sábado, maio 15, 2010

As desventuras de Pandiá Jr. nos consultórios médicos


(clique na charge caso queira enxergar melhor esses traços toscos)

Enquanto Pandiá Jr., confortavelmente instalado em sua poltrona, pensava pela ducentésima vigésima terceira vez sobre as origens do seu nome e coçava o umbigo, percebeu que uma estranha e fedorenta secreção escorria justamente por ali, pelo umbigo.

“Que coisa nojenta, deve ser sujeira e suor”, imaginou Pandiá e foi logo tomar um banho. Lavou e enxugou o umbigo cuidadosamente e tratou de esquecer a situação. Mais tarde lembrou-se do umbigo e lá estava novamente a secreção. E o fedor. Preocupado, Pandiá recorreu ao oráculo moderno da internet, São Google.

E tanto fuçou que encontrou fóruns em que algumas pessoas relatavam a mesma secreção no umbigo como uma simples infecção. Uma dessas pessoas aconselhava o seguinte: “lavem a área com água e sabão, sequem com cuidado e depois passem uma pomadinha, a POMADACLIN* que rapidinho melhora”.

O nosso Pandiá ficou mais tranquilo ao saber que provavelmente se tratava de uma infecção: “Isso passa, é só manter a higiene”, pensou. Não usou pomada, gaze ou borra de café ( certamente sua avó aconselharia esse método), mas depois do 3º dia em que, ao invés de secreção, começou a escorrer sangue, decidiu procurar um médico.

Pandiá faz parte do seletíssimo grupo de brasileiros que possui algum plano ou convênio médico - mas não escapa do SUSto que as mensalidades proporcionam em seu mirrado salário; então poderia procurar médico em uma clínica particular, que daria mais atenção ao caso e sem grande demora.

Chegou à primeira clínica e perguntou se havia algum médico disponível naquele horário, por volta das 13 horas. A recepcionista – por quem Pandiá se encantou pelos lindos olhos verdes – disse que o clínico geral só chegaria por volta de 14 horas e que já havia 10 pessoas aguardando.

“Puxa, esse médico deve ser bom mesmo, mas não dá pra esperar tanto tempo assim”, pensou Pandiá e assim dirigiu-se a outra clínica, maior e mais afamada. Chegando ao local não deixou de reparar no excelente atendimento:
- Olá, boa tarde, moça.
- Quié?
- Hã...tem clínico para pronto-atendimento?
- Identidade e carteirinha do convênio. Aguarde.

Pandiá gostou da perspicácia da recepcionista. Olhou para o relógio: 13:35. A sala da recepção estava lotada. “Quanta gente doente, acho que esse negócio de clínica dá dinheiro”, pensou. Sem grandes distrações, só restava mesmo assistir a TV que começava a exibir um programa de fofocas de novelas e artistas famosos e Pandiá se questionava o porquê de todas as clínicas e consultórios sintonizarem apenas aquele canal.

15:55 – finalmente, Pandiá é chamado, depois de reclamar umas 3 vezes junto à recepção. Ao entrar no consultório da doutora Angelusca Paixão reparou que a médica estava sentada e um tanto ocupada com o computador. Sem querer atrapalhar, Pandiá ficou ali parado, em pé, diante da médica, que foi logo perguntando:

- Boa tarde, senhor Pandiá, em que posso ajudá-lo?
- Boa tarde, doutora. Bem, está saindo uma secreção mal cheirosa do meu umbigo e...
- Dói? Você futucou esses dias?
- Não, não dói, e andei mexendo, mas nada profundo e...
- Tome, leve essa requisição na enfermaria. Procure por Dorminildes para ela fazer um curativo.
- É só isso, doutora?
- Só. Depois retorne aqui.

E foi assim, depois de aguardar mais de duas horas para ser atendido, a médica gasta 1 minuto do seu precioso tempo com o paciente. Pandiá, ainda surpreso com a espantosa rapidez da consulta, foi à enfermaria procurar por Dorminildes, que não estava em seu setor. Mais uns 20 minutos de espera e surge a enfermeira:
- Quié?
- Curativo, enfermeira. Aqui está a requisição.
- Entre aí, vá.

Entrou numa salinha e esperou mais alguns minutos. Até que finalmente a enfermeira fez a limpeza no umbigo, passou uma pomada e fez curativo. Deixou a recomendação: “volte daqui a dois dias para retirar o curativo e fazer a limpeza”.

Pandiá agradeceu e foi procurar a médica novamente. Mais um tempinho de espera e foi chamado. A doutora continuava sentada e ocupada com o seu computador e Pandiá resolve se pronunciar, sem jeito:
- Doutora, já foi feito o curativo...
- Tome essa receita e procure o dr. Pangloss, que é cirurgião.
- Cirurgião? Epa, o que é isso, doutora? A senhora sequer olhou meu umbigo! Afinal, o que é essa secreção?
- É o dr. Pangloss que vai dizer. Boa tarde.

Embora agradecido por mais uma vez a doutora dedicar 1 minuto de sua atenção ao paciente, Pandiá ficou preocupado:“Cirurgião? Meu Deus, o que será isso? Será que o umbigo tá furado? Algum tumor?”. Olhou para o relógio e viu que já era quase 17 horas. Perdera uma tarde inteira de trabalho e pegou um atestado de comparecimento. E nem podia reclamar: graças ao convênio, foi atendido no dia e não daqui a 3 meses, como acontece no SUS.

Dois dias depois, com o curativo intacto, Pandiá retornou à clínica e procurou pela enfermeira Dorminildes, desta vez pela manhã. Pra variar, a enfermeira não estava em seu posto e esperou por meia hora até que Dorminildes aparecesse e conferisse as todas as fichas à sua espera. E nisso mais uns 20 minutos até Pandiá ser chamado para retirar o curativo. Parece que a secreção parou um pouco, mas mesmo assim precisava ver o dr. Pangloss.

Que só atendia à tarde. E lá foi o nosso Pandiá para a consulta com o dr. Pangloss. A marcação de consultas afirmou que só havia horários disponíveis após 2 semanas, mas Pandiá usou todo o seu charme (!) e simpatia (!!) para convencer a clínica a aceitá-lo como “paciente extra”. Desta vez o nosso paciente não podia reclamar: só depois de atender a todos os pacientes com hora marcada, o dr. Pangloss atenderia os “pacientes extras”, sem previsão de horário.

Enfim, por volta das 16 horas – Pandiá chegou à clínica 13 horas – foi chamado ao consultório do dr. Pangloss, que estava muito ocupado rabiscando uns papéis:

- Boa tarde, senhor Pandiá, qual é o problema?
- Boa tarde, doutor. É uma secreção no umbigo, doutor, que está me incomodando há quase 1 semana e...
- Dói?
- Não, não tem dor nenhuma, mas já saiu sangue e...
- Fez o curativo e a outra médica receitou um anti-inflamatório.
- É, isso. O que está acontecendo, doutor? Qual a origem desta secreção?

O dr. Pangloss não respondeu e assinou uma série de requerimentos de exames:

- Vou pedir exame de sangue, fezes, urina, raio-X do tórax, ultrassonografia do abdome, endoscopia e um eletrocardiograma. Faça isso e volte aqui quando os exames estiverem prontos.
- Doutor, mas para que tantos exames? E até lá, o que faço com o umbigo?
- Lave bem com água e sabão, apenas isso, por enquanto. Boa tarde. Se quiser atestado, pegue na recepção.

Pandiá achou o médico muito bom, afinal este gastou 2 minutos preciosos de uma só vez. Mas e todos aqueles exames? O jeito era fazer. Mas isso demoraria pelo menos uns 15 dias. Felizmente o convênio cobria todos esses procedimentos. “Nessas horas é que damos valor a um convênio médico”, pensava o nosso paciente.

Foi uma verdadeira maratona para o Pandiá realizar todos esses exames. Vamos poupar os leitores desta narrativa repleta de filas, horários, recepções lotadas e o mesmo canal de TV de sempre – e sem falar nas burocracias - para finalmente concluirmos essa história.

Pois bem, após 20 dias, Pandiá retornou ao consultório do dr.Pangloss, desta vez com horário marcado e isso foi muito bom, pois a espera foi de apenas 1 hora. Convém dizer que a secreção no umbigo já não existia mais, porém Pandiá queria saber se era alguma coisa mais grave.
- Boa tarde, doutor.
- Boa. Senhor Pandiá...deixe-me ver o prontuário. Aqui. Trouxe os exames?

Pandiá despejou sobre a mesa do médico uma montanha de envelopes com exames de todos os tipos. O doutor Pangloss abria os envelopes – com todos aqueles ruídos – e só balbuciava “huuummm”. E assim fez com todos os exames até que Pandiá, ansioso, perguntou:

- E aí, doutor, tá tudo bem?
- Seu nível de glicemia está baixo.
- E meu umbigo, doutor?
- Está lá embaixo também, hehehehe.

Um médico piadista era tudo o que Pandiá precisava. Sem demonstrar bom humor, o paciente usou voz firme:

- Estou falando da secreção, doutor. O que era aquilo?
- Parou?
- Parou.
- Os seus exames estão OK. Deve ter sido uma infecção, só isso.
- “Deve”, doutor?
- Sim, é comum surgirem infecções no umbigo devido à umidade.
- E o sangue, doutor?
- Da infecção. Nada mais.
- Sei...então, é só isso.
- Só. Vou passar uma medicação pra não ter mais problemas. Aqui: lave bem o umbigo com água e sabão, seque cuidadosamente e depois aplique essa pomada, a POMADACLIN. Prontinho. Boa tarde, sr. Pandiá.

O nosso Pandiá saiu do consultório bastante confuso. Na próxima vez em que apresentar algum problema de saúde, não vai procurar o Dr. Pangloss, a dra. Angelusca Paixão ou a Dorminildes: vai procurar São Google**. A consulta é rápida, não precisa de convênio, a TV fica desligada e ainda pode dar uma olhadinha no orkut ou MSN com tranquilidade. Aliás, Pandiá poderia ter adicionado a dra. Angelusca Paixão no orkut: qualquer dorzinha bastava enviar um recadinho...

==========
* evidente que este nome – pomadaclin – não existe( ao menos nunca vi).
** apesar deste texto conter algumas críticas sobre alguns procedimentos médicos, em caso de doença procure sempre o médico, não se automedique. E nem confie cegamente nas informações que encontra na internet.


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13 comentários:

  1. É sensação minha ou isso aí é baseado em fatos reais?

    Eu já tive uma infeccção no umbigo... coisa de gordo - ex-gordo, aliás - que tem umbigo fundo. Uahhahahaha!!!

    Há alguns anos atrás fui à uma médica - não por causa do umbigo, mas pra fazer uma consulta de rotina - e a mulher sequer me "ralou" a mão. Passou x exames e pediu que voltasse quando estivessem prontos. Assim foi feito. Na volta, ela abriu um a um, fez cara de paisagem e pediu pra eu "fazer muito amor". O melhor remédio era "fazer amor"...

    Uahahhahahahahhahaa!!!

    Vai ver por isso que eu ando me resfriando tanto ultimamente...

    =(

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  2. *** Eu acrescentei um terceiro asterisco para dizer que apesar de suas recomendações para procurar um médico, eu não deixo de ir ao Dr google ou São google. Rapaz, antes o serviço médico público era ruim. Agora, nem pagando caro a coisa tem resolvido. E os médicos cada dias com mais impessoalidade e indiferença com as pessoas. O último cardiologista para quem dei cartão vermelho, só me cumprimentava assim (todos os meses): qual é mesmo o nome do seu plano? Apesar da minha lamúria, a crônica ficou bastante divertida. Abraço grande. Paz e bem.

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  3. Coitado do Pandiá, tá parecendo eu indo aos médicos... se eu dependesse de diagnóstico deles já estaria sem útero, sem cérebro, tinha morrido se tivesse alergia à penicilina e provavelmente teria feito transplante de coração... é..

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  4. O mais engraçado de tudo é a sua preocupação em informar os leitores do perigo da automedicação.
    :P
    E, tá tudo certinho.
    É exatamente assim que acontece.

    Beijo e saudade, viu?

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  5. Olá Jaime,

    Saudades de comentar aqui em seu blog. Embora nem sempre deixe registrado meus "pitacos", sempre leio suas crônicas. Sou fã né? Fazer o q? (risos).
    Você fez uma ótima observação! Os médicos hoje em dia prestam um atendimento, diria que não ruim mas, um pouco desumano. Que saudades dos doutores de antigamente. Entrávamos em um consultório e tínhamos um atendimento digno. Eles eram especialistas em diagnosticar. Ouvia nossas queixas, fazia perguntas para tentar identificar nosso problema, examinava cuidadosamente nosso corpo e acalmava o indivíduo mais afoito e preocupado.
    Hoje em dia todo mundo tem pressa né? E eles também. Talvez tenham uma meta ou trabalhem sobre constante pressão...atender o maior número de pacientes, em um tempo reduzido.
    Sem generalizar mas, alguns médicos poderiam atender via internet. Você entra em um chat, descreve os sintomas e ele receita o medicamento, já pede uma bateria de exames ou então já te encaminha para um internação. Seria mais prático, digamos, para ambas as partes!
    Parabéns pela abordagem do tema. Como sempre polêmico e útil à sociedade.
    Beijosss, Fernanda
    pautajornalistica.blogspot.com

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  6. É Jaime... Onde foi parar a gentileza das pessoas? A dedicação de um profissional seja lá qual for a área que esse profissional atua (ainda mais um médico!)Pior é que não tem para onde correr, é publico ou particular o relacionamento médico/paciente e sempre de descaso!

    Agora Pandiá Jr = Jaime? Será?

    Beijinhos

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  7. Ótimo texto, bem real, ao invés da POMADACLIN, o pessoal vai mesmo de Benzetacil, isso quando consegue fazer exames e passar por médicos

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  8. Eu trabalho num convênio médico com atendimento de clínicos também.
    Posso dizer que parece que você andou espionando meu ambiente de trabalho,rs!
    É um descaso absurrrdoo!!!
    Sem contar qdo o plano descredencia clínicas e as pessoas depois d esperarem um mês p/ fazerem um exame dão com o nariz na porta, não avisados do descredenciamento.
    Dá pena. MUITA PENA.
    Até eu já me ferrei pq é tb meu plano de saúde, rs!

    (Só pra constar, sou a Adriana, Alina, logada num blog experimental que vc está convidado a ler. É em caráter terapêutico. Você gostaria de conhecer minha vida? Está convidado tá? Beijos!)

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  9. Olá meu jovem professor!

    To de volta depois de um período afastada. Aos poucos vou retomando o contato com os amigos e atualizando a leitura dos textos.

    Bem, este aqui está muito legal. Ficou super bacana a forma descontraída que vc encontrou para falar de um assunto sério.

    Eu mesma ja passei por essa situação uma infinidade de vezes. O pior Jaime é constatar que seja pelo SUS ou pelo plano de saúde (que álias são caríssimos em nosso país), o descaso e a falta de cuidados para com os paciente é o mesma. Da tristeza e dor, pois na hora em que mais precisamos, afinal estamos frágeis e carentes, somos tratados como mero objetos, sendo jogados de um lado para outro como ioios.

    Uma vergonha mesmo.

    Meu querido, assim que puder vou ler alguns de seus textos. Daqui para frente, manterei a leitura do seu blog atualizada, pois gosto demais da forma como vc passa o seu recado.

    Um beijinho e boa sorte no "concurso Top Blog".

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  10. A saúde anda uma doença só... Se o tema te interessa, recomendo o livro do Gadamer, filósofo que fez palestras sobre ética para médicos tão boas que viraram livro; o nome quederam aqui é 'podre': "o lado oculto da Saúde" (dá a impressão que é coisa de auto-ajuda, e passa loooooooonge disso...). Descobri que os jovens médicos chamam seus pacientes pobres de 'PINDAS'. Fiquei num indignação tão grande que você nem faz idéia... A gente parece que anda prá trás, mesmo... AH! Aproveitei e votei em você, ok? Vê se vota em mim também!rsrsrsrs BJS!

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  11. Nunca vi tanta realidade em um post só! rsrs

    Daqui a pouco vamos ter que pedir desculpas por incomodar!

    ;)

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  12. Onde você arrumou este nome ? "Pandiá" ?

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