com tais temas.

Volte sempre! =)

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails