segunda-feira, fevereiro 08, 2010

Vai restar índio no Brasil, cara-pálida?

Qual é a pior parte da espera em um consultório médico? A demora no atendimento – e daí se eu pago um plano de saúde? Sou privilegiado: poderia estar no SUSto, né? – ou as formas de passar o tempo, se dividindo entre a programação da Globo ( por que os consultórios só deixam sintonizados na vênus platinada?) e as velhas revistas CACAS espalhadas pela mesinha? O melhor mesmo é levar seu livrinho de bolso ou se divertir com joguinhos de celular.

Mas em uma dessas longas esperas na última semana, encontrei uma revista semanal de 2003 – com umas páginas a menos, claro – e que trazia uma reportagem bem interessante sobre os índios Avá-Canoeiros, que se estabeleceram na região do Tocantins e hoje restam apenas 6 representantes da etnia.

Anotei o nome deste grupo indígena para não esquecer e mais tarde fui perguntar a este maravilhoso oráculo moderno, São Google, o que ele poderia me fornecer de informações sobre esses índios. Encontrei boas referências no Overmundo e no site da revista ISTOE. E fiquei sabendo - além da cultura e da história deste grupo - as causas que levaram um grupo com cerca de 150 índios no final da década de 60 ser reduzido aos hoje 6 bravos remanescentes já citados.

É (foi) um povo em constante fuga. Primeiro da ação de garimpeiros, fazendeiros e invasores em suas terras ao longo dos anos – veja o depoimento do índio Trumak, em que ele conta um pouco da história do massacre contra a tribo ocorrido no final da década de 60, do qual não pouparam nem mulheres grávidas e nem crianças. E também progresso: a construção da usina hidrelétrica Serra da Mesa fez com que os remanescentes Avá se mudassem. De novo.

Coincidentemente – ou não, já que isso vem acontecendo em Pindorama nos últimos 500 anos – leio a notícia de que o IBAMA concedeu licença para a construção da usina hidrelétrica de Belo Monte, no Xingu (PA). Os índios, claro, não gostaram nem um pouco dessa história e já ameaçam até mesmo “pegar em armas” para defender a região que será alagada por conta da obra – trata-se de um projeto ainda da década de 80, de grande porte, o que preocupa a alguns especialistas que tem a mesma opinião dos índios: o impacto sobre a biodiversidade e grupos indígenas que vivem na região.

Não se trata aqui de ser contra ou favorável ao desenvolvimento, até porque muitas tribos indígenas tiram proveito de algumas maravilhas do progresso; necessário é haver estudos detalhados e cuidadosos que privilegiem o desenvolvimento sustentável sem grandes agressões ao meio ambiente e às tradições indígenas. (leia-se "desastre ecológico".) O que não pode é um burocrata do governo, como o ministro das Minas e Energias, Edison Lobão, querer resolver tudo de uma vez e alegar que as dificuldades para se conseguir as licenças ambientais são decorrentes de “força demoníaca”.

Não são forças demoníacas, ministro. Quem sabe não seja a intervenção de Tupã, penalizado com o destino de seus filhos tentando dar uma forcinha para as tribos que ainda restam? Os Avá-Canoeiros e sua meia dúzia de remanescentes estão aí como exemplo de como o “desenvolvimento” desordenado pode dizimar um povo. Se bem que para muita gente, "índio só serve pra atrapalhar o desenvolvimento".

NÃO RESISTI
Não tenho absolutamente nada contra o São Paulo FC e tampouco contra o goleiro Rogério Ceni, mas não tive como dar boas risadas na cobrança de pênalti do moleque Neymar, 18 anos, do SantosFC. Roxério Cênico ( porque adora se aparecer, a despeito de sua boa técnica) terá sérios problemas com a coluna esta semana, além de ter dificuldades com a leitura, pois tende a embaralhar as letras – cortesia do Robinho. Futebol é isso aí, diversão, técnica, malícia.Vai aí uma charge. Ah, e quem não viu o gol, veja aqui.

Siga-me no twitter: www.twitter.com/jaimeguimaraess

13 comentários:

  1. Jaime, Li a conquista da América de Tzvetan Todorov e nele há o mais completo relato de extermínio de nossos ancestrais que já pude acompanhar na literatura. É comparável, em termos de genocídio por aqui ao livro Genocídio Americano-A Guerra do Paraguai, outro livro primoroso sobre extermínios na América Latina. Há uma música muito linda de MIlton Nascimento homenageando os Avá Canoeiro. Bom tudo isso são ilustrações, a história mesmo é só crueldade. Muito bomo seu alerta crônico. Meu abraço. Paz e bem.

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  2. Cacá, eu já li "Paraíso Destruído", do Frei Bartolomé de Las Casas, que também trata das crueldades cometidas pelos colonizadores quando chegaram aqui na América, contribuindo para o extermínio dos nativos. Boa sua indicação literária, vou procurar saber mais! Valeu, um abraço, logo vou ao seu blog!

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  3. O ser humano a cada dia, a cada época está se tornando cada vez mais individualista, só pensa no seu próprio bem de consumo e dana-se o resto da humanidade. O exemplo maior é o nosso governo que faz o mínimo por estes grupos e a cada ano permite que o ambiente onde eles vivem seja destruído (as florestas e reservas)

    Abraços

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  4. Ah, Jaime... É muito triste tudo isso. Imagina só! Os índios é quem são os verdadeiros e autênticos brasileiros, e não podem sequer seguir com suas vidas, com sua cultura e suas tradições num lugar que é deles por direito. Até onde pode chegar a ambição das pessoas? É muita maldade.

    Abraços e boa semana!

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  5. DENÚNCIA: SÍTIO CALDEIRÃO, O ARAGUAIA DO CEARÁ – UMA HISTÓRIA QUE NINGUÉM CONHECE PORQUE JAMAIS FOI CONTADA...




    "As Vítimas do Massacre do Sítio Caldeirão
    têm direito inalienável à Verdade, Memória,
    História e Justiça!" Otoniel Ajala Dourado




    O MASSACRE APAGADO DOS LIVROS DE HISTÓRIA


    No município de CRATO, interior do CEARÁ, BRASIL, houve um crime idêntico ao do “Araguaia”, foi o MASSACRE praticado por forças do Exército e da Polícia Militar do Ceará em 10.05.1937, contra a comunidade de camponeses católicos do Sítio da Santa Cruz do Deserto ou Sítio Caldeirão, que tinha como líder religioso o beato "JOSÉ LOURENÇO", paraibano de Pilões de Dentro, seguidor do padre Cícero Romão Batista, encarados como “socialistas periculosos”.



    O CRIME DE LESA HUMANIDADE


    O crime iniciou-se com um bombardeio aéreo, e depois, no solo, os militares usando armas diversas, como metralhadoras, fuzis, revólveres, pistolas, facas e facões, assassinaram na “MATA CAVALOS”, SERRA DO CRUZEIRO, mulheres, crianças, adolescentes, idosos, doentes e todo o ser vivo que estivesse ao alcance de suas armas, agindo como juízes e algozes. Meses após, JOSÉ GERALDO DA CRUZ, ex-prefeito de Juazeiro do Norte, encontrou num local da Chapada do Araripe, 16 crânios de crianças.


    A AÇÃO CIVIL PÚBLICA AJUIZADA PELA SOS DIREITOS HUMANOS


    Como o crime praticado pelo Exército e pela Polícia Militar do Ceará É de LESA HUMANIDADE / GENOCÍDIO é IMPRESCRITÍVEL pela legislação brasileira e pelos Acordos e Convenções internacionais, por isto a SOS - DIREITOS HUMANOS, ONG com sede em Fortaleza - CE, ajuizou em 2008 uma Ação Civil Pública na Justiça Federal contra a União Federal e o Estado do Ceará, requerendo que: a) seja informada a localização da COVA COLETIVA, b) sejam os restos mortais exumados e identificados através de DNA e enterrados com dignidade, c) os documentos do massacre sejam liberados para o público e o crime seja incluído nos livros de história, d) os descendentes das vítimas e sobreviventes sejam indenizados no valor de R$500 mil reais, e) outros pedidos



    A EXTINÇÃO SEM JULGAMENTO DE MÉRITO DA AÇÃO


    A Ação Civil Pública foi distribuída para o Juiz substituto da 1ª Vara Federal em Fortaleza/CE e depois, redistribuída para a 16ª Vara Federal em Juazeiro do Norte/CE, e lá foi extinta sem julgamento do mérito em 16.09.2009.



    AS RAZÕES DO RECURSO DA SOS DIREITOS HUMANOS PERANTE O TRF5


    A SOS DIREITOS HUMANOS apelou para o Tribunal Regional da 5ª Região em Recife/PE, argumentando que: a) não há prescrição porque o massacre do Sítio Caldeirão é um crime de LESA HUMANIDADE, b) os restos mortais das vítimas do Sítio Caldeirão não desapareceram da Chapada do Araripe a exemplo da família do CZAR ROMANOV, que foi morta no ano de 1918 e a ossada encontrada nos anos de 1991 e 2007;



    A SOS DIREITOS HUMANOS DENUNCIA O BRASIL PERANTE A OEA


    A SOS DIREITOS HUMANOS, igualmente aos familiares das vítimas da GUERRILHA DO ARAGUAIA, denunciou no ano de 2009, o governo brasileiro na Organização dos Estados Americanos – OEA, pelo desaparecimento forçado de 1000 pessoas do Sítio Caldeirão.


    QUEM PODE ENCONTRAR A COVA COLETIVA


    A “URCA” e a “UFC” com seu RADAR DE PENETRAÇÃO NO SOLO (GPR) podem encontrar a cova coletiva, e por que não a procuram? Serão os fósseis de peixes procurados no "Geopark Araripe" mais importantes que os restos mortais das vítimas do SÍTIO CALDEIRÃO?



    A COMISSÃO DA VERDADE


    A SOS DIREITOS HUMANOS busca apoio técnico para encontrar a COVA COLETIVA, e pede que o internauta divulgue esta notícia em seu blog, e a envie para seus representantes no legislativo, solicitando um pronunciamento exigindo do Governo Federal Brasileiro que informe o local da COVA COLETIVA das vítimas do Sítio Caldeirão.



    Paz e Solidariedade,



    Dr. OTONIEL AJALA DOURADO
    OAB/CE 9288 – 55 85 8613.1197
    Presidente da SOS - DIREITOS HUMANOS
    Membro da CDAA da OAB/CE
    www.sosdireitoshumanos.org.br

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  6. Sinceramente, eu acho que teremos no Brasil uma extinção gradual da cultura indígena, naão especificamente dos índios. Eles ainda restarão pois não há mais o assassínio continuado deles, e seus números só vem aumentando pelo que fiquei sabendo em pesquisa recente. O que vai extinguir pouco a pouco é a cultura. Atualmente os índios que já tiveram contato com os brancos estão usando cada vez mais camisetas, bonés, falando português, o que descaracteriza o ser índio mas que não necessariamente fará com que eles sejem mesmo extintos.

    Sempre intelegiente, continue assim!

    Abraço,

    ahhh, e obrigado por me parabenizar no blog.. :D

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  7. Um Brasil tão grande, tão rico... E mesquinho! Quem manda nessa porra infelizmente é o dinheiro. Ninguém quer saber de preservar coisa alguma a não ser claro que isso gere algum lucro... Os índios verdadeiros "donos" dessa terra esmolam pelo direito de ter seu pedaço de chão.
    Lamentável isso!
    Abraços!

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  8. Eu acho esse tema de demarcação de terras indígenas uma coisa delicada por ser muito fundada em uma "dívida moral" do homem branco com o índio. Eles já estavam aqui antes dos portugueses então merecem ter o espaço deles respeitado.

    É aquela tradicional briga de interesses onde a corda sempre arrebenta pro lado mais fraco (neste caso, os índios). Isso faz com que os índios estejam sumindo do mapa e perdendo os seus direitos. Mas também não é só por isso, muitos abandonam as aldeias para curtir os prazeres da vida fora da aldeia e todo o seu conforto... Enfim...

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  9. todo dia era dia de índio, mas agora ele só tem uma reserva pra vender pros gringos, um agente da Funai pra sequestrar, uns diamantezinhos aqui outros ali... oops!
    suponho que desde que o Brasil é Brasil, os povos indígenas são tratados como se fossem uma segunda classe. e ninguém reclama pq quem mesmo dá alguma coisa para que não morra um último resto de cultura indígena? vamos é incorporando os belos hábitos dos povos do hemisfério norte (que destruíram suas florestas, diga-se de passagem). antes de qq coisa vem o tal do "progresso", sem ordem por base, e em nome dele tudo é feito.
    vamos catequisar os índios e expulsar as religiões pagãs dessa terra, e se as tribos foram dizimadas... bom, se as tribos foram dizimadas tudo bem, eles não tem alma mesmo. no fim topamos tudo por dinheiro, todos nós.

    [/ironic]

    desculpe por não comentar com a devida seriedade.

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  10. "...necessário é haver estudos detalhados e cuidadosos que privilegiem o desenvolvimento sustentável sem grandes agressões ao meio ambiente e às tradições indígenas."

    Concordo plenamente. Desenvolvimento pode, sim, andar de mãos dadas com o bom senso e respeito ao meio ambiente e ao povo indígena.

    O que muitos não entendem é que o índio também é gente, e possui os mesmos direitos ( ou mais )que nós, os caras-pálida.

    Ignorância e ganância realmente são capazes de destruir uma nação.

    Beijo, Jaime.

    Bruna de Sousa

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  11. Este comentário foi removido pelo autor.

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  12. Como sempre, o desejo de progresso ultrapassa os limites éticos e atropela a vida e os costumes de um povo há 500 anos massacrado.

    Lamentável que em pleno século XXI ainda temos que ouvir uma declaração como essa do sr ministro Edilson Lobão... lamentável mesmo...

    Abçs!!

    http://blogpontotres.blogspot.com/

    BLOG PONTO TRÊS: 1 ANO!!!

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  13. no FSM desse ano, e o do ano pssado, tava com força omovimento cntra a construçaod da usina de belo monte. ja ta em discussão....so resta ter eficacia.

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