sábado, março 01, 2008

Uma história...dentre tantas outras.

Caos em Salvador: deslizamento, alagamentos e falta de luz devido a temporal

A forte chuva que atingiu Salvador provocou 78 ocorrências, entre deslizamentos de terra, desabamento de imóveis, quedas de muro e alagamento de pistas, segundo informações da Coordenadoria de Defesa Civil (Codesal). Os registros foram feitos da meia-noite às 7 horas desta sexta-feira, 29.

A chuva era cada vez mais intensa lá fora e a água já invadia o casebre de Joílton, que lutava, armado de frágil rodo e dois baldes e juntamente com a esposa, Marilene, contra a fúria da tempestade que trazia também lama e sujeira para dentro de casa.

O pequeno muro que separava a sua casa e a do vizinho já caíra; O telhado de eternit resistiria por quanto tempo mais? Havia diversas goterias dentro de casa e o barulho era ensurdecedor. Gritos de vizinhos, choro de bebês, a chuva torrencial. Todos tentavam de alguma forma salvar seus bens. A água e a lama já estavam em nível elevado, quase à altura dos joelhos das pessoas. Um convite para doenças de todos os tipos.

Moradores do Alto do Cabrito, Bonocô, Estrada da Rainha e Pernambués organizaram diversos protestos na manhã desta sexta-feira, 29, em Salvador, por conta dos alagamentos causados pela chuva que caiu desde o início da noite de quinta na cidade. Na Avenida Paralela, a comunidade da Travessa 1º de Maio, na Rua Nova do Vale, em Pernambués bloqueou o acesso de veículos na Avenida Paralela, na manhã desta sexta-feira, 29. Utilizando sofás, estantes, cômodas e outros móveis destruídos pela chuva que caiu durante a madrugada, os manifestantes cobraram uma solução da prefeitura para a situação no local.

Joílton e Marilene estão casados há apenas 4 meses. Ele, porteiro de um edifício localizado na área nobre de Salvador, ganha pouco mais que um salário mínimo; Marilene é doméstica, também em edifício na parte nobre da cidade. Recebe um salário mínimo por mês, mas não tem carteira assinada – o acordo com a patroa é feito “de boca”.

Os móveis recém-adquiridos do casal foram quase todos destruídos. Deu para salvar uma televisão e um rádio. O sofá e a estante da sala se perderam, assim como a geladeira; Mas o pequeno fogão conseguiram manter intacto, sabe-se lá como. Ao menos não perderam muitas roupas e nem documentos importantes – inclusive o carnê das prestações que faltam para quitar as dívidas da compra do sofá, da estante, da geladeira...

O presidente da Associação de Moradores do bairro confirma que a tragédia já era anunciada. Ele contou que já havia feito, desde 2003, diversas solicitações à Superintendência de Manutenção e Conservação da Cidade (Sumac), a fim de resolver os problemas do local mas todas em vão. “Levamos abaixo-assinado, protocolo e até acionamos o Ministério Público. Nosso último recurso foi ir a uma emissora de TV reclamar”.

Joílton estava presente no protesto. Ligou para a empresa que fornece mão de obra para condomínios e explicou a situação; o patrão foi compreensível e destacou outro porteiro para o edifício. O rapaz estava revoltado, não com a natureza – e entendia que muitos vizinhos também jogavam garrafas plásticas e todo o tipo de lixo nas ruas e canais - e sim com o descaso dos governantes, que aparecerão este ano em sua rua, pois é ano eleitoral. “Só querem saber de voto, depois somem”.

Marilene queria ficar em casa para tentar organizar a vida e o que sobrou de bens depois do temporal. A patroa não permitiu. Exigiu a presença da empregada no apartamento.

O problema de alagamentos já era antigo no local e se agravou após a construção do Shopping Salvador. “A prefeitura não fez nada aqui no bairro após a construção do shopping, o canal ficou mais estreito e nunca mais fizeram a limpeza do córrego”.

Marilene ouvia a patroa falar maravilhas do Salvador Shopping. Que era um shopping moderno, limpo, de “gente bonita” e cheio de lojas de grife. “Finalmente Salvador tem um shopping de classe e chique, como em São Paulo”, dizia a patroa.

Apesar do shopping ficar do outro lado da pista e ter uma passarela para chegar até lá, Marilene nunca pisou os pés neste shopping. De tanto ouvir a patroa falar, até queria conhecer a “boniteza” do lugar.

Mas mudou de idéia quando chegou no luxuoso apartamento atrasada para o trabalho ( o trânsito da cidade ainda estava caótico pela manhã) e ainda foi advertida pela patroa, que parece não ter tomado muito conhecimento do que aconteceu durante a madrugada:

- É mesmo, minha filha? Que coisa. Ah, e aí, já terminou de preparar o almoço? Faça alguma coisa diferente hoje, viu? Um tempero a mais, uma comida alegre.

Marilene olhou o mundo exterior por uma janelinha na dependência. Ao menos o céu estava limpo, o sol brilhando e não havia previsão de mais chuva.

E teve a impressão de ter visto um pombo branco cruzando o céu com um ramo de oliveira no bico.

9 comentários:

  1. pow, minha mãe é evangélica, acho que ela tem razão: - Ofim está proximo e ninguém tá se dando REAL conta... oO

    Ah!!!
    otima forma de fechar o texto...hehehehehe

    Abraço!

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  2. meu pc é meio lerdim demorei a comentar aqui, então só vi seu comentario no meu blog agora^^
    Valew mesmo pela visita^^

    E: sim, ainda não li o livro mas já li criticas e comentários, dizem que a história infantil é interessante, mas o livro sim é o climax.^^
    mas gosto disso que a disney faz, na infancia a criança se interessa pela história devido sua beleza...
    mas, quando fica um pouco mais velha, acaba se interessando pela história original...

    fiquei sabendo de "bca pequena" que pocahondas (não sei como escreve, okay?) na história original, foi estrupada, e só depois se apaixonou... oO

    grande abraço!

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  3. Bela matéria, até comovente. O mais duro é que Marilene e Joílton são só dois em um milhão e - de pasmar - já podem ser considerados "classe média" brasileira. Abaixo deles, em níveis de conforto, saúde e higiene, existe um exército de pobres, que sequer têm como se esconder de temporais. A crítica de Joílton, por si só, já demonstra que ele tem um discernimento político bem mais avançado que o da maioria do país.

    No mais, aguardo ansiosamente por sua análise do "Caso IURD".

    Abração! =)

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  4. Joílton e Marilene...
    Hoje, quando é uma história entre milhares, pouca coisa me comove.
    Será que Joílton e Marilene votam corretamente, não jogam lixo na rua, cobrm os seus direitos?
    Quanto ao texto, vc é brilhante! Escreve deliciosamente bem.
    Tem mais selo pra vc no meu Blog.

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  5. Pois é, Zero, eu já li a obra de Lewis Carrol e te asseguro que é uma viagem só. Recomendo. Obrigado pela visita!

    Cris, no próximo post vou abordar sim a IURD. E o Joílton e a Marilene tem aos montes por aí. Eu conheço-os de perto e falam comigo o tempo todo na escola. Ver pela TV é uma coisa, ouvir o cara contando...putz! Grande abraço!

    Pois é, Denise/Vírgula...o Joílton e a Marilene até que possuem alguma consciência, mas a maioria da vizinhança,não. Mas isso atinge desde os mais pobres à "classe média" super instruída que joga latinhas de refrigerante na rua ( um dia ainda conto aqui uma historinha de como abordei um sujeito que fez isso e como quase fui agredido...hehehehe!)

    Abraços e obrigado!

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  6. Que fodaaaa!!!

    gostei do comentário ai de cima!!!^^

    menina de atitude, concordo com ela^^

    abraço!

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  7. Oi Groo!! Tem resposta pra vc no meu blog.

    Tá faltando alguma coisa, sinto. Relatos diversos asim como este me faz ter certeza, cadê o amor?? Que humanidade pôdre! Tá faltando ENXERGAR o outro e perceber que ele é como nós. A patroa não quis ver, a tragédia material da empregada é a realidade da triste personalidade dela, egoísta e vazia, tão mesquinha que vê o outro como um ser inanimado. A empregada certamente irá a trancos e barrancos conseguir reerguer seu lar, dificilmente a patroa irá ter a sensibilidade de um dia perceber que está viva.

    Me sinto um tanto desabrigada por perceber que uma maioria de pessoas são assim: DESUMANAS.

    Um abraço meu amigo. Que bom que percebo em vc sensibilidade, sou agraciada por ter um número até bom de GENTE como vc entre meus amigos. VALEU GROO meu eterno mestre dos magos.

    Cheirinhu, Pat.

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  8. Sim, provavelmente por isso e

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