segunda-feira, julho 11, 2011

Dinheiro? Já era!


- É um absurdo! Quase 4 reais num quilo de tomate! Não tem dinheiro que dê, qualquer “dez real” hoje não vale nada!

Essa aí é a dona Maria, dona de casa e assídua freqüentadora do mercadinho e do sacolão da esquina. Mas poderia ser a dona Josefa, dona Cleusa, dona Bete, a sua vizinha ou até sua mãe ou esposa. Em minha opinião, as verdadeiras economistas e especialistas em finanças do Brasil são as donas de casa. Elas não falam em “taxa SELIC”, “IPCA abaixo do índice”, “fluxo de capitais para países emergentes” e nem sobre “o índice Dow-Jones”, mas sabem explicar porque os seus trocados mal compram os produtos da cesta básica.

Eu sempre me lembro da dona Maria e das donas de casa quando vejo na TV aquela propaganda do cartão de débito Visa Electron. Já viram? Uns mariachis cafonas tocando e cantando “no tienes troco/ que cosa triste” – isso é portunhol, creio - enquanto um cliente constrangido tenta pagar uma conta em dinheiro ( espécie). Então surge a voz do narrador, jovial: “Dinheiro? Já era!” ou “Dinheiro é coisa do passado”. Obviamente quando o sujeito saca seu cartão de débito tudo muda - afinal ele agora faz parte dos consumidores modernos e descolados. Quem disse que o constrangimento não vale a pena?

Sentia algum desconforto com essa propaganda. Não porque eu seja um sujeito arcaico que ainda paga a maioria das contas com dinheiro em espécie - ou que sobra dos caraminguás -, e sim com o narrador proclamando que “dinheiro já era”. Será que a propaganda tem razão? Lembro do professor Ciro Marcondes Filho: “a economia funciona sem que se precise desembolsar dinheiro, pagando-se com cheque ou cartão de crédito e, mais recentemente, pela compra eletrônica”. Quem sou eu para negar as vantagens do dinheiro de plástico? É prático, fácil e não precisa facilitar o troco, seja em balinhas ou deixando aqueles dois centavinhos* pra lá. O problema é dona Maricota tentar pagar R$ 2 em pães na padaria com o cartão de débito e o sistema demorar para conectar. Adeus, praticidade e facilidade!

Outro dia fui pagar uma conta de um serviço automotivo e lá estava eu bancando o chorão ao pechinchar um desconto no pagamento à vista:

- Mas pagamento em débito é o mesmo que pagar à vista, pô!

- É, mas eu só recebo daqui a uns 4 ou 5 dias e ainda pago uma taxa!

- Na minha conta o valor é descontado imediatamente, na hora...

- Pois é, vê se um negócio desses dá prejuízo pra banco? Não tem negócio melhor hoje em dia do que banco e igreja!

- É mesmo. Então, no tienes desconto? Que cosa triste!

Ah, esses nossos bancos amigos, como diria Ziriguidum Bauman! Sei que vivemos um período em que o virtual vem modificando conceitos e comportamentos; mesmo assim não deixa de ser estranho ouvir que “dinheiro já era”. Soa como o Francis Fukuyama anunciando o fim da História – e ironicamente, com isso, ele entrou na História; soa como esse povo proclamando “o fim do livro” a cada gadget tecnológico lançado no mercado; sem falar na “morte da TV” com a popularização da internet.

Se quiserem saber, certa mesma está a dona Maria. Ela também acha que dinheiro já era, principalmente depois de uma passada no supermercado. Quanto a mim, vou resistindo e pagando algumas contas recorrendo às tartarugas, garças e araras que correm sério risco de extinção em minha carteira – onça pintada e garoupa, então, nem pensar. Mas um dia eu juro que pago uma conta com balinhas de hortelã!

*de centavinho em centavinho, o comerciante enche o cofrinho!

26 comentários:

  1. Triste é esperar o mês todo pelo 5º dia útil e no 6ºjá não ter mais nenhum especime na carteira... Não sei mais o que é o dinheiro, porque ele passa tão depressa das minhas mãos para as dos meus credores que fico aqui pensando se ele esxiste mesmo! rsss

    _*

    ResponderExcluir
  2. Mas as balinhas existem, Aninha! hahaha

    Bjs!

    ResponderExcluir
  3. É...triste realidade! As "Donas Marias" que o digam! Qto a mim, sinceramente, a cada dia acredito q o MEU dinheiro não exite mesmo, pq ele quase não fica mais comigo...Super Beijo e dá-lhe balinhas de hortelã...rsss

    ResponderExcluir
  4. Grande, Jaime! Eu vejo duas vantagens fundamentais no cartão (e apenas): esse problema de troco e a desnecessidade de andarmos com dinheiro nessa loucura violenta que é uma cidade. Se bem que o sujeito, se quiser lhe sequestra, lhe leva gentilmente a um caixa eletrônico para fazer saque. Pode riscar a segunda vantagem. hahahaha!
    Um coisa é certa, Jaime: em cash ou plástico o négócio é bom mesmo é para os bancos. Para mim é a instituição mais perversa inventada pelo capitalismo.

    PS: e a tese do Fukuyama parece que vai ganhando cada vez mais corpo, não?

    Abraços, meu amigo! Paz e bem.

    ResponderExcluir
  5. E ainda vale relembrar o dia em a sede da Oi pegou fogo em Salvador e várias cidades foram prejudicadas por causa da instabilidade no sistema. Ninguém podia fazer compras com cartão.. e como ficaria arcar com as necessidades se ainda não sobrasse o bom dinheirinho vivo na carteira, hein? Se já estivessemos na era em que não existe mais dinheiro, muita gente teria passado fome!
    Essa são mais algumas daquelas propagandas para influenciar o público a ser "in" prejudicando, com taxas e valores a mais que só fazem o banco lucrar!

    ResponderExcluir
  6. Outro dia fiquei uns 10 minutos esperando que atendente trocasse 5 reais para me dar o troco na papelaria. Estava com a minha filhote então lembrei da musiquinha: No tienes troco que cosa triste. Ainda assim prefiro pagar as coisas à vista. Se não tiver dinheiro não faço compras!

    ResponderExcluir
  7. Antigamente íamos ao mercado com R$50,00 e voltávamos com a um monte de sacolas. Hoje no máximo volta-se com três sacolas e troco de balinhas... (que cosa triste!)

    É ruim que vou confiar apenas em um cartãozinho de plástico! Essas máquinas vivem fora do ar e você acaba ficando na mão!!!

    Beijocas!!!

    ResponderExcluir
  8. Sendo ou não com essa intenção, numa coisa a propaganda está certa: o dinnheiro já era. É só abrir a carteira ou conferir o saldo no banco e a única certeza que se tem é essa, já era. Daí o que me resta? Usar o cartão de dívidas, lógico.
    Mas essa tarifa que as empresas cobram dos comerciantes me surpreendeu. Nessa semana comprei uns negóço com uma senhora que vende uns negóço pro pessoal do meu trabalho e quis pagar no cartão, ela insistiu pra eu pagar quando receber meu salário (leia-se mês que vem) justamente para não ter que pagar essa taxa.
    E lá vem o banco me oferecendo uma quarta bandeira...

    bjohnny!

    ResponderExcluir
  9. Coincidência, ou não, lembro-me muito bem que ontem eu disse o fim do seu texto (*de centavinho em centavinho, Seu João - o dono do estabelecimento - enche o cofrinho) quando fui pagar a conta na lanchonete da Universidade, eu e meus amigos estávamos justamente falando sobre o tema abordado... Como de praxe, um texto interessantíssimo e relator de verdades que nos prende à leitura! (:

    ResponderExcluir
  10. Cacá, meu mestre! Eu concordo com o funcionário da oficina mecânica ( agora chamam de "Car Center"???): nunca vi um banco se dar mal. Mesmo quando algum incompetente chega lá e quebra a instituição, o governo dá uma força.

    hahaha a tese de Fukuyama perdeu o bonde...rsrs

    Abs!

    ResponderExcluir
  11. Lê, e em nossa profissão é ainda pior: o que chamam de "salário" eu prefiro chamar de "ajuda de custo... Beijão regado com balinhas de hortelã! rs

    ResponderExcluir
  12. Bem lembrado, Experiência Diluída! Eu estava em um mercado neste dia do incêndio na OI e a fila do "caixa rápido" (!!!) já estava gigantesca... aí apareceu um funcionário berrando: "Alguém aí vai pagar em dinheiro?" Só eu e uma senhora dissemos que sim e lá fomos para o caixa. Aí dá até vontade de cantar "No tienes diñero/ que cosa triste" hahahaha ( no melhor portunhol culto possível rsrs).

    As taxas, sempre elas. Assim é que lucram e como lucram!

    ResponderExcluir
  13. Pois é, teacher Michele, a musiquinha "pega" mesmo...rsrs Vai falar pro comerciante que "dinheiro já era"?

    ResponderExcluir
  14. Fabi, eu não tô confiando nem no que no porquinho que guarda as moedinhas aqui de casa, o que dirá nas maquininhas...rsrs E 50 conto há um tempo dava uma compra até bacana. Hoje, ô dó! rs Bjks!

    ResponderExcluir
  15. Moça Cabofriense, os lojistas, além da taxa de banco e operadora, ainda pagam a mensalidade das maquininhas, sabe? E o pior é que não tem jeito: com a propaganda dos cartões e o mundo de "facilidades" que eles propõem, muita gente usa cartão de crédito e débito. Não fosse isso seria o cheque... e taí uma coisa que o comerciante tem pavor: cheque! Pra ele deve ser melhor pagar essa mensalidade e taxa do que arriscar uns cheques por aí na praça.

    Por isso que a propaganda do no tienes troco é certeira para todo mundo: o consumidor se convence das vantagens, o lojista tem que se adequar e a operadora/bancos só faturam.

    Que cosa triste!

    Bjks!

    ResponderExcluir
  16. Laiane, exija do Seu João ao menos um desconto ( centavinhos, pode ser rsrs)na hora de quitar as contas na lanchonete rs

    Muito obrigado por seu comentário e sua visita! :)

    ResponderExcluir
  17. Parece que o "vil metal" deixou saudades quando se descobriu que ele não é tão vil assim (ou que os bancos são ainda mais vis que o metal)

    ResponderExcluir
  18. Dinheiro pra mim nunca faltou e nem faltará em nome de Jesus!

    ResponderExcluir
  19. Pois é, cartão vira cilada se vcv é desorganizado, ou se o sistema cai!!!
    Já mofei numa loja esperando o sistema voltar!!

    Mas sou suuper adepta das compras online!
    Já comprei livros, perfume, e até aquela bosta de barbeador elétrico que estou tentando vender,hehehe!
    (dei de presente pro namorado mas ele nem ligou... gastei uma nota! por isso quero vende-lo, melhor do que ficar parado no guarda roupa)

    Beijoss, tenha um ótimo fds!!!

    ps: esse lance de pagar conta com bala seria legal, manda a idéia pro CQC, hehehehe!!!

    ResponderExcluir
  20. Dinhero já era? - que cosa triste!

    ResponderExcluir
  21. Com salário mínimo não dá pra comprar uma cesta básica decente hoje em dia. Fato!

    ResponderExcluir
  22. não basta pagarmos uma das maiores cargas tributarias do mundo, ainda temos que receber uma mixaria como salario.. coisas desse pobre país..


    se possível. visite meu blog

    www.semente-terra.blogspot.com

    ResponderExcluir
  23. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  24. O que me irrita nesse comercial é justamente esse absurdo: "dinheiro é coisa do passado". Acredito que essa idéia se amplia tb para os cartões de crédito. Posso então pagar minha fatura VISA com outro cartão VISA e a fatura desse outro com outro, e desse outro com outro, e com outro e com outro… cartão VISA??? Dinheiro é coisa do passado,é ou não é ???
    Acho que vou zerar meu saldo bancário e fazer uma compra pagando com esse cartão. Se não for aprovado pelo estabelecimento, acho que será caso de polícia, já que a financeira me diz que dinheiro é coisa do passado e ela mesma me disponibilizou um cartão para pagar minhas contas. Será que estou dizendo bobagem???
    Abraços fraternos!

    ResponderExcluir

Agradeço sua visita e o seu comentário! É sempre bom receber o retorno dos leitores.

Todas as opiniões são livres, porém não serão aceitos comentários anônimos e tampouco comentários ofensivos, discriminatórios e que não prezam pelos princípios da boa convivência - o autor do blog reserva a si o direito de excluir comentários com tais temas.

Volte sempre! =)

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails