segunda-feira, outubro 04, 2010

Pior do que tá, fica. E não me surpreende.

(charge de minha autoria, pra variar. Pior do que tá, ela não fica, clique para visualizá-la melhor)

Não me surpreende a eleição de Tiririca com mais de 1 milhão de votos para Deputado Federal. O palhaço está ligado ao entretenimento e é justamente isso o que boa parte de nossa sociedade deseja. Por isso costumo dizer que vivemos na chamada “Sociedade do Entretenimento”.

Sociólogos, cientistas sociais e acadêmicos que aqui pousarem certamente não concordam com tal premissa. Preferem o termo “Sociedade da Informação”, o que não é equivocado visto a facilidade e quantidade de informações que circula por aí. Mas a questão é o que fazer com tudo isso. Além do mais, o povo não consegue lidar com esse bombardeio de dados, jingles, pesquisas, rostos sorridentes, santinhos, propaganda incessante e no meio disso tudo distinguir o que é jornalismo sério e material de campanha.

Isso explica em parte certas bizarrices como Weslian Roriz indo para o segundo turno no DF. Ou um Maluf obtendo quase meio milhão de votos em SP e apenas aguardando recurso da justiça para assumir seu cargo. “Ficha Limpa” para que? É verdade que não seria necessário haver uma lei neste molde se acaso boa parte dos eleitores soubesse o que é cidadania – e enquanto isso não acontece, a lei é interessante para o processo de amadurecimento político do brasileiro. Mas pelo o que se viu nestas eleições tanto o entendimento do que seja cidadania quanto o amadurecimento político ainda estão bem distantes - apesar de alguns políticos da velha guarda não conquistarem êxito nas urnas, como Marco Maciel, Jarbas Vasconcelos e Tasso Jereissati.

Tiririca é entretenimento, da mesma forma que Romário e Bebeto, eleitos no Rio de Janeiro e Netinho de Paula, que por muito pouco não foi eleito senador em São Paulo. Outras figuras ligadas à TV, como o apresentador Wagner Montes, o ex-BBB Jean Wyllis e o filho do apresentador Ratinho também foram eleitos. Na Bahia, mesmo sem ser eleito, o ex-boxeador Popó obteve mais de 50 mil votos para o cargo de deputado federal. Isso sem falar de candidatos ligados à alguma corrente religiosa e que possuem intimidade com a TV, como Garotinho, no RJ, e a farsa demagógica ( e nada pedagógica) de Gabriel Chalita, ambos muito bem votados e eleitos.

A televisão no Brasil tem um poder tão grande de penetração nos lares que acaba adquirindo um status inigualável: um fato só adquire importância se o mesmo é exibido pela TV. A mesma coisa acontece com as pessoas. Não é à toa que há milhares de inscritos todas as vezes que a Rede Globo abre chamada para o Big Brother. O “aparecer na televisão” é quase como o “existir”. Daí o desespero das “sub celebridades” sumidas e falidas que buscam por mais alguns minutos de “fama”.

Evidente que apenas a exposição na TV não garante a eleição. Fosse assim o Kiko e o Leandro do KLB seriam eleitos e tantos outros “famosos”. A história toda é ver o circo em que se transformou a política brasileira e quantos destes “famosos” se lançaram como candidatos conquistando muitos votos: Batoré com 22 mil votos, Marcelinho Carioca com mais de 60 mil votos e Simony com quase 7 mil eleitores votando na ex-Balão Mágico. Todos em SP, considerado o estado mais rico e desenvolvido do Brasil.

É exatamente daí que aparece um Tiririca. Quando assistir e votar no paredão do BBB ou da tal “Fazenda”, lembre-se que você pode alimentar o sonho de alguns dos participantes destes programas quando contribui com os altos índices de audiência. Sei que você tem discernimento para separar o entretenimento da política séria, mas muitos não conseguem estabelecer essa distância. Aí falta orientação educacional, políticas de esporte e lazer e incentivo à cultura, só para começar.

E tantos brasileiros falam em mudança... mas mudança exige um grande esforço, não apenas no sentido de trocar objetos de lugar ou cargos: é preciso mudar certos comportamentos, abandonar alguns hábitos e rever vários conceitos. Inclusive o fato da “Festa da Democracia” ser tratado apenas como se fosse uma festa onde muita gente faz competição de “som mais alto” na rua, enche a cara de cerveja e emporcalha a cidade com “santinhos” espalhados pelas vias. Será que boa parte dos brasileiros realmente deseja mudança?

Ou prefere algo como “do jeito que está, fica”?

PESQUISAS

Mais uma vez o papel dos institutos de pesquisa em uma eleição foi patético. E novamente na Bahia erraram feio: o candidato ao senado César Borges liderava em todas as pesquisas de intenção de voto com algo em torno a 30%; no entanto, um dos poucos remanescentes da tropa de choque de ACM obteve apenas 13% dos votos válidos, muito distante dos primeiros colocados.

Não entendo nada sobre estatísticas e metodologia de pesquisa. Mas está claro que os institutos precisam rever seus métodos. A credibilidade está comprometida e o trabalho para recuperá-la não será fácil. É o que pensam 98% dos visitantes deste blog segundo o DATATROLHA. Brancos, nulos e indecisos somam 1% e Plínio de Arruda tem 1%.

PARA DESCONTRAIR...

Levy Gato Félix ficou atrás até do Eymael, o Democrata Cristão. Proponho para o próximo pleito a união dos dois candidatos e até imagino a cena: um aerotrem tocando o jingle do Ei-Ei-Eymael/ o democrata cristão / Para transporte eficiente / vote Eymael e Fidelix...

Aqui na Bahia não adiantou a militância dos moleques que andam por aí com a camiseta estampada do Che Guevara – e não são poucos: o candidato Che Guevara (PRP), obteve apenas 335 votos para deputado federal; Bira do Jegue (PSDB) chegou à impressionante marca de 483 votos e vai ter que continuar com o jegue, nada de carro oficial; Carlos do Restaurante (PSOL) teve 151 votos e a certeza de que precisa melhorar a comida em seu restaurante se quiser mais votos; Jean Nanico (PTB) conseguiu 5 mil votos, o que não é pouca coisa pra um nanico.

Pior desempenho mesmo foi do candidato Carlinhos dos Remédios (PDT), com 0 voto. Dizem que ficou tão ansioso na noite anterior às eleições que resolveu tomar um remedinho, exagerou na dose e foi parar no hospital. Não fosse por isso teria 1 voto.

E a constatação de que Pelé estava correto: brasileiro não sabe votar. Como podemos admitir a “Mulher Pêra” com 0 voto? Isso, sim, um absurdo, uma afronta a uma BOA candidata, vejam só, que país é esse, que coisa...

Sigam-me no twitter, tenho mais seguidores do que eleitores do Rui Costa Pimenta: www.twitter.com/jaimeguimaraess

14 comentários:

  1. São as reações daqueles que curtem a possibilidade de votar como uma brincadeira. Se eles não se identificam com os outros candidatos a seus representantes votam naquele que se identifica na vida, ou que se acham tal qual o candidato. É um fenômeno que não se pode negar. O voto é, também, motivado pela emoção, pela estética, pela "performática". Excelente texto!

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  2. Jaime,

    O Brasileiro vê tudo como brincadeira, fomos assim condicionados, tudo é uma maravilha! Desde que os portugas chegaram aqui ligaram o piloto automatico e tudo dá certo! Nem desastres naturais o Brasil tem, não é mesmo? É tudo muito lindo, meu voto no Tiririca não vai afetar em nada negativamente! Magina, e ainda ele vai me contar para que serve um deputado deferal, afinal, eu tb não sei.

    Assim pensa o povo Brasileiro que na sua contradição é muito coerente.

    E aperta o eject que o avião vai bater.rs

    abçs!

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  3. Meu,

    Minha mulé teve a cara de pau de dizer que votou no Tiririca.

    Quê que eu faço: viro baitola, fujo com uma rapariga, ou entro para o bando dos homens que batem em mulher?

    Magoei.

    ;***
    Marquito

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  4. Menino, que eleições foram estas? Eu hein?! Mas como eu digo, nada muito assustador para um país como o Brasil! =)

    Parabéns pelas reflexões...

    Grande abraço.
    =)

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  5. No nosso regime, os prefeitos , governadores e o presidente não governam sem as câmaras, assembléias e a câmara federal/senado. E é onde a população dá menos importância na hora de votar. Há acordos que os executivos têm que fazer para conseguir governar que às vezes nem é sua culpa, é falta de opção para a tal da governabilidade. Como seriedade política num sistema desse tipo?

    Só para descontrair: aqui em Bh o Tomás da Rola Bosta teve menos de 3000 votos. O cara passa o ano inteiro limpando e desentupindo esgotos de milhares de pessoas e ninguém reconhece?rsrs.

    Abraços, Jaime Paz e bem.

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  6. Pois é, amigo, fazemos parte dos poucos que não acharam graça desse resultado, né?
    O povo quis saber do faz-me rir, literalmente!

    O grande problema é que nós, mesmo votando conscientes (ao menos eu fiz isso), tomaremos no cu da mesma forma.

    Parece que, a cada eleição, a maioria se apega ao tal voto de protesto levando ao poder Everardos e afins.

    Quero saber quando é que o povo vai parar de correr atrás do pão e do circo para protestar de verdade, votando em alguém ficha limpa, com um mínimo de preparo para assumir o cargo ao qual candidatou-se.

    Depois reclamam que políticos não respeitam o eleitorado.

    “Cada povo tem o representante que merece” - Isso é um fato.
    E, como sabemos, contra fatos não há argumentos!

    P.S.: Gostei tanto de ter lido seu texto, está perfeito!

    Como diria meu amigo veado:
    - Arrasou, colega!!!

    rs... =D

    Kisoj
    =*

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  7. Nenhum dos candidatos que eu votei conseguiu se eleger. Brasileiro não sabe votar.

    A eleição do Tiririca nada mais é do que o retrato do povo brasileiro de maneira geral: brasileiros são palhaços, não são sérios e riem da própria desgraça tomando a mudança como algo impossível de acontecer. Sabe aquele pensamento medieval de "quem nasce servo morre servo e quem nasce nobre morre nobre"? Então, este é o pensamento do brasileiro.

    Acho que a reeleição de candidatos ficha-suja não aconteceriam se não fosse essa obrigatoriedade nada democrática de votar. Ah, mas aqueles políticos "sérios" não se elegeriam sem o voto dos ignorantes que é forçado a votar em peso, né?

    Quando chega esta época e eu fico sabendo das figuras que se elegeram, a desesperança toma conta de mim. Vergonha de ser catarinense, vergonha de ser brasileiro...

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  8. Nenhum dos candidatos que eu votei conseguiu se eleger. Brasileiro não sabe votar.

    A eleição do Tiririca nada mais é do que o retrato do povo brasileiro de maneira geral: brasileiros são palhaços, não são sérios e riem da própria desgraça tomando a mudança como algo impossível de acontecer. Sabe aquele pensamento medieval de "quem nasce servo morre servo e quem nasce nobre morre nobre"? Então, este é o pensamento do brasileiro.

    Acho que a reeleição de candidatos ficha-suja não aconteceriam se não fosse essa obrigatoriedade nada democrática de votar. Ah, mas aqueles políticos "sérios" não se elegeriam sem o voto dos ignorantes que é forçado a votar em peso, né?

    Quando chega esta época e eu fico sabendo das figuras que se elegeram, a desesperança toma conta de mim. Vergonha de ser catarinense, vergonha de ser brasileiro...

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  9. Groo.....esse poder de penetração da TV brasileira é um verdadeiro estupro !!!!

    Dessa vez o povo vota num palhaço e se pergunta, então, quem é mesmo o palhaço ????

    Melhor assim: pelo menos não está sendo enganado. Sabe que colocou lá dentro alguém que não tem a mínima condição de articular uma única frase sequer, sem começar um Florentina, Florentina, Florentina de Jesus....

    Parabéns ao povo brasileiro. Isso é mesmo o fim da picada....não o do picadeiro !!!

    HUAHAUAHUAHUAHAUHAUH !!!

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  10. Olá, professor!

    O processo eleitoral é uma piada de mau gosto. Combina com o Tiririca. Não dá para jogar toda a culpa nos políticos ou na população, é uma via de mão dupla. Talvez até seja uma via múltipla. Mas não cosigo tirar a responsabilidade das pessoas que vão até às urnas e votam em candidatos sem propostas, em renomados bandidos e compradores de votos. Isso, entre outras coisas, faz cair por terra a louvação do Ficha Limpa por ser um projeto de iniciativa popular. Me parece que o Ficha Limpa é mais pop que "popular", não nasceu do povo, nem traduz sua vontade.
    Quanto ao entretenimento, não sei se é só isso. Pode ser também identificação, proximidade. As pessoas ainda enxergam os "midiáticos" como seres de uma forma ou de outra superiores, semideuses com o "poder" de ter mais chances de serem ouvidos que pessoas "comuns".
    Ou pelo menos foi nisso q quis acreditar qndo vi os mais votados para deputado estadual aqui no Estado da Guanabara. Wagner Montes, Clarissa Garotinho (Garotinhos, Piccianis e Bolsonaros se multiplicam de forma pavorosa por aqui), Pedro Augusto, Cidinha Campos... todos profissionais do "jornalismo (cof) assistencialista".
    Mas como explicar o Romário (q não paga a pensão dos filhos mas anda por aqui na sua Ferrari preta)? A força do mito, talvez, ou a total carência de identificação com os "políticos profissionais".
    Somos o penúltimo estado no ranking do MEC e o estado com o maior percentual de eleitores evangélicos. Daí dá para se deduzir muita coisa sobre os votos da população fluminense...
    Quem sabe a eleição do Tiririca, lá em SP, não gera uma pressão para uma reforma política? Talvez, se fosse possível reformar algo com os sacos de cimento usados para comprar votos por tantos outros.

    bjohnny!

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  11. Ah Jaime! Fiquei tão deprê depois desses resultados... Quem me acompanha nas redes sociais e quem me conhece pessoalmente, sabe que venho falando sobre voto consciente desde sempre. Foi como se toda minha esperança "EM PESSOAS" tivesse ido água abaixo,falei com paredes... Ninguém quer ouvir, ninguém quer saber!
    O "foda-se" foi o grande campeão dessas eleições! E eu ainda tive que escutar: "Sabe esse seu espírito revolucionário? Não te serve para nada!" Juro que ouvi isso, doeu...
    Estou com uma certa ressaca pós-eleição e todos esses assuntos me trazem uma certa náusea.
    Farei uma postagem no blog (como quase toda blogsfera)sobre o assunto e não sei se depois ficarei falando sobre política novamente. Cansei...

    OBS: Esse texto ficou ótimo, muito bem escrito e estruturado. Você é foda!!! Rs...
    Beijos!

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  12. Olá Jaime,
    Entender como funciona a política no Brasil é algo muito complexo. Um exemplo é a “Ficha Limpa”. No período pré-eleição, todos comemoravam a aplicação da Lei e sua eficácia. Agora que o processo passou é difícil definir com clareza, que medidas serão tomadas em relação aos candidatos não aprovados.
    Em prol da democracia, tivemos um horário eleitoral com alto teor humorístico. Teve até candidata com cinta liga e voz sensual, usando todos os recursos apelativos para angariar votos.
    Em relação aos números alcançados por Tiririca concluo que talvez a sociedade tenha perdido as esperanças em relação à política brasileira e o elegeu como forma de protesto, o que ainda é injustificável. Porque me nego a acreditar que chegamos a tal nível de alienação.
    Lamentável tudo que fomos obrigados a ver nessa eleição!

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  13. Eu também não me surpreendi, Jaime. Mas tenho medo do caos p'ronde a gente tá se encaminhando.

    Aqui, foi eleito com mais de 50 mil votos, Toinho do Sopão.
    Avalie.

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  14. Você já sabe a minha opinião...
    E não é muito diferente da sua.
    Mas uma coisa é certa: em você, eu voto.
    ;)
    Beijinho, meu anjo.

    P.S. Ontem foi show do Rush. :P

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