quarta-feira, julho 14, 2010

(breve) história da humanidade

Paul, o Polvo, destaque da Copa do Mundo 2010. Quando um polvo é destaque em uma Copa do Mundo, já dá para imaginar o que foi o nível do futebol... Clique na imagem para melhor visualização.

"Após entrarem na cidade, os peregrinos perseguiram e exterminaram os sarracenos até o Templo de Salomão[...] onde ocorreu um tal massacre que os nossos tinham de chapinhar em uma lagoa de sangue que lhes chegava até os tornozelos.[...] Logo os cruzados se espalharam por toda a cidade, pilhando ouro e prata, cavalos e mulas e saqueando todas as casas, que estavam cheias de riquezas. Depois disso, felizes e chorando de alegria, os nossos foram adorar no Santo Sepulcro do Nosso Salvador Jesus Cristo e tiveram quitada a sua dívida para com ele. "
História Anônima da Primeira Cruzada, 1099. Morrison, Cecile. Cruzadas. L&PM editora

Os espanhóis, com seus cavalos, suas espadas e lanças começaram a praticar crueldades estranhas; entravam nas vilas, burgos e aldeias, não poupando nem as crianças e os homens velhos, nem as mulheres grávidas e parturientes e lhes abriam o ventre e as faziam em pedaços como se estivessem golpeando cordeiros fechados em seu redil. Faziam apostas sobre quem, de um só golpe de espada, fenderia e abriria um homem pela metade, ou quem, mas habilmente e mais destramente, de um só golpe lhe cortaria a cabeça, ou ainda quem abriria melhor as entranhas de um homem de um só golpe. [...] ensinavam cães a fazer em pedaços um índio à primeira vista. Esses cães faziam grandes matanças.
Frei Bartolomé de Las Casas, Brevíssima Relação da Destruição das Índias Ocidentais: O Paraíso Destruído – a sangrenta história da conquista da América, 1552

Para tomarmos uma única casa lutamos quinze dias, lançando mão de morteiros, granadas, metralhadoras e baionetas. Já no terceiro dia, 54 cadáveres de soldados alemães estavam espalhados pelos porões, pelos patamares e pelas escadas. [...] as ruas já não se medem por metros, mas por cadáveres. Stalingrado já não é mais um cidade.
Alain Clark, Stalingrado- Século XX, 1942. Pedro, Antônio. Segunda Guerra Mundial. Editora da Unicamp

Os documentos revelam ser uma prática comum nos campos de concentração a remoção da pele de prisioneiros mortos para a confecção de bolsas, chinelos, luvas e cúpulas de abajur, entre outros artefatos. Cútis tatuadas têm especial valor nesse mercado. Quando não há mortos suficientes para atender à demanda, Rascher encomenda o corpo de 20 ou 30 prisioneiros sadios, que são alvejados no pescoço ou estrangulados para que a região do peito e das costas - as mais nobres para tal manufatura - não seja danificada.
VEJA na História – a 2ª Guerra Mundial.

A Polícia Civil de Minas Gerais pediu na manhã desta quinta-feira a prisão preventiva do ex-policial civil Marcos Aparecido dos Santos, conhecido como Bola, Paulista ou Neném, suspeito de ser o responsável pela morte e ocultação do corpo da estudante Eliza Samudio, ex-amante do goleiro do Flamengo, Bruno Souza.[...] De acordo com as investigações, a jovem teria sido estrangulada e esquartejada no local, e seus restos mortais comidos por cães.
Terra notícias. 08/07/2010.

Estão aí algumas das passagens que ilustram a trajetória humana em um período relativamente curto de sua história. É verdade que o mesmo ser humano que esquarteja o seu semelhante é capaz de salvar vidas com medicamentos, aparelhos e técnicas aprimorados ao longo dos anos; no entanto, o que perdura neste ser, como escreveu Camus, é o desejo de imperar sobre a sociedade através da violência – e não “basta” matar, é preciso humilhar, oprimir, enfraquecer os espíritos; Esse aspecto aparentemente contraditório do homem já é objeto de debates antigos: para Hobbes o ser humano é egoísta, desconfiado e vive em um estado de guerra permanente – lembre de suas aulas de filosofia na escola quando o professor estimulava discussões sobre a frase “o homem é o lobo do homem”; Rousseau acha que o homem naturalmente é bom, o problema é a sociedade que o corrompe.

Devaneios filosóficos à parte, quando nos referimos ao progresso, do que lembramos? Das conquistas espaciais, das técnicas medicinais, o triunfo dos meios de comunicação, informação, dos transportes reduzindo as distâncias e acabando com as fronteiras. Lembramos de várias facilidades disponíveis em nosso dia a dia com um simples aperto de botão. Sem dúvida houve progresso na técnica, nas máquinas que muitas vezes substituem o trabalho de dezenas, centenas de pessoas. Porém a essência do ser humano parece continuar a mesma de mil anos atrás. O que diferencia um cruzado medieval no século XI que esquartejava muçulmanos, um espanhol do século XVI que ateava fogo em índios vivos de um sujeito do moderno século XXI que esquarteja uma mulher e joga pedaços do corpo da vítima aos cães?

É um pensamento simplista e até ingênuo tudo o que foi escrito acima. Como é simplista e ingênua aquela música que fala em love, love, love o tempo todo e recomenda: all you need is love. Talvez esteja aí uma boa resposta, mesmo que seja cantada por um bando de hippies cabeludos.

Felizmente ainda existem os simplistas e os ingênuos – também chamados de idealistas.

Siga-me no twitter, se tiver a coragem: www.twitter/jaimeguimaraess

8 comentários:

  1. Essas histórias que envolvem as Cruzadas, me arrepiam toda vez que as leio. Mas comparando-as com todas outras horrendas histórias, vejo que não há tanta diferença. Tudo se trata de conquistas, riqueza e pura maldade humana.
    O homem é o único animal que mata e destrói o próximo e seu próprio habitat(isso sendo racional hein!) Se o poder corrompe o homem, esse mesmo não tem estrutura psicológica nenhuma para aguentar as pressões que tal poder exige.
    Por essas e por outras fico "PUTA DA VIDA" quando vem um desses religiosos moralistas e dizem: "O homem é a imagem e semelhança de Deus". PORRA! Como assim? Se Deus é como o homem prefiro sinceramente me manter bem longe dele.

    Parabéns Jaime! Texto que faz refletir!

    Beijinhos

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  2. E eram exatamente os idealistas que possibilitavam um equilíbrio entre o bem e o mal. Pelo menos mobilizavam corpos, corações e mentes. Eu também posso estar sendo ingênuo com esta proposição, mas o que fazer se eu também continuo um idealista? Perfeito, Jaime! (Eu ia botar mais uma lenhazinha citando uma parte daqui do nosso lado que está em A CONQUISTA DA AMÉRICA, de Todorov), onde ele relata o extermínio das civilizações astecas, incas, etc. Eles costumavam afiar facões nas pedras e testavam se estavam amolados nos pescoços dos nativos. Abraços, amigo! Paz e bem.

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  3. Sempre fui descrente quanto ao ser humano. Não dá pra ter orgulho de ser o que somos. Temos inteligência e sentimentos, e no entanto pendemos muito mais pra irracionalidade e crueldade.

    ADOREI o comentário do polvo,rs!

    Nunca li Clarah Averbuck, vc me recomenda algum livro? Amo ler!

    Acho que o álcool é o melhor amigo dos sofredores imaturos,rs!
    Hj em dia estou bem mais sossegada com ele, mas não como você.

    Um beijão e obrigada pela visita!

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  4. Muito bom! (Como sempre...) Você já leu um livro chamado "FUTURO PASSADO" de um historiador alemão chamado (ih! Vou pagar mico pois vou escrever errado...uff!) Reinhard Koselleg (ou seria Koselik?)... Well, se não leu, e descobrir o nome correto, pelo seu texto acho que vai A-MAR...
    Vou começar a visitar os amigos de novo, finalmente... (uff, de novo). Tinha colocado isso na agenda para sábado, mas sua visita foi tão gentil e profícua, que 'adiantei' a sua...rsrsrsrsrs BJS!

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  5. Olha, primeiro, elogiar é pouco! Texto muito bem construído, e os ganchos para falar da idéia central, sensacionais (e tudo começa com um piada sobre a Copa - genial).
    Minha opinião é de que na verdade o bicho homem é apenas mais um, dentre tantas espécies da natureza, e a diferença é que ele pensa (ou não, porque não é obrigado, apenas tem o dom, mas não tem que necessariamente usá-lo). Na grande maioria das espécies vivas, a relação de poder na sociedade é diretamente relacionada a exicionismo, exposição de força, de beleza, e claro, de violência. Nos animais selvagens que vivem em sociedade, o líder é sempre o mais forte, e em geral, essa liderança é disputa numa batalha sangrenta, até que o oponenente desista, ou morra. E o mais engraçado, é que assim todos o admiram, e o seguem! Não somos assim??? Admiradores do que tem poder??? No fundo todos nós somos sanguinários...

    Abração

    http://estacaoprimeiradosamba.blogspot.com/

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  6. Olá, professor!

    Por que rimos qndo vemos alguém cair? Talvez por certas reações ainda inexplicáveis serem da natureza humana (na vdd, eu ia responder com "somos estúpidos"). Somos cruéis, se não na brutalidade das agressões físicas, somos cruéis em outras coisas "menos pesadas". Acredito q cada um de nós tenha em si um lado bom e um lado mau, q fica mais ou menos evidente de acordo com a "construção do indivíduo" (se é q isso existe mesmo). Querendo ou não, somos moldados pelo ambiente q nos cerca (exceto aqueles q nasceram com capa protetora) e sempre temos algo, ou alguém, q nos influencia.
    O reconfortante é pensar q se a crueldade nunca parou, os que tentam e os q fazem o bem tbm continuam.

    Sua postagem me deu uma votade enorme de ler a tal da Historia Anônima da Primeira Cruzada, mas nem titio Google, nem titia Estante Virtual foram capazes de me indicar onde encontrar tal moço pra comprar ou baixar. Pena.

    Bjohnny!

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  7. Grande Jaime, é isso mesmo....

    Sempre acreditei em fazer "massa crítica"...mas parece que não temos mais jeito mesmo...

    Parece que a humanidade é mesmo inviável...

    Ou então evolui muito lentamente para nossa ansiedade !!!

    Enfim...perseveremos e oremos !

    Abraço

    Danielbyk

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  8. Oi, tudo bem?
    Minha primeira vez no blog e GOSTEI muito daqui. Parabéns.
    Achei muito inteligente o modo como você foi encadeando os acontecimentos e começando tudo a partir de uma charge.
    Infelizmente, essa é a realidade do ser humano. Como a Silvana disse todo homem tem um "lado" bom e um "lado" ruim.
    Mas o meu grande questionamento é: Por que na maioria das pessoas o "lado ruim" prevalece?
    Você está certo quando diz que se precisa de amor. Amor próprio bastava para nenhuma crueldade acontecer, uma vez que se pensasse "será que eu gostaria que alguém fizesse isso a mim ou a minha família". Essa tal pessoa não cometeria um ato mau.
    Às vezes paro e penso e não consigo conceber de onde pode vir tanta coisa ruim. E realmente me pergunto onde a humanidade vai parar desse jeito.
    Abraço,
    Vanessa Sagossi,
    comentandoofilme.blogspot.com

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